quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Vergílio Ferreira

Hoje foi dia de (re)ler Vergílio Ferreira. Faz 100 anos que nasceu, lá na aldeia de Melo no concelho de Gouveia.

Bem me fazia reler a Alegria Breve, Rápida a Sombra, Signo Sinal, Para Sempre, Nítido Nulo, Até ao Fim – romances que li avidamente nos anos de 80 e de 90, mas que agora gostaria de reler não com os olhos de quem lê um bom romance, mas com uma perspetiva mais profunda, mais literária.

Hoje, porém, limitei-me a rever algumas páginas do volume I da sua Conta-Corrente que abrange escritos (muito pouco) diários dos anos 1969 a 1976. Um espanto de escrita, de saber, de sinceridade. Sempre gostei.

Dessa (re)leitura breve, retirei para aqui duas entradas de outros 28 de Janeiro.

«28-Janeiro (72) (sexta). Hoje são os cinquenta e seis, quase «sexagenário» - que tal? Manifestação dos rapazes do liceu. Lá lhes disse que obrigadíssimo pela saudação ao «professor» que não gosto de ser. (…) Contei que quando confesso isto a antigos alunos, eles se mostram surpreendidos. O quê? Eu não gostava? Eles diriam que sem ela eu morria de inanição. Pois se eu «disfarço» tão bem… Coube-me o destino de uma fracção de «homem público». E o «homem público» é quase o feminino de «mulher pública». Como o corpo desta está à disposição de todos, está a reputação daquele. Mas se a profissão é má, tem algo bom. Para mim apenas o encontrar mais tarde antigos alunos que se lembram com agrado das aulas que lhes arranjei. Talvez o ter mais tempo para as habilidades literárias. E é só. Tudo o mais é chatérrimo, a começar pelo ordenado. (…)»

«28-Janeiro (76) (quarta). Fiz sessenta anos. Agora quando morrer ninguém dirá que «ainda era novo». É o que bruscamente se me representou: uma vida finda. Mas tenho de sobreviver. Vale-me que em todas as idades da vida se fecha um círculo que as absolutiza. Seja eu pois o que for, isso me será evidentemente verdadeiro, certo, justificável. São os outros, os de menos idade, que poderão discordar. Mas dar neste caso razão aos outros é estar e não estar no meu mundo. O que é absurdo. Entretanto vou pensando numa notícia deste género: «Foi atropelado na via pública um pobre sexagenário»… Em todo o caso, para mim, em «sexagenário» é obviamente um tipo de oitenta anos.»

Escolhi outra entrada que me pareceu bastante interessante pelo momento que acabámos de viver. Ora leiam.

«8 de Junho (76) (terça). Ontem na TV confronto entre os candidatos à Presidência da República: Pinheiro de Azevedo, Ramalho Eanes, Octávio Pato e Otelo Saraiva de Carvalho. Pinheiro de Azevedo, um tonto; o Pato, um catequista mecanizado; o Otelo, um pobre ingénuo; o Eanes, seguro, directo, inteligente. Creio que para todo o País ficou feita a demonstração de quem merece a Presidência. Receava pelo Eanes. Julgava-o tosco, seco de princípios, sem agilidade mental. É expedito, sem alterar a firmeza de ideias. Foi o único que falou «patriotismo», «reencontro de Portugal», história secular. Foi brilhante o modo como anulou o Otelo, envolvendo-o numa geleia de amabilidade. Como a uma mosca. Otelo seria bom, «generoso», mas muito «influenciável». O que é o pior que se pode dizer de um chefe. Ser «influenciável» é não saber o que se quer.»


12 comentários:

  1. Não conheço muito a obra de Vergílio Ferreira, lamento!

    Mas, com a leitura do último parágrafo, que escolheste, fiquei com a noção do seu sentido crítico e certeiro.
    Os dois primeiros excertos, definem-no como um Homem de fina ironia.
    Também concordo. Sexagenários são homens de oitenta anos!! :)
    Que se homenageiem os nossos Homens, que ficam eternamente jovens na nossa memória colectiva!

    Beijinhos

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  2. Escrevi num meu post
    (que espero que goste)
    que há anos que não o leio.
    Não era uma confissão, mas bem podia ser...
    e de grande pecado, pode crer!

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  3. Bonita homenagem no centenário do escritor.
    Beijinhos, bfds

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  4. Sei que li livros (não muitos) de V. Ferreira. Tenho a certeza. Não aqui mas em Portugal. E agora que não tenho a mínima ideia quais??
    : (

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  5. Não conhecia. Apenas li Aparição e Manhã Submersa.
    Gostei.
    Obrigado pela partilha
    Abraço

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  6. Um bom post para homenagear o Grande Vergílio Ferreira. Um Escritor para se ler e pensar, mesmo que não seja numa MANHÃ SUBMERSA...

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  7. Não conheço a escrita de Vergílio Ferreira, imperdoável :(
    Pelos excertos que li fiquei fascinada.
    Uma homenagem bem merecida.
    Obrigada pela partilha.
    Beijinhos

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  8. Penso que nunca li nada de Vergílio Ferreira, se li, não o recordo.
    Esta é uma bonita homenagem!

    Beijinho Graça e bom fim de semana.

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  9. Uma bonita escolha, é sempre bom conversar, ouvir, ler estar com alguém inteligente!
    Um excelente momento.
    Bjs obrigada

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  10. Confesso que dele só li a Manhã Submersa e Uma Esplanada Sobre o Mar, e também já há muito tempo.
    Escolheste muito bem estes excertos principalmente o último que revela a sua lucidez e sensatez.

    Um beijinho com o desejo de um bom fim de semana amiga Graça

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  11. um senhor da Palavra!...

    (não sei se de palavra)

    beijo

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