Noites loucas de Verão foram as
que passei naqueles dois Agostos na Nazaré aí pelos meus quinze anos. O grupo
que juntámos era enorme e variado e, à noite, encontrávamo-nos na praça e
depois era a galhofa máxima, a brincadeira, a gritaria, a cantoria pela
marginal. Lembro-me de uma noite em que um de nós começou a apontar para o céu
a gritar: «Olha, olha, está ali!» e em pouco tempo toda aquela gente das esplanadas
da praça olhava para o céu sem saber porquê… Outras vezes, púnhamos o gira-discos
à porta de casa com os discos do Cliff e dos Shadows e num instante armávamos
ali um baile na rua. Foram os Verões da loucura e da irreverência.
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| (Ericeira à noite, foto de Ana Salvador) |
Agora noites de Verão a sério
foram as e 66/67 na Ericeira, onde conheci o meu último namorado-marido-a-ser,
no encantador parque de Santa Marta, frente ao mar, com aquela enorme Lua
alaranjada que nos enfeitiçava completamente. O cheiro da fresca maresia que
nos atraía para as veredas ladeadas de olorosas plantas e arbustos; a pista de
dança; a máquina dos discos – Strangers in the Night, Her yesterday man, Saying something stupid,
Yesterday, as tontas canções de Roberto Carlos (Calhambeque, Lobo Mau, Que vá tudo para o Inferno) e sei lá o que mais para dançar,
dançar…
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| (Parque de Santa Marta, Ericeira) |
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| (Lua de Verão, retirada da net) |
Querem ver como escrevi no meu
diário de versos? Só se prometerem não rir …
Em Santa Marta
Mil pontos brancos estrelavam
ontem o firmamento
e as ondas do mar quebravam
o silêncio do momento
em que nossos olhos falavam
em tão estranho entendimento.
Deixámos o ambiente vermelho
e a música para dançar
e fomo-nos refugiar
no muro que dá para o mar
que estava como um espelho
e cantava a sua trova,
melodia de embalar,
das noites de lua nova.
Fitei no mar o horizonte
encontrei o teu amor,
procurei no céu Orionte
achei teu olhar
sedutor
que me atraía para ti
e me obrigou a lembrar
o primeiro dia em que te vi.
Senti-me contigo menina
nos joelhos do papá,
menina meiga e traquina,
Queria passar toda a vida
no meio de tanta beleza
e sentir-me para sempre
de teus braços possuída
no palco da Natureza
- como na noite de ontem,
personagens só tu e eu
tendo por cenário o céu.
Ericeira, 7/Ag/1967