quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Um conselho

Hoje venho deixar-vos um bom conselho...



quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O Avejão

O saudoso Baptista-Bastos é que o definiu bem! E eu lembrei-me hoje deste texto vá-se lá saber porquê...

"O avejão ensombra, há tempo de mais, a sociedade portuguesa. 

O avejão, sobre ser (diz o dicionário) uma ave agoirenta, é homem alto e feio.

O avejão tem gosto particular pela necrofilia.

O avejão é um pouco tonto, burro e desajeitado.

O avejão odeia os outros, pessoas ou aves.

O avejão é esquisito, todos o desprezam e detestam.

O avejão só sabe adejar numa atmosfera sombria e lúgubre.

O avejão paira sobre as coisas, nunca se aproxima muito, por receio de represálias.

O avejão é produto típico do monturo.

O avejão voa só, nenhum pássaro tem por ele afecto.

O avejão é assolado por doenças perdidas e morre de barriga para baixo.

O avejão é nojento, sobretudo a rir ou a debicar bolo-rei.

O avejão tem inveja deste mundo e do outro.

O avejão, ao abrir a boca, exala cheiro fétido.

O avejão nunca leu um livro até ao fim.

O avejão permitiu que, em seu nome, fosse publicado, num inquérito, títulos de livros que não frequentou.

O avejão gosta muito do programa cultural ‘A Quinta’.

O avejão, como o carcará, pega, mata e come.

O avejão, convém repetir, é um ser fedorento.

O avejão, sobre ressonar a dormir, e dorme muito, no palácio, tem flatulência.

O avejão tem dificuldades com a tabuada.

O avejão tem dificuldades com a língua portuguesa.

O avejão não sabe fazer o nó da gravata.

O avejão baba-se a comer.

O avejão baba-se se contrariado.

O avejão baba-se sem motivo aparente; baba-se.

O avejão, que tem dificuldades com o português, o idioma e o propriamente dito, não sabe onde pôr as mãos quando fala, ou diz que fala.

O avejão não parece um espeque: é um espeque.

O avejão é amaldiçoado pelos deuses que assim o configuraram, coitado!

O avejão está no estertor, e no estrebuchar ainda se julga alguém e comete pequenas perfídias.

O avejão desconhece que circunstâncias fortuitas lhe têm permitido que voe alto.

O avejão é a vergonha de todos os pássaros: todos são belos, menos ele, repelente.

O avejão não é apenas aquilo de que se sabe, nem, somente, as definições que vêm no dicionário.

O avejão há muito que morreu e não sabe que está morto.

O avejão foi abatido pelo Raul Brandão, que, diz-se, se inspirou numa noite de pesadelo. *

O avejão tem sido o pesadelo de nós todos, mesmo daqueles que o lisonjeiam.

O avejão está prestes a ser escorraçado, sem ter edificado um trémulo instante de grandeza.

Abaixo o avejão, abaixo!"


25 de novembro de 2015


                                                    * 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Flores resilientes

Claro que já não se lembram daquela minha publicação sobre a resiliência e sobre as minhas flores resilientes. Gosto mesmo dessas flores que, ano após ano, renascem em cada Verão com a vivacidade de quem é muito bem tratado mesmo sem o ser. 

Já as tive amarelas salpicadas, brancas e rosa forte. Mas nos últimos anos só estas últimas têm renascido. E eu cheia de pena por não aparecerem as brancas.

Mais pena ainda senti - ou seria mesmo uma pontinha de inveja? - ao vê-las despontar ali por todo o lado no jardim da urbanização lá em Nerja!




Ainda pensei trazer um pezinho para o transplantar no meu quintal, mas com o calor sufocante que fazia, ao fim de oito horas de viagem, havia de cá chegar sem vida.

Pois não é que uma semana depois de estarmos em casa, ao lado do tufo de flores rosa forte, começaram a despontar as ditas flores brancas?

Podem chamar-me os nomes que quiserem, mas nem imaginam como fiquei contente!






segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Do telejornal das 8

A notícia tinha a ver com os incendiários que foram apanhados este Verão – alguns deles “repetentes”. Contavam-se pelos sessenta e tal homens e treze mulheres. E aí o apresentador/jornalista tratou de falar no psicólogo da PJ. Não consegui ouvir o que o psicólogo terá feito ou irá fazer porque me pus, ato contínuo, a vociferar!

Psicólogo, psicólogo! Eu lhes dava o psicólogo! E desculpem-me a violência ou a ausência do “politicamente correto”, mas por causa de tanto psicólogo e de tanta lei a proteger os direitos de não sei quem…  e mais não sei o quê e mais os paninhos quentes com que nos habituaram (por medo, por ignorância ou por incúria até) a tratar os prevaricadores é que chegamos aos limites ou muitos para lá dos limites do humanamente e do socialmente aceitável. No caso dos incêndios e não só!

Disse!

Ah, mas depois o dito apresentador/jornalista/escrevinhador lá continuou com as notícias e, a propósito do enfermeiro alemão acusado de matar dezenas de pessoas com overdose de medicamentos, o dito apresentador, naquele seu ar teatral cheio de  trejeitos com os olhos e de entoações do discurso, saiu-se com a seguinte “bojarda”:  «O enfermeiro terá morto mais de trinta pessoas!!!»

Terá morto?! Terá morto? – senhor apresentador/jornalista/escrevinhador? Ou terá querido dizer: terá matado? É que se trata de um tempo composto pelo que deverá usar-se o particípio passado normal. Enfim… sem importância…

Depois o telejornal passou a mostrar os passeios da Senhora Cristas por Mação, bem como o discurso do presidente CDS da dita vila ribatejana a zurzir o governo por causa do incêndios, que eu já ouvira em todos os telejornais anteriores, ou seja, propaganda eleitoral do partido em questão, seguido de uma arrastada e desenxabida reportagem sobre a importantíssima universidade de Verão do PSD na qual iam ser apresentados quase todos os betinhos participantes, ou seja, propaganda eleitoral do PSD…  Nada de novo no canal público… e eu decidi passar para o Canal Panda ou para o futebol… esses, ao menos, não apresentam “propaganda institucional” dos partidos … do sistema!




domingo, 27 de agosto de 2017

A Casa Nau

Ao fim de muitas tentativas ao longo dos tempos para entrar na casa de Afonso Lopes Vieira na praia de São Pedro de Muel - casa que sempre me encantou desde que me habituei a passar férias naquele recanto - hoje, por fim, consegui encontrá-la aberta, com horário de visitas à porta e tudo!

O encantamento vem, por um lado, do facto de ter pertencido a um escritor, um poeta que ali escreveu parte da sua obra e, por outro, da beleza daquela varanda debruçada sobre os rochedos, sobre o recanto mais belo da praia, sobre aquele mar ora azul ou verde, sei lá! ora de bruma e nevoeiro.

A visita ao interior da casa é breve: entra-se no escritório do poeta e na varanda envidraçada sobre a praia. Depois há a varanda exterior e a capela. Tudo o resto está vedado. Mas vale a pena ir espreitar: pela vista, pelo cheiro, pela ambiência que se lá vive.

Vamos ver.


Vista exterior tirada do areal

Antigamente era assim.




O azulejo retrata Luís de Camões e a inscrição diz
«Onde a Terra acaba e o Mar começa»

Recantos do escritório:













Não resisti a ver-me no espelho de ALV...

Passemos agora à varanda envidraçada.















Retrato do poeta

A capela reflete o culto mariano de ALV e, tal como o resto da casa, está repleta de motivos relacionados com o mar.












O original dos versos para o 13 de Maio
escritos por ALV








O relógio de Sol.





E, visto da varanda, o mar hoje estava assim...





Espero que tenham gostado da visita...

sábado, 26 de agosto de 2017

Peixinhos da horta




Dou-me conta, não sem alguma ironia, dos acepipes que hoje em dia estão em alta nos restaurantes “de elite” em Lisboa e por esse país fora.

A moda agora virou-se para os peixinhos da horta tal como há anos, poucos, se virara para as pataniscas, para os “jaquinzinhos”, para as petinguinhas enroladas em polme.

Agora tudo o que se diz ser “gente fina” morre por umas pataniscas de bacalhau ou, mais atualmente, por uns peixinhos da horta…

A minha ironia vem exatamente do facto de, na minha meninice, eu ter de “gramar” esses acepipes ao almoço, ao jantar.

Os anos 50 do século no nosso país não foram de todo os mais fáceis de viver em termos sociais (e não só). Passei-os em casa da minha avó espanhola, em Algés, onde não havia falta de boa comida, mas onde o dinheiro não abundava.

Todos os dias acompanhava a minha avó à praça para comprarmos os alimentos para o dia-a-dia, já que não tínhamos frigorífico – apenas no Verão se compravam na carvoaria da esquina umas enormes barras de gelo que se guardavam na despensa junto de algum peixe, carne, leite.

Da praça trazíamos mais peixe do que carne porque era bem mais barato, ameijoas e berbigão apanhados ali no Tejo e vendidos à pá, verduras e alguma fruta. Porém, imaginar e confecionar almoço e jantar diariamente para uma casa de família – os meus avós, a minha mãe e o meu tio, que iam lá almoçar, eu e alguns hóspedes que alugavam os quartos vagos da casa – e com pouco dinheiro era uma quebra-cabeças para a minha avó. Por isso, muitas vezes, ela lançava mão dos restinhos de bacalhau para fazer as ditas pataniscas ou um arroz de bacalhau, ou ainda um pisto – lembrar que ela era espanhola – que eu simplesmente abominava... 

Outras vezes, metia no polme de farinha umas petinguinhas e lá vinham os “abençoados” peixinhos da horta feitos com feijão-verde e uns ovos da vizinha da cave que tinha um grande quintal.

Tudo isto acompanhado do inefável arroz de tomate ou de espigos de couve… O que eu detestava estas comidinhas!

E saber que agora estão no pico da moda dá-me cá uma volta ao miolo! Ai as modas, as modas!


E – tal como as calças rotas nos joelhos que são vendidas a preços indecentes pelas casas de marca – essas "comidinhas de pobre" dos tristes idos de 50 são agora vendidas nos restaurantes “finos” a preços de igual forma imódicos.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Tomara que chova...

Mas quando é que começa a chover assim?!


E eu, que nem gosto nada de chuva, dava tudo por uma chuvinha daquelas fortes e certinhas que refrescasse o chão, amainasse o calor e apagasse os fogos.

Até apetece cantar assim: 




quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Ermita N.ª Srª de las Angústias

E, um dia em que fomos fazer compras a um supermercado urbano, enorme e super moderno, demos conta de uma pequena igreja ali mesmo ao lado. 

O nome - Ermita Nuestra Sra de las Angústias - trouxe-me à lembrança a minha queridíssima avó espanhola, que me chamava tantas vezes Senhora das Angústias por causa das minhas frequentes quedas de humor...

Tive de entrar.




Uma pequena igreja com um altar-mor tão rico em talha dourada!




E a imagem da Senhora das Angústias tão pesada, tão dorida, tão dentro da tradição espanhola!




Com uma cúpula pintada como se de uma grande catedral se tratasse.




E, na lateral, ainda mais uma imagem da Señora de las Angústias.




Bem dentro da tradição católica espanhola. 

De estilo barroco, a ermita foi fundada em 1720 por Dona Bernarda Maria Alférez da família López de Alcántara de Granada que também possuiam o engenho de açúcar "San Antonio Abad" com cujo rendimento construíram e mantiveram este pequeno santuário até meados do século XIX, quando passou a fazer parte do património do Ayuntamiento de Nerja.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Desafio (a brincar...)

Uma velha amiga de adolescência pôs no facebook esta fotografia tirada nos idos de 60 num qualquer recanto da serra de Sintra e eu vi-a por mero acaso. Já nem me lembrava desse momento, embora me lembre muito bem daquelas amigas.



Agora o desafio (a brincar...) 

Qual das três sou eu? Difícil, não vos parece?...



terça-feira, 22 de agosto de 2017

A Barca dos Amantes

Uma - entre outras, muitas - parceria que deu belos frutos. Este é um deles. A lindíssima canção «A Barca dos Amantes» com a música dolente de Milton Nascimento e a letra romântica do nosso Sérgio Godinho.

Hoje lembrei-me de vo-la deixar aqui na interpretação de um e de outro. Lindo mesmo é quando a cantam a par, mas não encontrei o vídeo.

Façam a vossa escolha, se puderem...










segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Jerry Lewis (1926-2017)

Morreu serenamente, em sua casa em Las Vegas, aos 91 anos. Jerry Lewis, um dos maiores comediantes norte-americanos, apreciado em todo o mundo.

Pessoalmente, não tinha qualquer simpatia pelo seu estilo de cómico, tal como nunca apreciei Louis de Funès, o Cantinflas, o Totó, o Mr Bean ou o Eddy Murphy - embora todos eles tenham o seu valor e sejam muito considerados.

Porém, como muito bem diz um amigo e colega de ofício, «o século XX está a querer deixar-nos». Por isso, aqui fica a minha breve homenagem ao grande ator que agora desapareceu. 

Aqui fica a sua interpretação da Typewriter Song, um sucesso dos anos 50, do tempo em que as máquinas de escrever eram um instrumento indispensável em qualquer escritório. Do tempo em que as secretárias tinham de tirar cursos de datilografia e de estenografia. Ganhavam os empregos as que mostravam maior rapidez e eficiência a datilografar...




domingo, 20 de agosto de 2017

Ciúmes? Não, obrigada.

«O ciúme é muitas vezes uma inquieta necessidade de tirania aplicada às coisas do amor.»

Marcel Proust


«O ciúme tem as suas raízes mais no egoísmo do que no amor.»

Henry Longfellow


Das coisas que mais podem atormentar uma mãe é sentir desentendimentos entre os filhos por causa de ciúmes infundados! (digo eu) É uma aperto no peito, um desconsolo, uma enorme contrariedade. (digo eu)


«A culpa é dos ciúmes, das brigas, das desconfianças, das mentiras e da falta. O amor não tem culpa.»

Pequena Sereia




sábado, 19 de agosto de 2017

É bem certo...




Pode ser muito zen , muito in, muito moderno, muito relaxante e tal, mas passar doze dias numa casa sem televisão nem internet a contemplar o Mediterrâneo é de mais para mim... 

E nem um jornalzinho português (desde que não fosse o Correio da Manha...)

Valeram as valentes banhocas naquele "mar do meio" com aquela água calma, quentinha e transparente (apesar das mordidelas das medusas...) e as passeatas por allá...

Bom, mas agora que estou de volta, vamos ver se ponho as visitinhas aos meus amigos bloggers em dia e se volto a ganhar o meu ritmo habitual...

(Já viram a maldadezinha da Afrodite? Já não se pode confiar nos deuses! E menos ainda nas deusas...)

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Gatinho Luca

Mesmo aqui à beira do Mediterrâneo, na estância balnear onde há anos foi gravada a série Verão Azul que fez as delícias dos miúdos nos anos 80, soube que celebraram ontem o dias internacional do gato. 

Pois não sabia! Para mim o dia do gato é o dia 17 de Fevereiro, mas como gosto muito de gatinhos, não resisto a editar aqui um pequeno vídeo sobre as aventuras do gatinho Luca, última "aquisição" da escritora Cristina Carvalho, filha do nosso poeta de referência António Gedeão, ou melhor, do professor Rómulo de Carvalho.



Beijinhos e ronrons

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Hasta pronto!



Me voy a Malaga y sin "interné"....



(Mas nunca sem vos deixar uma das minhas memórias musicais.... Espero que gostem.






Se queden bien...

Hasta pronto.

Besitos


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Desvendando o Enigma X

Sabem bem que eu não sou lá muito dada a estas coisas de Enigmas, mas no Domingo recebi uma mensagem de uma certa amiga blogger a dizer que estava de passagem por Leiria e que ia a caminho de uma escapadinha com os seus mais queridos.

Já não dava para ir ter com eles porque queriam ir jantar a uma bela praia aqui do distrito. Porém, qual não é o meu espanto que oiço tocarem à porta e quem era? A dita amiga blogger com um lindo vaso de hortênsias para mim…




Ora surpresa com surpresa se paga e, como não ia haver «Uma Mão Cheia de Palavras», o enigma de Domingo, lá no blog da dita amiga – que está sempre pronta a homenagear os amigos bloggers – resolvi elaborar um enigma cuja resposta a referisse.




E foi assim que o delineei:

1. Blog
2. Amor
3. Rain and Tears
4. Sensualidade
5. Antiguidade

                  E a resposta é … …
………………………………………………………………….

Resposta – completíssima – do Rui, o primeiro a acertar:

Justificações das Palavras :

1. Blog – Jardins de Afrodite
2. Amor – Verdade que Afrodite é a Deusa do Amor !!!
3. Rain and Tears - Já explicado acima em pormenor – Afrodite’s Child
4. Sensualidade – E não é verdade que o seu Blog é pleno de sensualidade ?...
5 -Aqui, ANTIGUIDADE poderá ter dois pontos de vista :

A Afrodite que já anda nos blogs há mais de 8 anos, mas também por outro lado, o tema é dos anos 60 e o Demis Roussos ainda muito novinho !… Portanto … antiguidade ! :))
.......................................................................

Resposta da própria:

1. Blog​ - ​há um blogue de nome Jardins de Afrodite (hehehehe)
2. Amor​ - ​a deusa Afrodite é considerada a Deusa do Amor, mas na verdade Amor=Eros, é um dos filhos de Afrodite.
3. Rain and Tears​ - ​É um tema (que eu conheço bem) cantado pelo Demis Russos no tempo em que ele fazia parte da banda "Aphrodite's Child"
4. Sensualidade​ - ​outra inegável qualidade/característica atribuída à deusa Afrodite. É-lhe reconhecida beleza e sensualidade.
5. Antiguidade​ - Afrodite é uma deusa da antiguidade, era venerada na Grécia Antiga.

E a resposta é…​ AFRODITE (a deusa, claro, não a Afrodite bloguer)​

....................................................................

Também a Catarina, a papoila e a dona redonda acertaram. O Pedro Coimbra enviou a resposta para os Jardins da Afrodite.

Entretanto, agradeço também a todos os comentadores do Enigma X.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Eu temo muito o mar

Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.

Eu temo o largo mar, rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.

Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n'água quase assente,

E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!

Cesário Verde

Este soneto - "Heroísmos" - de Cesário Verde foi-me dado a conhecer pela leitura do livro «Que Importa a Fúria do Mar» de Ana Margarida de Carvalho (os romances desta mulher estão a pôr-me doida este Verão!)

As quadras do soneto fazem parte da epígrafe de um dos capítulos do livro referido e logo me encantaram, embora os tercetos inflitam para o heroísmo dos Descobrimentos portugueses. Talvez por isso a escritora tenha optado por transcrever apenas as quadras para a dita epígrafe.

Ela própria descreve o mar desta forma simbólica, quimérica:

«Porque isso é o que recorda com mais força, e dor, e sufoco. Aquela opressão do mar. Era o seu pesadelo recorrente, aliás. De repente, via-se na praia, pés ma areia molhada, e um mar de cordeirinhos mansos, espuma benigna, vinha roçar-lhe as pernas, só docilidade com sal, mas o caudal engrossava, engrossava, quando a onda regredia ela era arrastada até cair, mãos cravejadas na areia, a ser puxada e engolida no turbilhão doido. (...)


O mar é como tu, mãe. Sem remorsos.» (p. 136)