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terça-feira, 5 de maio de 2020

Dia Mundial da Língua Portuguesa

espanto é o tema do livro de Raul Brandão que ando a ler, Húmus. Foi publicado em 1917, em inícios da fase Modernista e - na minha modesta opinião - nada fica a dever às obras modernistas, até mesmo em relação ao Livro do Desassossego de Pessoa/Bernardo Soares. 

Neste campeia o desassossego; em Húmus, campeia o espanto.


«E ainda o que nos vale são as palavras, para termos a que nos agarrar.»

«Na aparência é a insignificância a lei da vida; é a insignificância que governa a vila.»

«Só a insignificância nos permite viver:»

«A vila é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro

«Em certas ocasiões, se as palavras e a insignificância desaparecessem a via, só ficava de pé o espanto.»

(fragmentos de «Húmus» de Raul Brandão, 1917)

....

Espanto foi o que eu, já nesse tempo amante da bela Língua Portuguesa, senti quando, aí pelos meus 17 anos li, pela primeira vez, aquele que ainda hoje considero um dos mais belos textos escritos em português e que hoje deixo aqui como homenagem à nossa bela Língua Portuguesa.

«Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!»

 (Almada Negreiros)



domingo, 3 de maio de 2020

Mãe!

(Maternidade - Almada Negreiros)



Confidências

Mãe! eu não sei nada! Eu não me lembro de nada!
Ah! lembro-me!
Lembro-me de ter ajudado a levar pedras para as pyramides do Egypto!
Tambem me lembro de me ter chamado José, antigamente, com meus irmãos
e uma mulher!

Mãe!
Estou a lembrar-me! Tu já fôste a menina loira! Eu já fui o menino
verdadeiro a quem tu davas de mamar! Eu já estive comtigo na terceira
oleografia!
Lembro-me exactamente! Quando tu me beijavas, o sol não doía tanto
na minha pelle!

Mãe!
Estou a lembrar-me!
E as tardes quando iamos todos juntos soltar palavras no caes e vêr
chegar mais laranjas!

Outras vezes juntavamo-nos na praia para nadar melhor do que os
outros e deixar o sol queimar quem mais merecêsse. Já as laranjas
estavam contentes com o que chegasse primeiro! O melhor jovem ganhava
a melhor rapariga. Os outros sabiam aquella que tinham ganhado. Eu
tinha ganho a minha!

(…)

Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar historias ricas que ainda não
viageie. Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta
côr de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de
viagens! Eu vou viajar. Tenho sêde! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu
vou aprender de cór os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me
a teu lado. Tu a cosêres e eu a contar-te as minhas viagens, aquellas
que eu viagei, tão parecidas com as que não viagei, escritas ambas
com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a meza. Eu tambem
quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa
casa, como a meza.
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

(in Invenção do Dia Claro, Almada Negreiros, 1921)


(daqui)    Almada Negreiros ao colo da mãe, Elvira Sobral de Almada Negreiros, 1894 

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Dia de ir às livrarias

A ironizar quando ainda estava na escola, costumo dizer que a sexta-feira de manhã é a minha manhã livre...

É o dia de ir às compras, ao talho, à fruta, ao super, de ir ver as lojas ao shopping, de ir espreitar as livraras. Que são três! Tantas!

Há sempre um ou outro livro que teima em "agarrar-se-me" às mãos. E depois há tantos que eu gostaria de trazer mas que não posso! Pois quando os leria? (e como os pagaria?!...)

E aí lembrei-me deste textinho maravilhoso do ainda mais maravilhoso Almada...




sábado, 7 de abril de 2018

A Taça de Chá

(daqui)


O luar desmaiava mais ainda uma máscara caida nas esteiras bordadas. E os bambús ao vento e os crysanthemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com elle a advinharem-lhe o fim. Em róda tombávam-se adormecidos os idolos coloridos e os dragões alados. E a gueisha, procelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os dragões dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, perolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se scintillantes no luzidio das procelanas.

Elle, num gesto ultimo, fechou-lhe os labios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se: --Chorar não é remedio; só te peço que não me atraiçoes emquanto o meu corpo fôr quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ella, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Ceu para Elle, e a saltitar foi pelos jardíns a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ella.

Pela manhã vinham os visinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambús, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.

A estampa do pires é igual.

(Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1')




Porque Almada nasceu num dia 7 de abril, faz hoje 125 anos.


(daqui)

sexta-feira, 23 de março de 2018

Dos poetas e da poesia

O meu lado romântico atraiu-me, desde muito jovem, para o encantamento pela poesia. Passava muitas horas na velha Biblioteca de Sintra – ali bem pertinho da minha casa – a esquadrinhar velhos livros de poemas de autores conhecidos e de outros não tanto, copiando para folhas de cadernos inacabados aqueles que mais me falavam ao coração.

Gosto de ler – nunca de ouvir declamar, ou mesmo dizer – poesia. Gosto de sentir os estados de alma que lhe estão subjacentes, gosto do seu modo fragmentário, do belo encontro entre as palavras, da rutura que ela permite nas normas – sejam elas qual forem. Mas há uma coisa que os poemas têm de ter para eu os adotar – tenho de lhes apreender a beleza, seja do sentido, seja da harmonia ou da melodia das palavas. Têm de encontrar eco no mais fundo de mim. E isso não consigo sentir em muitos dos poetas atuais considerados de alto nível.

(Nem quero que me lembrem quando, na Faculdade, me obrigaram a interpretar Ezra Pound – que eu detestei, ou não entendi – e também ninguém me soube ou quis explicar…)

Hoje, na livraria, detive-me – uma vez mais – na mesa dos livros de poesia portuguesa. (Que, vá-se lá saber porquê, está posta no fundo, bem lá no fundo, na loja). Muitas obras com a poesia reunida de autores tão considerados como Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, António Ramos Rosa, Ruy Belo, Herberto Hélder e alguns com descontos até 30 e 50%. Pus-me a ler um ou outro poema de um ou de outro autor. Tão complexos, tão longe de me cativarem…. Acabei por não ceder à tentação de trazer os Poemas de Almada Negreiros, absolutamente encantador (e sem desconto...)

Porque será que me fascinam os versos de Pessoa, de Almada, de Torga, do David Mourão-Ferreira, do Eugénio de Andrade, de Gedeão, de tantos de Sophia – já para não falar em Camões  ou até em Bernardim – e não “entro” naqueles mais contemporâneos de que falam os atuais críticos nas revistas literárias?

Penso que a poesia – como tantas outras artes e outras dimensões do conhecimento e do cometimento humanos – é entendida e aceite nos corações passados muitos anos sobre a sua realização.

Por mim, já não vou ter tempo de entender, de aceitar no meu íntimo, a poesia daqueles que (re)vi hoje na livraria e que não se me agarraram aos dedos.





sábado, 20 de janeiro de 2018

Ciumes


Arlequim e Colombina de José de Almada Negreiros


Pierrot dorme sobre a relva junto ao lago. Os cisnes junto d’elle passam sêde, não n’o acordem de beber.

Uma andorinha travêssa, linda como todas, avôa brincando rente á relva e beija ao passar o nariz de Pierrot. Elle accorda e a andorinha, fugindo a muito, olha de medo atraz, não venha o Pierrot de zangado persegui-la pelos campos. E a andorinha perdia-se nos montes, mas, porque elle se queda, de nôvo volta em zig-zags travêssos e chilreios de troça. E chilreia de troça, muito alto, por cima d’elle. Pierrot já se adormecia, e a andorinha em descida que faz calafrios pousou-lhe no peito duas ginjas bicadas, e fugiu de nôvo.

                De contente, ergueu-se sorrindo e de joelhos, braços erguidos, seus olhos foram tão longe, tão longe como a andorinha fugida nos montes.

                De repente viu-se cego – os dedos finissimos da Colombina brincavam com elle. Desceu-lhe os dedos aos lábios e trocou com beijos o arôma das palmas perfumadas. Depois dependurou-lhe de cada orelha uma ginja, á laia de brincos com joias de carmim. Rolaram-se na relva e uniram as boccas, e já se esqueciam de que as tinham juntas…

                - Sabes? Uma andorinha…

                E foram de enfiada as graças da ave toda a paixão. Pierrot contava enthusiasmado, olhando os montes em busca da andorinha, e Colombina torceu o corpo numa dôr calada e tomou-lhe as mãos.

                Havia na relva uma máscara branca de dôr, e a lua tinha nos olhos claros um um olhar triste que dizia: Morreu Colombina!

(José de Almada Negreiros, in Orpheu I, 1915)

Não suporto o ciúme, (eu sei que ele existe e estou a sentir-lhe o cheiro acre muito de perto...) mas descrito assim… quem lhe pode resistir?



terça-feira, 6 de junho de 2017

As Festas de Lisboa

Leio que começaram no passado dia um as Festas de Lisboa. 

Agora a festa anda toda em redor das sardinhas decoradas que são muito bonitas, muito atraentes e têm puxado pela criatividade de tantos e tantos artistas.







Já houve tempos em que foi Almada o desenhador oficial das Festas de Lisboa.














Agora vejam esta surpreendente sardinha das festas de 2013.





sábado, 20 de maio de 2017

Claridade segundo Almada

«Imaginava eu que havia tratados da vida das pessoas, como ha tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim parecidos com o tratamento que há para os animaes domesticos, não é? Como os cavalos tão bem feitos que ha!

Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como ha hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma hostia. Um livro pequenino, com duas paginas, como uma hostia. Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com a morada e o dia.»

(Almada Negreiros, in “Invenção do Dia Claro”, 1921)



Bom que assim fora!!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Mostra da obra de Almada

Abriu hoje na Gulbenkian uma grande mostra antológica da obra de Almada Negreiros, o criador, pintor, desenhador, poeta, escritor modernista português que marcou o século XX. Poeta modernista, futurista e tudo!

A exposição, que tem o título Almada Negreiros, Uma Maneira de Ser Moderno, vai estar patente ao público até 5 de Junho próximo. A não perder.


Deixo aqui alguns desenhos que Almada criou para as festas da cidade de 1934 expostos no Museu da Cidade de Lisboa.




















terça-feira, 15 de junho de 2010

Faz 40 anos que morreu Almada Negreiros


Ouvi na rádio logo de manhã: faz hoje, dia 15 de Junho, 40 anos que morreu Almada Negreiros, pintor, poeta, escritor, ensaísta, dramaturgo, “poeta d’Orpheu, futurista e tudo!” Pertenceu ao grupo modernista constituído por Amadeu de Sousa Cardoso, Santa Rita Pintor e Fernando Pessoa.

Não vou esquecer nunca a entrevista que lhe fizeram no programa de boa memória Zip-Zip nos finais dos anos 60 na televisão. Aqueles olhos enormes, ainda cheios de vivacidade, sempre prontos a satirizar e a chocar não obstante estar a viver-se no tempo da censura a sério.

O primeiro texto que li deste poeta “futurista e tudo” foi-me dado para traduzir para inglês como exercício preparatório para os exames de aptidão à Faculdade. Difícil de traduzir por se tratar de prosa poética mas de uma beleza tal e de uma sensibilidade que me tocou para sempre. Agora é um texto bastante conhecido, mas aí por 65/66 nem por isso. É este:

"Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!"

Depois conheci outros e outros textos e poemas de Almada, mas outro pico de admiração foi quando li “O Manifesto Anti-Dantas”. Um espanto! Se eu soubesse, gostaria de escrever assim, com esta força, com esta agudeza, com este poder satírico! E então dito pelo meu querido e único diseur Mário Viegas.... Bom!

Morra o Dantas! Morra! Pim!