Muito divertida mas de qualidade esta «opereta alentejana» para ajudar a passar este tempo de estar em casa.
A dita opereta inicia-se com o Jorge de Palma ao piano a tocar a encantadora Ária para a 4ª Corda, de Bach, que é, desde que me lembro, a ária mais bonita, mais repousante, mais melodiosa que já ouvi..
Deixo-a aqui para o caso de se quererem maravilhar.
Um abastado lavrador da Amareleja meteu-se no seu jeep e foi
a um monte vizinho. Bateu à porta.
Um miúdo de cerca de 9 anos vem abrir.
- O teu pai está em casa?
- Nã senhori, foi a Évora.
- Bem, e a tua mãe está em casa?
- Nã senhori, ela também não está. Foi com o meu pai.
- E o teu irmão Manel? Ele está?
- Nã senhori, ele também foi com a mãe e com o pai.
O lavrador ficou ali sem saber muito bem o que fazer.
- Posso ajudá-lo em alguma coisa - pergunta o rapaz delicadamente.
- Eu sei onde estão as ferramentas; se quiser alguma emprestada; ou talvez o
possa ajudar..
- Bem - diz o lavrador, com cara de chateado - realmente
queria falar com o teu pai, por causa do teu irmão Manel... Ele engravidou a
minha filha Raquel
O rapaz pensou por uns momentos..
- Lá disso não sêi, terá de falar com o meu pai. Se lhe
servir de alguma ajuda para ir fazendo contas, eu sei que o pai cobra 500€ pelo
touro, 100€ pelo cavalo e 50€ pelo porco, mas realmente não sei quanto é que
ele lhe vai levar pelo Manel...
Aquela intensa imensidão amarela, azinheiras torcidas ao sol, o verde redondo dos pinheiros mansos, campos de arroz alagados em verde vivo.
E a presença constante dos aloendros.
A beleza acústica da palavra - aloendro - a lembrar-me a leveza do poema «Canto Franciscano» do inesquecível Ary dos Santos tão bem cantado pelo Tordo.
«Por onde passaste tu
que me ficaste cá dentro
tenaz do fogo divino
irmão pinho ou aloendro?
Por onde passaste tu
que me ficaste cá dentro?»
Corria o ano de 72. As (poucas) maravilhas que nos eram permitidas à época.
Ao contrário do que aconteceu nos
dois últimos anos, este Verão não vai haver Melides para nós. O Alentejo e até
mesmo Melides, a Vila, está a praticar os preços elevados do Algarve e, se bem
que as suas praias na chamada Costa Vicentina sejam lindas, lindas, a neblina
faz a sua aparição de tule sobre os areais enquanto a água do mar fica fria e
revoltosa com o vento que muitas vezes sopra de Norte.
Mas faz pena não voltar a ver
aquela paisagem plana e loira, aquela luz de brilho contundente que se nos
reflete na alma, aquelas casas brancas de cal debruadas de azul que aparecem atarracadas
por debaixo daquelas enormes, largas e pesadas chaminés com a data da
construção. Muito típicas, muito caraterísticas.
O poeta francês Chateaubriand «afirmou
que todos os homens têm uma secreta adoração por ruínas. (…) O nosso fascínio
pelas ruínas não se explica apenas pelas lições existenciais e históricas que
encerram ou pela sua fealdade bela; […] não nos servem apenas de medida do
tempo, como defendia Chateaubriand; […] contam mais do que a brevidade certa da
existência. Haverá um núcleo secreto que nos atrai irresistivelmente para as
ruínas e nesse núcleo encontraremos as histórias. (…) Estas histórias que só as
ruínas podem contar dizem-nos que é possível reconstruir o mundo
a partir dos escombros. Ao tempo do lamento e da meditação melancólica pelo que
se perdeu, sucede-se o tempo da certeza feliz de que depois de nós virão
outros, depois das nossas histórias outras histórias, depois das ruínas um
mundo novo.»
(Bruno Vieira Amaral, in Ler, Verão 2015, pp 44-45)
Também eu sinto um enorme
fascínio por ruínas. Antigas e menos antigas. Encantaram-me desde sempre as
ruínas que se encontram nos jardins de Monserrate em Sintra – que trarei aqui
proximamente.
Encantada fiquei quando, por mero
acaso, encontrei as ruínas de uma velha igreja junto ao cemitério de Melides.
Sem qualquer placa identificativa, fiquei depois a saber que se trata das ruínas da igreja de
Santa Marinha, de finais do século XV, inícios do XVI.
A fotografia abaixo foi encontrada na net decerto tirada quando a igrejinha não estava tão degradada como a encontrei em Agosto passado.
A aldeia de Melides é atravessada pela Ribeira de Melides onde encontramos um recanto encantador onde decerto em tempos as mulheres iam lavar a roupa e onde nos podemos refrescar da calma alentejana. Tem o nome romântico de Fonte dos Olhos.
Está a entrar Agosto, o mês de férias por excelência. Por isso não posso nem quero deixar de apresentar algumas belas sugestões de férias ao alcance de pessoas como reformados, funcionários públicos e outros contribuintes sérios...
Espero que gostem ...
Madeira
Açores
Cabo Verde
Canárias
Las Palmas
Cuba
Ilhas Virgens
Malta
Rhodes
Barbados
Eu cá vou voltar a Melides para andar de novo às voltas pelas lindas praias da costa alentejana...
O Alentejo já está lindo! Os campos, verdes, já estão cobertos de florzinhas brancas. Agora só faltam vir as amarelas e as roxas. Uma beleza. E nem chovia, nem nada.