terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Citadinos



Como os buracos de um crivo, apertadas,
As filas de janelas; empurrando-se,
As casas tocam-se de perto, erguendo-se
Pardas e inchadas como estrangulados.

Engalfinhadas umas nas outras vejo
No carro eléctrico as duas fachadas
De gente, descarregando olhares, caladas,
E cresce o emaranhado do desejo.

As paredes são finas como a pele,
Todos me ouvem quando choro, ou então
É como um berro a conversa ciciada:

Emudecidos, em caverna fechada,
Sem ninguém que lhes toque, olhe para eles,
Todos estão longe e sentem: solidão.


(Alfred Wolfenstein, traduzido por João Barrento, in A Alma e o Caos)

20 comentários:

  1. Muito bom, Graça!
    Obrigada pela partilha.
    Beijos

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  2. Não conhecia. Obrigado pela partilha.
    Um abraço

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  3. Não conhecia, gostei muito. Vou procurá-lo.
    um beijinho e uma boa semana

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  4. Não conhecia, gostei muito. Vou procurá-lo.
    um beijinho e uma boa semana

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  5. Para terminar a minha ronda, não posso deixar de vir até ao teu espaço ver o que nos trazes hoje, Graça!

    Soneto maravilhoso que descreve a solidão vivida nas florestas de betão e cimento armado!
    O poeta alemão sabia do que falava e amais ainda não deviam existir as torres que passam acima das nuvens...

    Beijinhos de espaços abertos! :)

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  6. Gostei imenso.
    E fez-me lembrar o efeito biombo que tanto se sente aqui em Macau.
    Beijinhos

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    1. Aí deve ser bem mais «sufocante». Parece-me.

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  7. ~~~
    Gosto muito do poema «Cidade» da Sophia...

    Verdadeiros pombais, sem nenhuma qualidade de vida,
    contudo a menina diz que é «muito citadina»...
    Continuando a citar-te: «O que posso fazer?»

    ~ ~ ~ Beijinhos amigos. ~ ~ ~

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    1. E sou... citadina e... solitária também.

      O poema «Cidade» da Sophia é um espanto!

      «(...)
      Saber que existe o mar e as praias nuas,
      Montanhas sem nome e planícies mais vastas
      Que o mais vasto desejo,
      E eu estou em ti fechada e apenas vejo
      Os muros e as paredes, e não vejo
      Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas. (...)»


      Muito lindo!!

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  8. Vivemos em comunidade... e totalmente isolados...
    Abraço.

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  9. Bonito e verdadeiro. Não conhecia mas a solidão nas grandes cidades deve ser sufocante. Vivo numa cidade , mas a minha costela rural está nos genes...
    M.A.A.

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    1. ... e eu que não tenho nenhuma «costela rural»... eh eh eh...

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  10. Perfeita descrição...

    Bom Dia de REis

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  11. A solidão é um grande mal que percorre muitas pessoas.
    Mesmo muito acompanhada/o pode-se estar totalmente
    em solidão.
    Gostei amiga da poesia.
    Bjs.
    Irene Alves

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  12. Há 60/70 anos, as pessoas que viviam na minha proximidade não passavam de umas 30 famílias num raio de 100 metros. Nessa altura eu conhecia-as todas, uma a uma e entrava até nas suas casas pelos mais diversos motivos.
    As salas de estar de cada uma eram à porta de casa em verdadeiro convívio com os vizinhos, sempre que o tempo o permitia, pois que não havia TV, nem mesmo rádios . Lembro-me de virem a casa dos meus pais ouvirem as últimas notícias da guerra e se eu precisasse de fazer um telefonema, tinha que me deslocar a uma fábrica próxima !
    Não havia solidão de qualquer espécie, apesar disto tudo !

    Hoje são autênticas selvas urbanas e nem sequer conheço metade das famílias que vivem no meu prédio ! :((

    Um Abraço, Graça ! ... Valha-nos a blogosfera ! No entanto, todos se queixam dos "males" das redes sociais ! :((

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    1. Valha-nos a blogosfera mesmo, Rui!!! Concordo consigo!

      Beijinhos e Bom Ano para vós.

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  13. Fico feliz por terem gostado do poema. Se bem que... a solidão não seja sentida apenas no meio das grandes cidades. Podemos ter montes de conhecidos e sentir-nos imensamente sós. É por de mais complicada esta nossa mente humana...

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  14. A solidão "acompanhada" é a pior de todas!
    Beijinho Graça

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  15. Sensibilidade à flor da pele de quem vê,ouve e cheira o ambiente urbano das grandes cidades; também nas pequenas se acelera este mal da solidão.
    Um poema magnífico de um autor que desconhecia. E a Sofia chamada nos comentários, que costumo ver na diagonal, complementa este quadro perfeito.
    Parabéns.

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