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terça-feira, 21 de abril de 2020

Histórias da minha rua (15)


O vizinho mora numa outra rua além e vinha algo incomodado com o que uma amiga, professora e diretora de turma do 2º ciclo, desabafara com ele:

Vinha ela de ter uma conversa com um encarregado de educação que muito a preocupara por não saber o que lhe responder. O senhor, quase à beira de um ataque de nervos, e face às comunicações que recebera das escolas, contou-lhe que tem dois filhos em idade escolar, cada um em seu ciclo diferente. Ele e a mulher encontram-se em casa em situação de teletrabalho e têm apenas um computador. Então o seu dia-a-dia era passado a ajudar os dois filhos com as tarefas da escola para eles conseguirem responder ao que lhes era solicitado pelos professores, orientando-os na gestão do plano de trabalho e na utilização das diferentes plataformas escolhidas pelos professores para receberem e devolverem as fichas de trabalho devidamente realizadas. E estavam nisto, ele e a mulher, desde as nove da manhã até ao fim da tarde! 

Só depois desta barafunda toda e depois de tratarem das refeições e das restantes lidas domésticas – reforçadas pelo facto de todos os elementos da família se encontrarem em casa 24 sobre 24 horas – só então, dizia, muitas vezes apenas depois do jantar, os pais se dedicavam às suas tarefas profissionais, muitas vezes até às duas e três da manhã.

Isto é de loucos, não vos parece?

O senhor estava exausto e sob uma enorme pressão.

O que se pretende provar com isto tudo?

A mim parece-me que, no fim disto tudo (ou mesmo antes) vai aumentar em muito o número de divórcios e separações e de consultas nos psiquiatras…




quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Constrangimento

Assim que deu com os olhos nos meus, baixou a cabeça, desviou o olhar, rodou os ombros. Reconheci-o imediatamente, mas correspondi ao afastamento. Há anos, bastos anos, entrou insofrido pelo portão lá da escola, sem atender ao porteiro, cego que ia, e pregou uma (nem sei dizer se foi só uma) bofetada num miúdo. O sururu foi enorme. O porteiro ligou ato contínuo para o gabinete do Conselho, enquanto o agredido, nosso aluno, rapidamente se apresentou à nossa porta para fazer queixa. Eu não podia permitir que um encarregado de educação entrasse pela escola dentro e batesse num aluno que nem sequer era seu filho.

Identificados agressor e agredido, polícia metida ao barulho, grande barafunda. Os miúdos envolvidos já eram grandinhos, catorze ou quinze anos; a mãe do agredido, muito zangada e cheia de razão: apresenta queixa, não apresenta queixa…

Convoquei o pai violento que não se mostrou muito disponível para falar comigo. Instei e lá se convenceu. Veio acompanhado da mulher (minha conhecida, muito conhecida…).

Porquê? O filho sofria de um pequeno atraso de desenvolvimento (que ainda assim não o impedia de fazer a sua escolaridade normal com as adaptações que lhe convinham e a que tinha direito) e, por um qualquer motivo que já esqueci, fora humilhado, agredido mesmo por um colega. Quando ficou a saber, reagiu a quente, muito a quente e os travões da convenção não obedeceram ou nem sequer foram acionados… «Pois, mas aqui na escola há responsáveis para mediar os conflitos e aplicar sanções. Não há espaço para justiceiros à americana…» disse-lhe.

Silêncio. Espaço. Mais silêncio. E então lágrimas a rolarem pela cara de um homem «forte e de barba rija»… E, depois de mais silêncio (em que o meu coração se sentiu apertadinho, apertadinho mesmo) fiquei a saber: ex comando de guerra (da inexplicável guerra colonial) a sofrer há muito de stress pós traumático crónico…

Não interessa contar aqui nem agora como a situação se resolveu. Resolveu-se. A vergonha, o constrangimento por parte daquele homem, porém, foi enorme…

… não admira que anos e anos depois, evitasse o meu olhar, a minha proximidade, apesar de eu ter cumprimentado e conversado afavelmente com a minha amiga, sua mulher. 





domingo, 2 de junho de 2013

Psicólogos


Que me desculpe quem tiver de me desculpar, mas nunca fui muito adepta de psicólogos. Da psicologia sim, mas de psicólogos nem por isso. E, paradoxalmente, nos tempos em que terminei o Liceu, nos idos de 60, e em que os cursos de psicologia, cá em Portugal, andavam ainda e apenas pelos primórdios do ISPA, queria muito estudar psicologia. Talvez por ser uma matéria nova. Só que, à época, curso superior era mesmo só na Faculdade e nem passava pela cabeça da minha mãe que eu não tirasse um curso superior mesmo.

O facto é que levei toda a minha vida profissional a ver deteriorar-se a “boa” educação e as “boas” maneiras nos alunos bem como esburacar-se a coesão das relações entre pais e filhos muito, mas muito por ação dos psicólogos. Trabalhei alguns anos com um (excelente) colega especializado e especialista em Educação Especial que, no tom pretensamente sereno mas perturbadoramente irónico que lhe era (e é) habitual dizia «os psicólogos não servem para nada!». Isto à frente de outra nossa muito querida e muito competente colega também ela especializada e especialista em Educação Especial, mas também psicóloga…

Sempre me “contrariou as entranhas” dar conta da reverência que quase dava para chegar com a cabeça ao chão com que as minhas colegas (quase todas) aceitavam todas as “ordens” de teor pedagógico (e não só) desde que assinadas por um(a) qualquer psicólogo/a quando os especialistas em pedagogia deveríamos ser nós próprias! 

Ao longo das primeiras décadas da nossa precária democracia muito desmoronamento houve no que toca a relações velhos/novos, pais/filhos, professores/alunos, muito por responsabilidade dos exageros de tantos psicólogos e outros que tais – que começaram a aparecer como cogumelos, sabe-se lá com que práticas e com que conhecimento das coisas – apostados em mudar o “velho” mundo com modernismos bacocos daqueles que facilmente conquistam as mentes instáveis e fraquinhas. E depois foi ver paizinhos absolutamente deslumbrados com as espertezas dos seus rebentos, paizinhos que se tornaram “os melhores amiguinhos” dos filhos e como eles se comportavam, paizinhos que tudo permitiam e tudo davam às suas crias “desde que eles não se metessem na droga” e sei lá o que mais. Muitos, infelizmente, continuam com o mesmo comportamento!

Ora vem este arrazoado todo para, no rescaldo do Dia da Criança, deixar aqui a transcrição de alguns pensamentos de uma crónica do psicólogo Eduardo Sá – que, não pensem que constitui exceção na minha pouco simpatia pela ação dos psicólogos, antes pelo contrário e um dia hei de explicar porquê – e que diz o seguinte: «… gosto dos pais de quem as crianças têm um bocadinho de medo. Pais que acendem para vermelho sempre que as crianças pisam o risco ou que “rosnam” como deve ser logo que elas fazem de “homem invisível” e exageram numa atitude do género: se não repararem em mim eu agradeço. Pais de coração têm sempre a cabeça quente. E isso é bom. Mas pais serenos são os pais que não toleram todas as veleidades a uma criança (como se lá em casa, o “governo em dialogo” se transformasse, volta não volta, numa democracia onde o “proletariado” manda para lá do que devia mandar). O segredo é não deixar passar uma asneira, que seja. (…) Exija, por favor. (…) Não assine contratos nem os cole no frigorífico (…) Nunca se esqueça que pais bonzinhos nunca serão nunca serão bons pais.»


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O que eu quero para os meus filhos


Na véspera de oficialmente todas as escolas abrirem portas aos seus alunos, tomei conhecimento, por meio da minha filha mais nova, do excelente documentário "What I want for my children" que não resisto a deixar aqui. Está extraordinariamente bem apresentado com um belo texto muito bem ilustrado e bem lido que é dirigido a professores e a pais.  Como está dito em inglês, língua que nem todas as pessoas dominam, atrevo-me a deixar também uma proposta de tradução.





Os nossos filhos são extraordinários! Nós trouxemo-los para casa, sentámo-nos e observámo-los atentamente – que pequeninos seres humanos!

Maravilhámo-nos com a perfeição de cada dedinho das mãos e dos pés, com os seus narizinhos, com as suas boquinhas de botão de rosa. Com a sua macieza, com o seu cheiro.

Acordávamos durante a noite só para ver se ainda respiravam. Amamo-los tão intensamente que saltaríamos para a frente de um autocarro para os salvar. E esse amor não desvanece nem se torna menos intenso à medida que eles crescem. Ainda nos esgueiramos para os seus quartos para os vermos a dormir, talvez para lhes acariciarmos as faces ou para lhes darmos um beijo na testa.

Se foi um dia difícil, se lhes ralhámos ou gritámos com eles, ali ficamos a sentirmo-nos culpados e a dizermos que amanhã faremos melhor, teremos mais paciência e encontraremos uma forma melhor e sussurramos “amo-te!”. E preocupamo-nos. Estaremos a fazer o suficiente enquanto pais? Estarei a fazer o suficiente ou estou a falhar em alguma coisa? A vida é tão agitada que nem sempre temos tempo para sermos os pais que gostaríamos de ser.

Depois chega Setembro e levamo-los para a escola; entramos na sala de aula e sentimos que nos estão a arrancar o coração do peito e relutamos em entregá-lo a um professor que de facto não conhecemos; e dizemos: “Aqui está! Entrego-lhe o meu coração. Por favor tome bem conta dele – é tão precioso e tão especial para mim! Não sei o que farei sem ele. Por favor, não deixe que nenhum mal lhe aconteça!”

Deixamo-lo lá e ficamos preocupados:

- aprenderão o suficiente?

- ficarão bem neste mundo?

- terão sucesso?

- farão amigos?

- serão felizes?

Por isso esperamos muito dos professores e das escolas.

Lembremo-nos que estamos todos aqui com o mesmo objectivo: nós preocupamo-nos com as crianças. Temos de criar um ambiente em que todas as crianças alcancem o sucesso.

Eu quero que a comunidade escolar dos nossos filhos acredite neles e os inspire a sonhar e os apoie quando estiverem em dificuldades; que os ensine a respeitarem-se a si próprios e a terem empatia pelos que os rodeiam. Algumas crianças aparecem neste ambiente felizes e sem maldade, outros são mais complicados e mais difíceis de conquistar.

Eu quero professores que vejam para além disso e que acreditem que os nossos filhos querem alcançar o sucesso, ser felizes e ser ouvidos e amados.

Eu quero que os meus filhos tenham professores que se envolvam, que os respeitem como indivíduos e honrem cada um deles, aprendendo com as suas capacidades e dons únicos. Eu quero professores que lhes permitam aprender pelos seus próprios meios.

Eu quero que os nossos filhos tenham professores que façam perguntas mais do que dêem respostas. Este mundo é complicado e as pessoas são seres complicados. Eles precisam de adultos que aprendam com eles mais do que lhes ensinem.

Eu quero que os nossos filhos tenham voz e que os professores a oiçam, não só as palavras que dizem mas os silêncios por trás delas; as coisas que talvez as crianças tenham medo de dizer e que apenas são ouvidas com o coração.

Ouvir atentamente é a única forma que os professores têm para ajudar os nossos filhos a sentirem-se física e emocionalmente seguros. Ajudá-los a correrem riscos porque aprender coisas novas é sempre um risco.

E, finalmente, eu quero que ensinem sempre pela modelação; que façam auto-reflexão , que procurem novos desafios, que se esforcem por aprender todos os dias.

Sim! Nós queremos muito para os nossos filhos e há uma pergunta crítica que temos de nos colocar: que podemos fazer para termos a certeza de que cada escola, cada sala de aula, cada aluno, cada criança vá conseguir? Há uma coisa que temos de compreender: não há resposta. Não há uma resposta simples. Não há uma resposta única. De facto, há provavelmente tantas respostas como professores e alunos. Que podemos fazer?

“Sê a mudança que queres ver no mundo.” Ghandi

Se isto é o que queremos para os nossos filhos, é isto que temos de fazer pelos professores:

- acreditem sempre que os professores querem o que é melhor para os nossos filhos;

- não “se encostem” pensando que alguém vai fazer por vocês – envolvam-se!

- façam por conhecer os professores dos vossos filhos; mostrem-lhes que os apoiam enquanto trabalham para os fazer alcançar o sucesso; não reajam nem fiquem na defensiva – façam perguntas; disponham-se a ouvir e atentar compreender as razões que estão por detrás das acções ou decisões;

- sejam curiosos: descubram o que os vossos filhos andam a aprender; descubram os problemas que a escola enfrenta; introduza a discussão sobre o que está e o que não está a resultar, sobre o que todos nós precisamos – com o seu filho, com o professor, com o director, com as estruturas da comunidade, com o governo.

As crianças merecem!

A mudança acontece numa pessoa de cada vez. O que vais tu fazer por isso hoje?

 

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O início das aulas



De acordo com o calendário escolar para o presente ano lectivo, poderão as escolas abrir hoje as suas portas aos alunos. Duvido, porém, que sejam muitas a fazê-lo, já que lhes é dada a liberdade de abrirem até ao dia 13.

Seja hoje, ou na 6ª feira ou apenas na próxima 2ª feira, milhares de crianças e jovens (para descanso das famílias) vão apresentar-se para iniciarem uma nova etapa nas suas vidas. E vão, grande parte delas, em enorme expectativa: como vão ser os meus professores? Quem serão? Que horário vou ter? Que colegas me vão calhar? Mesmo os mais velhos, os que já conhecem todos os cantos à casa têm, nem que seja por momentos esses anseios, esses receios.

Mas são sempre os que vão pela primeira vez que nos merecem todo o cuidado, toda a preocupação. Seja no Jardim, seja no 1º Ciclo, ou no 2º Ciclo, a mudança está sempre patente e gera preocupação – da parte deles, “caloiros”, da parte dos pais, da parte dos professores.

Já aqui referi a ansiedade que é para as crianças a entrada para a escola e a importância da preparação que os pais devem fazer aos seus filhos que vão pela primeira vez para uma escola nova. Mas é preciso que se saiba que também as escolas e os seus actores (professores, auxiliares, direcção) se preparam o melhor que podem e sabem para receber os seus novos “clientes”. As recepções aos novos alunos (e respectivos pais) são cada vez mais bem preparadas para que as crianças se sintam o melhor possível no seu novo mundo. Tudo se faz por elas para que sejam o mais felizes possível e para se lhes captar a necessária confiança. (Pelo menos foi sempre essa a minha experiência enquanto simples professora, directora de turma ou membro da direcção). Porém, é necessário que haja também em relação a este momento um sentimento de compreensão, de reconhecimento e de confiança por parte dos pais que têm aquele papel difícil mas tão importante de transmitirem aos seus filhos o ponto de equilíbrio entre aquilo a que têm direito e aquilo que é seu dever.

Detesto moralismos e nunca ou quase nunca os uso; mas lembro-me sempre de uma professora de Moral que tive no liceu (feminino) Maria Amália nos inícios de 60, que sempre nos dizia, com muita convicção, de pé, na beirinha daqueles estrados salazaristas dos Liceus Nacionais: “Ó minhas filhas, para recebermos é preciso darmos!”


(Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho)

(que eu detestei enquanto lá andei
e a que depreciativamente chamava
"Hospital das Letras")