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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Saudades de Manuel António Pina

Fez anos que partiu no dia 19 de outubro; faria anos (74) no passado dia 18 e eu nada disse, nada escrevi, nada aqui recordei. Mas é daquelas personalidades, daqueles escritores que deixa tanta saudade. Fazem-me falta as finas observações que fazia nas suas crónicas que publicava no JN e no DN. Os seus poemas ficaram e falarão por si e por ele, mas nem sempre são fáceis de lhes apreender o justo sentido.

Por isso hoje, que não faz anos de nada, mas apenas porque me lembrei dele, e sempre com saudade, deixo aqui uma das suas crónicas retirada da coletânea que a Assírio e Alvim publicou, depois da sua morte, com o título Crónica, Saudade da Literatura. Sintam-lhe e ironia.

Eterno retorno

"Começam a perceber-se as misteriosas razões que terão levado 2 159 742 portugueses a votar em Passos Coelho.

O eleitorado português tem sido repetidamente elogiado pela prudência e sensatez. Tirando a parte, humana, demasiado humana, da lisonja, resta o que é talvez fundamental, que os portugueses não gostam de surpresas e votam no que conhecem. E há que admirar a sua intuição: votando em Passos Coelho, o jovem desconhecido vindo do nada, que é como quem diz da JSD e de uns arrufos com a Dra. Ferreira Leite, votaram no mesmo de sempre, na incomensurável distância que, em política, vai do que se diz ao que se faz.

E, pedindo ajuda a O’Neill, o eleitorado «tinh’ rrazão»: disse Passos Coelho que era um disparate afirmar-se que que tributaria o subsídio de Natal e foi a primeira coisa que fez mal chegou ao Governo; que não mexeria nos impostos sobre o rendimento e idem aspas; que iria pôr o Estado em cura de emagrecimento e o «seu» Estado só tem engordado adjuntos, assessores, «especialistas» (e até «superadjuntos» e «superespecialistas»); agora foi de férias «para recuperar algum tempo do [seu] papel enquanto marido e pai» depois de ter anunciado que «o Governo não gozará férias» dada a necessidade de , «com rapidez», «traduzir os objectivos (…) que estão fixados em políticas concretas».

Estou em crer que o eleitor português típico, se tal coisa existe, nunca votaria num político imprevisível."

JN, 10/08/2011

(… enganou-se o nosso bom poeta e cronista. Esse “eleitor português típico” cuja existência ele até pôs em dúvida e que, de facto, não deve existir, voltou a votar no tal “político imprevisível” quatro anos mais tarde e depois de todas as “tarrafias” por que fez o tal eleitor típico - e os outros todos - passar… Mas a essa inexplicável incongruência do eleitor já o poeta foi poupado por um trágico revés da vida.)




quarta-feira, 22 de março de 2017

«Resposta ao pequeno holandês»

Bom, as gargalhadas que eu dei quando cheguei ao fim da crónica do Ferreira Fernandes no DN de hoje, a propósito das tolices que aquele holandês, Dij qualquer coisa, lançou pela boca fora sobre os povos do sul: "Não se pode gastar o dinheiro em copos e mulheres e logo depois pedir ajuda.

(Não fica bem falar de copos de vinho no Dia Mundial da Água, mas tem de ser…)

Já tinha lido toda a espécie de comentário no facebook, alguns bem furiosos, outros com muita piada, outros sérios, outras a desvalorizar… Enfim, no facebook encontra-se de tudo para todos os gostos, o que é por de mais divertido. E didático…

Agora, ligar aquela saída de muito mau gosto ao melhor da pintura que se fez na Flandres e depois terminar com a arte cerâmica das Caldas é que achei de mais!!

Então o cronista, em tom bem divertido, começa assim: «Ah, o que o noticiário de ontem me trouxe de arte e luxúria! Passeei-me pela Holanda, quando ela era grande e não só entreposto de impostos dos outros. Rembrandt em autorretrato, uma mão pousada no nadegueiro da sua mulher Saskia e outra levantando o cálice. Mulheres e copos.(…)»  

Depois faz um belo de um périplo pelos melhores pintores holandeses do século XVII que pintaram mulheres e vinho em situações menos próprias, terminando desta forma para além de hilariante: «Já para responder a Jeroen Dijsselbloem, um curso rápido de arte portuguesa chegava: um caralho das Caldas para ti, pequeno holandês.»

Vale a pena ler a crónica completa!


Entretanto, fui ver a tal brochura da Académie Amorim “O Copo de Vinho na Pintura Holandesa”, onde o cronista foi beber a inspiração e as referências artísticas e deixo aqui alguns dos quadros indicados.

Sei que vão gostar.


Auto-retrato de Rembrandt com a mulher Saskia

Frans Hals

Frans Hals

Gabriel Metsu

Vermeer

Jan Steen

Jan Steen

Jan Steen

Jan Steen

Jan Steen

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Génio lusitano

Tenho dito aqui por mais de uma vez que, menina lisboeta, vivi cerca de ano e meio na vila da Vieira de Leiria onde fiz parte da 1ª classe, a 2ª e o início da 3ª. Foi das experiências mais ricas da minha infância por ser um ambiente tão diferente e distante daquele que conhecia. De recordar que isto se passou em 1957/58. Foi lá que, pela primeira vez, vi uma picota (que encanto!) uma lagartixa, um ancinho para ir à caruma (bem como a própria caruma), cântaros de barro com que as mulheres iam buscar água à fonte e as respetivas cantareiras, mulheres descalças com os canos de lã nas pernas, as camarinhas, aquele mar violento a levantar-se em ondas altas e furiosas, aqueles barcos lindos de proa altíssima a lembrar os Vikings, os bois e as mulheres – tão fortes quanto eles – a puxarem as redes cheiinhas de peixe a saltar, etc. etc.

Foi lá que, pela primeira vez, fui a um baile numa sociedade recreativa, fui empalhar garrafões, fui à caruma, fui a um funeral enquanto menina da escola de batinha branca em fila atrás do féretro.
Foi lá que também pela primeira vez assisti a uma espetáculo estilo revista à portuguesa realizada e interpretada por pessoas da vila e talvez de Leiria, não sei bem. Lembro-me de alguns quadros muito engraçados e houve um que me marcou bastante: era um diálogo em que um dos artistas ia criticando várias circunstâncias e contingências do povo e do país enquanto o outro, vestido de jardineiro – lembro-me bem! – respondia sistematicamente: «Ah! Isso é lá com eles!»

Vem isto a propósito de um artigo que li hoje no DN cujo título é exatamente Génio Lusitano. O autor, que é português mas que tem uma avó checa e outra catalã, um avô austríaco e um pai alemão, faz uma crítica muito bem feita e bem divertida (?) à nossa capacidade (ou será uma incapacidade?) de olhar para o lado…

Diz ele: (…) «Os problemas impossíveis de se resolver em terras lusas são regra geral minúsculos: a luz dum poste de iluminação pública que não funciona há anos, o funcionário sem meios ou vontade para atender pessoas, os fios de telecomunicações que alastram nas fachadas dos prédios como a peste negra, a sala de aulas sem aquecimento, o devedor que não paga, o senhorio que não faz obras, o tempo de espera pela consulta, o autocarro que não passa, o vizinho que estaciona o carro no passeio sem deixar espaço para passar um chico fininho.

Esta prodigiosa faceta do carácter nacional permite deixarmos de ver as pequenas monstruosidades que nos rodeiam e é única na Europa. Num país, que por semana fica à frente em dezenas de rankings, é estranho não ter ainda aparecido uma revista internacional a colocar-nos em primeiro lugar na modalidade "olhar para o lado". (…) Tentar fazer alguma coisa não serve de nada, é a desculpa que se ouve sempre, por isso não se tenta fazer nada. "Eles", seres distantes algures nos centros de decisão, "também não fazem a ponta de um corno", "aquilo é só tachos", "anda tudo na mama" ou "só mudam as moscas". Em vez de tomarmos a iniciativa e limparmos nós a porcaria à pazada, é uma enxurrada de desculpas para não mexer uma palha e tudo ficar igual.


Em Portugal a cidadania não é vivida como um direito. É um fardo que se carrega às costas. E por cima do fardo ainda estão "eles" empoleirados, os "lá em cima". Se, por sua vez, pergunto a um de "eles lá em cima", também olham para o lado e dizem-me que são "eles", os "ali ao lado", que lhes empatam o serviço. (…)»

Connosco é mesmo assim: «Isso é lá com eles» e assobiamos para o lado.




domingo, 11 de setembro de 2016

Uma viagem a São Petersburgo



Não. Não fui eu que fui a São Petersburgo embora a Rússia fosse uma das minhas viagens de sonho.

Atualmente facilmente veremos as maravilhas da cidade de Catarina a Grande se fizermos uma breve pesquisa no Google. Por exemplo aqui ou aqui  ou ainda aqui.

Mas conhecer toda a radiografia da cidade a partir de um texto, uma simples crónica de jornal, só se for elaborado por quem sabe usar a língua, a escrita e o estilo. Foi o caso da crónica apresentada pelo Professor Carlos Fiolhais que, por acaso – ou não – até é uma homem das ciências…


«A primeira vez que ouvi falar de S. Petersburgo foi nas Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett, onde o burgo é associado ao frio: “Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como São Petersburgo — entende-se.” Pois eu não viajei à roda do meu quarto mas saí até à cidade russa.

Não encontrei o frio porque era Agosto. Encontrei, isso sim, a cidade que conhecia dos livros de História: a cidade de Pedro I, o Grande, o seu fundador em 1703 numa região pantanosa à entrada no Báltico, banhada pelo rio Neva, e de Catarina II, também a Grande, que içou a então capital da Rússia aos cumes da opulência. Quem já viu palácios, igrejas e museus nas capitais europeias não viu nada até ter visto São Petersburgo. Só palácios barrocos há mais de uma centena. Imperdíveis são o Palácio de Inverno dos czares (sede de um dos maiores museus do mundo, o Hermitage) e o Palácio de Verão (a uma meia hora do primeiro por hydrofoil). Foi ao Palácio de Inverno que o cruzador Aurora, que ainda por ali permanece, atirou os primeiros tiros da Revolução de Outubro, em 1917, vai fazer cem anos. Foi no Palácio de Verão que, em 1941, Hitler quis dar uma recepção, face à dificuldade em entrar na cidade, mas Estaline reagiu bombardeando o local. Está tudo reconstruído, brilha o ouro barroco nos salões e nas fontes.

(O Palácio de Verão)


(O Palácio de Inverno - Museu Hermitage)

(O observatório astronómico)

O motorista de táxi que apanhei no aeroporto de Pulkova (perto de um histórico observatório astronómico que serviu de modelo ao Observatório da Ajuda) indicou-me até onde chegaram os blindados alemães. Agora está lá um enorme stand da Mercedes, pelo que comentou: “Sempre é melhor do que tanques”. O seu avô tinha combatido no cerco da cidade, que se prolongou por quase 900 dias, tendo tido a sorte de sobreviver ao contrário de dois milhões de russos, que pereceram mais de fome do que das bombas que caíam todos os dias, de manhã, à tarde e à noite. Ponto alto da defesa da cidade foi a interpretação, que se tornou símbolo da resistência russa, da Sétima Sinfonia de Dmitri Choskatovitch na Sala Grande da Filarmónica a 9 de Agosto de 1942. Isso não impediu que o compositor, natural da cidade, tivesse sido vítima da implacável censura estalinista. A cidade tem sido pródiga em artistas, mas estes nem sempre foram bem vistos: Paolo Troubetskoy, que fez uma estátua equestre de um dos últimos czares, respondeu assim quando mudou o regime: “Eu não sou político. Só fiz um animal em cima de outro.”

Há uma tradição sangrenta na política russa. Foi em Leninegrado, isto é, São Petersburgo, que Estaline mandou, em 1934, matar o seu número dois, o dirigente local Serguei Kirov, iniciando uma purga que dizimaria uma boa parte dos dirigentes comunistas. Já tinha sido em São Petersburgo, na Fortaleza de São Pedro e São Paulo, que Pedro I mandou torturar até à morte o seu próprio filho, Alexei, suspeito de conspiração. Foi aí que Catarina II, alemã de nascimento, esteve por trás do golpe de estado, perpetrado por um seu amante, contra o marido, Pedro III, neto de Pedro I (o czar deposto morreria meses depois na prisão), para reinar longos anos. Foi ainda aí que o filho de Catarina, Paulo I, foi assassinado, num forte que mandou construir porque se sentia inseguro no Palácio de Inverno. A Catedral de São Pedro e São Paulo, no centro da fortaleza, é o panteão dos czares, onde estão Pedro e Paulo, dois dos primeiros Romanov assassinados. Mas os regicídios foram mais. No sítio onde foi baleado Alexandre II ergue-se hoje a portentosa Igreja do Sangue Derramado. Não, os últimos Romanov, Nicolau II e a sua família, não foram mortos aqui pelos bolcheviques, mas estão sepultados desde 1998 no panteão, após funerais nacionais com a presença de Ieltsin. Foram todos santificados pela Igreja Ortodoxa.


(A Fortaleza de S. Pedro e S. Paulo)


(A Catedral de S, Pedro e S. Paulo)


São Petersburgo tem só 300 anos, mas é um concentrado de história. Nas sinistras masmorras de São Pedro e São Paulo estiveram como presos políticos Dostoievski, Trotsky e Krotpokin. A porta do Neva ficou conhecida por “Porta da Morte” pois aí embarcavam os condenados a pena capital ou a trabalhos forçados na Sibéria. O primeiro português que esteve na capital imperial russa teve sorte madrasta: António Luís Vieira foi recrutado em Londres por Pedro o Grande, que fez dele capitão da sua guarda, mas, após a morte do monarca, acabou desterrado na Sibéria. Outro português na corte russa foi António Ribeiro Sanches, que salvou a jovem Catarina II de uma doença grave antes de ela ser coroada, e teve melhor sorte. Ainda no século das Luzes, D. João Carlos de Bragança visitou São Petersburgo, tendo merecido um poema encomiástico do escritor Aleksandr Sumarokov. Depois de se referir a Homero, Virgílio e Camões, o poeta diz que “as zonas quentes são propícias à vinda a este mundo de bons poetas”. Mas ele, nascido no frio, não se conformava: queria também enfileirar na galeria.»

Carlos Fiolhais, Público 7de Setembro de 2016

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Terrorismo

Nunca suportei a política de «punhos de renda» ou do «politicamente correto». Seja em que circunstância for. É uma verdadeira hipocrisia. Por isso gostei de ler o texto «Tolerância zero» de Paulo Baldaia – se bem que nem sempre goste de o ler – no DN de ontem.

«Se queremos vencer esta guerra onde estamos metidos, temos de nos deixar do politicamente correcto e usar as palavras certas quando relatamos crimes praticados em nome da religião e de Deus. Uma criança de 10 anos que é dada pela família para casamento é pedofilia, não é uma tradição ancestral. Um irmão que mata a irmã porque ela quer viver em liberdade não é um crime de honra, é um assassinato. Uma criança que é mantida em casa e proibida de ir à escola é um rapto.

De igual forma é tão terrorista um muçulmano que mata na Europa como um muçulmano que mata no Iraque ou um cristão que se arma até aos dentes e mata nos Estados Unidos. Não são terroristas os dois primeiros e maluco o norte-americano. Ainda assim, há um problema grave com o islamismo. E não, não tem que ver com o que defende esta religião em comparação com as outras, tem muito mais que ver com a tolerância com que olhamos para os crimes praticados. A começar pelos que são praticados lá longe.

Ninguém pode ser feminista na Europa e não ter tolerância zero em relação ao islamismo. Sou agnóstico e, mesmo que acreditasse em Deus, não seria capaz de viver com a minha racionalidade em nenhuma igreja. Mas, por ser racional, sei que a história nos dá conta de que, enquanto a maioria das religiões se tornou mais humanista, o islamismo teima em tolerar que se cometam crimes em seu nome e em nome de Deus.

Se a atitude passiva que se vê na grande maioria dos líderes muçulmanos tivesse perdurado na história do cristianismo, a Inquisição teria durado muito mais tempo e feito muito mais vítimas. No século da globalização, não é tolerável que uma determinada religião olhe para os crentes das outras religiões como infiéis. Como não é tolerável que considere a mulher um ser inferior.

Na questão do uso das palavras é igualmente um erro, quando falamos do islamismo, falar de líderes moderados em contraponto aos radicais. Não haverá paz enquanto a maioria for radical e os moderados não deixarem de ser moderados. Não chega não advogar a guerra, os moderados têm de se radicalizar, dentro da sua religião, para combaterem os crimes de ódio, os crimes de honra, a escravidão das mulheres. Utilizamos o termo moderado como um elogio e o que ele revela é uma fraqueza.

Vivemos numa sociedade livre, onde até os ateus e os agnósticos são aceites como fazendo parte do reino de Deus. Não podemos aceitar viver com religiões que aceitam todo o tipo de discriminações. E não, não é apenas para nos defendermos, é também para defender os milhões de pessoas que vivem sob o jugo da intolerância religiosa. Contra esta barbárie temos de ter tolerância zero, na Europa e no resto do mundo. Professem a religião que entenderem, mas isso não lhes dá o direito de não respeitarem os outros seres humanos.»


(daqui)


segunda-feira, 4 de julho de 2016

Uma imagem que vale por mil palavras

É sabido que não resisto a um bom pedaço de boa prosa. Se for um bom texto literário, então é o delírio, mas um texto argumentativo de qualidade (e que vá de encontro ao que eu penso) também me é muito grato.

A quem me dissesse há uns bons dez anos atrás que me seria tão agradável ouvir e ler José Pacheco Pereira, teria de responder que estava a sonhar. O facto é que, desde que a pessoa em causa deixou de se apresentar em modo de político partidário e passou a representar o sociólogo, o historiador, o grande estudioso da arte política, mostrou o seu real valor que admiro.

O texto que escreveu no Público subordinado ao tema «Uma imagem que vale por mil palavras» e que hoje refiro e trago aqui é bem prova do que atrás ficou dito. Uma crítica mordaz e profunda ao “neo-PSD” e ao seu recente documento «222 Propostas Social-Democratas, um guião para um “verdadeiro programa nacional de reformas”, de autoria do Grupo Parlamentar do PSD», mais especificamente à imagem da capa do dito documento.

O texto é por de mais longo pelo que não o transcrevo na íntegra, mas quem se interessar pode aceder-lhe pelo link. De notar a crítica profunda, bem como a subtil ironia que a traduz.





(…) «Trata-se de uma imagem desprovida de conteúdo político explícito e especialmente de conteúdo político social-democrata, mas densa de ideologia e espiritualidade. A ideologia é má e a espiritualidade é banal e “new age”, mas é o que é. A imagem é um tratado sobre a mentalidade, sobre um certo autodidactismo que se sobrepõe à formação académica ou à falta dela e, principalmente, fala-nos sobre os mecanismos de representação do mundo, e do desejo de o atravessar com sucesso, da actual direcção do PSD. É também uma imagem que revela a “cultura” do consumidor da Internet, via Facebook e “redes sociais”. (…)

Que imagem é esta de que de certeza o leitor nunca ouviu falar? Da capa da edição em papel de 222 Propostas Social-Democratas, um guião para um “verdadeiro programa nacional de reformas”, de autoria do Grupo Parlamentar do PSD. Uma espécie de programa do governo, apresentado sobre as cinzas do célebre guião de copy-paste de Portas e que se pretende contrapor ao Plano Nacional de Reformas do PS, o “falso programa de reformas”, a que alude o “verdadeiro”. O documento merece discussão em si, mas a capa merece-o muito mais. 

A capa tem no centro, como motivo principal, uma imagem de carácter religioso: a célebre Escada da Divina Ascensão, subida por João Clímaco a caminho do Paraíso. João Clímaco era também conhecido como “João da Escada”. Há vários ícones orientais representando-a, exactamente da mesma forma que aqui o PSD a representa. Só que, aqui, é o Homem da Regisconta que a sobe com o seu fato de executivo e segurando a mesma pasta que é a sua marca inconfundível. A versão é a do Homem da Regisconta visto por trás, afastando-se de nós a caminho do Paraíso e, para saber o caminho, tem uma espécie de folha de rascunho, de apontamentos de uma reunião, um workshop empresarial, ou motivacional, que funciona como um blueprint para a salvação. Melhor: tem um “business plan”. Esse mapa para o divino lugar, implica o uso da informática, da “social media”, do marketing, do “business”, da estratégia e de uma panóplia de gráficos de barras e “pie charts” habituais em documentos empresariais e, de novo, nos cursos de gestão de baixa qualidade. Numa demonstração de grande originalidade, uma ideia nova é representada pela lâmpada da banda desenhada e está lá ao lado de um cifrão. Peço desculpa por usar muitas palavras em inglês, mas é em inglês que está escrita a folha negra com instruções para o caminho para o “sucesso” com ponto de exclamação: “success!!”. (…)

Resumindo e concluindo: o homem dos dias de hoje, um jovem executivo, ou um profissional de marketing, ou um diligente “jota”, tem nesta imagem sagrada a sua forma de aceder ao divino, ou seja, ao sucesso.

O que é que isto tem a ver com o Estado? Nada. Com reformas políticas? Nada. Com o povo e a melhoria das suas condições de vida? Nada de nada. Com uma mensagem política subliminar? Sim. É uma mensagem para o indivíduo, porque é do sucesso individual que se trata no mundo do “empreendedorismo”, não para um país, ou uma comunidade, uma classe ou uma nação. É uma mensagem esforçada e antiquada, com décadas de atraso, para o “homem da Regisconta” do início da informática e da entrada das máquinas de calcular e da moderna gestão no mundo empresarial. Nem sequer é para o yuppie da bolsa, nem o criativo das dot.com, nem para as start-up. Na verdade há muita incompetência e muita ignorância nestas incongruências, mas pouco importa.

É pelo “negócio” que se chega à salvação. É pela vulgata da linguagem dos “business plan” que se encontra o caminho para a “luz” ou seja, para o “sucesso”. O neo-PSD dos nossos dias pensa assim, ou seja, não pensa, tem uma fé. (…)


Mas este caminho hoje seguido pelos neo-PSDs faz imensos estragos naquele que é o maior partido político português e, por essa via, a Portugal. Quem deve estar a rabiar naquele título e por baixo dos pés do Homem da Regisconta é a palavra “social-democrata”, (…)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Em tática que empata não se mexe!

Não sou nada fã de futebol. Melhor: não ligo nenhuma ao futebol. O facto é que sou mesmo adversa à competição, por isso jogos não são para mim. Feitios, claro!!

Tenho, no entanto, a minha preferência (acesa) nas equipas nacionais, como alimento, por outro lado, o meu odiozinho de estimação (ainda mais aceso…). Nem uma nem o outro vão ser aqui desvendados, pelo menos agora, para não importunar os meus queridos amigos.

Também desejo muito que a seleção faça boa figura lá em França. Primeiro por nós e depois para mostrar a esses gauleses e afins que não somos nenhuma espécie de suburbanos – para não dizer pior. Mas não me detenho a ver os jogos porque não quero, nem por nada, despertar a minha taquicardia e também porque não percebo nada daquilo…

Todo este “relambório” para trazer aqui a espetacular crónica de Ferreira Fernandes, hoje, no DN, (enquanto não for também afastado do jornal, sei lá!) sobre o jogo de ontem, a qual me fez dar umas gargalhadas bem sonoras.

Reparem só na ironia da segunda frase do texto, como que decalcada no belo verso de Pessoa: «Deus quer, o homem sonha e a obra nasce»… Uma verdadeira delícia!

«Simplesmente, coerência. O engenheiro quer, a equipa empata e vamos em frente. Vai ficar nos anais dos confrontos este Portugal que estaca para ir cada vez mais longe. Quem era, ontem, para aviar? A Polónia, habituada a ser rasgada pelos panzers dos vizinhos. Baralhámos-lhe a tradição: ontem, calhou aos polacos a derrota por uns gajos sem repentes. Nós é mais demorar, embaraçar, embargar, estorvar, obstar, suspender e tolher - como ordenou o engenheiro. Para ter a certeza dessa progressão quieta, abrimos o jogo de portas abertas. Aos dois minutos, golo de Lewand... perdão, do engenheiro. A ordem dele era: "Que eles marquem primeiro, assim fica mais seguro não irmos por aí fora, de golo em golo como malucos..." Suspirámos, pois, de alívio com o golo deles. A perder, ficámos com a vantagem de sermos nós a impor o almejado empate. Marcássemos nós no início, corríamos o risco de eles aguentarem o resultado e ficávamos com quase hora e meia de vitória, um horror. Em 510 minutos jogados em França só estivemos a ganhar durante 22 minutos... Pronto, com o 0-1, ficámos nas nossas perdulárias CR7 quintas! Depois, lá empatámos, para continuar gloriosamente assim. Prolongamento. Desta vez, o engenheiro não admitiu o abuso do Quaresma contra a Croácia (golo aos 117 minutos): ontem, o prolongamento foi respeitado, nulo inteirinho. E só se desfez o empate nos penáltis e, atenção, no último. Pode ser feio, mas nunca nos vi tão empatados numa vontade. Confesso, adoro.»

Ferreira Fernandes, DN, 1/Jul/2016


(daqui)

terça-feira, 21 de junho de 2016

Lembram-se das viagens de carro nos anos 80?

Da saudosa Magazine Notícias que continua a sair aos domingos com o Diário de Notícias já pouco há de interessante para ler. Com efeito, as saudosas revistas de letras e artes e de divertimento que saiam aos sábados e aos domingos recheadas de excelentes artigos sobre temas variados escritos por gente daquela que sabe escrever e que sabe o que diz (Manuel António Pina e outros) deram, infelizmente, (como se o pessoal fosse todo podre de rico!) lugar a enfadonhas listagens de locais paradisíacos onde se podem passar férias de sonho, de restaurantes de luxo, de vinhos para degustar – a grande moda, a grande aposta destes fazedores de moda parolos  – chefs a cozinhar acepipes estranhíssimos mas que produzem imagens lindíssimas… Ai a imagem! Vivemos no século da imagem. Vive-se para a imagem e pronto(s)! «Vale mais parecê-lo do que sê-lo» - defendia um professor que tive na Universidade de Aveiro em inícios de 90 e o que ele nos chocou com isso!

Bom, mas este intróito todo – longo por de mais e por isso desde já me penitencio – para trazer aqui uma crónica da Magazine Notícias do passado domingo que me fez rir a valer porque me vi retratada e de cada vez que íamos de férias para o Algarve com as miúdas adolescentes, ou mesmo para S. Pedro de Muel quando elas eram mais miúdas.

A crónica tem o título – e foi o que me atraiu para a ler – de «Lembram-se das viagens de carro nos anos 80? Tinham mais piada, não tinham?» E começa assim: «Pensos rápidos. Compressas. Algodão. Água oxigenada. Tintura de iodo. Pinça. Termómetro. Pastilhas para a garganta. Comprimidos – para a dores de cabeça, para as alergias, para a diarreia, para a febre. (…) Tudo o que é preciso para uma família se deslocar trezentos quilómetros para o noroeste durante duas semanas. As roupas dela e do meu pai, as nossas o calçado, as coisas de higiene, a comida para a viagem, (…) a geleira, alguma roupa de cama, agasalhos, jogos, os livros… (...) Era a minha mãe que arranjava as coisas para levarmos na viagem, mas era ao meu pai que cabia a tarefa de as arrumar onde fosse possível. Onde houvesse um buraco livre no carro, ele metia uma sapato.(…)»

Como eu nos vi no lugar da mãe e do pai do cronista! Vale a pena ler a crónica toda que está recheada de humor, de humor cheio de carinho…

E depois vieram-me à lembrança aquelas viagens de férias (?) para o Algarve nos idos de 70, quando as miúdas eram ainda muito pequenas e lá havia falta de tudo (anos 70, depois da revolução, dá para lembrar? Até para comprar leite tínhamos de ir para a bicha muito cedo, logo de manhã) e nós tínhamos de levar de tudo aqui de Leiria, até a caminha da bebé e um aparelho de televisão que ia aos meus pés… Além de que não havia auto-estradas e as bichas eram intermináveis ali pela zona a Alcácer do Sal. Oito ou nove horas daqui até ao Algarve, com um calor insuportável que os carros não tinham ar condicionado e bem encolhidinhos no carro, as crianças no colo, chegavam ali à Batalha e já iam a perguntar se ainda faltava muito para vermos o mar…

Que folclore!!

Ponte velha de Alcácer do Sal 
(imagem daqui)



sábado, 21 de novembro de 2015

Como Cavaco gostava de ver o MacGyver!!


Quem não se lembra dos episódios do habilidoso MacGyver, exímio em inventar geringonças, que passavam aos domingos à tarde em finais da década de 1980? E quem não se lembra também como tão do agrado era do "nosso" atual "presidente" da República, que à época, habitava - com mais tónus e também com mais milhões que jorravam da Europa - o Palácio de São Bento?

Lembrei-me disso quando li a crónica que Pacheco Pereira (voz verdadeiramente insuspeita!) escreveu no Público que está, diga-se de passagem, um verdadeiro mimo. 

Vale a pena ler-se. Passo então a transcrever na íntegra:


«A caracterização do eventual governo do PS como uma “geringonça” foi feita por Vasco Pulido Valente e repetida com evidente gozo por Portas, dando o mote para vários deputados do CDS que costumam repetir o chefe. Muito bem, não me parece que haja qualquer problema em aceitar a classificação, tanto mais que ela não é tão pejorativa como eles pensam. Mas proponho outra simétrica para o governo PSD-CDS, muito menos ambígua e que não há imaginação criadora que lhe encontre qualquer sentido positivo: a avantesma. A geringonça apareceu para que não nos assombre a avantesma.

Geringonça não é uma designação tão má como isso. É verdade que é “coisa mal feita, caranguejola, obra armada no ar”. Mas perguntem ao MacGyver e dêem-lhe um canivete suíço. A primeira máquina a vapor, a primeira lâmpada, o avião dos irmãos Wright podiam ser designadas como geringonças, mas as máquinas a vapor, as lâmpadas e os aviões que vieram a seguir já não eram geringonças. O governo minoritário do centro-esquerda do PS com a apoio parlamentar do BE e do PCP ainda é uma geringonça, mas quanto mais baixas forem as expectativas mais a geringonça se pode transformar numa máquina a sério. Ou talvez não.

Mas, o governo tombado na Assembleia não é uma geringonça, é já uma máquina a sério, com quase cinco anos de experiência, e é por isso que a continuidade da direita no poder foi sentida como sendo tão assustadora que conseguiu que o MacGyver invisível da esquerda, à pressa, construísse com o seu canivete suíço, a geringonça.

É que, para uma maioria dos portugueses, que votou “contra o governo” – insisto a única interpretação sólida dos 62% de votos –, ficarem lá “os mesmos”, seria o pior dos pecados e é essa força invisível e visível que permitiu a geringonça. É também por isso que o cimento da geringonça não está nos acordos, nos “papéis” como diz pejorativamente a direita, mas no que permitiu que eles se fizessem.

Vamos à avantesma. Os nossos dicionários são inequívocos “aparição de uma pessoa morta”, “pessoa ou objecto assustador, disforme ou demasiado grande”. Morto está, mas o Presidente da República ainda lhe permite que mexa, para ainda maior susto dos portugueses. Mete medo? Mete e ainda devia meter mais. Todo o processo da avantesma, o seu “conceito” como agora se diz, está bem explícito na história da devolução dos 35% da sobrecarga do IRS, que agora se verifica ser zero. Porque é que a história da devolução do IRS fantasma está na massa do sangue da avantesma? Porque foi isso que reiteradamente semana sim, semana sim, a coligação fez nestes últimos quatro anos e continua a fazer como quem respira.

É a mentira muito comum na esfera pública e política? É. Há uns especialistas na mentira que estão agora a contas com a justiça e que vinham do lado da geringonça. Mas isso não justifica o uso sistemático da mentira como mecanismo de governação, com a agravante de que uma comunicação social que nunca esteve tão perto do poder, em particular no chamado jornalismo económico, mas não só, dá uma amplificação enorme a estas mentiras. Transformaram-se naquilo que é o mais próximo que já alguma vez conhecemos, do “pensamento único”. E o “único” tem muita força, mas é do domínio dos “objectos disformes”, “demasiado grandes”, das avantesmas.

Denunciei várias vezes que se estava a criar artificialmente um panorama paradisíaco da situação económica portuguesa para efeitos eleitorais, e que iríamos ter um despertar abrupto depois do dia 4 de Outubro. Assim foi. Não o disse porque tinha qualquer varinha mágica ou informação privilegiada para o afirmar. Bastava somar dois e dois e verificar que não davam quatro e as coisas não encaixavam. A pergunta certa é por que razão não se fazia a soma a ver o que é que dava?

Mas a voz do governo e dos interesses que com ele se fundiam, funcionavam como um megafone ensurdecedor. Hoje, que se começa a perceber melhor qual era a verdadeira situação orçamental, os números preocupantes sobre a evolução da economia portuguesa, as prevenções do Banco de Portugal, o que está a acontecer com o Novo Banco e com a TAP, a censura dos números sobre a emigração, ainda vamos ver culpar retrospectivamente a esquerda pelos números negativos. Aliás, não é “vamos ver”, é “já vimos”, porque já vi o desplante de um jornalista da área económica de um grande jornal, dizer que a culpa destes números, no caso do IRS que fugiu, foi “das eleições”.

Foi, aliás, por estas e por tantas outras que me surpreendeu que o Presidente da República, na sua nova e inventada Câmara Corporativa, se tenha esquecido de ouvir os jornalistas de economia que, salvo honrosas excepções, se comprometeram a fundo nos últimos anos na interpretação do “ajustamento” que fez a coligação PSD-CDS. Eles lhe diriam certamente que o maior crime que se pode fazer à economia é aumentar o rendimento das pessoas e das famílias, em vez das empresas. Eles lhe diriam que a “reversão” da legislação laboral, um dos terrores dos empresários que acompanham Passos e Portas, tornará as empresas ingovernáveis e dificultará essa maravilhosa opção que é despedir. Eles lhe diriam que tentar no meio de muitos constrangimentos, olhar de forma dedicada e voluntariosa, para medidas moderadas destinadas a melhorar a qualidade de vida dos portugueses, é um projecto comunista. E eles lhe diriam, como aliás já li, que Hollande pode – como um mau exemplo a exorcizar – dizer que não vai cumprir o Tratado Orçamental, para gastar mais em defesa da França, mas nem pensar pôr em causa as “orientações”, como lhe chama o Presidente, da “Europa” a Portugal. E eu a pensar que o único senhor das “orientações” era o povo português, votando. Mas isso já não se usa.

Por isso, a queda do governo foi também a queda do “seu” governo, com ele perderam a face e a independência, e reflectem também muita da raiva que anda por esses lados.

A geringonça é um frágil meio de combater a avantesma, mas hoje não há outro para reequilibrar o sistema político puxado violentamente à direita. Talvez o melhor exemplo dessa viragem à direita esteja no número de vozes que afirmam alto e bom som que preferem um governo de gestão sabendo bem de mais os estragos que isso trará à economia, à paz civil e à legalidade democrática. É que a avantesma alimenta-se do “único”, do “não há alternativa”, do direito natural e irrevogável de governarem, para si e para os seus.

Se gosta de ser enganado, junte-se ao exército dos mortos vivos, mas não se esqueça em Janeiro de 2016 de ir lá buscar a reposição dos 35%. Sim, porque para si, nem Passos, nem Portas, nem Albuquerque, iriam fazer essa coisa socratista de mentir para ganhar eleições.

É que a avantesma, mete medo e deve meter medo. Não me canso de dizer, é perigosa, muito capaz na defesa dos seus interesses, com enormes recursos, com muitas contas a ajustar, e muitas velhas e novas mentiras para dizer.

E deve-se ser implacável com a geringonça, para que não se parta por dentro, já que por fora vai respirar ácido sulfúrico.

Ou que esperam da avantesma que é do domínio do enxofre? Sim, daquele enxofre que vem na Bíblia.»


segunda-feira, 30 de março de 2015

A Hora H

Encantou-me o texto de SérgioFigueiredo (gosto muito de o ler às segundas-feiras) hoje no DN sobre a morte do poeta Herberto Hélder. Da mesma forma que o encantou a ele a crónica que Pedro Santos Guerreiro sobre o assunto escreveu no Expresso do passado sábado.

Não vou aqui falar sobre o poeta nem sobre o seu desaparecimento primeiro porque sei pouco acerca da sua poesia e depois porque qualquer dos meus citados o fez já bem por de mais.

O que me encantou mesmo foi a humildade com que aceitou que o texto de Santos Guerreiro lhe banalizara o seu projeto de escrita sobre Herberto Hélder.

Mas do que gostei mesmo, mesmo foi a acusação que o autor faz, de dedo em riste, aos “intelectuais” da praça quando diz:

«Outros exercícios intelectuais enojam-me. A soberba. A arrogante apropriação do poeta, da obra, do homem que nem os queria por perto. Mas sobretudo pela falta de exemplo. Escritores revoltados? Só se for com a vidinha que levam.

No centenário de Orpheu, Herberto morreu. Mas é a vanguarda cultural que, em tempos de crise, há muito desapareceu. Sem combate. Sem sequer "dar uma bofetada no gosto público", como Almada Negreiros, recorrendo a Maiakovski, definiu o grupo a que Pessoa, Sá Carneiro, Amadeo, Santa Rita e ele mesmo pertencia. Cem anos passaram e os intelectuais portugueses estão calados. É o mais dramático dos falecimentos: não estão mortos, estão calados.

A Geração de Orpheu agitou as águas, era subversiva, deliberadamente escandalosa, ameaçava as convenções sociais e incomodava a burguesia do princípio do século XX. É cruel e trágica a causa mais nobre da elite amorfa, apática, medíocre e desistente dos nossos tempos.

Herberto apenas queria que o deixassem em paz. Ignorava o sistema, que era a melhor forma de o subverter. Aqueles que agora o evocam, pretensos indignados, simplesmente tudo fazem para continuar a ser parte dele

(sublinhados meus)


(Principais figuras da geração Orpheu)


quarta-feira, 25 de março de 2015

Os cofres cheios



Muito se tem dito e escrito acerca desta (e de outras) bacorada(s) que a ministra (esta sim) sinistra lançou boca fora para os jotinhas do partido, mas ninguém de uma forma (quase) literária como só BB sabe fazê-lo! A crónica chama-se «O Insulto» e vale a pena lê-la.

É sempre um prazer lê-lo! Só lamento que tenha de ser naquele jornaleco de baixo nível.

«Num conclave do PSD, Passos Coelho apareceu na defesa da ministra Maria Luís, a qual, dias antes, trémula de orgulho, afirmara, à puridade, que o Governo tinha os cofres cheios de dinheiro.

E Passos, muito feliz, acrescentou: ao contrário do que sucedia com o Governo anterior. Como o têm dito economistas de todas as cores, a verdade não é esta, e a teoria da bancarrota só faz sentido para quem é mentiroso, e usa o imbróglio como lança para alcançar ou permanecer no mando.

Infelizmente, este Governo, com as práticas demonstradas ao longo de quatro anos pavorosos, repletos de escândalos, de confrontos com a própria noção de república, tem sido, é, o maior aborto democrático e o mais grave insulto a todos nós. (...)

Talvez estejamos no turbilhão de uma profunda mudança, cujas conveniências escapam ao modelo de humanismo no qual, mal ou bem, temos vivido.

Inclino-me a admitir o facto. Mas também não conjecturo um grupo de serventuários tão inepto e iletrado como este a servir essa transformação.

Se o faz, desobedecendo ou ignorando as leis da convivência social e da cordialidade mais rudimentares, dá como resultado a frase execranda de Maria Luís e o apoio despudorado de Pedro Passos Coelho.

Portugal estrebucha na miséria, com fome, sem esperança e sem norte, e aqueles dois bolçam em nós o critério do cofre cheio, como no tempo do Salazar.

Com, entre outras, uma diferença: o Salazar era um conhecedor da língua, por frequentador diurno e nocturno do Padre Vieira, e aqueles que tais nem sabem quem este foi.

A pátria está dividida, mas o desvio de vida e de consciência acabará, talvez mais cedo do que se pensa, e o episódio Passos Coelho e os seus, não serão mais do que isso mesmo: um episódio. Nefasto, bem entendido, mas episódio, circunscrito a um tempo em que a mentira vicejou."

(Baptista-Bastos, in CM, 25/03/2015)

terça-feira, 10 de março de 2015

O «politicamente correto»

Insuportável a expressão bem como o conceito do «politicamente correto». À semelhança da «assertividade» (de que falarei noutra altura) soa a hipocrisia, soa a falso. 

Encontrei uma definição de «politicamente correto» que acho por de mais completa; dizem ser de um aluno da Universidade de Griffith, na Austrália e diz assim: «Politicamente correcto é uma doutrina, sustentada por uma minoria iludida e sem lógica, que foi rapidamente promovida pelos meios de comunicação, e que sustenta a ideia de que é perfeitamente possível pegar num pedaço de merda pelo lado limpo.»

Admiro os articulistas que, nos jornais, fazem o seu comentário ou dão a sua opinião da forma mais escorreita possível sem problemas de «politicamente correto». Admirava as opiniões de Baptista-Bastos como admiro a forma desassombrada com que Pedro Marques Lopes, um PSD assumido, todos os domingos "derrete" (quase) todos os políticos, ou melhor, aquela espécie de políticos, em que ele próprio votou.


Esta semana, ataca (aquela espécie de) primeiro-ministro apresentando uma dualidade entre o Passos Coelho primeiro-ministro e o Passos Coelho cidadão concluindo: «Ao Passos cidadão, homem consciente das suas imperfeições, humilde, avesso ao puritanismo, com noção de que a importância dos pecados muda com o tempo, não perdoaria o Passos Coelho primeiro-ministro. Estou aliás convencido de que ultimamente quando olha para o espelho e vê o cidadão Pedro Passos Coelho lhe diz: "És um piegas, pá."»


Entretanto, e a propósito do caso das dívidas à Segurança Social do dito pm, aponta o dedo ao ministro da Segurança Social e a Cavaco que vieram, pressurosos, defender "o seu menino"...

Só uma coisa com a qual não posso concordar: é que termina a crónica dizendo: «Ao que Cavaco Silva chegou.» Por mim penso que Cavaco Silva sempre assim foi. Pequenino, mesquinho, tendencioso, pretensioso, preconceituoso. Vil.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A estupidez à solta

Normalmente não gosto das crónicas que Vasco Pulido Valente escreve no Público nas quais, altivamente, ele dispara em todas as direcções zurzindo, à esquerda e à direita, os seus odiozinhos de estimação que, de uma maneira geral, não correspondem aos meus…  Desta vez, porém, diz na sua crónica de hoje exactamente aquilo que eu penso e defendo e fá-lo de forma tão “assertiva” dentro daquele seu estilo contundente e feroz (que tantas vezes me irrita…) que não resisto a citá-lo aqui.

Diz ele:


«Dezenas de analfabetos que gostam de se dar ares fizeram um escândalo com o aparente excesso de erros de ortografia, pontuação e sintaxe dos 2490 professores que se apresentaram à “Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades” (PACC). Deus lhes dê juízo.

Para começar, não há em Portugal uma ortografia estabelecida pelo uso ou pela autoridade. Antes do acordo com o Brasil – um inqualificável gesto de servilismo e de ganância –, já era tudo uma confusão. Hoje, mesmo nos jornais, muita gente se sente obrigada a declarar que espécie de ortografia escolheu. Pior ainda, as regras de pontuação e de sintaxe variam de tal maneira que se tornaram largamente arbitrárias. Já para não falar na redundância e na impropriedade da língua pública que por aí se usa, nas legendas da televisão, que transformaram o português numa caricatura de si próprio; ou na importação sistemática de anglicismos, derivados do “baixo” inglês da economia e de Bruxelas.

De qualquer maneira, a pergunta da PACC em que os professores mais falharam acabou por ser a seguinte: “O seleccionador nacional convocou 17 jogadores para o próximo jogo de futebol (para que seria?). Destes 17 jogadores, 6 ficarão no banco como suplentes. Supondo que o seleccionador pode escolher os seis suplentes sem qualquer critério que restrinja a sua escolha, poderemos afirmar que o número de grupos diferentes de jogadores suplentes (é inferior, superior ou igual) ao número de grupos diferentes de jogadores efectivos.” Excepto se a palavra “grupo” designar um conceito matemático universalmente conhecido, a pergunta não faz sentido. Grupos de quê? De jogadores de ataque, de médios, de defesas? Grupos dos que jogam no estrangeiro e dos que, por acaso, jogam aqui? Não se sabe e não existe maneira de descobrir ou de responder. O dr. Crato perdeu a cabeça.

Na terceira pergunta em que os professores mais falharam, o dr. Crato agarrou nas considerações tristemente acéfalas de um cavalheiro americano sobre “impressão e fabrico” de livros. Esse cavalheiro pensa que há “livros em que a beleza é um desiderato” (ou seja, a beleza do objecto) e outros “em que o encanto não é factor de importância material” (em inglês, “material” não significa o que o autor da PACC manifestamente julga). E o homenzinho acrescenta pressurosamente: “Quando tentamos uma classificação, a distinção parece assentar entre uma obra útil e uma obra de arte literária”. A obra de arte pede beleza ao tipógrafo (ao tipógrafo?), a obra útil só pede “legibilidade e comodidade de consulta”. Perante este extraordinário cretinismo, a PACC exige que os professores digam se o “excerto” “ilustra” os dois termos de uma comparação, o primeiro, o segundo ou nenhum deles. 

Uma pessoa pasma como indivíduos com tão pouca educação e tão pouca inteligência se atrevem a “avaliar” alguém.»

(sublinhados meus)