terça-feira, 27 de junho de 2017

O vale das hortas

O vale das hortas verdes no centro rural de S. Pedro de Muel por trás do belo Largo fronteiro ao areal, de que ainda me lembro nos anos 70 cheio de hortinhas de verduras das que agora se chamam biológicas, tinha uma lavadouro daqueles com pedras para bater a roupa e água corrente. 

Mercê da modernização dos espaços, o vale das hortas deu lugar a uma belo parque para passear, ler, descansar, apanhar o fresco, com um espaço para as crianças esticarem os braços e as pernas e, ao fundo, lá está o lavadouro para lembrar o tempo das lavadeiras. 








O lavadouro foi revestido no seu interior com painéis de azulejos com pequenos trechos de poemas de Afonso Lopes Vieira, o eterno apaixonado de S. Pedro.








A propósito das lavadeiras, Fernando Pessoa escreveu assim:

«Lavadeira a bater roupa
Na pedra que está na água,
Achas a minha mágoa pouca?
É muito tudo o que é mágoa.»


E assim:

«A lavadeira no tanque
Bate roupa em pedra bem.
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe;
Por isso é alegre também.

Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela fez,
Eu perderia talvez
Os meus destinos diversos.

Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade. . .
Quem me lava o coração?»


Mas como calar aqui a poesia de Vieira se ela se respira no ar de S. Pedro?


NO TRONCO DUM PINHEIRO DA FLORESTA

A infinita frase dos pinhaes
cantou embaladora à minha infância,
e ficou em minha alma a ressonância
destas religiosas catedraes…

Em cada inverno as árvores doridas
fogem do mundo, deixam-no sozinho;
só estas, sempre fielmente erguidas,
mantêm no mesmo gesto igual carinho.

Verdes amigos certos para a gente,
têm a constância na adversidade,
dão a saude e ensinam a bondade,
— a Bondade: justiça sorridente.

(in O Pão e as Rosas,)


Porém, com poesia ou apesar dela, os miúdos divertiram-se por ali.








segunda-feira, 26 de junho de 2017

Publicidade Pingo Doce na Holanda

Eu sei que este vídeo é antigo, mas a pouca vergonha do merceeiro Alexandre continua atual. Depois criou a Fundação - que durante anos foi dirigida pelo Sr António Barreto e pelo seu enorme ressentimento - e pensa que está tudo pago ao país...

O texto é da autoria de Rui Zink.



domingo, 25 de junho de 2017

Era disto que eu precisava!


Que me limpassem os miolos...





sábado, 24 de junho de 2017

São João

A nossa amiga blogger ematejoca lançou-me o repto na minha publicação do dia de Santo António de saber de um poeta nascido no dia de São João.

A minha "investigação" foi muito superficial, por isso não encontrei nenhum nome dos que me agradam.

Voltou a aparecer-me a poesia de Pessoa que, por ser dos que me agradam muito, mesmo muito, deixo-o aqui  acompanhado de Caeiro.


Noite de S. João

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"


Do longo poema São João do Pessoa ortónimo, transcrevo um excerto (de uma parte menos agressiva...) 


(...) Es um rapaz ainda menino
Que tem por missão boa,
Por missão sorridente e socegada
Ter ao collo um cordeiro pequenino.

Lá o que esse cordeiro significa
Não tem cheiro
Para o povo, que tem a alma rica
Da emoção que não conhece.
Para elle o cordeiro é um cordeiro,
E o menino sorri e a vida esquece.




O resto são fogueiras
E os saltos dados a gritar
Com um medo exaggerado
Feito tudo de maneira
A mostrar
O riso, as pernas e o agrado.
E quente e anonyma a aragem,
Tudo é juventude e viço
Num arraial multicolor e vasto.
Bonito serviço
Como homenagem
A quem, ainda com cabeça, foi um casto!

(…)

(ortografia anterior ao acordo ortográfico de 1945)

Para ler o poema completo clique aqui.


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Prémio Camões




Só que ainda não tive tempo de falar aqui do Prémio Camões deste ano (29ª edição) atribuído, no passado dia 8, ao poeta Manuel Alegre. E muito justamente.

Ao lado de poetas e escritores portugueses de alto nível como Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Saramago, Eduardo Lourenço, Agustina, Lobo Antunes, Sophia e de muitos outros grandes cultores da Língua Portuguesa do Brasil, de Moçambique, de Cabo-Verde, Manuel Alegre entra para esta galeria aos 81 anos de idade e mais de 50 de escrita publicada.

O que mais me encanta nesta atribuição é o cruzamento constante da sua poesia – tantas vezes épica – com a do nosso poeta maior. Como Camões, também Alegre foi um poeta exilado.


Lusíada Exilado

(…)
Há nevoeiro em mim. Dentro de abril dezembro.
Quem nunca fui é um grito na memória.
E há um naufrágio em mim se de quem fui me lembro
há uma história por contar na minha história.

Trago no rosto a marca do chicote.
Cicatrizes as minha condecorações.
Nas minhas mãos é que é verdade D. Quixote
trago na boca um verso de Camões.

Sou este camponês que foi ao mar
lavrou as ondas e mondou a espuma
e andou achando como a vindimar
terra plantada sobre o vento e a bruma.

Sou este marinheiro que ficou em terra
lavrando a mágoa como se lavrar
não fosse mais do que a perdida guerra
entre o não ser na terra e o ser no mar.

(…)
Eu que fundei Lisboa e ando a perdê-la em cada
viagem. (Pátria-Penélope bordando à espera.)
Eu que já fui Ulisses. (Ai do lusíada:
roubaram-lhe Lisboa e a primavera.)

Eu que trago no corpo a marca do chicote
eu que trago na boca um verso de Camões
eu é que sou capaz de ser o D. Quixote
que nunca mais confunda moinhos e ladrões.

Eu que fiz tudo e nunca tive nada
eu que trago nas mãos o meu país
eu que sou esta árvore arrancada
este lusíada sem pátria em Paris.

Eu que não tenho o mar nem Portugal.
(E foi meu sangue o vinho meu suor o pão.)
Eu que só tenho as lágrimas de sal
que me deixou el-rei Sebastião.

Lusíada exilado. (E em Portugal: muralhas.)
Se eu agora morresse sabia por quê.
Venham tormentas e punhais. Quero batalhas.
Eu que sou Portugal quero viver de pé.

In 30 Anos de Poesia, 1996


E sobre Luís de Camões, escreveu assim:

Tinha uma flauta.
Não tinha mais nada mas tinha uma flauta
tinha um órgão no sangue uma fonte de música
tinha uma flauta.

Os outros armavam-se mas ele não:
tinha uma flauta.
Os outros jogavam perdiam ganhavam
tinham Madrid e tinham Lisboa
tinham escravos na Índia mas ele não:
tinha uma flauta.

Tinham navios tinham soldados
tinham palácios e tinham forcas
tinham igrejas e tribunais
mas ele não:
tinha uma flauta.

Só ele Príncipe.

(…)

De fora vieram reis
vieram armas de fora
os príncipes entregaram armas
ficou sem armas o povo.
As armas de fora venceram
todas as armas de dentro.
Só não venceram o que não tinha armas:
tinha uma flauta.

E as vozes de fora mandaram
calar as vozes de dentro.
Só não puderam calar aquela flauta.
Vieram juízes e cadeias.
Mas a flauta cantava.

(…)
E quando tudo se perdeu
ficou a arma do que não tinha armas:
tinha uma flauta.

Ficou uma flauta que cantava.
E era uma Pátria.

In  “A Praça da Canção” , 1967

"Estendida nesta linha de influências e modelos, a poesia de Manuel Alegre faz ressurgir a voz de Camões numa espécie de canto geral da condição lusíada. Épica naquilo que tem de exaltar, lírica na voz sofrida daquele que busca e não encontra o sentido dessa condição; eis uma poesia que pesquisa a raiz ancestral do ser, a origem da grandeza ética." (João de Melo, 1989)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Estórias? Nunca!



Tropeço constantemente na palavra «estórias» - que abomino.

Como em tantas coisas na vida de todos os dias, também gostamos/usamos mais umas palavras do que outras e eu, exagerada como já deu para ver que sou, detesto a palavra «estórias». Talvez um estudo de caso para os psicolinguistas…

A minha embirração por esta palavra tem a ver com o nacional-parolismo de que sofremos de usar estrangeirismos a torto e a direito para parecermos mais letrado, mais conhecedores. Ai, ai! De sábado para cá, entro – por razões trágicas de mais – a moda dos «briefings». Mas uma das maiores parolices – entre paletes de muitas outras – é a utilização em massa do anglicismo «timing» que é usado como sinónimo de tempo… Já para não falar nos «mídia»…

Enfim.

Hoje dei outra vez de caras com a dita palavra «estórias» num jornal aqui da terra e pensei e até verbalizei: «a birra que sinto contra esta palavra deve ser idêntica à birra que os que dizem Não ao NAO sentem por ele….»

Só que o Acordo Ortográfico é mais um ajustamento da grafia – e desde o início do século XX que se fazem esses ajustamentos. Entre «história» e «estória» – que têm o mesmo étimo grego – pretende-se imitar a diferença entre as palavras inglesas «story» e «history», ou imitar a diferença semântica utilizada no português do Brasil.

Já no século XIX o “bom” Ega/Eça dizia: «… este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro – modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha… Sòmente, como lhe falta o sentimento da proporção e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno, muito civilizado – exagera o modelo, de forma-o, estraga-o até à caricatura.»


(In Os Maias, Edição «Livros do Brasil», Lisboa, pág. 703)


Para saber mais sobre a palavra «estória» clique aqui. 


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Loucuras de Verão

Primeiro dia de Verão. Curiosamente bem mais fresco que os últimos desta Primavera.

Depois de tudo, a lembrança desta musiquinha louca que conta as loucuras dos dias de Verão dos loucos tempos de 60/70.

Esta, do estilo skiffle*, foi mesmo editada em 1970 e foi um sucesso em Inglaterra e nos Estados Unidos. E por cá também, que eu bem me lembro... e até tenho o single...

Alguém se lembra?



* skiffle - música folk com influência de jazz e blues.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Aquecimento global

Texto recebido do nosso querido amigo blogger Rui da Fonte.

«As alterações climáticas que produziram um dia como o de sábado em meados de Junho ameaçam destruir a floresta portuguesa. E perante a iminência de um cataclismo desta dimensão, o país tem de ir muito para lá das perguntas de contexto ou da justa expressão das dores do momento: precisa de uma energia, de uma determinação e de um conjunto de meios para debelar o problema que parece estar para lá das nossas capacidades actuais.

Ainda assim, parece cada vez mais claro, a intervenção no ordenamento florestal tal como a conhecemos, parece cada vez mais condenada a resumir-se a uma medida paliativa para um problema de dimensões colossais. O planeta está a aquecer, Portugal está a aquecer e as nossas florestas, altamente vulneráveis ao fogo, parecem ser as primeiras vítimas dessas mudanças profundas. Um incêndio com as proporções do deste sábado em meados de Junho é algo inimaginável na geração dos nossos avós. E um dia nesta estação com tão altas temperaturas e zero humidade é uma circunstância meteorológica que vai tornar-se num novo normal. O pinhal em Pedrógão ardeu como ardeu porque não há defesa natural possível a um fenómeno desta intensidade.

Não sabemos se teremos recursos, energia, meios humanos, ciência ou perseverança para responder a esse dramático desafio. Soubemos sim com o fogo descontrolado deste sábado no Pinhal Interior que o aquecimento global está a tornar a aposta em leis avulsas para os proprietários ou estratégicas de combate com o nome de grandes operações militares num esforço condenado a fracassar.

Não está em causa a culpa ou a omissão dos políticos, dos proprietários florestais ou dos bombeiros: está em causa a constatação de que há uma ameaça que elevou a sua escala de periculosidade e de destruição e a noção de que, nas circunstâncias actuais, não temos forma de a travar.

Está na hora de tomarmos consciência do que nos espera. De ano para ano a temperatura vai subir e cada vez mais horrores como o de Pedrógão hão-de repetir-se. Não está em causa uma fatalidade. Está apenas em cima da mesa a pergunta dolorosa: seremos, colectivamente, capazes de encontrar meios para enfrentar um tão grande desafio?»

Manuel Carvalho – Público




segunda-feira, 19 de junho de 2017

Poema da Morte na Estrada

Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.

A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.

Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo sem ceder nem um palmo de terra.

Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.

Eles bem sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam.
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.

Agora,
na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos.

António Gedeão, in 'Linhas de Força'




domingo, 18 de junho de 2017

Profundo pesar

“É triste pensar que a natureza fala e que o género humano não a ouve.” (Victor Hugo)




"Não é a Terra que é frágil. Nós é que somos frágeis. A natureza tem resistido a catástrofes muito piores do que as que produzimos. Nada do que fazemos destruirá a natureza. Mas podemos facilmente destruir-nos. (James Lovelock, ambientalista)




“Se por amor às florestas um homem caminha por elas metade do dia, corre o risco de ser considerado um vagabundo. Mas se usa seu tempo para especular, ceifando a mata e tornando a terra careca antes do que deveria, ele é visto como um cidadão industrioso e empreendedor.”  (Henry David Thoreau)





“A natureza tem uma estrutura feminina: não sabe se defender mas sabe se vingar como ninguém.” (Marina da Silva)




“Nesses tempos de céus de cinzas e chumbos, nós precisamos de árvores desesperadamente verdes.” (Mário Quintana)




“Só quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o último rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro.” (Provérbio indígena)




Simplesmente trágico. A minha solidariedade, a minha compaixão, todo o meu pensamento e carinho estão com aquelas pessoas que estão a passar por este enorme provação e naqueles lugares que tantas vezes visitei no cumprimento da minha atividade. 



sábado, 17 de junho de 2017

Por outro lado...

Os meus planos de aula de Inglês começavam sempre pelas Assumptions que o mesmo é dizer dados adquiridos. De facto nada acontece do nada, tudo tem uma ligação, uma associação com o passado próximo ou distante. E hoje, as minhas Assumptions são as seguintes e para que constem: (i) reconheço a importância e a necessidade de se decretarem greves; (ii) fui, desde os inícios das atividades sindicais logo após a Revolução, professora “grevista” num tempo em que tivemos forçosamente de organizar a nossa vida profissional que até então se desenrolava num pano de fundo sem lei nem grei…

Então agora vamos ao que interessa. Tenho vindo a acompanhar as notícias sobre o bendito anúncio de greve de professores feito pelo senhor Mário Fenprof para o próximo dia 21, dia em que se realizam provas de exame nacionais e provas de aferição. Muito bem!

Analisemos então os motivos que levam ao anúncio de greve. Reorganização da estrutura da profissão de professor e dos horários de trabalho? Alargamento e/ou abertura de quadros de escola que se foram fechando desde há pelo menos dez anos? Aumento da contratação de professores para fazer face ao ainda tremendo insucesso escolar? Diminuição do número de alunos por turma? Diminuição da carga burocrática que se tem vindo a abater sobre o pessoal docente? NÃO! Os motivos são: o descongelamento da carreira e o regime especial de aposentação. Motivos importantes? SIM, sem dúvida. Mas não agora que se está a reverter a situação das devoluções dos direitos que foram furiosamente arrancados aos professores (e não só). Devagar, mas em marcha.

A opinião pública – leia-se nomeadamente pais e encarregados de educação – também ela fortemente penalizada pelos cortes nas suas carreiras e nas suas vida brutalmente realizados pelas forças ultraliberais que (des)governaram o país  não é capaz de entender os motivos desta greve. Eu, pessoalmente, também não e tenho filhos e familiares próximos professores. Ora o ónus da questão vai recair sobre quem? Sobre os professores grevistas. Não sobre o senhor Mário Fenprof que, no tempo em que tudo foi retirado aos professores andava caladinho e completamente desaparecido!

Não esqueço, não posso esquecer a raiva cega que o senhor Mário Fenprof instilou nos professores (e eles, coitados, tão pequeninos, também se deixaram facilmente instilar…) contra a ministra Maria de Lurdes Rodrigues. Foi essa raiva cega, esse ódio inspirado que não deu para reconhecer no senhor Mário Fenprof relativamente ao ministro (C)rato. Tendências…

Será que temos de concluir que as greves violentas (sim, porque marcar greve para dias de exames é violento e só se aceita se o motivo também tiver sido violento!) são para ser usadas apenas contra governos do PS?
De igual modo, vemos os senhores procuradores, os senhores magistrados, os senhores juízes, os senhores oficiais de Justiça cheios de vontade de paralisar as eleições autárquicas porque o documento da revisão do Estatuto das suas carreiras ainda tarda a ser concluído pela Ministra da Justiça. Por acaso, dá vontade de rir… Qual é o atraso dos tribunais em geral na análise e decisão dos processos que lá entram? E os prazos não são “apenas indicativos” segundo os senhores juízes?

Por outro lado, também não me lembro de ver anunciadas greves e outras ações de protesto por parte dos magistrados ou dos oficiais de Justiça quando o anterior governo fechou tribunais, transferiu (e perdeu) processos, deslocou o pessoal para longe de casa e sei lá o que mais…

Assim que vemos uma abertazinha na prepotência e na arbitrariedade e um leve abrandamento no chicote, vai de reclamar. Dê lá por onde der e doa a quem doer… Como alguém diz: «Fortes a reclamar, fracos a obedecer!»

Não somos um povo sério!

Lamento.


Ontem fui ao teatro

Já aqui disse que nunca fui grande fã de teatro. Contar uma história, uma situação, uma ideia para mim, é no cinema ou num livro bem escrito.

Quando morávamos em Lisboa, fomos algumas vezes ao Monumental, ao Maria Matos, ao Villaret ver algumas boas peças. Uma delas foi «Quem tem medo de Virginia Woolf?», do dramaturgo norte-americano Edward Albee (1928-2016), que vimos no saudoso Teatro Monumental, em 1971, ano em que nos casámos, com as excelentes atuações de Glória de Matos (Martha) e Jacinto Ramos (George) com encenação de João Vieira.

Antes, tínhamos visto o filme (que arrebatou cinco óscares) com o mesmo nome com as interpretações da grande e lindíssima Elizabeth Taylor contracenando com o marido Richard Burton.

Ora ontem houve teatro em Leiria. Veio a peça «Quem tem medo de Virginia Woolf?» que tem estado em exibição no Teatro Trindade, em Lisboa, interpretada por Diogo Infante e Alexandra Lencastre nos papéis principais e nós lá fomos. Foi bom. O Diogo Infante (George) está sempre muito bem em qualquer papel e a Alexandra Lencastre (Martha) tem todo o à-vontade em palco. O jovem casal que alterna com eles também vai muito bem.

Mas, de facto, o grande protagonista da peça é o argumento em si. Trata-se de um drama psicológico bem ao estilo da literatura norte-americana dos anos sessenta do século passado que põe a nu os medos, as frustrações, os fantasmas de cada uma das personagens. Isto é feito numa linguagem e com comportamentos de grande agressividade ente Martha e George: ele,  um professor algo decadente numa universidade cujo diretor é o autoritário pai de Martha, na presença de um jovem casal, ele  - Nick - professor recém-contratado para a universidade e ela, uma jovem dona de casa simples e pouco letrada, com o adequado nome de Honey.

A peça tenta explorar de forma impiedosa os pontos fracos das pessoas a partir dos mais íntimos segredos de cada uma dos personagens o que cria um clima de grande tensão no grupo – mais no jovem casal do que nos veteranos que estão habituados a jogar estes jogos entre si.

O título tem a ver com uma brincadeira quebra-gelo que tinha tido lugar na festa de receção aos novos professores da universidade da qual as personagens principais regressam bem embriagadas e é um trocadilho entre o nome da bem conhecida escritora inglesa Virginia Woolf e a canção do desenho animado de Walt Disney «Quem tem medo do lobo mau?», em inglês «Who’s afraid of the big bad wolf?» que também aponta para a simbologia do lobo e dos medos íntimos de cada um de nós.

Muito interessante. Se puderem, gostarem e tiverem oportunidade, não deixem de ir ver.




quarta-feira, 14 de junho de 2017

Fernando Pessoa e o Santo António

Foi exatamente no dia de Santo António que Fernando Pessoa nasceu. Em 13 de Junho de 1888. Há 129 anos.


E, sensível como era, o poeta não ficou indiferente a esse facto. Escreveu mesmo um enorme poema de que deixo aqui alguns excertos.


«Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.


(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
(…)

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.
(…)

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.
(…)

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?


O poema completo fica aqui

terça-feira, 13 de junho de 2017

Marchas de Lisboa

E que tal darmos uma vista de olhos pelas marchas de Lisboa do antigamente?
Que diferença!!

Não resisti à ternura da marchinha de Vasco Santana e Beatriz Costa na Canção de Lisboa, 1924. Uma delícia!

E depois um mix das marchas de 1940 - o ano auge da propaganda do auto-proclamado Estado Novo. 

Muitos recordarão ainda algumas das músicas.








segunda-feira, 12 de junho de 2017

Noites de Santo António

Hoje deu-me para isto - trovas a Santo António...
Quem quiser e tiver jeito, fica desde já convidado a acrescentar outras trovas a estas...


Ó noites de Santo António
Dos arquinhos e balões
Desejo de matrimónio
A pular nos corações!

Naquele tempo era certo
Qualquer jovem namorado
Que tivesse a moça por perto
Era casamento aprontado.

E elas, tontas de todo,
Em tudo acreditavam.
No dia seguinte, era o choro
Nunca mais os encontravam…

Iam chorar junto ao santo
Pedindo milagre d’amor
E com todo aquele encanto
Das moças cheias de dor

O santo casamenteiro
Prometia o que podia
Nem sempre sendo certeiro
O milagre que fazia…

Mas isto era antigamente
Nos tempos medievais
Agora é bem diferente
As moças sabem de mais…

As noites de Santo António
As novas noites de Lisboa
São levadas do demónio
Com vinho, sardinhas e broa!