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terça-feira, 5 de maio de 2020

Dia Mundial da Língua Portuguesa

espanto é o tema do livro de Raul Brandão que ando a ler, Húmus. Foi publicado em 1917, em inícios da fase Modernista e - na minha modesta opinião - nada fica a dever às obras modernistas, até mesmo em relação ao Livro do Desassossego de Pessoa/Bernardo Soares. 

Neste campeia o desassossego; em Húmus, campeia o espanto.


«E ainda o que nos vale são as palavras, para termos a que nos agarrar.»

«Na aparência é a insignificância a lei da vida; é a insignificância que governa a vila.»

«Só a insignificância nos permite viver:»

«A vila é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro

«Em certas ocasiões, se as palavras e a insignificância desaparecessem a via, só ficava de pé o espanto.»

(fragmentos de «Húmus» de Raul Brandão, 1917)

....

Espanto foi o que eu, já nesse tempo amante da bela Língua Portuguesa, senti quando, aí pelos meus 17 anos li, pela primeira vez, aquele que ainda hoje considero um dos mais belos textos escritos em português e que hoje deixo aqui como homenagem à nossa bela Língua Portuguesa.

«Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!»

 (Almada Negreiros)



quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Ainda e sempre a nossa Língua

Reparem bem, meus amigos, no título deste desenho que descobri numa exposição de trabalhos antigos ali na galeria do antigo Banco de Portugal.

Viaducto no Valle d'Alcantara



Não estava datado, mas, pela ortografia usada, é com certeza anterior ao acordo ortográfico de 1911.

Imagine-se o que os contemporâneos desse acordo tiveram de gritar e barafustar quando se passou a escrever Viaduto do Vale de Alcântara...

Se não houvesse reformas ortográficas ainda estaríamos a escrever em galaico-português...

Boa noute... :)))



sábado, 22 de setembro de 2018

Ai coitada da nossa Língua!


Podem os meus amigos ficar descansados que, por agora, não vou voltar ao acordo ortográfico, nem vou repetir que há na Língua aspetos mais determinantes que a ortografia.

Hoje realizou-se a festa do 21º aniversário do Museu Escolar de Marrazes em Leiria do qual, de alguma forma, faço parte. É habitual apresentar-se um tema relacionado com a escola e com a educação sobre o qual um ou dois convidados falam, seguindo-se uma visita ao Museu e um simpático beberete. Muitas vezes assiste-se a um momento musical ou de bailado. Este ano tivemos um grupo de jovens da Filarmónica que apresentou três belos temas de jazz.

O tema escolhido para este ano foi a Telescola – e porque há que ligar o Museu à atualidade para não dar a impressão que ficou preso nas teias do antigamente, pensou-se relacionar aquela realidade mais antiga com o atual e-learning a chamou-se ao evento “Ensino a Distância: da Telescola ao e- learning”.

A diretora técnica do Museu, que faz o favor de confiar no meu parco conhecimento da gramática, pôs-me a questão: “ensino à distância” ou “ensino a distância”?  Naturalmente que defendi a contração da preposição a com o determinante artigo definido a o que dá à – à distância, claro! O problema é que os documentos emanados do ensino superior que falam do e-learning que encontrámos pela net fazem-no em termos de a distância. E lá saiu o convite para a festa de aniversário com “ensino a distância” com a boca bem fechadinha –que é este o nosso destino: fecharmos as vogais o mais possível, não sei porquê…

Hoje, antes do evento, tive oportunidade de questionar a amável Professora Doutora que veio falar sobre o e-learning acerca da razão de usarem o “ensino a distância”. Parece-me que ficou um tudo nada perplexa, mas tratou de me explicar que foi para, de algum modo, encurtar as distâncias…

Deu-me vontade de rir… Lembrei-me logo da Costa de Caparica…

Assim se dão as evoluções semânticas – aos saltos!

Assim evolui a Língua – as Línguas – aos saltos…

















Algum dos meus amigos frequentou a telescola?

E já experimentaram o ensino a distância ou à distância?!  :))

sábado, 5 de maio de 2018

Dia da Língua Portuguesa

O jornal lembrou-me que era hoje o seu dia: Dia da Língua Portuguesa.

Eu sei que este dia existe e que foi criado em 2009 pela CPLP e até tinha já pensado num texto bem antigo para o celebrar. Agora o que me pareceu sempre improvável era encontrar um texto de homenagem à nossa bela e vetusta língua numa secção de economia do jornal…

Para mim a disciplina de economia é intragável, por isso raramente – para não dizer nunca – leio artigos sobre essa matéria. Mas… ao desfolhar a secção Mais Artes, deparei-me com este título:

Língua portuguesa, hoje é o teu dia!

Aí tive de “travar” e ler. Começa assim:

«Foi com as ondas do mar que a Língua Portuguesa aprendeu os seus requebros, a sua plasticidade. Foi pelas ondas do mar que viajou, marcando cada lugar que tocava; misturando-se, transformando-se, multiplicando-se. Há 600 anos, atirou-se ao mar para ser do mundo. Musical, suave e sonora, foi a primeira língua franca falada em todos os continentes. Desse legado há palavras Portuguesas usadas em mais de 60 línguas, só no japonês são 90. Falada no Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Guiné-Bissau, a Língua Portuguesa é o mais valioso recurso endógeno de uma comunidade de 280 milhões de pessoas. A 5ª língua mais falada no planeta, a 3ª no hemisfério ocidental, e a 1ª no hemisfério sul.

Se o objetivo de uma marca plural é agregar diferenças culturais, a nossa língua é a marca mais global da nossa identidade. Este tesouro multinacional, como qualquer fortuna, tem de ser acautelado, potenciado, alimentado. Temos de promover, divulgar, cuidar nas escolas, no espaço mediático, nos documentos oficiais, nas falas públicas; utilizando-a como pilar e fator de desenvolvimento transnacional. (…)

Valorizar este património é defender a nossa posição cultural e económica. É defender os interesses estratégicos comuns a todos os países de língua oficial Portuguesa. É assegurar que a nossa presença planetária não se resume a uma memória, mas um fator de continuidade e de futuro lusófono. (…)

… e termina desta forma quase épica:

(…) «Nada nos une mais que a língua de Camões; o herói que escreveu o nosso futuro e nos deixou um apelo a uma nova partida, a uma nova esperança, a uma nova lusofonia. Importa que não nos esqueçamos que os Lusíadas somos nós e que a língua Portuguesa é a nossa alma, a nossa moeda, a nossa marca. Parabéns, vives em mim, vemo-nos todos os dias, mas hoje, é o teu dia!»

(Carlos Coelho, Gestão das Marcas de Portugal, DN)





quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Dia Internacional da Língua Materna

O Dia Internacional da Língua Moderna foi proclamado pela UNESCO em 1999 com o objetivo de proteger e salvaguardar as línguas faladas em todo o planeta.

A escolha do dia 21 de fevereiro para comemorar o Dia Internacional da Língua Materna serve para lembrar a população mundial da tragédia que ocorreu em fevereiro de 1952, na cidade de Daca, no Bangladesh. Vários estudantes foram mortos pela polícia enquanto protestavam pelo reconhecimento da sua língua - o bengalês - como um dos dois idiomas oficiais do então Paquistão.

A nossa bela Língua Materna é falada nos vários continentes, sendo em cada um deles “adoçada” pelos respigos culturais de cada um desses grupos de falantes. Não é a “língua de Camões” como tantos gostam de a apodar e definir. É a língua de todos e cada um de nós que a usamos – melhor ou pior – a cada dia que passa. Isso é que faz a sua riqueza, a sua diversidade.



E, por muito que eu goste dos escritos de Camões – e mais ainda de Pessoa – não é a nenhum deles que recorro para, hoje, celebrar a nossa bela Língua Materna.

Deixo dois textos que li ainda muito jovem (o primeiro fazia parte do meu livro de Leituras da 4ª classe) que me fascinaram e de que nunca mais me esqueci.

O estatuário

«Arranca o estatuário uma pedra destas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem: primeiro, membro a membro e, depois, feição por feição, até à mais miúda. Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos. Aqui desprega, ali arruga, acolá recama. E fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.

O mesmo será cá, se a vossa indústria não faltar à graça divina. É uma pedra, como dizeis, esse índio rude? Pois trabalhai e continuai com ele (que nada se faz sem trabalho e perseverança), aplicai o cinzel um dia e outro dia, daí uma martelada e outra martelada, e vós vereis como dessa pedra tosca e informe fazeis, não só um homem, senão um cristão, e pode ser que um santo.»

(Padre António Vieira, pregando em defesa dos índios brasileiros - in Sermão do Espírito Santo)

Uma flor

«Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!»

(Almada Negreiros in "O Regresso ou o Homem Sentado - III parte")



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Do telejornal das 8

A notícia tinha a ver com os incendiários que foram apanhados este Verão – alguns deles “repetentes”. Contavam-se pelos sessenta e tal homens e treze mulheres. E aí o apresentador/jornalista tratou de falar no psicólogo da PJ. Não consegui ouvir o que o psicólogo terá feito ou irá fazer porque me pus, ato contínuo, a vociferar!

Psicólogo, psicólogo! Eu lhes dava o psicólogo! E desculpem-me a violência ou a ausência do “politicamente correto”, mas por causa de tanto psicólogo e de tanta lei a proteger os direitos de não sei quem…  e mais não sei o quê e mais os paninhos quentes com que nos habituaram (por medo, por ignorância ou por incúria até) a tratar os prevaricadores é que chegamos aos limites ou muitos para lá dos limites do humanamente e do socialmente aceitável. No caso dos incêndios e não só!

Disse!

Ah, mas depois o dito apresentador/jornalista/escrevinhador lá continuou com as notícias e, a propósito do enfermeiro alemão acusado de matar dezenas de pessoas com overdose de medicamentos, o dito apresentador, naquele seu ar teatral cheio de  trejeitos com os olhos e de entoações do discurso, saiu-se com a seguinte “bojarda”:  «O enfermeiro terá morto mais de trinta pessoas!!!»

Terá morto?! Terá morto? – senhor apresentador/jornalista/escrevinhador? Ou terá querido dizer: terá matado? É que se trata de um tempo composto pelo que deverá usar-se o particípio passado normal. Enfim… sem importância…

Depois o telejornal passou a mostrar os passeios da Senhora Cristas por Mação, bem como o discurso do presidente CDS da dita vila ribatejana a zurzir o governo por causa do incêndios, que eu já ouvira em todos os telejornais anteriores, ou seja, propaganda eleitoral do partido em questão, seguido de uma arrastada e desenxabida reportagem sobre a importantíssima universidade de Verão do PSD na qual iam ser apresentados quase todos os betinhos participantes, ou seja, propaganda eleitoral do PSD…  Nada de novo no canal público… e eu decidi passar para o Canal Panda ou para o futebol… esses, ao menos, não apresentam “propaganda institucional” dos partidos … do sistema!




quinta-feira, 22 de junho de 2017

Estórias? Nunca!



Tropeço constantemente na palavra «estórias» - que abomino.

Como em tantas coisas na vida de todos os dias, também gostamos/usamos mais umas palavras do que outras e eu, exagerada como já deu para ver que sou, detesto a palavra «estórias». Talvez um estudo de caso para os psicolinguistas…

A minha embirração por esta palavra tem a ver com o nacional-parolismo de que sofremos de usar estrangeirismos a torto e a direito para parecermos mais letrado, mais conhecedores. Ai, ai! De sábado para cá, entro – por razões trágicas de mais – a moda dos «briefings». Mas uma das maiores parolices – entre paletes de muitas outras – é a utilização em massa do anglicismo «timing» que é usado como sinónimo de tempo… Já para não falar nos «mídia»…

Enfim.

Hoje dei outra vez de caras com a dita palavra «estórias» num jornal aqui da terra e pensei e até verbalizei: «a birra que sinto contra esta palavra deve ser idêntica à birra que os que dizem Não ao NAO sentem por ele….»

Só que o Acordo Ortográfico é mais um ajustamento da grafia – e desde o início do século XX que se fazem esses ajustamentos. Entre «história» e «estória» – que têm o mesmo étimo grego – pretende-se imitar a diferença entre as palavras inglesas «story» e «history», ou imitar a diferença semântica utilizada no português do Brasil.

Já no século XIX o “bom” Ega/Eça dizia: «… este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro – modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha… Sòmente, como lhe falta o sentimento da proporção e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno, muito civilizado – exagera o modelo, de forma-o, estraga-o até à caricatura.»


(In Os Maias, Edição «Livros do Brasil», Lisboa, pág. 703)


Para saber mais sobre a palavra «estória» clique aqui. 


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Dia Internacional da Língua Materna

Comemorou-se ontem. Mais um Dia de. Ontem foi a vez da Língua Materna, uma realidade por de mais importante na vida dos povos.

O Dia Internacional da Língua Materna foi instituído em 1999 na Conferência Geral da UNESCO. Teve a sua origem no Dia do Movimento da Língua celebrado em Bangladesh desde 1952.

O principal objetivo é promover a diversidade cultural linguística e alertar para as tradições linguísticas e culturais. 

Para celebrar, uma vez mais, a nossa Língua Materna, deixo aqui uma excelente prova de como a nossa língua materna é bela, doce e dúctil. 


Poesia, saudade da prosa

Poesia, saudade da prosa;
escrevia "tu", escrevia "rosa";
mas nada me pertencia,

nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava ou o que sabia.

E se regressava pelo
mesmo caminho
não encontrava

senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,

o rio não era o rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?

(Manuel António Pina,1999)



terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Ainda (e sempre) o acordo ortográfico

Assiste-se a uma nova movimentação (ou será sempre a mesma?) para a anulação do último acordo ortográfico. Que me desculpem talvez a brutalidade da expressão, mas as razões apresentadas para que tal aconteça até me dão volta ao estômago!

Ando a reler as «Lendas e Narrativas» de Herculano e convido os defensores do Não a lerem-nas na escrita do autor de meados de 1800…  Mas em vez de me pôr aqui a perorar sobre motivos e fundamentos sobre os acordos ortográficos que já se realizaram, deixo-vos um texto maravilhoso e até divertido de Francisco José Viegas que li na Ler deste Inverno.

«Por falar em língua – na Língua Portuguesa, permitam-me que lembre que o AO não é o nosso maior problema, nunca foi. Enquanto milhares de portugueses prometiam acorrentar-se às consoantes mudas em protesto, desculpavam-se erros de palmatória de português básico em documentos oficiais, em legendas e rodapés da televisão pública (onde, entre tantos provedores, nunca se encontrou ninguém para aplicar corretivos) ou na avaliação de testes nas escolas (houve inclusive, nos idos de 1990, uma nota distribuídas aos professores para não assinalarem erros ortográficos nas provas de avaliação porque isso seria traumatizante).

Comparando o léxico de Mau Tempo no Canal, de 1944, com o romance de um autor contemporâneo, percebe-se que desapareceu cerca de 20% do vocabulário. A língua portuguesa está confinada ao seu ersatz, um substituto ligeiro, uma língua de anúncios de aeroporto, de fala de supermercado.

A escola é muito responsável por este desastre, preferindo a pobreza do léxico, desculpabilizando os erros, desejando agradar à vulgaridade, parlapatando – esquecendo que quem fala e escreve mal, pensa mal. Para o sistema educativo fazer algo pela defesa da Língua Portuguesa? Duvido. Veja-se este pedaço de, por assim dizer, «competência linguística» do Ministério da Educação num texto sobre educação de adultos: «Este programa deverá assentar numa maior integração das respostas na perspetiva de quem se dirige ao sistema, tornando, na ótica do formando, coerente e unificada a rede e o portefólio dos percursos formativos, que no percurso individual devem ser passíveis de combinação personalizada.» Não há ortografia que lhe valha.

As novilínguas tecnocráticas que os analfabetos popularizam são também um elemento a ter em conta para a perda de identidade da língua. Mesmo desculpando «gentrificação» para significar «gentrification», do inglês (gentry), que vem do francês arcaico (genterise) – ocupação do centro das cidades por gente rica – é estranho ouvir uma pessoa altamente colocada a defender a necessidade de discutir a genderificação (do inglês gender, género) uma vez que há cargos muito genderificados. Semanas antes ouvi uma senhora exigir mais empoderamento (empowerment) para as mulheres e que ela própria tinha contribuído para empoderar mulheres num país latino-americano , e – entretanto – o presidente da Câmara de Valongo publicou um livro sobre política onde insistia na necessidade em «empoderar os cidadãos do concelho», coisa que os deve alegrar. Depois, há «os cidadãos e as cidadãs» que dizem aitem em vez de item (um pronome demonstrativo latino) – e o horror ameaça não ter fim, a avaliar pela forma como toda a gente encolhe os ombros.»

Francisco José Viegas, Revista Ler, Inverno 2016/2017




segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A cassete

Eu conhecia a cassete audio,
a cassete de vídeo,
a cassete pirata, 
a cassete do PC...

mas pão cassete só vi no outro dia ali no supermercado...



... mas não toca, nem passa imagens, nem fala...

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Que bom é viver em Lisboa!

Entre hoje, dia 23, e quarta-feira, está a realizar-se na Academia das Ciências de Lisboa, um colóquio internacional subordinado ao tema «A língua Portuguesa nos dias de hoje», promovido pelo Instituto de Lexicologia e Lexicografia daquela Academia. A entrada é livre.

Hoje, de manhã e de tarde, o subtema foi “Empobrecimento dos recursos lexicais e da expressão”. Amanhã, dia 24, de manhã, falar-se-á da “Escolarização do português” e, de tarde, o assunto em debate será “Traduções e outras questões técnicas”.

No dia 25, apenas de manhã, falar-se-á de “Dicionários e vocabulários”, com a participação do professor Malaca Casteleiro entre outros estudiosos. Os trabalhos serão concluídos com as intervenções do presidente da Academia Brasileira de Letras, Domício Proença Filho, e do presidente da Academia das Ciências que promoveu o evento, Artur Anselmo.

Tanto que eu gostava de assistir, como aliás a tantos outros eventos do estilo e não só…  Que bom é viver em Lisboa!

Mas, entretanto, pergunto-me: quantos dos auto-proclamados «defensores da bela língua de Camões», moradores em Lisboa, e que tanto se assanham com este acordo ortográfico – este, porque não conheceram os anteriores, ou talvez nem tivessem ainda pensado que já houve outros anteriores, sei lá! – aproveitarão para ir ouvir falar quem sabe sobre a nossa bela língua portuguesa? 




quinta-feira, 12 de maio de 2016

Sobre o modo conjuntivo

Sabemos bem que grande parte de nós não se dá bem com o modo conjuntivo. E eu digo «nós» apenas para não parecer arrogante, que a minha vontade era mesmo dizer «grande parte dos portugueses» ou até mesmo «dos tugas». São muitos os opositores do acordo ortográfico de 1990 – daqueles que dizem que defendem a «bela língua de Camões» - que surpreendemos a mal-usar e a maltratar o pobre do conjuntivo…

Em boa verdade o modo verbal do conjuntivo é uma das grandes dores de cabeça de professores – e alunos – das línguas de origem latina. Sim, que a culpa é apenas e só mesmo do raço do latim. Veja-se o inglês, uma língua de estrutura gramatical tão mais simples – por isso se tornou “língua universal” – se não arrasou com o modo conjuntivo, nivelando-o com o modo indicativo que é bem mais simples e mais simpático… Por isso, em tempos, quando os miúdos no 5º ano ainda escolhiam entre o estudo do Francês ou do Inglês, nas primeiras aulas nós lhes perguntávamos «Então porque escolheste o Inglês?» e eles, inocentes, coitadinhos, respondiam «Porque não tem verbos»…

Bom, mas todo este intróito apenas porque esta manhã, enquanto me dedicava àquelas tarefas domésticas (terrivelmente execráveis e deprimentes, diga-se) de varrer, lavar, arrumar, me lembrei de uma daquelas canções portuguesas, portuguesinhas, dos idos de 50 que dizia: «Ai se os meus olhos falassem, amor…»

Por essa época, anos 50, tempos da minha 1ª/2ª classes, viemos viver aqui para a Vieira de Leiria (oh como eu estava predestinada!...) porque o meu pai veio trabalhar para os escritórios da fábrica de limas dos Feteiras. A vida era tão, mas tão diferente daquilo a que estávamos habituados em Lisboa que nos arranjaram uma criadita (entenda-se que era assim que se dizia nesse tempo), a Diamantina, uma jovenzinha que mais não tinha do que treze ou catorze anos e cujo percurso escolar desconheço em absoluto para minha mãe nas limpezas, ir encher os cântaros com água (à picota), levar-me e buscar-me à escola (que a menina não podia andar sozinha por aqueles caminhos…) Deus do céu, o que aprendi com ela sobre aspetos da vida na aldeia!

Ora acontecia que a Diamantina cantava muito enquanto lavava e limpava. E uma das suas canções favoritas, que ela cantava com um enorme fervor, era exatamente aquela «Ai se os meus olhos falassem, amor». Só que ela – e lá vem o malvado do modo conjuntivo – cantava, quase gritando: «Ai se os meus olhos falassam amor, talvez a ti te contassam o que eu não conto a ninguém…»

Por muito que o meu pai e a minha mãe – que era professora – a emendassem e a fizessem repetir a forma verbal corretamente, ela nunca conseguiu cantarolar a canção em bom conjuntivo…





terça-feira, 10 de maio de 2016

Palavras

Nada seríamos sem as palavras. São o grande prodígio da criação humana. Uma arte. Como arte é saber usá-las. Para o bem e para o mal.

«Vivemos de palavras. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem.» (Raul Brandão)

«As palavras são a nossa condenação. Com palavras se ama, com palavras se odeia. E, suprema irrisão, ama-se e odeia-se com as mesmas palavras!» (Eugénio de Andrade)


quinta-feira, 5 de maio de 2016

À Língua Portuguesa

Comemora-se hoje mais um Dia da Língua Portuguesa e da Cultura

Esta data comemorativa foi instituída a 20 de julho de 2009, por resolução da XIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da organização, realizada na Cidade da Praia, Cabo Verde. Esta decisão fundamenta-se no facto de a língua portuguesa constituir, entre os povos da comunidade, “um vínculo histórico e um património comum resultantes de uma convivência multissecular que deve ser valorizada”.

ver mais em:




“Da minha língua vê-se o mar.
Da minha língua ouve-se o seu rumor,
como da de outros se ouvirá o da floresta
ou o silêncio do deserto.

Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação”.

(Vergílio Ferreira)



Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela

Amo-te assim, desconhecida e obscura
Tuba de algo clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Olavo Bilac, in "Poesias" 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Finisterra

(Lagoa dos Teixoeiros ou da Mata; Tocha; Cantanhede
onde Carlos de Oliveira viveu)

Recordo sempre «Uma Abelha na Chuva» (19 53) como um dos melhores romances que li. Foi de tal modo que, no fim de uma daquelas excelentes formações que tive em Lisboa sobre essa obra, ainda no âmbito da Reforma Viga Simão, em finais de 70, fui à (saudosa) Sá da Costa, comprei o livro e li-o quase todo de enfiada na viagem de comboio para Leiria.

Há dias li não sei onde que a obra-prima de Carlos de Oliveira em prosa não fora «Uma Abelha na Chuva», nem «Casa na Duna» (1943), mas «Finisterra» (1978). E aí me mandei eu para a Biblioteca Municipal para requisitar o dito romance.

Comecei a lê-lo assim que cheguei a casa e garanto-vos que na página trinta e tal ainda não tinha percebido nada. Só que não era capaz de parar à espera que, ao virar de página ou de linha, me aparecesse uma ponta da meada para começar a (des)enrolar o novelo. Nada!

A voracidade com que li «Uma Abelha na Chuva» foi a mesma com que li «Finisterra». Mas enquanto da primeira vez eu avançava célere para conhecer o enredo, agora, lia para entender a construção da narrativa. Copiei frases, palavras-chave, ideias e quando ao fim da tarde do dia seguinte cheguei ao fim das suas 180 páginas, voltei ao princípio – como tantas vezes me acontece no final da leitura de tantas obras – para completar as notas que avulsamente fui tirando e, saltitando atrás e à frente, reli o livro todo.

Cola-se-nos como o líquido pastoso da gisandra – planta ou mineral? não se sabe – que perpassa toda a obra se cola à casa e à narrativa, enfim.. É que toda aquela arquitetura do romance que se aprendia na faculdade sobre as personagens, o narrador, o espaço, o tempo e a ação cai por terra nesta obra. Trata-se da verdadeira desconstrução do romance numa perpetiva neo-realista da fase tardia do Modernismo em Portugal.

«Finisterra» - fim do mundo – tem como subtítulo «Paisagem e Povoamento» e é toda ela mais descrição da paisagem e da forma como foi povoada pela família em questão. E é dentro dessa descrição algo caótica e enigmática que nos são contados em constantes e nublados avanços e recuos os contornos da família que povoou a paisagem e construiu a casa. [“A casa, vista de fora, impressiona. Fortaleza, resistindo aos impulsos da névoa. Fantástica, também: o halo, o contorno fosforescente…”] A casa está em ruínas como a família – ou o que dela resta e… (não vou dizer como termina…)

O narrador (um ou vários, vá-se lá saber…) tanto fala como narrador (em 3ª pessoa) como personagem (em 1ª pessoa) e isso acontece muitas vezes quase dentro da mesma frase.

As personagens não têm nome, apenas lhes é referido o laço familiar. Há a criança “sentada no osso de baleia” no jardim a desenhar, quase sempre febril, que alterna com o homem adulto (a mesma personagem diga-se) “a vaguear toda a noite” pela casa e “vai a caminho da infância, duplica a própria imagem regressivamente”. Há o pai, a mãe, o tio – a memória do avô povoador, o amigo da família e o executor fiscal – todos apresentados quase como silhuetas rodeadas de névoa e de uma reverberação enigmática.

O leit motiv da narrativa – que é a obsessão de toda a família –  é o registo da imagem: da casa, das dunas, da lagoa, do jardim, quer pelo desenho (a criança), pela fotografia (o pai), pela pirogravura em carneira (a mãe), pela topografia, a maquete (pelo homem adulto – que é afinal a criança e muitas vezes o narrador.) Mas tudo desfocado, moldado pelo orvalho, pela névoa do mar e das dunas, pelo vento, por um halo de luz, pela penumbra, pelos jogos de sombras em labaredas, a madrugada e o crepúsculo.

Tudo muito misterioso, muito enigmático num desconcerto de tempo e de espaço, mas com uma linguagem poética de índole romântica pelo assunto, mas modernista pela forma, num jogo de cores, de luz e contraluz, de fluidez, de bruma e encantamento que fazem lembrar a ambiência dos tempos de Merlin e das maléficas deusas de Avalon.

(Amanhecer na Lagoa dos Teixoeiros, Tocha)

Poderia estar aqui a falar desta obra por mais sei lá quantas páginas, mas não o farei sob pena de…

Quem gostar e se atrever, leia a obra. É um espanto em termos de literatura e de língua. De Língua Portuguesa.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Ainda a questão da língua

Como prometi na entrada de anteontem, trago aqui a posição do nosso Nobel da Literatura acerca da (pouca) importância que tem a ortografia (que é uma parte da gramática) no amplo universo da língua. Noutra altura trarei outros textos de grandes figuras das nossas letras para corroborarem esta ideia.

«Num programa de televisão em que se abordava a questão do acordo ortográfico, José Saramago disse: «Aprendi a escrever mãe com “e” no final, depois veio uma reforma e tive de aprender a escrever com “i” no final, veio mais uma reforma e voltou a ser com “e” no final. E com essas mudanças a mãe, posso-vos garantir, era sempre a mesma. E agora se mudarem de novo ela só não é mais a mesma porque já morreu.»

Esta relação com a língua, que é mais do que a soma das palavras ou das suas regras, visível em quase todos os seus textos (mas principalmente em Memorial do Convento), foi seguramente aquilo que mais me marcou em José Saramago. A língua precisa de seus sinais para se constituir como língua, mas os sinais são apenas sinais e não a língua, são as roupas e não a pessoa que as veste. Com esta posição, Saramago perguntava (nos fazia perguntar) onde estava a língua. O que é a língua? A palavra aponta coisas. Stone em inglês aponta o mesmo que pedra em português. Mas muda assim tanto, se for pedra? (…)

A convenção das sinaléticas da língua não deve desviar a nossa atenção do principal da língua: o desvelar de nós e do mundo; que tanto mais intenso e profundo será quanto mais exercitamos a língua. Podemos talvez não conseguir libertar o país, o povo, nós mesmos, mas podemos e devemos libertar a língua.»

(Paulo José Miranda, in Palavras para José Saramago, Lisboa: Caminho. 2011)




sábado, 11 de abril de 2015

Ensinem esta gente a falar português!

Anda meio mundo por este «jardim à beira-mar plantado» a bater no acordo ortográfico de 1990 por causa de menos um p ou menos um c que nem se pronunciam inventando mentirinhas e falácias como aquela patetice do «cágado» e do «cagado» (porque a ignorância é tanta que nem sabem que as esdrúxulas são todas obrigatoriamente acentuadas) e ninguém se preocupa em ensinar esta juventude a falar convenientemente.

Hoje telefonei para um restaurante que vende refeições para fora a fazer uma encomenda para um quarto para uma e diz-me a menina que me atendeu lá do outro lado: «então isso é para as 12 e 45, não é?» Depois de lhe parecer que eu estaria a falar chinês, acabei por lá chegar à hora marcada (fosse ela qual fosse…) e nem pedido havia registado! Mas isso é outro assunto que nada tem a ver com o conhecimento da língua portuguesa…


(Casa da Música - foto de F. Mendes)

Ontem, como toda a gente sabe, celebraram-se os dez anos da inauguração da Casa da Música e a TVI, numa iniciativa muito louvável, juntou-se às comemorações fazendo um acompanhamento próximo, divulgando o espaço, a sua construção, concertos, como os visitantes são conduzidos pela Casa por guias que vão mostrando e explicando o que deve ser conhecido. Muito bem! Quando lá fui há cinco anos, infelizmente ainda não havia este serviço. O pior foi ver uma jovem guia, que parecia bem conhecedora e bem desembaraçada, dirigir-se ao grupo de visitantes por «Vocês»… Apanágio da gente nova e dos vendedores que levam «injeções» de marketing à americana, ninguém lhes diz que o tratamento por «você(s)» não deve ser utilizado com pessoas que não conhecemos – é extremamente indelicado!!

Isto para não falar na «perca» (que não do Nilo, mas de oportunidades ou de direitos) ou no «houveram» com que os “nossos” bem-falantes políticos nos brindam constantemente, ou na avalanche de termos americanos infiltrados por via das ciências da gestão e sem os quais parece que já ninguém consegue viver.


É que a nossa língua, a dita «língua de Camões» com que toda a gente enche a boca para enfatuadamente atacar o pobre do acordo ortográfico de 1990, não precisa de infiltrações americanas porque é rica e plástica de mais! O pior é que também é difícil de mais e muitas dessas pessoas não a conhece bem.


(Casa da Música - Reflexos - foto de F. Mendes)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Ai, a língua portuguesa!

Ouvi ontem o bolorento banqueiro Ulrich a dizer no telejornal: «Houveram bancos que…» quando se sabe que o verbo haver é um verbo impessoal que se usa apenas na 3ª pessoa do singular.

Outro dia atrás, na primeira página do meu jornal diário, vinha escarrapachado o título «Por   que o Brasil castiga as empresas portuguesas», quando deveria ser usada a forma «porque» tem um nexo causal. A forma separada «por que» usa-se em frases como «a razão por que …».

Algumas páginas à frente, numa entrevista a um ex-ministro, a primeira pergunta do jornalista começa assim: «Agrada-o que o Manifesto dos 74 (…) tenha chegado à Assembleia da República (…)?» Agrada-o? Agrada-o?! Então um profissional da língua não sabe quando há-de usar um complemento direto (o) ou um complemento indirecto (lhe)?

Noutro jornal daqui da cidade minha hospedeira pude ler outra pérola da língua que foi: «serviriam-lhes». É incrível a ignorância que envolve a pronominalização das formas verbais do futuro do indicativo e do condicional quer nos jornais, nas legendas e, no registo oral então, nem vale a pena falar!

Pior ainda é a importação de estruturas frásicas da língua inglesa e imediata colagem à nossa língua como é o caso do «É suposto» que é a tradução direta da passiva idiomática inglesa que não existe em português; e, mais irritante, a utilização do pronome «tu» em substituição da apassivante «se» que implica um maior esforço gramatical para o falante pouco conhecedor do funcionamento da língua. Por exemplo, para descrever um determinado procedimento, em vez de dizer «pegue-se em seis ovos, separem-se as gemas das claras, misture-se o açúcar com a farinha, utilize-se uma caçarola, etc…», o que implica a utilização do modo conjuntivo (que é uma dor de cabeça para muitos dos falantes) a pessoa – que se acha super-moderna – dirá: «tu pegas em seis ovos, separas as gemas das claras, misturas … etc, etc.»

E depois de todos estes atentados à nossa língua (e muitos, muitos outros) ainda há uma boa parte de pessoas, algumas das quais de elevado saber, que andam muito raladas com um «c» ou um «p» a mais ou a menos na ortografia de algumas palavras…





terça-feira, 5 de agosto de 2014

Dos seguros - parte II

Está na hora de me retractar do que aqui disse sobre os seguros (não sobre o Seguro, repito) na semana passada.

Dois dias passados sobre a minha conversa telefónica com o funcionário da seguradora que me atendeu e me foi dizendo que não tinha direito a nada e depois de eu lhe ter despejado em cima todo o meu educado sarcasmo, recebi a visita de um perito que conseguiu ainda vislumbrar o maravilhoso buraco aberto à porta de casa com os canos já reparados mas ainda à vista. Seco, sisudo mas ainda jovem, armado de computador, impressora, medidor electrónico e mais não sei o quê, depois de ver, fotografar, medir e remedir, perguntou se podia usar uma mesa onde dispôs toda a sua parafernália electrónica; fez cálculos e mais cálculo e depois de me perguntar se alguma vez tinha accionado o seguro e eu não, nunca, e ele, então como isto fica abaixo dos mil euros, vamos pagar-lhe X que dá à vontade para pagar as despesas.

Fiquei estupefacta! Assim, do nada…

Hoje fui à seguradora com a intenção (já antiga) de melhorar as condições do seguro – um upgrade….

Uma vez mais apreciei – sinceramente – os maneirismos de atendimento dos funcionários, digo, colaboradores, da seguradora: boa apresentação, cumprimentos de mão, tom modelado de voz, «peço desculpa», «dá-me licença», camisa azul anilado e gravata fininha… só que não há bela sem senão: a meio da explicação dos procedimentos e das hipóteses de mudança, o jovem colaborador diz-me: depois você vê o que prefere fazer.


Você? Deu-me vontade de lhe perguntar se por acaso tínhamos andado juntos na escola, mas refreei-me. Quando é que explicam a estes jovenzinhos, que se calhar até têm alguma licenciatura, que não se tratam os clientes, nem as pessoas que não conhecemos, nem as pessoas (muito) mais velhas por você?!


Que raiva! É que, além do mais, é mais um mau trato, um grande desconhecimento da nossa língua! Em português existem várias gradações no que toca à 2ª pessoa, especificidades que  a tornam complexa. Não é como na língua inglesa em que o you serve para todos os tratamentos entre as pessoas. E depois vêm-me com a teimosia de que umas alteraçõezinhas sem importância na ortografia de algumas palavras destratam a «bela língua de Camões»…