sábado, 16 de janeiro de 2016

Marcelo e as Tágides

Natália Correia sobre Marcelo Rebelo de Sousa

«o tal que um dia concorreu a presidente da autarquia de Lisboa».

MARCELO E AS TÁGIDES

Marcelo, em cupidez municipal
de coroar-se com louros alfacinhas,
atira-se valoroso - ó bacanal! -
ao leito húmido das Tágides daninhas.

Para conquistar as Musas de Camões
lança a este, Marcelo, um desafio:
Jogou-se ao verso o épico? Ilusões!...
Bate-o Marcelo que se joga ao rio.

E em eleitorais estrofes destemidas,
do autárquico sonho, o nadador
diz que curara as ninfas poluídas
com o milagre do seu corpo em flor.

Outros prodígios - dizem - congemina:
ir aos bairros da lata e ali, sem medo,
dormir para os limpar da vil vérmina
e triunfal ficar cheio de pulguedo.

Por fim, rumo ao céu, novo Gusmão
de asa delta a fazer de passarola,
sobrevoa Lisboa o passarão
e perde a pena que é de galinhola.

in INÉDITOS 1979/91




O que escreveria agora a Poeta se ainda se encontrasse entre nós?! 

Será que ainda veremos o candidato Marcelo a surfar a onda na Praia do Norte na Nazaré?

24 comentários:

  1. Não conhecia, confesso. A chancela de qualidade da enorme Natália Correia... Grato pela partilha - vou "roubar" :-)

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  2. Não conhecia e adorei a poesia, Graça!
    Natália Correia tinha uma veia poética incrível, satírica, mordaz e oportuna.
    Se não morássemos no mesmo bairro, também a levaria!

    Lembras-te do poema "Truca-Truca" que a Natália escreveu, em resposta a João Morgado, deputado da bancada parlamentar do CDS,
    aquando do debate sobre a legalização do aborto, no dia 3 de Abril de 1982?
    Um poema simplesmente genial!!

    Beijinhos.

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    1. Não poupava ninguém com a sua faca afiada... E escrevia como poucas.

      Beijinho.

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  3. A missão da Natália Correia era assombrar, espantar.

    A missão do Marcelo Rebelo de Sousa é assombrar, espantar a poetisa, ganhando as eleições no próximo dia 24.

    O que escreveria agora a Poetisa sobre o candidato do PS se ainda se encontrasse entre nós? Nada de bom, tenho a certeza.

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    1. Não a fazia tão grande defensora do Marcelo, ematejoca...

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    2. Não defendo o Marcelo, mas tenho a certeza que a Natália também não gostava do Sampaio da Nóvoa, caso se encontrasse entre nós.

      Não vou votar nem no Marcelo nem no Nódoa, mas vou votar no dia 24, cá no consulado.

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  4. Grande Natália !

    Já tinha lido este soberbo poema no blogue do Rogério e achei o máximo!
    Faz-nos falta a lucidez da Natália!

    Um beijinho

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  5. ~~~
    Genial, a nossa Natália, a Poeta!

    Até Salazar, o homúnculo, mandou libertá-la após a apreensão
    da farsa, por considerá-la «muito, muitíssimo inteligente».

    Noto na sua sátira, raízes da do Sadino, porém, sem recurso
    ao brejeiro...

    «Jogou-se ao verso o épico? Ilusões!...» - uma delícia!

    Mais do que nunca, tem andado a polir a sua aura de herói...

    ~~~ Beijinhos bem divertidos!l; )) ~~~

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    1. Tem andado a polir a sua aura e o povinho deixa-se cegar pelo brilho.... :(

      Beijinhos.

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  6. Natália Correia faz cá falta
    com sua verrina engenho e veia
    Como ela fazia nunca mais
    nem ele mergulha já em sapais

    Na Praia do Norte? Nem pensar.
    do que gosta são ondas e tricas...
    Da TVI é o último dos samurais
    que bebe chá com tias de Cascais.

    Boa semana, Graça.

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  7. Já conhecia o poema. Natália Correia era além de grande poetisa, uma mulher que sabia o que dizia e não tinha papas na língua.
    Um abraço e uma boa semana

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  8. Poemas são muito reveladores!
    "E em eleitorais estrofes destemidas,
    do autárquico sonho, o nadador
    diz que curara as ninfas poluídas
    com o milagre do seu corpo em flor."

    Ode à Vaidade!!

    Abraço.

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  9. Não conheço nenhum dos personagens, mas gosto do tom poético com que está escrito.
    Um abraço bem grande

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    1. Mas vale a pena tentar conhecer a poetisa, Duarte. Quanto ao candidato, se não o conhece também não perde nada...

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  10. Não conhecia, mas a Natália Correia era muito talentosa e conheceu bem o farsante
    Agradecida por nos ajudar a aguçar a memória e que alguém nos livre deste cromo.
    M.A.A.

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    1. Não sei se o conseguiremos, M.A.A. Mas livrarmo-nos de um um "palhaço" pobre para ganharmos um "palhaço" rico é mau de mais! (Isto sem ofensa aos palhaços, claro! Uso aqui a palavra no seu (pior) sentido conotativo...

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  11. Tenho a impressão que não seria tão corrosiva e, quiçá, fosse mesmo complacente...

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