terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Incapacidades...


Tenho a nítida noção das minhas limitações (que são muitas) e das minhas muitas incapacidades. O que não quer dizer que lide bem com elas…

Enfureço-me quando dou de caras com as dificuldades em levar a cabo determinadas tarefas. Uma delas é acender a lareira. Normalmente vejo-me grega para a pôr com uma labareda de jeito com recuperador e tudo. E eu que até sou capaz de fazer um belo de um cozido à portuguesa, ou uma boa feijoada, ou até umas jeitosas de umas broas castelar; eu que até sou capaz de comentar um texto de Lobo Antunes ou mesmo uma cantiga de amor à maneira provençal; eu que até sou mulher para levar uma turma de 9º ano a Londres, ou dirigir uma escolona daquelas, não sou capaz de acender a lareira e pô-la com uma labareda de jeito?

Enfureço-me, a sério que só me apetece atirar com as achas e as acendalhas pelo ar… e, por muitos raminhos secos que lhe junte, por muitas tabuinhas finas que lhe acrescente, por muitas acendalhas com que a incendeie, a safada da lenha não pega! Uma hora nisto é de mais!

E é aí que eu penso como é que os incêndios nas florestas podem começar com um cisquinho de nada? (Quase) não dá para acreditar...




sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Natal de outros tempos

O DN - agora apenas semanário - está a trazer-nos à memória textos do Natal de outros tempos. 

Esta ilustração a preto e branco foi publicada no DN de 25 de Dezembro de 1928 e, com desenho do ilustrador e pintor modernista Bernardo Marques (1898 - 1962) e texto da escritora Fernanda de Castro (1900 - 1994), mostra-nos os brinquedos que faziam as delícias das crianças daquele tempo.




De notar a ingenuidade dos versos que eram, de igual forma, dedicados às crianças...


O cavalinho de pau
não precisa de chicote.
No reino da fantasia
anda a galope, anda a trote.

O vaporzinho de lata
não receia o mar profundo
Adeus! Adeus! Vai partir
Para onde? Para o mundo!

O soldadinho de chumbo
vive contente, é feliz
na caixinha de cartão
que lhe serve de país. 

o comboio vai partir,
a vida é o fim da viagem...
Quem não quer ir para a vida?
Quem não compra uma passagem?

Ninguém sabe quantas voltas
uma bola dá no ar...
Também as voltas do mundo
ninguém as pode contar.

Com esta caixa de tintas
todos nós somos pintores...
A vida é negra? Que importa!
Vamos nós pintá-la a cores.

A bonequinha de loiça
que tem anéis e cordão
chapéu, sapatos, vestidos 
terá também coração?

(Fernanda de Castro)

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Então já é Natal (outra vez)


É por todo o lado! Parece que o Natal já chegou (outra vez)





Que é como quem diz...


Então já é Natal e o que têm feito?
Termina outro ano e outro está a chegar

E por isso é Natal, espero que se divirtam
Os próximos e os queridos, os velhos e os jovens

Um Natal muito, muito feliz e um bom Ano Novo
Esperemos que seja bom e sem quaisquer medos

E então é Natal, para os fracos e para os fortes (a guerra já acabou)
Para os ricos e para os pobres, a estrada é tão longa! (se vocês quiserem)

E então já é Natal, para os negros e para os brancos (a guerra já acabou))
Para os amarelos e para os vermelhos (se vocês quiserem)
Esperemos que terminem todas as guerras

Um Natal mesmo muito feliz e um bom Ano Novo (a guerra já acabou)
Esperemos que seja bom e sem quaisquer medos (se vocês quiserem)

Então já é Natal e o que têm feito?
Termina outro ano e outro está a chegar

E por isso feliz Natal esperamos que se divirtam
Os próximos e os queridos, os velhos e os jovens

Um Natal mesmo muito feliz
Esperemos que seja bom e sem quaisquer medos

E então já é Natal e o que é que temos feito?
Outro ano termina e outro está a chegar

John Winston Lennon / Yoko Ono




quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Um pedido de desculpas do tamanho do mundo


Sabemos todos nós que por aqui escrevemos que o fazemos para sermos lidos e disso termos algum retorno, que é, de facto, onde tenho vindo a falhar. Cada vez mais. Tenho falhado na visita e mais ainda nos comentários aos textos dos meus amigos bloggers.

Como publiquei há dias na minha página do facebook, «na escola ensinam-nos o passado simples, mas não o futuro complicado»...



 ... e, o facto é que, neste momento, o presente e o futuro cá em casa estão muito complicados. E, por isso especialmente, junto com todas as atividades em que (felizmente e ainda bem para distração do espírito) me envolvi, não encontro ânimo nem tempo para vos visitar e ler e comentar como muito bem merecem. Por isso vos peço muita desculpa.

Mas não me levem a mal se por aqui continuar a aparecer com um ou outro texto, uma ou outra música ou poema, ou até com uma ou outra brincadeira – há que manter as rotinas, fazer com que não se esqueçam de mim e aliviar o sufoco d’alma…





domingo, 25 de novembro de 2018

Não o fazem apenas os políticos...


Esta é mais uma história da minha rua.

A vizinha tinha (e tem) muito mau feitio. Diziam, por eufemismo, que “tinha o nariz arrebitado”. Eu, que sempre a conheci por dentro (e até gostava dela: se calhar ainda gosto, sei lá!) sempre achei que o fazia por grande défice de educação e de boas maneiras.

Por de mais autoritária, gritava tanto lá em casa que se ouvia em toda a vizinhança. Tudo a toque de caixa. A prole tinha-lhe um “respeitinho” exacerbado que os fazia obedecer-lhe ao minuto. Lá em casa não entrava (nem entra) ninguém – crianças então nem pensar – porque tudo estava (e está) museologicamente exposto sem lugar a mínimas mexedelas…

De um humor altamente variável, eram (e são…) mais as vezes que passa e quase não fala (ou não fala mesmo) às pessoas, mesmo as mais chegadas do que aquelas em que se digna notá-las. Algumas dessas vezes é capaz de falar sem parar, de contar chistes e de falar nos bons velhos tempos com a maior emoção.

Amigos fazia-os com grande facilidade e, enquanto lhe convinha eram umas amizades excessivas com encontros e prendas constantes, até ao dia em que, por qualquer motivo, se desagradava deles e pof! Acabavam-se as amizades…

Extremamente vaidosa e bastante conflituosa, sempre se arrogou o direito de desconfiar, julgar e maldizer quem quer que fosse – nomeadamente os que que eram mais próximos.

Daquelas pessoas com quem, apesar das prendas que, por vaidade, gosta(va) de distribuir pelo Natal, nunca se pôde, nem pode contar para nada.

Conseguiu, com os seus comportamentos desmedidamente azedos, afastar, ao longo dos tempos, os familiares jovens mais próximos que, já adultos, só lhe falam por educação.

Agora que – como a todos nós sempre acaba por acontecer – a Vida lhe tem desabado em cima com toda a espécie de maldades, quer dar uma imagem de santidade (que nunca se preocupou em ter) como aquelas pessoas que, para o fim da vida e com o terror da morte e da doença se viram para os deuses que sempre desprezaram. E trata de querer branquear todo um passado de desconformidade dizendo e repetindo: «que é que eu fiz, para merecer isto tudo?»; «qual foi o meu grande pecado?»

Entretanto, e perante educada indiferença com que é tratada por aqueles que toda a vida desfeiteou, lamenta e diz não entender as razões de tal distanciamento, de tal frieza de comportamentos… «Gostava de lhes perguntar que mal lhes fiz!» - reclama continuadamente.

Não são, de facto, apenas os políticos que pretendem branquear os erros passados…




sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Isto da Black Friday...


Sabe bem quem já me vai conhecendo que não me incomodam nada nem beliscam a minha noção de identidade nacional as «importações» de hábitos culturais como atualmente acontecem nomeadamente aqueles que nos invadem vindos dos países anglo-saxónicos.

Foi o caso do Hallowe’en e do Dia de São Valentim de que tanto acusam os professores de Inglês (touchée…) Antes disso tinha-se «importado» o Pai Natal no seu vistoso fato vermelho da Coca-Cola montado no seu belíssimo trenó puxado por pares de renas do Polo Norte…

(Isto para não falarmos da constante «importação» de termos e expressões inglesas que vão enxameando a nossa belíssima lexicologia sem que os abespinhados defensores da ortografia anterior a 1990 disso façam o mínimo caso!)

Agora temos de aguentar a interminável torrente dos afamados (mas enfezados) descontos da Black Friday…

Faz parte das minhas rotinas ir ao shopping à sexta-feira de manhã para dar uma volta pelas lojas e fazer as compras da semana. Hoje calhou-me a tal da Black Friday. Os descontos andavam na casa dos 20% - sei que, até ao Natal, hão de aparecer descontos muito mais vantajosos, mas o shopping estava cheio e as pessoas parecia que andavam maluquinhas...




domingo, 18 de novembro de 2018

Cai a chuva abandonada


Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'