terça-feira, 21 de maio de 2019

Que exagero!

Nada contra a equipa ganhadora do campeonato de futebol. Foi esta, ainda bem para os seus jogadores e para o seu jovem e esforçado treinador. 

Foi esta, mas até podia ter sido o Estrela da Amadora, ou o Esperança de Lagos ou o Sporting da Covilhã - os exageros teriam sido os mesmos, digo eu... Os exageros dos festejos, aquela alegria esfuziante e louca a que os adeptos de obrigam  - parece que lhes calhou o Euromilhões ou sei lá o quê...

Mas o pior, o piorzinho mesmo, é o exagero das televisões! Desde domino até hoje, os telejornais repetem a todas as horas e até à exaustão os golos, as declarações dos mandantes, a festa, a receção pelo Município e sei lá o que mais!

Não é exagero da minha parte, mas no domingo, na segunda-feira e ontem, à hora do almoço e ao jantar o mesmo, passei os canais todos até ao 8 e todos, sem exceção, estavam a passar e a repetir a grande vitória do clube de futebol! 

Nada contra o futebol. Nada contra as equipas ganhadoras, mas o que é demais enjoa. Não haverá nada de mais importante para transmitir?

Se calhar não... ou não convém...




É o que me ocorre...

sábado, 18 de maio de 2019

Cantiga de amigo

O meu doce amigo 
Que eu tanto queria,
Foi-se o outro dia
Sem falar comigo.

Lá leva consigo 
A minha vontade:
Fica-me a saudade
Do meu doce amigo.

O meu doce amigo
Que eu tanto amava,
Nunca me falava
Quando era comigo.

E levou consigo
Tudo quanto eu tinha:
Só saudade é minha
Por meu doce amigo.

(Jorge de Sena, in O Físico Prodigioso, 1960)




domingo, 12 de maio de 2019

Dia do silêncio

Dizem-me que passou há dias o Dia do Silêncio. Parece-me que foi a 7 deste mês e celebra-se com o objetivo de chamar a atenção para os efeitos da poluição sonora. 

Acho bem!

Mas eu que sou mais poesia (o Herman dizia que era mais bolos... e eu também, mas enfim...) procurei e achei lindos poemas sobre o silêncio: Pessoa, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Ramos Rosa e outros. Mas escolhi um de um poeta brasileiro - Manoel de Barros (1916-2014) que diz assim:

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


(Jardins da Gulbenkian)

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Nos 86 anos da Censura ou Lápis Azul

A Censura, cujo símbolo era o Lápis azul, foi legalmente instituída em 1933, embora já existisse uma Comissão da Censura criada em 22 de junho de 1926 que obrigava os jornais a submeter-lhe as suas notícias para avaliar os seus conteúdos. Aqueles que fossem contrários à ideologia  do regime ditatorial, eram cortados pelo dito lápis azul.

O mesmo passou a acontecer com os filmes estrangeiros e nacionais e com as obras dos escritores e poetas do país. Em 11 de Abril, há 86 anos, era promulgado o Decreto-Lei n.º 22469 que instituía a Censura com a finalidade "de evitar que seja utilizada a imprensa como arma política" que impedisse a realização do programa de reconstrução nacional por parte do Governo da Ditadura Militar.

Para relembrar os mais velhos e mais esquecidos e para dar a conhecer aos mais jovens, a Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira escolheu variadíssimos livros de tantos e tantos autores portugueses e estrangeiros que foram censurados e/ou proibidos e amarrou-os - na verdadeira acessão da palavra, com cordas grossas.

Esta iniciativa pode ser vista no endereço abaixo


https://www.facebook.com/BMALV/videos/782096735523366/ 

Para além disto organizou uma pequena exposição de fotografias de José Cardoso Pires - um dos muitos autores censurados - pelo fotógrafo Eduardo Gageiro .

















E, por fim, como todos os grandes homens da literatura, também o autor de O Delfim mostrava a sua preferência pelos gatos...




quarta-feira, 1 de maio de 2019

Nós voltaremos sempre em Maio


Amanhã não estaremos já neste lugar
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.

Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.

Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.

Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles

amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados.


Manuel Alegre
In Praça da Canção, 1965


(daqui)

Viva o 1º de Maio!!!

sábado, 27 de abril de 2019

Há dias...



Há dias em que em ti talvez não pense
a morte mata um pouco a memória dos vivos
é todavia duro e fotográfico o teu rosto
caído não na terra mas no fogo
e se houver dia em que não pense em ti
estarei contigo dentro do vazio

Gastão Cruz, in «Fogo», assírio e alvim, 2013





quinta-feira, 25 de abril de 2019

O poeta é um vate

Tive um professor de Teoria da Literatura nos idos de 60, o poeta Tomaz Kim, que nos dizia e repetia: «o Poeta é um vate.»

E tinha razão. Senão, como se explica que o poeta Manuel Alegre tenha escrito em O Canto e as Armas (1967)

«Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.»

(do Poemarma)

Ou ainda, no poema Lisboa perto e longe, igualmente dos anos 60, tenha previsto:

«Lisboa tem um cravo em cada mão
tem camisas que Abril desabotoa
mas em Maio Lisboa é uma canção
onde há versos que são cravos vermelhos
Lisboa que ninguém verá de joelhos.»

Não posso deixar de citar o último parágrafo da nota de edição da antologia País de Abril:

«Não deixa de ser intrigante que, tantos anos antes, o autor tenha escrito sobre o País de Abril, Maio e os cravos vermelhos. Como se explica? Mistérios da poesia.» 



Viva o 25 de Abril!