terça-feira, 7 de abril de 2020

Da efemeridade da vida

Floriu ontem, certamente para me desejar os parabéns, a primeira rosa do jardim.

Linda, amarela e com picos - como convém aqui ao blog...




Hoje, pobrezinha, está já desfolhada e à beira da morte.




Como não recordar o poeta?


As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
        Que em o dia em que nascem,
        Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o Sol, e acabam
        Antes que Apolo deixe
        O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
        Que há noite antes e após
        O pouco que duramos.

11-7-1914
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa


«A vida é o ai que mal soa...» (João de Deus)

domingo, 5 de abril de 2020

Histórias da minha rua (13)

A rapariga já ultrapassou os 20 anos e mora ali mais abaixo. Conheço-a desde garotinha, superprotegida sempre, de família endinheirada, mas com pouco capital cultural.

Com bastantes dificuldades de aprendizagem, lá foi percorrendo o seu percurso escolar até ao 12º ano, tendo eu sido chamada muitas vezes a fazer com ela algum «estudo acompanhado».

No decurso de um qualquer ensino superior, entrou num estágio curricular numa instituição que acolhe idosos, o qual, mercê desta incrível pandemia que estamos a viver, foi interrompido, sabe-se lá até quando. Esta demora e esta incerteza de quando as coisas retomarão o seu rumo normal incomoda-a sobremaneira, aliás como a todos nós.

Um dia destes, telefonou-me e, a propósito das notícias que vão passando nas televisões – mas que ela pouco vê – dizia-me ela: «Só falam da doença e da economia, da economia e da doença e nada de dizerem quando os estágios recomeçam!»

Apesar de a conhecer bem, eu não queria acreditar no que estava a ouvir! Como pude lá lhe dei uma reprimenda, mas duvido que ela tivesse entendido o que eu queria dizer.

É gente desta que temos muita e… votam!




sábado, 4 de abril de 2020

Da purificação




O sociólogo Boaventura de Sousa Santos escreveu um excelente texto no Jornal de Letras de 11 a 24 de março intitulado «Ensaio contra a purificação».

E diz ele: «A distinção entre o puro e o impuro parece ser uma constante de todas as culturas e de todos os tempos. (…) O puro é, em geral, concebido como o estado ideal, superior, tanto no domínio do profano como no domínio do sagrado, enquanto o impuro é concebido como o estado inferior ou a inclinação normal ou vulgar. (…)

O que designamos por cultura ocidental, cuja origem se atribui convencionalmente, sobretudo desde meados do século XIX, à Grécia antiga, segue dominantemente a ideia da separação absoluta entre o puro e o impuro. (…) todas as versões [filosóficas] convergem na ideia de que a purificação é essencial para o estabelecimento da ordem. A purificação permite diferenciar e hierarquizar entre o superior e o inferior, entre o normal e o excessivo, entre o governante e o governado, entre o que pertence e o que não pertence. (…)

O colonialismo histórico foi o campo privilegiado para a consolidação deste senso comum. Os conquistadores e os colonizadores depararam-se com um mundo novo (para eles), tão vasto e tão diferente que a magnitude das diferenças exigia um exercício contínuo de purificação. Os povos originários eram definitivamente inferiores, primitivos, selvagens, em suma, impuros. A sua purificação exigia uma separação particularmente violenta que podia ser exercida por extermínio ou desidentificação via evangelização e, mais tarde, educação. (…) Este senso comum foi um instrumento tão eficaz na violenta dominação colonial, do extermínio à evangelização e à escravatura, da ocupação territorial à expropriação e saque das riquezas naturais dos povos colonizados.

Esse senso comum prevalece até hoje, permanece vivo e está entre nós em múltiplas formas: racismo, extrema concentração de terra, expulsão violenta de camponeses e povos indígenas dos seus territórios, exploração sem precedentes dos recursos naturais, extermínio migratório do Mediterrâneo à fronteira sul dos EUA, persistência e mesmo incremento de trabalho escravo, zonas de sacrifício onde populações descartáveis são envenenadas pela poluição causada pelos complexos industriais, colonialismo tóxico quando as periferias pobres do sul global são convertidas em depósitos do lixo, muitas vezes tóxico, produzido no Norte global (afinal, a impureza é normal entre os impuros, lixo com lixo). (…)

A purificação é sempre a imposição da ordem contra um caos perigoso a ponto e a destruir ou desacreditar; a purificação por separação foi a mãe de todos os despotismos modernos.

Se em vez da conceção da natureza como uma entidade desprovida de dignidade vivente e inteiramente ao dispor dos humanos fosse adotada a conceção espinosista da natureza como principio vital, centro da vida da qual dependemos, certamente a respeitaríamos como a respeitaram sempre os povos originários. E se isso sucedesse, talvez não estivéssemos hoje mergulhados numa situação de catástrofe ecológica. (…)»

……..

E a mim, ninguém me tira da cabeça que – mesmo que tenha sido maldosamente encomendado a um qualquer laboratório chinês ou norte-americano – este Vírus que ora se abateu sobre o mundo (como se estivéssemos a viver dentro de um asfixiante filme de ficção científica) mais não é que um processo de purificação da Natureza contra nós, humanos, que estávamos/estamos a destruí-la.


sexta-feira, 3 de abril de 2020

Dia da Literatura Infantil

Ontem foi o Dia da Literatura Infantil, mas não pude celebrá-lo porque estava a celebrar o aniversário do meu blog...

Ora como para mim, todos os dias são dias da literatura - mesmo que seja infantil - aqui fica hoje o meu tributo aos escritores e aos poetas que escrevem para as crianças - sem esquecer a nossa amiga blogger Lídia Borges.

Ainda guardo cá em casa alguns livrinhos de quando as minhas filhas eram pequeninas e, do livrinho «A Guitarra da Boneca» de Matilde Rosa Araújo (grande senhora das belas e poéticas histórias para crianças, que tive o prazer de conhecer), retirei exatamente o poeminha «Minha Guitarra»:

«Chuva de cordas brancas,
chuva de cordas frias,
E eu tenho uma guitarra
cigarra
de som molhado
que agarra
a alegria 
para tocar.
E minhas mãos 
para enxugar
teu rosto amado,
minha Mãe.»

(1983)









(Prenda de aniversário (em 1987) da Madrinha para a minha filha mais nova que, por acaso, faz anos hoje - 3 de Abril.)

quinta-feira, 2 de abril de 2020

10 anos

Faz hoje dez anos que abri este blog  - para ajudar a ocupar o tempo que me sobrava, apenas dois dias depois da notificação da minha reforma. 

Como diz a canção:

«10 Anos é muito tempo
Muitos dias, muitas horas a cantar
10 Anos é muito tempo
Deste tempo inteiro que eu vos quero dar.»

Ironicamente aqui me encontro ainda - e curiosamente a tentar ocupar o tempo que me/nos sobra nestes abomináveis tempos de clausura instituída por inimigo invisível e comum que nos quer tolher a vida.

De qualquer forma, aqui estou a celebrar estes dez anos do meu blog, com as suas/minhas mais de 2900 publicações e a agradecer os milhares de comentários e de visitas de quem por aqui tem passado.





quarta-feira, 1 de abril de 2020

E faz frio!

Primeiro de Abril, mas não é mentira...Chove e está muito frio. Neva na Serra. É uma massa de ar da Escandinávia - dizem. 

Da Guarda chegam-me imagens como estas:
















Bom para se estar confinado em casa como é de lei... O pior é a melancolia que daí vem. E faz um ano que para sempre partiu o companheiro de uma vida inteira. 

Da Balada de todos conhecida, retenho a última estrofe que me trai, que me conforta.


(...)


E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil


terça-feira, 31 de março de 2020

Chove






Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…

Fernando Pessoa