domingo, 27 de abril de 2014

A nossa deficiente formação


Penso muitas vezes nisto, mas não verbalizo com medo de que me considerem ultrapassada e arrogante: a mim parece-me que algumas áreas base da cultura política e social no nosso país, como sendo a Justiça, a Educação, a Empregabilidade para não falar sequer na operacionalização da política governamental, falham por deficiente formação dos seus profissionais principais.

Quando, há apenas quarenta anos, caiu a ditadura, éramos, na sua generalidade, um povo analfabeto, iletrado, inculto, paroquial, em quem tinham inculcado uma cultura de suspeição e de medo, de submissão e cumprimento cego dos deveres impostos, sem a mínima noção dos seus direitos ou liberdade para lutar por eles.

Eram escassas as escolas e serviam apenas quem tinha posses para as frequentar; os hospitais eram de igual modo escassos e deficientes e mal serviam os pobres já que o direito à saúde era apenas para quem tinha dinheiro para recorrer aos médicos particulares. Isto para falar dos direitos mais fundamentais, deixando de parte a alimentação, a habitação e os princípios mais básicos de higiene sanitária.

Os profissionais dessas áreas eram poucos porque não havia necessidade de que houvesse muitos já que as exigências do povo eram nulas. De modo que, quando em 74 aquele grupo de capitães loucos, de uma loucura branca e gratuita, (a quem há quem diga quenada devemos) decidiu pôr um basta nisso, pouco ou nada tínhamos – a não ser as finanças equilibradas que os saudosos desses tempos tanto evocam. Sabe Deus a que custo!

Por isso houve que fazer tudo. E na ânsia de tudo se querer fazer para finalmente parecermos pertencer à Europa, muito se atabalhoou. Porque assim teve de ser. E os profissionais que não havia tiveram de ser criados à força.

Houve que produzir professores rapidamente – foi por onde se começou e bem. De não lembrar sequer aquela fase inicial em que nas escolas recebíamos alunos de engenharia para ensinar francês ou música, e muitos, muitos “professores” habilitados apenas com o 7º ano dos liceus… Foi difícil encaminhar as coisas na Educação e depois, já na década de 80, nasceram as Escolas Superiores de Educação, com um âmbito restrito que rapidamente se foi alargando – sabe Deus como e porquê. Grande confusão também na delineação dos programas e dos planos de estudo. Corte radical com o que se ensinava antes de 74. Revolução é para isso mesmo: não é para deixar tudo igual.

Rapidamente os alunos que acorreram à escola de foram tornando eles próprios profissionais daquelas áreas acima referidas e de outras que entretanto se tornaram indispensáveis. E, na pressa de tudo fazer assimilando o que se fazia “lá fora”, fomos descurando o estudo da nossa História, da nossa Literatura nomeadamente na sua linha diacrónica que, de repente e na voracidade de viver o presente e galgar etapas, tudo o que era História fosse do que fosse, ficou esquecido. O estudo da Filosofia foi descurado. O Latim desapareceu. O estudo estrutural da nossa Língua foi abandonado. A leitura dos clássicos e dos nossos autores, capazes de nos formarem como pessoas pensantes, foi esquecida. Tudo foi preterido pela corrida insana às recém-chegadas gestão e informática. Quem não se laçasse de cabeça na aprendizagem dessas ferramentas – que mais não são do que meras ferramentas – era apelidado de «totó».

Uma exceção talvez: a Medicina.

E assim chegámos à era dos técnicos. E que bons somos nessas áreas! Tanto assim que tão apreciados são na Alemanha, na Inglaterra. Mas... e os advogados, os juízes, os dirigentes das empresas, os decisores políticos, os professores? Que me interessa a mim, por exemplo, professora de… ter papéis e mais papéis que atestam que sei usar muito bem os quadros interativos e que sei fazer gráficos muitos vistosos com as classificações dos alunos se não sei como avaliá-los,  nem sou capaz de me entender com eles?


Sem as necessárias fortes bases da Humanidades e da Formação Pessoal, não prestam! E por isso a Justiça, a Educação, a Empregabilidade, a Política vão tão mal!

15 comentários:

  1. Uma nação desprovida da educação, da cultura, da formação básica do humano, jamais será eficiente e feliz. Sempre ficará uma lacuna impreenchível. Gestar "fantoches" é bem mais fácil...
    Abraços.

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  2. Graça Sampaio não tenha medo de ser arrogante apontando os problemas congénitos do nosso Portugal.Não sei se alguma vez conseguiremos livrar-nos deles. Pelo menos ficam apontados para que alguém, com talento, descubra uma forma de os ultrapassar.

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  3. ~
    ~ É indiscutível a necessidade da aquisição de competências que não se deve esgotar numa formação, mas deve prosseguir continuamente, com empenho autodidata.
    ~ Conheço licenciadas em humanidades, na idade madura, que apenas se interessam por telenovelas e revistas cor de rosa.

    ~ Mas o que choca e preocupa todos os portugueses bem formados, mais ou menos cultos, é o total descaso com que estão a ser tratados os mais preciosos valores, os éticos, mesmo os mais elementares.

    ~ Ficamos escandalizados com os exemplos dados pela chamada, classe dirigente!

    ~ Há que denunciar, pois é tempo de pôr cobro a tanta torpeza e indignidade. ~

    ~ ~ ~ Uma boa semana. ~ ~ ~

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  4. E que dizer ou que comentar?
    Parece que estamos continuamente em mudanças e que nada está certo.
    Penso que devia haver mais atenção nos cursos e na formação dos alunos e dos professores.
    Chegámos a um ponto em que parece já já nada sabermos destas novas culturas.

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  5. Minha linda, sempre considerei ser necessária um Formação rigorosa e de boa qualidade ( no mínimo), mas quando a certa altura perdia a conta às reformas educacionais, perdi também a esperança de que o futuro fosse bom a esse nível.

    E como o Professor Albano Estrela não conseguiu o seu objectivo de ser preso , para denunciar a situação...

    Abraço solidário.

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  6. É a segunda vez num mês, que aprecio um elogio, à educação do tempo da ditadura.
    Anterior a este, foi o discurso de um líder europeu, na cerimónia de entrega de um prémio, no Camões, onde estudou.
    Tal como o espírito desta peça, esse senhor afirma que a referida educação era de "excelência".
    Saudosistas "marrões" da escola do século passado, que premiava as boas memórias em detrimento da inteligência e outras faculdades mentais que merecem ser desenvolvidas.

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  7. Demasiados cursos de papel e lápis (são os mais baratos) e com demasiado facilitismo, Graça.
    Isso é indiscutível.
    Boa semana

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  8. Mas quem é que está interessado na formação integral de crianças e jovens?!
    Querem é técnicos automatizados!

    Abraço

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  9. as "humanidades", pois claro!

    e umas leiturazitas à mistura...

    excelente. teu texto

    beijos

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  10. Concordo em absoluto com este texto. E a tendência é a piorar,
    com os cortes que o Governo vai
    continuar a fazer em todas as
    áreas.
    Hoje tem sido um dia enervante...
    à espera de quando serão anunciadas as medidas e agora parece que fica para amanhã.
    Desejo que esteja bem.
    Bj.
    Irene Alves

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  11. Agradeço, amigos, a vossa concordância com a minha opinião. E grata fico, de igual modo, por não entenderem este meu texto como um elogio à educação do tempo da ditadura! Virei, eventualmente, a falar sobre isso.
    Só o meu caro anónimo leu nas minhas palavras aquilo que eu não quis dizer. E, como se refere ao dr. Barroso, o chene de águas turvas, tenho para mim que ele - o caro anónimo - deve estar ao nível do dito senhor: nível de carapau enjoado, certamente.

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  12. Ah! A Dra Graça, mestra em humanidades, que desdenha das carreiras científicas, ficou ressabiada!
    Pois, se eu respondesse â letra, pelas suas provocações, que bela peixeirada ficaria registada no seu erudito blogue com acre cheiro a felídeos.
    Cresça Gracinha! Tavez ainda vá a tempo.

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  13. Meu caro anónimo, não desdenho nada das carreiras científicas! Entendeu-me mal ou ter-me-eu expressado mal. Ai de nós se não fosse a ciência!! O que eu não suporto é que, por influências americanas, a que nós, portugueses, não queremos nem sabemos resistir, agora tudo se resuma às tecnologias e à gestão!
    Mais duas coisinhas:não sou mestra em nada: apenas uma pobre licenciada em Letras (se bem que do tempo das licenciaturas que demoravam cinco anos e mais um de Ciências Pedagógicas. Por outro lado, não fiquei nada ressabiada; é, de facto, tocar-me muito no âmago para que eu me sinta ressabiada.
    Quanto acrescer... bem... já acedi ao estádio em que se é considerado «idoso» - não chegará?! Embora saiba que estamos sempre a aprender.Mesmo com os ensinamentos irónicos de anónimos.
    Apareça, caro anónimo, este espaço pode cheirar a felídeo, mas não se considera erudito e muito menos seletivo...

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  14. É bom saber que admite a hipótese de se ter explicado mal, o que não devia ter acontecido, pela delicadeza e respeito que lhe devem merecer, pelo menos, alguns dos seus comentadores, que ou são autodidactas, ou pertencem à área das ciências, ou à classe dos técnicos que tanto agrediu.
    Há um deles, que depois de um dia de trabalho exaustivo no campo da electrónica, dedica parte do seu serão a divulgar os seus interesses culturais, num blogue respeitável que a Graça ocasionalmente elogia.
    Não é a antiga formação em humanidades que forja um competente, mas sim, a vigorosa dedicação e sério compromisso com o cargo que desempenha e com a cultura em geral.
    Nunca é tarde para crescer Gracinha e deixe-se de pergaminhos de humanidades que, esses sim, já enjoam!

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