sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

De que lado estariam?

Todos nós assistimos já ou estivemos no centro ou de um lado de uma situação parecida com a que o jornalista Paulo Farinha tão bem aqui descreve.

De que lado estariam os meus queridos amigos?



O pai. «Calma. Vou contar até dez. Ele é uma criança, está a testar os meus limites. É isto que as crianças fazem. Testam os limites dos pais. Moem a paciência dos adultos. Isto é fita. Está a sujar o pijama todo no chão mas não vou fazer nada. Acabou de tomar banho e já está todo transpirado de tanto berrar. Vou respirar fundo. Agora não posso voltar atrás. Tenho de manter a postura. Dei uma ordem, disse-lhe para apanhar os brinquedos, agora não posso dar o flanco. Mas por que é que eu me lembrei de fazer isto agora, caraças?! E logo quando os meus pais estão cá em casa. O puto ia para a cama e arrumava eu a porra dos legos e amanhã logo se falava nisso. Deus me perdoe, mas há alturas em que me apetecia mesmo dar-lhe uma bolachada. Ou duas. Se calhar é o que está a merecer. Uma palmada bem assente. Ou uma chapada. Palmadas no rabo, o sacana fica a olhar para mim e a desafiar-me. Parece que está a gozar comigo. Só lhe bati uma vez e fez um berreiro que parecia que vinha a casa abaixo. Vinha a casa e vinha eu, com remorsos. Estou aqui estou a levantar a mão. Já o ameacei três vezes. Ou bato ou fico calado.»

A mãe. «Eu não me vou meter, eu não me vou meter. Não me posso meter. É uma coisa entre pai e filho. Se me meto para dizer ao miúdo para vir para a cama, o pai perde autoridade. Se o deixo estar ali no chão aos gritos a chamar por mim, parte-me o coração. Vou mas é sair. Vou passear o cão e o pai que se desenrasque. Não. Não posso fazer isso. Vou-lhe dizer para fazer o que o pai está a dizer. “Vai já apanhar os brinquedos como o teu pai mandou.” É isso mesmo. Mas não via adiantar. Só vou piorar. Este caminho não está a resultar e o pai está a ficar enervado e o filho está a ficar frustrado. Não percebe por que é que hoje tem de arrumar brinquedos. Está frustrado e está sujo. Irra, ainda há pouco tomou banho e já está todo encharcado em baba e suor. Eu não me vou meter.»

O avô. «O meu filho está a perder mão no puto. Estou aqui estou a levantar-me para dar uma chapada ao catraio. Este miúdo precisa de apanhar para perceber quem é que manda. Eduquei três filhos, todos apanharam quando tiveram de apanhar e não lhes fez mal nenhum. Um bom açoite faz maravilhas. A eles fez. Cresceram todos bem crescidinhos. E agora nenhum encosta o dedo nos filhos. Tenho seis netos e nenhum apanha dos pais. E todos deviam apanhar. Já todos mereceram umas lambadas. Este, está aqui está ali.»

A avó. «Meu rico filho. Apanhou do pai e agora não quer bater no filho. Este miúdo mói a paciência a um santo, um puxão de orelhas não lhe caía nada mal, mas os meus filhos sempre disseram que nunca iam bater nos filhos deles. Eu já lhe tinha chegado a roupa ao pelo. Mas o meu filho é que sabe. Os pais é que sabem.»

O irmão. «Ainda bem que eu já estou na cama. Daqui a pouco tenho de chorar e fingir que acordei com esta gritaria toda. Mas está a ser divertido. O meu irmão é mesmo bom nisso. Leva uma birra até ao limite. Só tem 2 anos mas grita como se tivesse 4. Eu já não faço birras destas, já tenho 5. O meu pai ainda não aprendeu que tem filhos diferentes e deve fazer coisas diferentes. E ter reações diferentes. Mas se eu lhe disser isto ele vai perceber que eu e o meu irmão falamos sobre estas coisas. Mania de os adultos acharem que são mais espertos do que nós e só nos conseguem dobrar à força. Com conversa vamos muito melhor.»

O filho. «Já me dói a garganta de tanto chorar, mas o meu pai não se cala. Se ele vier aqui dar-me um abraço e me pegar ao colo, vou espernear um pouco mas depois acalmo. Já estou farto deste número. Mas a culpa é do meu pai. Ele é que começou. E está ali aos gritos, feito histérico. Quem é que é a criança aqui? Eu ou ele?»


(Paulo Farinha, in Notícias Magazine, 8/jan/2017)

21 comentários:

  1. Gosto muito das crónicas do P.Farinha, são muito reais.
    Não sei o que responder pois senti todas emoções de cada um dos intervenientes :)
    Sentada no meu sofá e idealmente, tentaria fazê-lo entender que ele teria que apanhar os brinquedos pois acredito que uma vez iniciada a acção tem que se ir até ao fim...se iria conseguir???? Só Deus sabe :))))
    js

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    1. Também gosto muito de ler os textos deste jornalista. São sempre muito reais e têm sempre ponta de humor e de ironia. Os miúdos, por vezes, têm comportamentos de nos porem os cabelos em pé...

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  2. Das crónicas que leio semanalmente- ao domingo- no NM, as de Paulo Farinha são as que menos me atraem. Quase nunca estou de acordo com ele.
    Gosto das de Ana Bacalhau, de José Luís Peixoto e outros que agora me não ocorre o nome. Por sinal esta não li.
    Como não é fácil encontrar uma saída airosa para esta situação- em que cada um pensa uma coisa diferente - não vou falar também. Fico calada, Graça, que ainda é a melhor opção.

    Beijinhos - bom fim de semana

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    1. Janita, parece impossível, mas andamos muitas vezes em sentido oposto! :)))

      Nunca leio a Bacalhau e o JL Peixoto raramente; já li dois livros dele e não fiquei muito fã. Quanto ao Paulo Farinha, leio-o quase sempre...

      Saída airosa para esta situação será difícil de encontrar! Os ganapos põem-nos do avesso!! A minha filha mais nova fazia birras "de caixão à cova"! Ném é bom lembrar...

      Bjs.

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  3. Como não sou pai, prefiro não mandar palpites :-)
    Bom FdS, Graça

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  4. Cada cabeça sua sentença...
    Olha que quem tem mais razão é o irmão mais velho... só que é o "depoimento" mais iverosímil de todos pois eu não acredito que uma criança de 5 anos tivesse este pensamento.

    As (felizmente poucas) birras que o meu filho fez na vida foi precisamente na fase dos dois anos, e normalmente só acalmava com mimos e colo. Mas também levou umas quantas palmadas bem assentes no rabo quando fez falta.

    Beijinhos sem birras
    (^^)

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    1. É a fase das birras: dos dois para os três anos. A minha filha mais velha nunca fez uma birra! Já a mais nova... nem é bom lembrar! E só acalmava falando-lhe baixinho e pegando-lhe ao colo. Foi bem difícil!

      Beijinhos sem birras...

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  5. Uma crónica que me deixou a pensar, nem sei que partido tomar, já que o meu filho, não era dado a birras, levou uma ou outra palmada minha, mas o pai nunca lhe tocou.
    Hoje já vejo cenas de meninos birrentos e sou da opinião que um castigo, tirando-lhe na altura própria o que mais gostava, acho que resultava.

    Beijinhos Graça

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    1. Umas palmadinhas não fazem grande mal... nunca acreditei muito em castigos porque, ao fim de um dia, era eu que já estava farta do castigo...

      Beijinhos

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  6. Nunca me lembro de ter batido no meu filho, mas também não lembro de ele ter feito birras. Fazia outras coisas, que às vezes punham o pai doido e ele sim, lhe dava umas valentes palmadas. Lembro numa altura, que ele resolveu arrancar o papel de parede, que nessa altura forrava o corredor. Eu ralhei com ele e ele continuou a fazer o mesmo. Teria uns 3 anitos. O pai gritou, ameaçou pô-lo de castigo, e ele nada. O pai deu-lhe umas palmadas no rabo, ele chorou, urinou-se todo, mas só parou quando ficou com um bom pedaço de papel na mão. Era de uma teimosia, que nos deixava doidos.
    Um abraço e bom fim de semana

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    1. Há miúdos de uma teimosia atroz! O meu neto de meio é assim e não vale a pena ralhar e muito menos bater. Tem de se lhe falar com muita calma para o convencer.

      Beijinho.

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  7. O meu presidente da câmara - Ensine-lhe empreendedorismo que o puto acalma!

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    1. Eh eh eh eh... até adormece!! Até eu adormecia!!!

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  8. Sou contra as palmadas. A criança é uma criatura indefesa.
    Tb não vou dar sugestões. Cada caso, é um caso. : ))

    Achei piada a este artigo.

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    1. Achei mesmo muito interessante, com os vários pontos de vista.
      Beijinho.

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  9. Tal e qual! Quando têm birras é complicado fazer a gestão da situação, especialmente em local público.
    Os putos são inteligentes e sabem bem como explorar os pontos fracos dos adultos. Como a falta de coerência...
    BFS

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    1. São espertíssimos! E espiam-nos as fraquezas...

      Beijinho.

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  10. Uma crónica bem interessante!
    Sou mãe e fui professora e educar é talvez uma das tarefas mais exigentes do ser humano!!!
    Educar com amor e responsabilidade com o não e o sim ... a entrelaçarem-se sempre!!!
    bj

    https://mgpl1957.blogspot.pt/

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  11. De facto, Gracinha!! É das tarefas mais difíceis de levar a cabo. Também sei bem do que se trata!

    Beijinhos.

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  12. :(((( ... Não estou de acordo com qualquer das situações ! :(
    Tudo foi errado desde o princípio (provavelmente, desde o nascimento da criança) ! :(

    Numa relação pais / filhos (e avós / netos) deve-se privilegiar o "Foco" na "Relação" vs. "Foco" na "Educação/Disciplina" !!!
    Traz melhores resultados a longo prazo e se não for iniciado cedo, depois será tarde !
    Claro que, esse foco na "Boa Relação" não vai descurar os bons conselhos e ensinamentos básicos de educação primária e comportamento !
    Não é novidade que ninguém gosta da austeridade, inclusive as crianças e ainda mais se não a entender, se não lhe for explicado (muito antes) o porquê ! !
    Uma criança que sinta que há uma boa "Relação" pais/filhos (com tudo muito bem explicadinho) está muito mais propensa a aceitar uma "ordem" (?) (prefiro pedido), do que aquela que as está a ouvir a todo o tempo e com ar ríspido de "dono e senhor", do "Eu (o pai) é que mando" !
    Elas entenderão, com o tempo, que um "pedido" (não uma voz de comando ríspida ou ameaçadora) dos pais, é para ser cumprida, porque a compreendem e compreendendo-a a aceitam e colaboram (não gosto do obedecem)!

    Tenha-se em atenção que nós com a/o nossa/o companheira/o, temos o "foco" na criação de uma "Boa relação" e não na "Educação/Disciplina" , ou do "Eu é que sei"! ... "Tu não percebes nada" ! ... Porque há-de ser diferente com os filhos ? ... (Reparem que eu tenho 3 filhos e 6 netos).
    Nós preferimos "colaborar" com alguém com quem tenhamos uma boa relação do que com alguém que só quer mandar em nós !
    Na situação do texto, já muito e muito tempo foi perdido (com mau método) e é cada vez mais difícil encontrar agora o ponto de equilíbrio ! :((

    Beijinhos Gracinha ! :)

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