segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O País a nu


Anda o país todo eriçado com as praxes desde que se deram aquelas seis inefáveis mortes à beira-praia vai para um mês.

Somos assim. Reagimos apenas quando algo de muito grave acontece. Somos do tipo reativo e a longo prazo. Uma pena. Um deixa-andar, um desleixo de pensamento, um desinteresse por tudo (quanto não seja futebol, voyeurismo, e carros a ganhar no Cola-Cau) que só se explica pela enorme ignorância e pelo imenso provincianismo que nos define.

Sempre me crispei (e encrespei) de cada vez, desde há muitos anos, que via aqui nesta pequena cidade onde vivo, hordas de miúdos “mascarados” com as capitas pretas (que por história e tradição apenas se viam em Coimbra) com as caras pintadas com marcadores e com um penico na mão a berrarem que nem borreguitos desmamados aquilo que um outro borreguito saído há mais tempo da barriga mãe lhes vociferava ao megafone. E mais eriçada ainda ficava quando, ano após anos, numa qualquer tarde de 5ªa feira de maio, se entupia a cidade com carros ditos alegóricos dos cursos (diziam eles) com récuas de fedelhos insanos atrás a encharcarem-se em latas de cervejas que emborcavam e arremessavam ao chão deixando no ar um fedor a álcool e a transpiração absolutamente nauseabundo. Passavam na estrada defronte da “minha” escola, enlouquecendo os miúdos pté-adolescentes que abandonavam desvairados as salas de aulas e acorriam imparáveis para os recreios já que aqueles lhes ofereciam cervejas por entre as grades. Os pais e as mães, muitos bem vestidos e rebentando de orgulho pelas figuras que os seus meninos-doutores iam fazendo, apinhavam-se nos passeios para verem o espectáculo do “cortejo” que demorava horas! E, ao fim da tarde, quando eu saía da escola, ia encontrá-los muitos deles e delas, perdidos de bêbados, a chafurdarem em T-shirt na fonte luminosa. Entretanto, já as equipas de limpeza da Câmara lhes tinham seguido no encalço para lavarem as ruas enlameadas de cerveja e recolherem as centenas de latas que ficaram pelo chão.

Posso, de facto, ser apelidada de velha antiquada, mas nunca quando andei na Faculdade assisti a nada parecido sequer com desmandos destes. Praxes nesse tempo havia-as quando os agentes da PIDE iam “assistir” às aulas de Linguística e de Literatura para espiarem falas e comportamentos de alunos e de professores e depois prendiam ou torturavam uns tantos…

Mas também não me lembro de qualquer das minhas filhas – e essas, felizmente, nascidas já depois de Abril – se submeterem às ordens esquizofrénicas de nenhum colega mais velho para depois ganharem o estatuto de esquizofrenia necessário para fazerem submeter outros mais jovens.
Por outro lado, também me farto de dizer que, se os meninos e meninas se “submetem” a estas “cenas” é só porque querem e acham giro. E não me venham com a treta da integração e de virem a ser postos de parte se não as cumprirem.
E, enquanto tudo isto foi acontecendo em onda crescente, toda a gente, pais, professores, responsáveis governamentais, sorria com uma bonomia amarela que talvez mascarasse, em muitos, o medo, o acanhamento de mostrar uma posição contrária. Tão giro! Os meninos a brincarem às seviciazinhas para mostrarem que eram… universitários! Muito degradante!

Mas calo-me já! E deixo aqui o melhor texto dos que tenho lido sobre este assunto da estupidez das “praxes”!

O País a nu, como no Meco.

Amanhã, os jovens corvos voltarão às ruas. Não se escondem, o fato é comum para todos, preto e sobre ele uma capa pesada, faça sol ou frio. Aqueles fato e capa não escondem, expõem a aceitação da mais bizarra das afirmações: somos manada. Num jovem não seria de esperar rebeldia e inquietude? Ora, ora, talvez agora o padrão seja outro, ser rancho, ser grupo. E de grupo sem mérito nem voo. Ali, naquele país inculto e pobre, anunciar pelo fato e pela batina uma conquista, mesmo patética, já é conquista: olhem, sou estudante universitário! Fica com a taça, jovem corvo. Nunca saberás que o mérito seria teres participado em debates e ganho, ou perdido, mas participado; seria teres gozado o prazer de aprender, de duvidar, de perseguires, mesmo erradamente, a luz. Mas esse não és tu. Tu, goza os teus três, quatro anos de fato de luto - o único diploma que te distinguirá a vida inteira, três, quatro anos a andar pelas ruas a proclamar nada. Entretanto, sobe um patamar e praxa. Isto é, leva a tua ambição ao nível dos fundilhos do teu traje. No começo, obedece e humilha-te. Serás premiado, depois, com mandar e humilhar. Fica-te por aí, rasteiro. De grande, só a colher de pau. Fica-te por aí, és o País. Sem saberes que um só dos teus podia redimir a todos. Um só estudante, bela palavra, no pátio de uma universidade, bela palavra, dizendo as mais certas das palavras para um jovem: não vou por aí.

Ferreira Fernandes, DN, 25 de Janeiro de 2014



19 comentários:

  1. Na mouche!
    Os motivos que sustentam estas práticas medievais, inquisicionais, fascistas estão perfeitamente identificados nos textos.
    Atrevo-me a dizer que estamos num país de gente parva que só vê o fogo quando atinge a sua própria casa, o resto do tempo baba-se e aplaude.
    Ao que parece, existe um regulamento para esta "atividade académica" mas como sabemos leis e regulamentos neste país são na maior parte das vezes meros exercícios de redação.
    Há leis a mais e educação a menos.

    ResponderEliminar
  2. Absolutamente contra qualquer tipo de abuso, desmando, graçola, estupidez, que faça sentir outrem menosprezado. Sou contra tudo e todos aqueles que fazem pouco do seu semelhante, o humilha, sobretudo se for mais pequeno, ou mais fraco. Acabem com estas fantochadas já!

    ResponderEliminar
  3. ha um serio problema de falta de respeito,

    Jinhos
    Paula

    ResponderEliminar
  4. Aqueles morreram e outros foram desprezados e humilhados...porque quiseram e aceitaram serem fantoches.
    Mas a farra continuará. Para o ano e para os seguintes haverá mais...
    «é muita chique»
    Os meninos mandam.

    ResponderEliminar
  5. Aqui , também há um politécnico, para onde entram alunos com nota negativa.....hábitos de estudo , trabalho ?! Qual quê, noitadas , bebedeiras etc...Queixam-se que não têm dinheiro para propinas....E PAGO EU ?! PAGAMOS NÒS ?!
    M.A.A.

    ResponderEliminar
  6. Fantástico o texto !!!
    Concordo a 100%, até porque nunca me sujeitei a ser praxado nem a praxar, nem sequer usei traje, por um momento que fosse !
    Uma vaidade absolutamente desnecessária e "práticas" próprias de indivíduos com recalcamentos, verdadeiros doentes do foro psicológico !

    Beijinho Graça !
    .

    ResponderEliminar
  7. Graça
    Está tudo dito...mas preciso de escrever, ainda assim, que as praxes são a maior estupidez que anda por aí...a par de outras, claro. Mas apetece-me gritar que são um atentado à dignidade, que deviam ser punidas, de forma exemplar.

    ResponderEliminar
  8. No meu tempo não havia praxes, nem apanhei trajes académicos em Lisboa ou Coimbra!
    Nunca achei a mínima piada a isso...
    Independentemente de tudo uma enorme tragédia que marcará para sempre o sobrevivente e os pais e familiares próximos dos que partiram!

    Abraço

    ResponderEliminar
  9. Em Portugal não se morre de tédio!

    Ainda há pouco tempo, o caso Eusébio vs. Mário Soares, agora os abusos praticados na praxe, que já aconteciam no século XVIII.

    A opinião de um estudante sobre o assunto:

    "No meio de tudo isto, tem de se referir um aspecto incompreensivelmente negligenciado: a utilização do termo "praxes" no plural é o equivalente etimológico a um pontapé nos testículos.
    Dói fisicamente ler tal expressão. Não é ofensiva, pelo contrário, mas é intensamente e inexplicavelmente enfurecedora. No entanto, a sua repetida utilização na comunicação social traduz, inadvertidamente, algo que esta parece ignorar: a pluralidade e diversidade de práticas praxísticas, que legitima a continuidade da sua existência, alheia a energúmenos, que no início da tradição praxística jamais teriam lugar no ensino superior, que bebem a supremacia como uma droga e que teimam em desonrar, não só a capa, como toda uma geração. Geração essa que padece de males bem mais graves do que a praxe, que a única dor que me trouxe foi a de me fazer perceber, a pouco e pouco, que os acordes de guitarra que ressoam pelo Porto nas Serenatas se tornam a cada ano mais agradáveis, mas a cada ano mais distantes."

    ResponderEliminar
  10. Praxes e touradas já deviam terminado há nuito.
    Continuam-se a praticar estas barbaridades, indignas de seres humanos, em nome da tradição.
    Há tradições para conservar e outras para apagar da memória.
    Preservando todas as tradições, ainda tinhamos espetáculos de gladiadores e tantas crueldades semelhantes!

    Os estatutos universitários deviam conter normas rígidas para não permitirem tais comportamentos.

    ResponderEliminar
  11. O texto está excelente!
    Nunca achei piada, apanhei uma praxe que não passou de umas pinturinhas no rosto mas já o meu filho se revoltou bastante por ser obrigado a alguns jogos e atitudes ridículas. É mais que tempo de acabar com isto.
    Bjs

    ResponderEliminar
  12. "Sem praxe, não haveria troika"

    E o Ferreira Fernandes, quimté sabe escrever
    podia muito bem falar disso

    O facto
    é que estamos todos a ser praxados

    ResponderEliminar
  13. Escrevo hoje sobre o assunto, Graça
    Com esta tónica também - "que por história e tradição apenas se viam em Coimbra"

    ResponderEliminar
  14. Há décadas que clamo contra as selvajarias das praxes, a que não encontro sentido nem ser maneira de integração onde quer que seja.

    Analisando o que aconteceu no Meco não ilibo ninguém de responsabilidades, embora lamente a morte absurda de seis jovens adult@s e respeite a dor das famílias.

    Os pais têm o direito de saber como aconteceu, mas francamente já não é isso que me interessa ou preocupa.

    O que eu exijo saber é como se desenrola o processo que desemboca assim.

    Como é possível que nas nossas instituições de Ensino , criaturas insensatas estejam a criar uma nova Juventude Hitleriana de rígida hierarquia e obediência canina aliada à omertà da Mafia italaiana?!

    Que poder têm para se permitirem ameaçar publicamente quem quebrar o silêncio?!

    E este bando que está no Poder não tomou nenhuma posição pública, dando um sinal tão evidente de nada se preocupar com o tema que , na Universidade do Minho, os energúmenos praxistas se deram ao luxo de desafiar um funcionário e um professor!!

    Onde está a exigência e o rigor de Crato? Ou a luminária acha que só são necessários exames e que o respeito pelo seu semelhante não conta?

    Aliás, os exemplos de quebra de compromissos , de falta de respeito pelos mais velhos , ....vem de Passos ,Cavaco e Companhia.

    Assino contigo , posso?

    ResponderEliminar
  15. totalmente de acordo com o teu texto e com o do Ferreira Fernandes. É degradante o modo como a juventude, em nome de não sei o quê, se deixa humilhar alegremente. Estará a preparar-se para a idade adulta...

    ResponderEliminar
  16. Era bom que as pessoas tomassem noção que este caso não tem nada a ver com as clássicas e habituais praxes aos caloiros ! Estas, dentro de certos limites (que por vezes são ultrapassados), têm até a sua graça, embora eu próprio nunca tenha simpatizado com elas e recusando-me a ser praxado ou a praxar!
    Neste caso trata-se de “rituais” próprios de “seitas secretas”, que neste caso até são estudantes universitários com recalcamentos do foro psicológico, estudantes que não conseguindo ter êxito nos estudos e por isso vão permanecendo na Universidade anos e anos, se dedicam e este tipo de “exercício” para compensar as suas frustrações.
    Repare-se que não estão em causa caloiros, mas sim outros, que já o não são, que pretendendo ascender hierarquicamente no grupo, se vão sujeitando a uma espécie de Bullying para atingir esses objectivos ! Alguns vão conseguindo suportar toda aquela violência, outros não e estes serão humilhados, por considerados fracos e sem carácter para poderem tomar as posições dominantes! Pretende-se criar autênticos monstros com características de liderança, que incutam o medo, embora com o juramento de respeito à sua hierarquia de grupo !
    O que está constitucionalmente regulamentado em termos de ensino, está e está bem, mas isto é um caso de polícia e da Justiça e esta é um órgão independente para julgar estes casos que infringem a lei !
    Não há razão alguma para meter nisto o governo ! Constitucionalmente, o Governo não pode fazer rigorosamente nada ! Quando muito, a Assembleia da República, para que se alterem ou criem na Constituição alguns tipos de leis !

    ResponderEliminar
  17. Excelente texto amiga, eu não andei na universidade, a minha praxe foi a trabalhar, mas como toda a gente, também eu conheço, de ouvido,(porque o que se vê na tv é uma pequena mostra)coisas absurdas, mas sou contra a humilhação ao mais fraco, tradições completamente absurdas que devem ser punidas.
    Lamento imenso a morte de tão jovens por uma besteira, quando tantos lutam para viver, lamento a dor dos familiares.

    Beijinho e uma flor

    ResponderEliminar

  18. Falta-lhes só EDUCAÇÃO!...

    Com ela, até as praxes (que também abomino), poderiam ser aceitáveis.


    Um beijo

    ResponderEliminar