terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O Hotel Nunes/Tivoli

Nunca tinha ficado no Tivoli em Sintra. Era uma vontade antiga: é que durante anos passei ali naquele sítio, muito antes de ser Tivoli, várias vezes ao dia, a caminho do meu Externato Académico onde estudei e depois fui professora. E era uma das nossas referências no espaço: quando vínhamos do Colégio que era bem bem lá no fundo da imensa e íngreme rampa e chegávamos junto ao Hotel, no Largo, era altura de respirarmos fundo e descansar da subida; ao contrário, quando descíamos para as aulas ainda dava tempo de darmos umas corridinhas escada acima, escada abaixo na escadaria de pedra do Hotel (aquela por onde o Cruges «entusiasmado com Sintra, rompeu a assobiar, conservando aos ombros o xale-manta, de que não se queria separar porque lho emprestara a mamã») ou até – ai se a minha mãe alguma vez tivesse sabido!... – de experimentarmos umas cambalhotas no varão sem deixar que as saias nos deixassem “descompostas”…

Era assim o Hotel Nunes. O tal onde o Cruges e o Carlos da Maia iriam ficar na sua visita a Sintra.



«Chegavam às primeiras casas de Sintra, havia já verduras na estrada e batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra.

E a passo, o break foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens e como o difuso e vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: através da folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e aveludado circulava, rescendendo às verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo salpicado de manchas de sol, sentia-se já, sem se ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a tristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das quintas de Verão… Cruges respirava largamente, voluptuosamente.

- A Lawrence onde é? Na serra? – perguntou ele, com a ideia de ficar ali um mês naquele paraíso.

- Nós não vamos para a Lawrence – disse Carlos, saindo bruscamente do seu silêncio e espertando os cavalos. – Vamos para o Nunes, estamos lá muito melhor!»

“Os Maias”


Mas o Tivoli que brotou das ruínas do Nunes (que teve melhor sorte que o vizinho Netto) é assim, bem mais confortável e modernaço e, apenas aos poucos, se vai integrando na paisagem feérica da Vila.




E de lá temos vistas como estas:








15 comentários:

  1. Gosto do edifício antigo e acho o moderno uma aberração.
    Melhor ficou a reconstrução do Laurence, em que os proprietários holandeses respeitaram a traça original.
    Jardins bem cuidados e mobilados, poderiam suprir a falta de varandas, onde, aliás, os utentes ficam muito expostos à curiosidade dos residentes.
    Ainda andam por lá, espanholas?
    Um excelente dia.

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  2. A vista é deslumbrante.
    Mas o prédio é para o feiote.
    Tipo caixote com buracos.
    Beijinhos

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  3. Que bela lembrança tiveste!
    Quando há uns tempos visitei a Quinta da Regaleira não dormi lá mas almocei no restaurante do hotel e muito bem!

    Abraço

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  4. Maravilha?

    É interessante ver como os espaços podem, através das palavras certas, trazer-nos reminiscências, "coisas"
    que nem sabemos ao certo de onde vêm.

    Um beijo

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  5. Era do meu bisavô do lado Norte, bem que desconfiava que ele tinha deixado umas propriedades a Sul e que nunca se descobriu qualquer registo para os netos se habilitarem à herança!

    A verdade é que, com algumas probabilidades, haverá alguma situação como esta que eu estou a insinuar (a brincar, melhor dizendo) relativamente ao meu avô materno, cuja história a minha mãe me andou a esconder, inocentemente, durante anos e anos......


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  6. Sintra merecia que arquiteto e proprietário tivessem arranjado uma solução melhor. Parece-me que quiseram dar nas vistas e ...
    As personagens dos Maias estranhariam se voltassem para uma queijada.

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  7. Passei novamente por aqui e senti novamente necessidade de manifestar o meu pesar, por não se terem repeitado, os espaços frequentados por Eça de Queiroz, como aconteceu no Lawrence.
    O valor que a história concede a um edifício!

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  8. Tens toda a razão, Majo! Mau gosto há-o por todo o país...

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  9. ironia subtil e transgressora - como as saias "descompostas" ou o bigode do primo Basílio.

    beijo

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  10. Paraíso! Divino lugar!
    Feliz é você por desfrutar de tamanha maravilha!
    Abraço.

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  11. vale bem a vista, de facto, porque na comparação, o antigo "Nunes" sem modernices servia bem a paisagem. :)

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  12. Não conheço mas, pelas fotos, também acho que foi pena não se ter preservado alguma traça romântica no edifício, mais condizente com o ambiente local.

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  13. Pode não ser bonito por fora, mas decerto que tudo o que se passa lá dentro é de superior qualidade.
    Olha que eu assisti a tudo, desde a demolição do Nunes e da casa ao lado da família Almeida e Brito, e nunca me deu para entrar no Hotel Tivoli.
    Depois de um serão emotivo e cheio de recordações, nada melhor que uma noite bem passada numa boa unidade hoteleira.
    Sintra sempre nos nossos corações.
    Em maio há mais!...

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