quarta-feira, 12 de abril de 2017

A Páscoa da Pascoínha e da Pascoela

À procura da receita do folar transmontano que a minha mãe fazia por esta altura (que vinha numa «Lusitas» (alguém sabe o que é?... Não tenham preconceitos!) de 1953, encontrei estes versinhos para a infância da autoria da escritora infantojuvenil (como se diz agora) Maria Isabel Mendonça Soares.

Vejam só a doçura! (Atenção à data em que foram escritos!)

A Páscoa de Pascoínha e Pascoela


Pascoínha e Pascoela
Duas lindas borboletas
Andavam pelo jardim
Às voltas, às piruetas.

Bailava em redor dos goivos
A Menina Pascoínha
Muito gentil, muito leve,
E toda ela branquinha.

Mais desenvolta e arisca
A menina Pascoela
Gostava de andar ao sol
Luzindo a cor amarela.

Certa manhã, Pascoínha
E a amiga Pascoela
Ouviram tocar os sinos
Uma canção muito bela

- «Manhã de Páscoa!» - diziam
- «Manhã de Ressurreição!»
E outros sinos respondiam:
Dlim, dlim, dlim! Dlim, dlim! Dlim, dlão!

Uma menina risonha
Passou muito carregada
E foi bater numa porta
Já velha e desconjuntada.

Curiosas como são
Pascoínha e Pascoela
Assim que a menina entrou
Entraram logo atrás dela.

- «Páscoa feliz, avozinha!»
(disse a menina risonha,
A uma velhinha que estava
Sentada ao canto tristonho)

- «Trago-lhe um bolo… um casaco …
E umas luvinhas de lã;
Mesmo sendo Primavera
Inda faz frio de manhã.»

Isto dizia a menina
Arrumando-lhe as gavetas
Enquanto de roda dela
Voavam as borboletas.

Até que estas descobriram
Sobre a cómoda pesada
Uma jarrinha de vidro
Bonitinha, mas quebrada.

Então as duas amigas
Pascoínha e Pascoela
Foram pousar de mansinho
Mesmo no rebordo dela.

E decerto não houvera
Em nenhuma Primavera
Uma flor igual àquela!
Para a jarrinha enfeitar
Desistiram de brincar
Pascoínha e Pascoela.





Curiosamente, a autora destes versinhos morreu em Lisboa no passado mês de Janeiro, aos 95 anos de idade. Começou a escrever nos anos 40. Fundou as Bibliotecas Infantis "A Descoberta", da Associação de Pedagogia Infantil, e dedicou-se durante várias décadas à formação de educadores de infância e ao ensino de Literatura para a Infância e Cultura Portuguesa.





21 comentários:

  1. Que bonito!
    Adorei as simplicidade e sensibilidade.
    Feliz Páscoa, bjs

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  2. São de uma ternura...beijinhos e boa Páscoa!

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  3. Muito ternurento o poema. Uma boa Páscoa.

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    1. Uma história do antigamente, mas escrita de uma forma tão fofa!

      Boa Páscoa, Benó!

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  4. Quando se é criança muito tempo
    envelhece-se muito tarde

    95? É obra!

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    1. É mesmo isso, Rogério! Quando se é criança muito tempo envelhece-se muito tarde - bonito pensamento!

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  5. Votos de uma Santa Páscoa para si e família, Graça.
    Beijinhos

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    1. Boa Páscoa para todos vós aí tão longe, Pedro.

      Beijinho.

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  6. Ainda bem que desencatou tal preciosidade!!!
    Santa Páscoa! Bj

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  7. A nostalgia anda no ar. Depois de ler as memórias da Páscoa do Carlos é da papoila, leio aqui sobre o folar transmontano que a minha avó materna fazia a primor.

    Uma POESIA doce de uma poetisa que eu desconhecia. A minha Páscoa vai do tipo: dlim, dlim, dlim. Dlim, dlim, dlão.

    Desejo-te uma Páscoa santa, tranquila e feliz na companhia dos teus ente-queridos.

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    1. Obrigada, ematejoca! Uma Páscoa cheia de dlim,dlim, dlim, dlom para toda a família.

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  8. Lusita, uma revista dos anos 40 e 50 do séc. XX, histórias, ilustrações, curiosidades !
    Realmente uma doçura e ternura de poema ! :))

    Beijinhos, Graça e uma Boa Páscoa :))

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    1. Como somos velhotes, Rui!!! Só nós é que conhecemos a revista infantil Lusita!!! Eu recebia-a mensalmente e adorava - apesar de ser da Mocidade Portuguesa.

      Boa Páscoa para vós. Beijinho.

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  9. Qu3 coisa mais festiva! E vintage
    Kis :=}

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    1. Vintage, vintage é a publicação de hoje, AvoGi!!!

      Beijinho.

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  10. Mesmo ao sabor da época. Fez-me voltar aos tempos de infância.
    BFS.

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