quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Todo o tempo é de poesia



Rómulo de Carvalho, cientista, professor de Ciências Físico-Químicas, escritor e historiador, nasceu em Lisboa no dia 24 de Novembro de 1906 - há exatamente 110 anos.




Mais conhecido como António Gedeão, pseudónimo sob o qual escreveu centenas de belíssimos poemas em muitos dos quais mistura a ciência com a leveza da poesia.

Veja-se.

Tempo de Poesia

Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.




(fotografias retiradas da página do facebook de Cristina Carvalho, filha de Rómulo de Carvalho, e também escritora, ela própria)

11 comentários:

  1. Um grande senhor das Letras e das Ciências, porém, um homem de trato fácil e um grande Professor. Tenho um amigo que foi seu aluno.
    Gosto muito deste belo poema e tenho-o na minha lista dos poemas a publicar.

    Um beijinho e uma boa noite Graça.

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  2. O homem que para além do conhecimento científico sabia da química da palavra.
    Deixou-nos uma meritória obra poética. Arrisco dizer que todos portugueses o conhecem da "Pedra Filosofal".
    Foi bom recordá-lo, Graça.
    Bj.

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  3. Sempre que penso em António Gedeão, vem-me à memória este poema:
    https://youtu.be/wyRNw6iD9kw

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  4. E a poesia faz de qualquer tempo um tempo melhor.
    Um abraço e bom fim de semana

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  5. Desde os meus tempos de estudante que gosto de António Gedeão e quando tinha uma boa voz, cantava alto e bom som...eles não sabem que o sonho...
    Bom fim de semana

    Beijinhos Graça

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  6. Gosto muito dele e da sua obra.
    ~~~ Beijinhos poéticos ~~~

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  7. "Eles não sabem que o sonho..." fica gravado nas nossas memórias.
    Bjs

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  8. Amiga Graça,
    António Gedeão é um dos meus poetas preferidos, pela humanidade, sensibilidade e beleza da sua poesia .

    Eles não sabem que o sonho
    é uma constante da vida
    tão concreta e definida
    como outra coisa qualquer,

    Um beijinho e bom fim de semana

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  9. Parece-me, meus amigos, que toda a gente gosta do poeta Gedeão.
    O meu poema preferido é «Fala do Homem Nascido». Um espanto de força e de vida!

    «Venho da terra assombrada,
    do ventre de minha mãe;
    não pretendo roubar nada
    nem fazer mal a ninguém.

    Só quero o que me é devido
    por me trazerem aqui,
    que eu nem sequer fui ouvido
    no acto de que nasci.

    Trago boca para comer
    e olhos para desejar.
    Com licença, quero passar,
    tenho pressa de viver.
    Com licença! Com licença!
    Que a vida é água a correr.
    Venho do fundo do tempo;
    não tenho tempo a perder.

    Minha barca aparelhada
    solta o pano rumo ao norte;
    meu desejo é passaporte
    para a fronteira fechada.
    Não há ventos que não prestem
    nem marés que não convenham,
    nem forças que me molestem,
    correntes que me detenham.

    Quero eu e a Natureza,
    que a Natureza sou eu,
    e as forças da Natureza
    nunca ninguém as venceu.

    Com licença! Com licença!
    Que a barca se fez ao mar.
    Não há poder que me vença.
    Mesmo morto hei-de passar.
    Com licença! Com licença!
    Com rumo à estrela polar.»

    António Gedeão, in 'Teatro do Mundo'

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