domingo, 20 de novembro de 2016

Enquanto a chuva cai




A chuva cai. O ar fica mole...
Indistinto... ambarino... gris...
E no monótono matiz
Da névoa enovelada bole
A folhagem como o bailar.

Torvelinhai, torrentes do ar!

Cantai, ó bátega chorosa,
As velhas árias funerais.
Minh'alma sofre e sonha e goza
À cantilena dos beirais.
Meu coração está sedento
De tão ardido pelo pranto.
Dai um brando acompanhamento
À canção do meu desencanto.

Volúpia dos abandonados...
Dos sós... - ouvir a água escorrer,
Lavando o tédio dos telhados
Que se sentem envelhecer...

Ó caro ruído embalador,
Terno como a canção das amas!
Canta as baladas que mais amas, 
Para embalar a minha dor!

A chuva cai. A chuva aumenta.
Cai, benfazeja, a bom cair!
Contenta as árvores! Contenta
As sementes que vão abrir!

Eu te bendigo, água que inundas!
Ó água amiga das raízes,
Que na mudez das terras fundas
Às vezes são tão infelizes!

E eu te amo! Quer quando fustigas
Ao sopro mau dos vendavais
As grandes árvores antigas, 
Quer quando mansamente cais.

É que na tua voz selvagem,
Voz de cortante, álgida mágoa,
Aprendi na cidade a ouvir
Como um eco que vem na aragem
A estrugir, rugir e mugir,
O lamento das quedas-d'água!



(Manuel Bandeira)

19 comentários:

  1. Ela cai aqui neste preciso momento. Cai rija e bate forte nas janelas.
    :)

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  2. A chuva fez-se
    para as flores
    e para as couves

    ela cai
    ouves?

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  3. De facto muito a propósito este do Manuel Bandeira.

    Chove que Deus a dá ou it's raining cats and dogs.
    Vamos precisar de chapéu e agasalhos está semana...
    Que o céu nos dê umas "escairadelas" para os afazeres diários, Graça.

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  4. A chuva faz muita falta, mas não podia chover só entre as 11 da noite e as 6 da manhã?

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  5. Gosto muito dos poemas de Manuel Bandeira. O brasileiro que deixou uma vasta e bela obra.
    Esta chuva incessante alaga os campos e estraga mais do que beneficia. Tomara que amanhã de manhã venha sol...

    Reconheci essa bonita imagem das folhas soltas ao vento, já a publiquei, mas com um poema de António Gedeão. Ora vê lá se gostas ou não!! :)

    http://francis-janita.blogspot.pt/2013/02/e-dessas-que-eu-sou.html

    Beijinhos, Graça e boa semana, com pouca chuva! :)

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  6. Gostei do poema, não gosto de chuva.
    Beijinhos, boa semana

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  7. Gostei imenso do poema, da chuva gosto quando estou em casa no quentinho e a ouvi-la cair.

    Boa semana
    Beijinhos Graça

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  8. Amiga Graça que belo momento de poesia nos ofereces.
    Gosto muito dos poemas de Manuel Bandeira, têm uma sensibilidade romântica mas também alguma tristeza, aliada ao desencanto e à melancolia tal como a chuva muitas vezes.

    Um beijinho e boa semana

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  9. Ler o Manuel Bandeira é sempre um gosto enorme. Foi bom encontrá-lo aqui, Graça.
    Uma boa semana.
    Beijos.

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  10. Não conhecia e gostei muito. Obrigada pela partilha aqui.
    um beijinho e uma boa semana
    Gábi

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  11. Vou-me embora para Pasárdaga...
    Deve ser um paraíso tropical...
    ~~~ Beijinhos friorentos ~~~

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    1. Vou-me embora pra Pasárgada
      Lá sou amigo do rei
      Lá tenho a mulher que eu quero
      Na cama que escolherei
      Vou-me embora pra Pasárgada
      (...)

      Boa referência, Majo!!

      Beijinhos aquecidos pelo calor do poema...

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  12. Enquanto a chuva cai, nada mais agradável do que vê-la através da vidraça, embaciar o vidro com o nosso bafo quente e desenhar corações. Gosto.

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    1. Dá cá uma sensação de conforto!!! Também gosto.

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  13. Ainda bem que gostara, queridos amigos. Gosto muito da poesia de Manuel Bandeira.

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  14. Nem o poema do excelente Manuel Bandeira me faz gostar de chuva...

    Beijinhos soalheiros, Gracinha

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  15. Por fim também chegou até aqui e molhou mesmo, estava tudo tão seco!
    Não o conhecia e gostei muito. Vou levá-lo à aula de cultura portuguesa, quero que o conheçam, e mais agora que choveu.
    Abraços de vida, querida amiga

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