domingo, 15 de maio de 2016

Aeroporto Humberto Delgado

A partir de hoje o aeroporto da Portela passa a ser chamado de aeroporto Humberto Delgado, o militar português da Força Aérea que mais lutou contra Salazar, candidatando-se à Presidência da República em 1958 e enfrentado e suportando assim toda a espécie de ameaças, de ilegalidades e fraudes durante a campanha eleitoral bem como no próprio processo eleitoral. A sua intrepidez e temeridade que mostrou sempre contra o ditador valeu-lhe passar a ser conhecido por General Sem Medo, mas também deu azo a ser morto pela polícia política cinco anos mais tarde, no dia 13 de Fevereiro de 1965.

Hoje, dia em que se celebra o aniversário do seu nascimento – 15 de Maio de 1906 – e por se lhe dever a criação das primeiras ligações aéreas portuguesas, a República decidiu homenageá-lo associando o seu nome ao principal aeroporto do país.



Vale a pena reler, no seu livro de memórias, o que o próprio General diz acercado assunto.

«Quando os americanos convocaram a Conferência de Chicago em 1944, Salazar ficou desesperado porque éramos a única potência colonial sem ligação aérea com os nossos territórios ultramarinos! Criou-se portanto o Secretariado de Aeronáutica Civil e fui nomeado director.

Começámos do zero porque, como disse um americano, as linhas aéreas portuguesas consistiam em «um piloto, um avião, um mecânico, uma carreira por semana para Tânger»! A 31 de Dezembro de 1946, inauguraram-se as linhas aéreas para Luanda e Lourenço Marques e, nesse mesmo dia, pedi a demissão.

Era um trabalho difícil e um pequeno incidente mostrará melhor como era a situação. O subdirector, nessa altura major, hoje general, Humberto Pais, fora escolhido por Salazar sem me consultar. Eu disse então a Salazar que não havia lugar para dois Humbertos à cabeça da aviação civil, mas ele levou muito tempo antes de se decidir a afastá-lo. (…)

Durante oito anos participei em inúmeras assembleias internacionais democráticas e em dúzias de conferências internacionais e negociações para vários tratados. Tudo isto dará alguma ideia da experiência excepcional que adquiri em debate democrático e em tolerância, a qual teve profunda influência no meu pensamento. (…)

A minha licença especial [como representante nacional na NATO] terminou a 23 de Novembro, pelo que tive de regressar a Washington, pagando a viagem do meu bolso. Quando por fim consegui voltar definitivamente Portugal, em Setembro de 1957, não me foi dado qualquer comando militar, ou porque já estivesse sob suspeita, ou por ser efectivamente malquisto. Retomei o cargo de director-geral da Aviação Civil a 1 de Outubro de 1957.»

(in “Memórias de Humberto Delgado”, Humberto Delgado, Publicações Dom Quixote, 2009, pp.94-95 e 116)

22 comentários:

  1. Falta um dado,
    A TAP Portugal foi fundada em 14 de março de 1945, pela mão de Humberto Delgado, à data director do Secretariado da Aeronáutica Civil. É neste ano que são adquiridos os primeiros aviões – dois aviões DC-3 Dakota com capacidade para 21 passageiros. No ano seguinte, são criadas definitivamente as condições necessárias para a companhia começar a operar, através da realização do Curso Geral de Pilotos. São, então, inauguradas as duas primeiras linhas aéreas: a primeira linha comercial Lisboa-Madrid abre a 19 de setembro de 1946. Mais tarde, a 31 de dezembro, é inaugurada a “Linha Aérea Imperial” que serve a rota Lisboa-Luanda-Lourenço Marques que contaria com 12 escalas, cerca de 15 dias de duração (ida e volta) e 24540 quilómetros de extensão. - See more at: http://www.tapportugal.com/Info/pt/frota-historia/historia#sthash.2NPEt6Og.dpuf

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    1. Obrigada, Rogerito, pela informação mais detalhada.

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  2. Cara Amiga e parceira de ofício Graça Sampaio.
    Folgo em saber desta auspiciosa iniciativa em perpetuar a memória do teu renomado e destemido patrício.
    Caloroso abraço. Saudações memorialistas.
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento e do bem viver, sem véus, sem ranços, com muita imaginação, autenticidade e gozo.

    PS- Estou cá na expectativa e planejamento para o próximo Encontro Bloguista na cidade da encantadora Amelinha e o do grande amor, que a fez revirar os olhos reiteradas vezes, o Padre Amaro.

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    1. Em tempo falaremos, caro Professor. Prevemos que lá para Outubro...

      Abraço

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  3. Onde se lê e o do grande amor leia-se e do seu grande amor.

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  4. Há muito que o General Sem Medo merecia esta e outras homenagens!

    "Obviamente", merece o seu nome ligado ao Aeroporto de Lisboa.

    Um beijinho e boa semana, Graça!

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    1. E ainda mais, Janita!

      Boa semana também para ti.

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  5. Por um lado parece-me bem, por outro lado, parece-me que para uma verdadeira homenagem se devia criar algo novo, não apenas rebaptizar algo já existente.
    um beijinho e uma boa semana
    Gábi

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    1. Sim, ele merecia isso e mais. Mas isto já foi um passo.

      Beijinho. Para ti e para o simpático N.

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  6. Acerca da experiência em democracia, sei que alguém lhe disse antes de ir para os EUA que voltaria democrata.

    Acho justa a homenagem.

    Boa semana :)

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    1. Aprende-se muito quando se anda por fora. E tu bem sabes disso, querida São.

      Beijinho.

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  7. Se há homenagens justas, esta é uma delas.
    Boa semana, Graça.

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    1. Assim é, de facto, Observador.

      Parabéns ao seu Benfica!

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  8. Humberto Delgado merece todas as homenagens. Acho justíssima esta.
    Um beijo.

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  9. ~~~
    Foi uma ideia brilhante de AC!
    Uma homenagem no lugar ideal e com a visibilidade
    e destaque que o General merece, obviamente.
    Lisboa ficou valorizada...
    ~~~~~ Beijinhos.~~~~~

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    1. Assim é, Majo. Já devia ter sido homenageado - assim ou de outra forma - há muito!

      Beijinho.

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  10. À muito que se deve a Humberto Delgado esta homenagem!

    Beijinho e boa semana.

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    1. É o que eu tenho vindo a escrever nos comentários anteriores, Flor.

      Beijinho.

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  11. Já era tempo desta homenagem.
    Um abraço e uma boa semana

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  12. Podem querer dar o nome de um estadista, à semelhança do que é o aeroporto Charles de Gaulle para Paris. Mas receio que nas próximas décadas, continuará a ser, para os portugueses e para os estrangeiros - o Aeroporto de Lisboa.

    É que é o único.

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