quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Menos chumbos? E voltamos ao «eduquês»?

David Justino, ex-ministro da Educação do governo Barroso e atual presidente do Conselho Nacional de Educação, escolhido para desempenhar esse cargo por este “governo” em 2013, descobriu a pólvora! Veio agora denunciar o número excessivo de reprovações em Portugal e diz que quer os partidos a debater a questão.

Quer os partidos a debater a questão?! Mas está a brincar connosco? Foram porventura os partidos que puseram as escolas no estado em que estão e que decretaram este exagero de exames? Ou foi mesmo o ministro da educação chamado ao poder pelo seu partido que assim determinou? E não venham agora o dr David Justino e os elementos do CNE ou o seu partido ou os senhores professores alegar que não sabiam que as coisas na Educação iam evoluir como evoluíram. O dr (C)rato tinha já estas ideias involutivas, de retrocesso da Escola Pública e de regresso à elitização da educação tendo-as escrito e publicado no funesto livrito «O ‘Eduquês’ em Discurso Directo» em 2006. Não leram? Eu li – lá dizia tudo!


A ideologia ali inscrita e descrita (mal, diga-se de passagem) adicionada ao propalado princípio gestionário do «fazer mais com menos» agarrado com ambas as mãos por este “governo” dele fazendo lema deu nisto.

(in DN de ontem)
Fácil ver que desde que a tónica da avaliação foi posta nos exames que as taxas de retenção aumentaram desta maneira. E desengane-se o senhor ministro (C)rato se acredita que os alunos ficam mais bem preparados, mais bem formados, mais educados, mais cultos só por serem sujeitos aos exames. Os exames vieram, por um lado, criar problemas às escolas porque montar o serviço de exames é um enorme quebra-cabeças, uma enorme perda de tempo, de energias e de recursos. Por outro lado, bem mais penalizador, veio retirar tempo e calma à normal evolução das aulas e da aprendizagem porque professores e alunos (e pais) vivem pressionados pela ideia e pela violência dos exames. Não há a preocupação de os alunos apre(e)nderem e interiorizarem a matéria – há a preocupação de treiná-los para as respostas que as provas de exame exigem. Treinar, treinar, treinar mecanicamente nem que seja!

Depois há as ditas provas que são verdadeiras armadilhas. Tomemos como exemplo o exame de Português do 9º ano. Em hora e meia os miúdos, de 14 anos, tem de ler três textos: um texto informativo com cerca de 40 linhas sobre o qual lhes são apresentadas seis ou sete frases que têm de ordenar de acordo com o dito texto e mais cinco ou seis questões de escolha múltipla com quatro hipóteses cada uma todas elas muito parecidas para eles escorregarem bem; o segundo texto literário (Lusíadas, ou Auto da Barca do Inferno, ou um conto, ou um poema) sobre o qual devem responder a cinco perguntas de compreensão/interpretação; um terceiro texto (Lusíadas ou Auto da Barca) introduz o pedido de escrita de um texto expositivo de cerca de 100 palavras (que tem de ir contando) sobre um tema da matéria; depois vem a parte da gramática com mais seis ou sete questões com alíneas; e por fim é-lhes dado um tema geral sobre o qual devem discorrer entre 180 a 240 palavras. Em 90 minutos!! Treze páginas de exame, com linhas e linhas de ordens e orientações que os miúdos nem conseguem ler e interpretar em 90 minutos! Garanto-vos que eu não conseguiria terminá-lo e, se terminasse, imagino que nota teria!

Fui aluna naquele tempo – que é preciso esquecer e que o senhor Barroso disse que era bom – em que tínhamos exames desde a 3ª classe e a todas as disciplinas, mas posso dizer que as provas eram bem mais sérias e honestas e sem armadilhas ou rasteiras e em que os professores correctores ( e eu sei porque também o fui) não estavam absolutamente espartilhados por folhas e folhas de critérios castradores e absurdos que só levam a que as respostas – e portanto as notas – sejam cortadas.

Assim, dr David Justino, os chumbos não vão baixar tão cedo!

11 comentários:

  1. Absolutamente de acordo, Graça. Apenas acrescentaria um ponto. Posso estar errado mas creio que no nosso tempo éramos mais responsabilizados e responsáveis do que os alunos de agora. Estarei errado?

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    1. No nosso tempo éramos poucos: só os melhores ou os que tinham dinheiro andavam para a frente; agora todos vão para a escola e há mais de tudo: mais responsáveis e mais não responsáveis; mais bons alunos e mais alunos não bons e assim sucessivamente...

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  2. se tivesse ido lá à esplanada teria "ouvido" o que aqui lhe repito, e é assim:

    «...ela leu "61% dos adolescentes não gosta ou é-lhes indiferente as aulas e 46,1% não gosta ou é-lhes indiferente os professores" de seguida apontei a página 157, e ela continuou a ler "48,4% sentem que o ambiente da escola tem problemas e 40,2% têm a percepção que isso acontece às vezes" e, para finalizar, li-lhe eu que apenas 11,3% dos alunos do 10º ano consideram que os conteúdos têm interesse, donde mais de 80% acham que a matéria é uma "seca".»

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  3. ~
    ~ Um exemplo de retrocesso profundo na Educação a acompanhar o mesmo sentido regressivo da qualidade de apoio social.

    ~ O SNE e o SNS são, sem dúvida, indicadores do índice de desenvolvimento de um país, ou de um processo decadente.

    ~ ~ São estas as notícias, de hoje, da Comissão Europeia.
    1 ~ O governo de PPC não tomou as medidas necessárias para 'uma cobertura adequada dos cuidados sociais.
    2 ~ A CE considera Portugal um caso ''complicado de desequilíbrio económico excessivo''.
    3 ~ Afirma que ''vai vigiar de perto a execução orçamental portuguesa''.

    ~ A total reprovação às políticas de austeridade do tal chefe de governo, mais ''troyquiano'' do que a «Troika».

    ~ A avaliação dum governo incompetente que não soube nem gerir, nem gerar.

    ~ O estado ruinoso da Educação que tão bem expuseste, é um dos exemplos do descalabro geral, que vigora em Portugal, o qual - soubemos hoje - foi reconhecido por Bruxelas.
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    1. Boa, Majo! Mas eles continuam a encher a boca dizendo que o país está melhor e que têm feito um trabalho espetacular!! E há quem se caredite neles! Que porcaria de gente neste país!! Nunca me senti tão dececionada!!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Concordo com tudo o que escreveu... Eu tenho 18 anos e estou farta de ser colocada em fila indiana e com palas como os burros, só posso dar a resposta que o professor me ensina a dar, me me apetecer ser brilhante e fazer o exercício de uma forma que mais ninguém penso, chumbo... E neste caso estou a chumbar por ser burra ou por ser inteligente?

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    1. Tens toda a razão, minha querida! É isso mesmo: têm de dar a resposta que vos ensinaram e querem que dê! Esta é a verdadeira violência simbólica!

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  6. Temos génios, muitos, como do sr. professor, como o matemático e outros inventores da pólvora. O povo não se engana: "é matemático!"
    O Dr. Justino, como patriota que é, entendeu que poderia dar uma sugestão e resolver o problema crónico de falta de dinheiro na Educação; acabando-se com os chumbos diminuem os alunos no sistema, diminuem os professores e funcionários, etc. e tal, logo, poupa-se na fazenda! Bestial...
    Não nos admiremos que no futuro a ideia seja acabar com a escolaridade obrigatória passando a gentinha a frequentar as AEA - atividades educativas alternativas, serviço low cost perfeitamente liberal, dispensando-se os meninos de esforços traumatizantes e os pais de despesas com livros e outro material escolar. No fundo o que interessará é tirar os rapazes da rua.

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  7. Toda a minha vida foi dedicada à Educação e dói-me ver a maneira como está ser tratada .

    E não quero alongar-me mais....

    Bom fim de semana e um abraço, Gracinha

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