quarta-feira, 6 de maio de 2015

Pátria

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas. (...)»

Retrato feito há mais de cem anos por Guerra Junqueiro e, no entanto, tão atual ainda...
Que sufoco!!

18 comentários:

  1. Houve aqui sabotagem. Tinha acabado de comentar... era mais ou menos assim:
    Ouvi há pouco na SIC Notícias o sermão do primeiro, notando que
    1.º os barões e afins estavam felicíssimos com as palavras do chefe, rostos radiosos, sorrisos, palmas (devem estar à espera de aumento ou de um lugarzinho para o filho ou para o neto). até os críticos da política de austeridade da Troika;
    2.º o Durão Barroso foi marcar o ponto para não ser preterido nas eleições presidenciais;
    3.º o primeiro julga-se imune à kryptonite tal era o tom; para quem não se importava importava com eleições,, não fazia campanha... biografia (de um jovem?) ontem e hoje aquele latim todo...
    Valha-nos S, António.

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    1. Que paciência a sua para assistir a um espetáculo desses...

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  2. Esses são alguns parágrafos do "Balanço patriótico" com que Guerra Junqueiro termina o livro "Pátria" .Também o tenho!
    Esse era o tempo da monarquia e, apesar de Junqueiro terminar o livro escrevendo :

    (...)
    Nessa agudíssima crise nacional a república é mais do que uma simples forma de governo, É o último esforço, a última energia, que uma nação moribunda opõe à morte.
    Viva a República! é hoje sinónimo de Viva Portugal!"

    Curiosamente, mais de cem anos passados e em plena República 'democrática'...tudo continua igual ou pior!

    Mais do que um sufoco, isto é o estrebuchar de uma Nação!

    Entretive-me a ler a peça que antecede este 'balanço' e com isto e os actos já é madrugada!
    Como escreveu Camões e Junqueiro, no início cita: Esta é a Ditosa Pátria Minha-Amada.


    Janita

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  3. Já conhecia este retrato de Guerra Junqueiro.
    A actualidade do que escreveu é desconcertante.
    Beijinhos

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  4. Tão actuais estes lamentos e como a todos nós dizem respeito...

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  5. Perante tamanha verdade de ontem e hoje , calcule-se o sofrimento de quem não pensa nem vive assim....
    M.A.A.

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  6. ... e se formos à idade média ou aos antigos clássicos filósofos, o panorama descrito é sempre o mesmo ! No entanto, nunca se encontram textos destes "a dizer bem" !
    ... Estranho ! ... ou talvez não ! o "Homem" (ao longo dos tempos) sempre teve uma necessidade "doentia" de dizer mal (em geral, de tudo e de todos) !
    Pessoalmente não valorizo muito este tipo de crítica, sempre fácil e sempre aprovada e apoiada por uma enorme maioria.
    Prefiro de longe ler críticas favoráveis (mas quem se atreve ?...) do que críticas desfavoráveis (fáceis) !

    ... mas se calhar, isso é defeito meu, que tento ser "conciliador" e "compreensivo das coisas" e não "divisionista" e permanentemente "derrotado e revoltado" !
    Aprecio e ocupo-me mais com as "coisas boas da vida" ... com o "carpe diem" ! ... mas como disse, isso é "um defeito meu" ! :)))

    Grande Abraço ! :)

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    1. Não é defeito teu, não, Rui!!

      És uma pessoa fantástica e o mundo seria bem melhor se todos pensassem e agissem como tu!
      Desculpa lá, Graça, mas vim até cá e ao ler o Rui, apeteceu-me dizer-lhe isto!!

      beijinhos.

      Janita

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    2. "necessidade doentia de dizer mal"??? Ou necessidade de denunciar o que está mesmo muito mal? Sejamos sinceros...

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  7. Nasceu há mais de 200 anos. Mas como está atualizado!

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  8. Olá, Graça.
    Mais um país que tinha tudo para ser maravilhoso e, no entanto, com uma percentagem tão grande de indecentes corruptos que destroem tudo em nome duma ganância tresloucada.

    bj amg

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  9. Amiga Graça:
    Porque será que o Poder tudo corrompe ?
    Sempre assim foi e assim será, que maçada !

    Um beijinho

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  10. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra é o que penso!
    Muito do que Guerra Junqueiro escreveu (e outros como Eça), era então verdade e infelizmente continuam a existir muitíssimas semelhanças com a actualidade.
    Mal de um povo que não se nega a bem fazer e a fazer bem (ou pelo menos faz o melhor que pode e sabe) e no entanto não é capaz de exigir dos seus governantes atitudes e comportamentos similares.
    O tal general romano (?) teve mesmo a "tal" premonição:
    -um povo que não se governa e nem se deixa governar?

    Beijinhos com sorrisos

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