segunda-feira, 30 de março de 2015

A Hora H

Encantou-me o texto de SérgioFigueiredo (gosto muito de o ler às segundas-feiras) hoje no DN sobre a morte do poeta Herberto Hélder. Da mesma forma que o encantou a ele a crónica que Pedro Santos Guerreiro sobre o assunto escreveu no Expresso do passado sábado.

Não vou aqui falar sobre o poeta nem sobre o seu desaparecimento primeiro porque sei pouco acerca da sua poesia e depois porque qualquer dos meus citados o fez já bem por de mais.

O que me encantou mesmo foi a humildade com que aceitou que o texto de Santos Guerreiro lhe banalizara o seu projeto de escrita sobre Herberto Hélder.

Mas do que gostei mesmo, mesmo foi a acusação que o autor faz, de dedo em riste, aos “intelectuais” da praça quando diz:

«Outros exercícios intelectuais enojam-me. A soberba. A arrogante apropriação do poeta, da obra, do homem que nem os queria por perto. Mas sobretudo pela falta de exemplo. Escritores revoltados? Só se for com a vidinha que levam.

No centenário de Orpheu, Herberto morreu. Mas é a vanguarda cultural que, em tempos de crise, há muito desapareceu. Sem combate. Sem sequer "dar uma bofetada no gosto público", como Almada Negreiros, recorrendo a Maiakovski, definiu o grupo a que Pessoa, Sá Carneiro, Amadeo, Santa Rita e ele mesmo pertencia. Cem anos passaram e os intelectuais portugueses estão calados. É o mais dramático dos falecimentos: não estão mortos, estão calados.

A Geração de Orpheu agitou as águas, era subversiva, deliberadamente escandalosa, ameaçava as convenções sociais e incomodava a burguesia do princípio do século XX. É cruel e trágica a causa mais nobre da elite amorfa, apática, medíocre e desistente dos nossos tempos.

Herberto apenas queria que o deixassem em paz. Ignorava o sistema, que era a melhor forma de o subverter. Aqueles que agora o evocam, pretensos indignados, simplesmente tudo fazem para continuar a ser parte dele

(sublinhados meus)


(Principais figuras da geração Orpheu)


20 comentários:

  1. Eu não diria melhor
    mas há muito que o venho dizendo
    como posso, como sei

    Sobre este escrito? Gostei!

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  2. Elite...onde é que ela está????
    Quanto a mim há muita gente medíocre que se leva muito a sério...
    Há os calados que deveriam falar e os faladores que deveriam estar mudos!
    bjs

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  3. Infelizmente para mim não conheço o poeta a não ser de nome e de alguns poemas publicados agora.
    Um abraço

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  4. Também aprecio as crónicas do Sérgio Figueiredo e esta não foge à regra.

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  5. "O calar-se, ainda vivo" nesse caso que você descreve, Graça, cheira-me à covardia...
    Abraço.

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  6. Bom dia
    Não conhecia este escritor.Nunca ouvi falar dele.É grave, mas até me parece ter sido o desejo do próprio - que o deixassem em paz.
    Agora que o grito da morte o levantou quero lê-lo e estudá-lo reparando a minha ignorância.

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    1. Também eu, amigo Luís!! Conhecia-o quase só de nome.

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  7. Essa postura de Herberto Hélder era bem conhecida, Graça.
    Longe do barulho das luzes que tanto atrai outros insectos.
    Beijinhos

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    1. Muito bem dito! «... que tanto atrai os insetos».... bela imagem!!

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  8. eu acho que há um pouco de injustiça, nesta quase mania de dizer que os "intelectuais" estão em silêncio.

    em primeiro lugar, poucos são os que têm "voz". e a maior parte dos que têm, estão comprometidos com o poder.

    não podemos esquecer por exemplo António Lobo Antunes ou Ricardo Araújo Pereira, Graça.

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  9. ~ Crónicas assinadas por quem dignifica a comunicação social, inteligentemente sublinhadas e partilhadas.

    ~~~~Bj~~~~~~~~~~~~

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  10. Subscrevo sem reserva.
    Concordo em absoluto.
    O sistema de castas não existe só na Índia. Cá, hoje como ontem, é bestial!

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  11. Gracinhamiga

    O texto é muito bom. Já no que toca ao autor tenho algumas reticências. Conheço-o desde a altura em que era companheiro do meu primogénito Miguel no então ISEG. A pretexto do grupo em que participavam iam estudar para a minha casa e... bebiam o meu uísque... Gostava muito dele,

    Mas, quando estive na mó de baixo no Ministério das Finanças onde era assessor de Sousa Franco foi ele, SF, o primeiro a atacar-me na Imprensa. Tenho dito

    Qjs de Goa

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    1. Acontece, Henriquamigo!! E essas "indelicadezas" não se esquecem nunca...

      Quanto ao whisky... faziam eles bem... eheheheheh....

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    2. ~ Parece impossível, Henriquamigo!
      ~ Caso para dizer que quem aprecia crónicas, não avalia corações.
      ~~~~~ Beijinhos para ambos. ~~~~~

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  12. Também aprecio as crónicas de Sérgio Figueiredo. E gostei do seu blogue :)

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    1. Muito obrigada, Miss Smile!! Apareça sempre. E diga coisas...
      Beijinhos sorridentes...

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  13. Infelizmente não o conhecia (foi preciso morrer para ler a sua poesia).
    É triste...

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  14. As vozes que se ouvem não são as do conhecimento, as da literatura, da cultura em geral, salvo raras excepções... Megafones só para os da cor, da forma, do volume... O mundo ainda vira uma bola amarela... Um desespero!

    Beijo

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  15. Por acaso também acho muito engraçado que, de repente,são todos peritos em Herberto Hélder, "grande poeta e escritor"... Será que realmente leram alguma coisa dele ou é só para armar aos cucos? Eu cá só li um livro em prosa, tipo crónicas, e gostei. Mas isso não faz de mim especialista, né? ;)

    Beijocas

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