sábado, 9 de dezembro de 2017

Não gaste seu tempo sem conta...

Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta,
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero fazer conta, e não há tempo.

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo...


Soneto, obra-prima do trocadilho, escrito no século XVII, por António Fonseca Soares.

Frei António das Chagas, de seu nome António da Fonseca Soares, também conhecido por Padre António da Fonseca, (Vidigueira, 25 de Junho de 1631 – Varatojo - Torres Vedras, 20 de Outubro de 1682)




23 comentários:

  1. Fazer conta... uma delicada situação, pois quando jovens, o tempo é todo nosso; depois na maturidade, o mesmo torna-se escasso e finito!
    Abraço.

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    1. É mesmo assim, Célia. A partir de certa altura das nossas vidas, o tempo corre veloz! Voa... Que fazer?

      Beijinho.

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  2. Um Soneto que é uma verdadeira preciosidade, feita de trocadilhos. Não conhecia e adorei!

    Não sei se consumimos o tempo, ou se é o tempo que nos consome...fico, agora, eu a pensar.

    Beijinhos.

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    1. É uma coisa e outra, Janita! Somos causa e efeito do Tempo. «Une gaite».... (em fraciú torna-se mais fino...)

      Beijinho.

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  3. Não há muito tempo o li, julgo que também num blogue. Só não me lembro qual. O tempo prega-me partidas, afeta-me a memória. :)

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    1. Andamos numa constante lufa-lufa e depois é no que dá...

      Beijinho.

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  4. Bom soneto e gosto de trocadilhos
    Mas a propósito de tempo
    Previna-se contra o mau tempo
    O Ana pode causar-nos sarilhos

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    1. Vamos lá ver se é verdade
      Que a dita Ana aí vem!
      Ainda não chegou a tempestade
      Por muito que a anunciem...

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  5. Muito ineressantes esses trocadilhos.
    Gostei. Um abraço e bom domingo

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    1. Acho que é preciso muita imaginação e bastante saber para transmitir estas mensagens tão acertadas de forma tão perfeita.

      Beijinho, Elvira.

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  6. Já está em fado :)
    https://youtu.be/irPXq8OpYR0

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    1. Ai, não sabia! Como bem sabe, não sou muito entendida em fados...

      Obrigada. Beijinho.

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  7. Bom dia. Existe um fadista português - Camané - que canta este tema de uma forma divina. Muito bonito. Quase não tive tempo de ler tal o tempo que o tema me inspirou, ficando pensativo sem tempo
    .
    Tema de hoje
    Margens de sedução de branca espuma
    .
    Deixando um abraço humilde e poético.
    Domingo feliz
    .

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    1. Ai, se é cantado pelo Camané, então é que não falho a ir ouvir. Gosto muito da voz dele.

      Obrigada pelas palavras e pelas visitas. Boa semana.

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  8. Excelente.
    Subscrevo o pertinente comentário da Célia.
    Beijinhos.
    ~~~~~~

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    1. A Célia tem sempre a palavra certa para o comentário, tens razão.

      Beijinho e boa semana!

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  9. podemos trocar as voltas ao trocadilho
    mas não trocamos a volta ao tempo!

    coisas bonitas que tu sabes, Graça!
    muito bem, sabichona!

    beijos

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    1. ... sempre a mangar de mim.... ai, ai!... MEN!...

      Beijinhos.

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  10. Sabes que foi este teu post que me deu a ideia daqueles “trava-línguas” ?… :)) ... e quando vi, não tive tempo para comentar ! :)
    Verdade ! Achei fantástico este soneto, realmente uma obra-prima de trocadilhos "da conta e do tempo" !!! … E vê lá que já no séc. XVII havia queixas de falta de tempo ! … e eu a julgar que havia tempo para tudo ! ☺
    Está uma pérola !!!

    Beijinhos na conta e no tempo certo, Graça que agora já tenho tempo.

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