quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Os Olhos de Blimunda ou da ingratidão dos homens

José Saramago faria hoje 95 anos se fosse vivo. 

Ficar-me-ia bem lembrar o nosso único Nobel da Literatura não fora tê-lo como um dos meus autores preferidos.

Não há como esquecer o seu majestoso Memorial do Convento, ou o extraordinariamente  criativo Ano da Morte de Ricardo Reis, ou a divertida História do Cerco de Lisboa, ou insidioso Evangelho Segundo Jesus Cristo, ou a mordaz Jangada de Pedra, ou o incisivo Ensaio sobre a Cegueira, ou todos os outros que com tanta maestria escreveu.

Para mim, porém, também não há como esquecer um texto que recolhi há algum tempo que versa a relação e vida em comum entre o nosso laureado e a escritora Isabel da Nóbrega (n. 26 de junho de 1925) do qual passo a transcrever alguns excertos.




«Os Olhos de Blimunda

À Isabel, porque nada perde ou repete, porque tudo cria e renova”, escreveu José Saramago na primeira edição do romance Memorial do Convento, publicado em 1982. Percebe-se pela densidade que não seriam apenas palavras de circunstância, e isso torna ainda mais angustiante o acto posterior do seu apagamento e substituição por uma dedicatória a outra mulher.

Neste acto, que muitos classificam como “estalinista”, devido ao facto de durante o regime comunista soviético ser habitual eliminar das fotografias pessoas que se passaram para a oposição ou foram assassinadas, há qualquer coisa de mais inquietante: o inevitável fim do amor. E se João Gaspar Simões,[com quem Isabel vivera e deixara para se ligar a Saramago] ainda que de forma perversa, imortalizou Isabel na figura de Albertina (Tininha) em As Mãos e as Luvas, Saramago tentou obliterá-la para todo o sempre, o que terá sido mais terrível.

Contudo, nas edições mais antigas dos livros do Nobel, podemos encontrar vestígios dessa ligação que, para muitos, terá sido fulcral para o posterior desenvolvimento da obra literária de Saramago. E não é apenas nas dedicatórias que encontramos traços do seu encontro fundamental com Isabel da Nóbrega, mas na própria construção das personagens. É que se Gaspar Simões compara os olhos de Isabel aos de uma Medusa (a górgona mitológica que petrificava quem a olhasse), Saramago acaba por dar à sua mais importante personagem, Blimunda, uns olhos igualmente mágicos, capazes de perscrutar as almas por dentro dos corpos

O próprio nome “Blimunda” foi Isabel quem o escolheu de uma lista que Saramago tinha feito, e da qual tinha escolhido Mariana Amália. Como ela conta, numa entrevista dada à revista Tabu do jornal Sol em 2009, ficou chocada com o nome escolhido para a personagem feminina do Memorial do Convento:

“Mariana Amália? Mas ele endoideceu. Não há direito de pôr Mariana Amália na figura desta mulher. Chamei-o. ‘Está lindo, está tudo certo, menos uma coisa que tens de emendar – Mariana Amália. Tem paciência, quando foste à biblioteca e recolheste nomes da época hás-de ter encontrado um que se possa ver’. Ele voltou à secretária e daí a um bocado apareceu e começou a dizer nomes. Ouvi ‘Blimunda’, pedi-lhe que voltasse atrás e, quando repetiu o nome: ‘Ó Zé, parece impossível! Como é que tinhas este nome na tua lista e não viste que esta mulher é exactamente Blimunda?’. Pegou no manuscrito, que era enorme, e foi emendar tudo, tirar Mariana Amália e pôr Blimunda. É engraçado porque ele chamava-me sempre bruxinha (…) como ele achava que eu via muito bem as pessoas por dentro, lá está, esse jogo…”

(...)


Nesta década [de 50], quando Nóbrega já exibe uma enorme maturidade literária, José Saramago trabalha na editora Estúdios Cor (ali ao lado da redacção do jornal A Capital, da qual Nóbrega foi uma das fundadoras) e tinha uma travessia incipiente pelo romance e pela poesia. É ela quem, em 1968, lhe oferece trabalho n’A Capital para redigir um suplemento de Verão. Mais tarde, convence o director a aceitá-lo como cronista.

Tendo em conta a realidade da sociedade portuguesa nos anos 60, o encontro entre Isabel da Nóbrega e José Saramago era altamente improvável. Ela, filha de um reputado médico, educada no protestantismo, membro da alta-burguesia intelectual, há anos a viver com o mais feroz dos críticos literários, João Gaspar Simões, a quem se devem os primeiros estudos e divulgação da obra de Fernando Pessoa e heterónimos. Ele, um neto de porqueiros do Ribatejo, ex-torneiro-mecânico com aspirações a escritor, que trabalhava como tradutor e fazia os textos para as badanas dos livros da Estúdios Cor. 

“Naquela altura em que estávamos n’A Capital, ele tinha sempre um olhar de quem estava a sofrer. Era um olhar que seduzia (os homens sabem muita coisa e as mulheres ficam fraquinhas diante daquele olhar triste)”, conta Isabel da Nóbrega ainda à revista Tabu.

(...)

“Isabel era uma mulher linda, com bom gosto”, recorda o olisipógrafo, ensaísta e jornalista António Valdemar. “Tinha um estilo muito próprio de se vestir, muito sofisticada… já o Gaspar Simões era gordo… Mas com o Saramago foi diferente. Aquilo foi uma grande paixão. Ele ainda estava casado com a Ilda Reis e só devia ler romances neo-realistas. Estou convencido que foi a Isabel da Nóbrega que o tirou do esgoto neo-realista e o influenciou para descobrir outras literaturas, nomeadamente o Pessoa. Acredito nisto: sem a Isabel, Saramago nunca teria escrito O Ano da Morte de Ricardo Reis”, afirma Valdemar.

À Isabel, outro livro, o mesmo sinal” — é com esta dedicatória que o Nobel inicia o seu romance O Ano da Morte de Ricardo Reis, publicado em 1984.

(...)

“Lembro-me da primeira vez que vi Saramago e Isabel juntos. Foi na praia de Sesimbra, eu estava em Portugal de férias, e vi aquele estranho par, ele muito alto e peludo e ela muito pequena e branca, a caminharem de mão dada em direcção à água”, recorda Helder Macedo. Perguntei quem era e alguém me disse: é o novo rapaz da Isabel. Eu conhecia Saramago da luta política, tinha até uma certa reverência para com ele, que era bastante mais velho, e nunca gostei da forma como ele era tratado por aquele meio da alta-burguesia. Acho que para manter aquela relação ele teve que sofrer muitas humilhações. Que raio, chamavam-lhe ‘o sarabago’”, conta, indignado, o escritor, poeta e grande admirador de Saramago.

(...)

Pela forma ligeira com que Simões apresenta o editor que alegadamente representa Saramago, dir-se-ia que ele não acreditava no futuro daquele relacionamento, que na vida real acabou por durar quase duas décadas. Se há quem ache que Saramago foi o vilão da história, também há quem ache que foi a vítima. Ele próprio justificou a retirada das dedicatórias com a mudança que os livros vão tendo nas suas várias edições, uma mudança que se vai adequando às circunstâncias da vida de um autor. (...)»

http://observador.pt/especiais/isabel-da-nobrega-do-musa-saramago-apagou-da-historia/    


Pronto... E depois disto, tudo é Pilar del Rio, Pilar del Rio, Pilar del Rio...  Não me parece justo...


21 comentários:

  1. Boa noite. Como esquecer de José Saramago? nunca! Adorei o seu texto.
    Obrigada pela partilha.

    Bjos
    Noite feliz

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    1. Obrigada, Larissa. Sempre tão amável.

      Beijinho.

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  2. Cada um lá sabe as linhas com que se cose!...Isto, para ripostar à tua frase final e ao facto de não achares justo...só Pilar del Rio!
    É que foi Pilar del Rio que fez Saramago subir ao cume...onde se sentam os génios...:)
    Ai dele sem Pilar del Rio!...

    Beijinhos.

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    1. Verdade. Mas ai dele sem a Isabel da Nóbrega... Nada contra a Pilar.

      Beijinho.

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  3. Há mulheres com olhos mágicos. Há homens que fazem magia.

    Beijos, Graça :)

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  4. Não minto, não sou hipócrita - nunca gostei de Saramago.
    Do homem e do escritor.
    Beijinhos, bfds

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    1. Gostos não se discutem, Pedro!

      Bom fim de semana!!

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  5. Mas que agradável leitura me proporcionou, Graça! Não tinha reparado na mudança das dedicatórias, (tenho dele quase todas as primeiras edições.)
    Que dizer sobre o aqui dito? A um "único" Nobel pode perdoar-se tudo. Sobre a Ilda, a Isabel, a Pilar e as outras musas, acho que fizeram com ele um bom trabalho.

    Tenha um bom dia!

    Lídia

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    1. Eu também tenho os livros com as dedicatórias antigas e nunca tinha reparado nisso...

      Obrigada por ter gostado. Beijinho.

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  6. E para o recordar ... uma belíssima escolha!!!bj

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  7. Graça
    mas que agradável trabalho que compartilhou.
    fiquei muito surpreendida com certos detalhes que eu não sabia.
    obrigada
    bom fim de semana.
    beijo
    :)

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    1. Factos que eu também desconhecia. Que bom que deu para passar informação.

      Beijinhos

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  8. Teu texto faz-me lembrar que não deveria ter eu abandonando as "homilias"... ficou tanto por dizer...

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  9. Por detrás de um grande Escritor nem sempre se encontra um grande Homem!...
    Qtº a Isabel da Nóbrega, "a musa que Saramago apagou da sua história...precisa urgentemente de ser redescoberta" antes que lhe aconteça, como Escritora, o que lhe aconteceu enquanto Mulher...
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Isabel_da_N%C3%B3brega

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    1. É bem verdade. Tantas escritoras que estão caídas no esquecimento. Há que serem lembradas. Vou-me lançar nisso! Obrigada pela ideia. Beijinho

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  10. Obrigada Graça.
    Foi um prazer e um privilégio passar hoje pelo seu Blog. Como habitualmente, colhi informação preciosa e deleite literário com o seu belo e sábio texto. Um abraço UM

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  11. Deixo-lhe para ler este artigo sobre o tema que aqui desenvolveu.

    http://observador.pt/especiais/isabel-da-nobrega-do-musa-saramago-apagou-da-historia/

    Boas Festas!

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