sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Chegou o Outono

Em honra da estação que há pouco chegou, aqui fica esta belíssima Canção de Outono da grande poeta brasileira Cecília Meireles.

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles
que não se levantarão...

Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...




14 comentários:

  1. Cecília Meireles - poeta fantástica!
    Por aqui, celebramos a chegada da Primavera! Muito calor, Sol e flores!
    Abraço.

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    1. Desejo-vos uma excelente Primavera!!

      Beijinhos primaveris...

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  2. Bonito poema e bonita estação. Um pouco triste e estou quase a fazer anos ! :)

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    1. Que bom, Ricardo!! Quantos mais anos fizermos, melhor!!

      Beijinho.

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  3. Cecília Meireles, é uma das minhas poetizas preferidas.
    Um abraço e bom fim de semana

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    1. Tem poemas lindíssimos, de uma sensibilidade sem par. Também gosto da sua escrita.

      Bom fim de semana para vós.

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  4. Lindos, poema e imagem, a lembrar a chegada desta dourada e bela Estação!

    Beijinhos

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    1. É, de facto, uma estação dourada. Quando era nova não gostava nada do outono, mas tenho vindo a apreciá-lo cada vez mais.

      Beijinhos.

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  5. Um poema inesquecível e uma imagem graciosa
    compuseram um belo 'post'... bom gosto...
    Por aqui, ainda é verão...
    ~~~ Beijinhos ensolarados ~~~

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    1. Por aqui também ainda está muito bom tempo, embora as noites estejam já bastante frias...

      Beijinhos e boas melhoras.

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  6. O poema é muito bonito e a imagem da Vinha Virgem que é das plantas mais bonitas no outono fica uma combinação perfeita.
    bjs

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  7. Gracinha, gosto muito da Cecília. Deixo outro escrito dela:

    A arte de ser feliz

    Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

    Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

    Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

    Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

    Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

    Cecília Meireles, no livro “Escolha seu sonho”

    __________

    Bom domingo. Beijo.

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  8. Uma escolha fantástica para celebrar a data!!! Bj

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  9. Cecília Meireles (foi) é uma grande escolha pelo tom que imprime na folha. Fosse em que folha fosse, deixava sempre uma marca indelével. Poesia, seguramente, numa folha seca de outono.

    Bj.

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