segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Nunca tal tinha ouvido!

Tomei conhecimento hoje no facebook   (admirável mundo novo!) por uma notícia antiga (de 2015): a cidade romana de Balsa de que nunca tinha ouvido. Santa ignorância! Tantas idas ao Algarve e nunca tinha ouvido falar!



Balsa, nome de origem fenícia (a forma inicial seria Baal Safon ou Baal Shaman, epítetos do deus fenício protector dos navegantes, e corresponderia à designação do povoado fenício de Tavira (sécs. VIII-VI a.C) foi a capital do Algarve Oriental na Época Romana, 1100 anos antes de Tavira.

Ao Porto de Balsa chegavam barcos e mercadorias dos mundos distantes de Roma, Cádiz, de Leptis Magna, de Thamusida, de Lixus e de Cartenna. As suas ruínas, soterradas há mais de mil e quinhentos anos, esperam para revelar uma das cidades mais vivas do Mediterrâneo ocidental.

Em 1866, os arqueólogos Estácio da Veiga e Teixeira de Aragão realizaram as primeiras escavações em Luz de Tavira. Mas só em finais dos anos 70 do séc. XX se realizou o único relatório técnico arqueológico. Desde então, a cidade romana de Balsa, um dos mais brilhantes centros urbanos do Portugal romano, caiu no esquecimento.

Manuel Maia, autor do relatóriotécnico, foi um dos arqueólogos que, em 1977, fez parte da equipa que ficou deslumbrada com a descoberta desta cidade romana à beira-mar, na Quinta da Torre D´Aires.

“Começámos a escavar às cegas porque à superfície não se via nada. Eu escavei na parte mais baixa e apanhei o esgoto das termas. O Quartim Ribeiro escavou no vale e apanhou-se uma lixeira dentro de uma casa arruinada, com coisas absolutamente espectaculares. A minha mulher (Maria Garcia Pereira Maia) escavou mais abaixo, num complexo de salga de peixe. Cetárias, umas a seguir às outras. Estávamos absolutamente deslumbrados”, descreve.

Na Quinta Torre de Aires há ainda necrópoles, uma parte habitacional, edifícios com mosaicos, balneários, tanques de salga de peixe, cerâmica e moedas.

Fora da zona classificada como património arqueológico e Zona Especial de Protecção haverá ainda aquedutos, necrópoles, fornos industriais, um hipódromo e algumas vilas suburbanas. A dimensão dos vestígios é imensa e não há nada comparável em território nacional.

“Conímbriga ao pé daquilo é uma pequena cidade de província... Mesmo Lisboa era mais pequena. Balsa era uma super cidade portuária”, sublinha Manuel Maia.

Ao longo dos anos, a área com valor arqueológico - muito maior do que o sítio classificado - foi sendo destruída.

Há proprietários de moradias, fora do sítio classificado, que durante a construção, descobriram termas romanas. Estas ou foram destruídas ou que ainda estão nas caves dessas moradias. Outros dão-se ao luxo de ter paredes de casas de banho forradas a pequenos mosaicos romanos.

A estação romana da Luz está numa área sob forte pressão imobiliária - mas não há uma estratégia de salvaguarda.

Os terrenos classificados, propriedade de privados, foram utilizados em agricultura ao longo dos anos. Mas agora, foram destruídos, em parte, com obras de construção de estufas de frutos vermelhos que obrigam a terraplanagens e à instalação de sistemas de rega escondidos em valas de alguma dimensão.

“Abandonaram aquilo”, diz Manuel Maia. “Não sei os interesses económicos que estão por detrás e que estiveram sempre por detrás. Foram autorizadas construções por todo o lado. O que é que está por detrás disso não sei.”

Balsa foi completamente abandonada.

Em 2007, Luís Fraga da Silva apresenta o livro «BALSA, Cidade Perdida», profusamente ilustrado, a primeira obra de divulgação sobre essa importante cidade romana. Nele se revelam alguns dos achados arqueológicos aí descobertos, assim como importantes aspetos da sua história, urbanismo, economia e população.


Deixo aqui a parte inicial de um filme realizado para a RTP2 sobre a acrópole romana de Balsa para quem tiver curiosidade.




15 comentários:

  1. Também não conhecia... mas também não temos de conhecer tudo.. senão deixava de haver o que descobrir...!
    Vê como ficaste feliz por descobrir algo novo! :D
    Estamos sempre a aprender... e vamos morrer sem tudo saber! :*

    Beijinhos sempre novos
    (^^)

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    1. Claro, tens toda a razão: não podemos saber tudo, por isso dizemos que estamos sempre a aprender. E há tanto para aprender!

      Beijinhos renovados...

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  2. Já tinha ouvido falar deste assunto!
    Mas fiquei a saber mais um pouco! Bj

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    1. Ainda bem, Gracinha. Fico feliz por isso.

      Beijinho.

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  3. Também desconhecia, embora passe por Tavira todos os anos.

    É por estas coisas que somos o pais que somos, Graça.

    abraço

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    1. É isso que me espanta e entristece: é conhecer os locais e visitá-los tantas vezes e não nos darem a conhecer aspetos tão interessantes como este. Que pais este, realmente!

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  4. Fiquei mais rica em conhecimentos!
    Estou com a Afrodite: não podemos saber tudo!
    E que direi eu?! : )

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    1. A tristeza é que neste país (tão rico em belezas naturais e património) não se divulga nada, ninguém se interessa por nada. Uma coisa destas num país dito civilizado seria tratada,acarinhada e divulgada. A pena é essa!

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  5. Excelente este teu trabalho de recolha destes dados, de que eu não fazia a mais pálida ideia !
    ... E pergunto-me porquê ! ... Porque será que uma "coisas" destas não é já do domínio público ?...
    Haverá "interesses" relativos a terrenos ? ... Será que grande parte foi tomada pelo mar ?... Será que os custos de exploração desta "cidade" serão demasiado elevados ?...
    Olha ! Fiquei "pasmado" com o conhecimento desta situação e agradeço-te tê-la trazido ao nosso conhecimento.

    Um Abraço, Graça !

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    1. Eu é que agradeço as tuas sempre amáveis palavras, Rui. De facto, brada aos céus não termos conhecimento alargado destas riquezas. «Algo vai mal no reino da Dinamarca»...

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    1. Saber que deveria ser do domínio público, não é?

      Beijinho.

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  7. E que mais descobertas de antigas civilizações irão sair do ventre da terra? Não conhecia mas tenho uma sobrinha formada em antropologia e tem feiro parte de equipas de escavações arqueológicas em Mértola.
    É um trabalho apaixonante mas muito desgastante. Agora passou para outra actividade mais ligada à orientação. Os anos passam e não perdoam.

    Sempre ouvi dizer que o saber não ocupa lugar, Graça. Gostei de ficar por dentro destas valiosas informaçºoes que connosco compartilhas.

    Um abraço agradecido.

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    1. Obrigada, Janita. Deve ser apaixonante o trabalho das escavações, mas duro, e por vezes, até dececionante.

      Beijinhos antropológicos...

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  8. Eu, ignorante me confesso. Também nunca tinha ouvido falar de Balsa

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