quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ainda o Ulisses

E lá fui eu, sem falta, à Bertrand porque recebi uma mensagem que anunciava livros a cinco euros e com descontos até 50% para os dias 26 e 27. Cheguei lá, ontem de manhã, e o maior desconto que vi foram os habituais 10% de desconto em cartão em todos os livros. Eu li bem! Era nos dias a seguir ao dia de Natal e não era só online…

Zanguei-me. Detesto que me/nos enganem. Por isso nem perguntei a nenhuma das pouco simpáticas “colaboradoras” (agora diz-se “colaboradoras”, nada de empregadas e menos ainda funcionárias… politicamente incorrecto, discriminatório, vexante e assim… Tretas!) que por lá se movem.

Ora ainda bem! Até porque tenho montes de livros que ainda não li – e nem sei se chego a ler. Enfim.




Se já terminei o Ulisses? Claro que não! Mas não me preocupo nada. O autor demorou sete anos a escrevê-lo por isso eu tenho ainda muito tempo pela frente para o terminar…

Não há o problema de perder a sequência da ação porque se trata de um longuíssimo texto em forma fragmentária. Não é o tempo que marca a evolução da narrativa, mas o espaço: cada rua, cada beco, cada novo bar ou taverna visitados por Bloom e Dedalus têm a sua própria pequena narrativa com as suas próprias personagens, por isso não se perde o fio à meada, até porque não há meada. Os elementos estruturantes são as personagens principais: Leopold Bloom e Stephan Dedalus que fazem o seu périplo pela cidade de Dublin durante um dia apenas – dezoito horas para ser exata – o dia 16 de junho de 1904. Uma imagem irónica da Odisseia de Homero na qual Ulisses deixa a sua mulher Penélope (aqui redesenhada por Molly, a mulher de Bloom) durante dezoito anos para fazer o seu périplo pelo Mar Mediterrâneo.

Há, no Ulisses de Joyce, fragmentos verdadeiramente poéticos como é o caso por exemplo, da longuíssima e quase enciclopédica referência a Shakespeare - «ele era um lorde da língua…» - e à sua obra, em que o autor nos dá toda a sua visão do que é a arte, a sabedoria eterna, o conhecimento grego. E, embora alcandore Shakespeare ao expoente máximo da literatura, não deixa de fazer passar um ténue ciúme. «Os nossos jovens bardos irlandeses têm de criar ainda uma figura que o mundo coloque ao lado do Hamlet do saxão Shakespeare…»     

Esta rivalidade entre a Irlanda e a Inglaterra aliás está patente ao longo da obra «… referente aos recursos naturais da Irlanda (…) que ele descreveu na sua prolixa dissertação como o país mais rico sem qualquer excepção à face da terra de Deus, muitíssimo superior a Inglaterra, com carvão em vastas quantidades…»

Grandes reflexões sobre a mulher e a maternidade, as inúmeras maternidades que as mulheres têm de sofrer, bem como as grandes evoluções da medicina no campo da maternidade. Se pensarmos que estas reflexões foram escritas no início dos inícios do século XX, veja-se o avanço da mente do narrador (ou terei de dizer “autor”), um judeu e maçon e dos países do Norte da Europa.

Há outros fragmentos, porém, que são quase incompreensíveis de longos e chatos, com uma linguagem muito peculiar e referências culturais que, pelo a mim, me passam muito ao lado.

Tanto a dizer acerca do Ulisses de Joyce! Hei de voltar…

De enaltecer a qualidade do texto reescrito em português pelo excelente tradutor Jorge Vaz de Carvalho. Não lhe deve ter sido nada fácil, mas está muito bem conseguido.

(A propósito e na esteira do Ulisses de Joyce, não posso deixar de referir «Uma Viagem à Índia» de Gonçalo M. Tavares, uma narrativa igualmente estonteante e estilhaçante ancorada em Os Lusíadas, também em X Cantos.

Hei-de “trazê-la” aqui.)

15 comentários:

  1. Não passei do seu 2º parágrafo
    e fiquei a me interrogar, com cara de parvo:
    "Colaboradoras? Empregadas? Funcionárias?
    E porque não trabalhadoras?
    Sim, porque não?"

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    1. Trabalhadoras? Ui! Isso soa a socialismo, Rogério! Lá iam querer que as chamassem assim, nas empresas?

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    2. Por mim tudo bem! Tudo menos colaboradores porque um colaborador colabora de vez em quando e pode ser pago ou não. Não dá para entender a diferença?

      Quanto a «trabalhador», é como diz a Maria: cheira a socialismo/comunismo e assim.... grrrrrr...

      Ai, ai!!!

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  2. Custa a "engolir"!

    Beijinhos, Graça, e um Bom Ano Novo :)

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    1. Bom Ano Novo, Maria! Tudo a correr pelo melhor!

      Beijinhos.

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  3. Pois, parece que ninguém quer ser trabalhdor. O ser humano continuará a ser pessoa, homem e mulher? Adiante, isto dava pano para muito lençol.
    O tempo, esse ladrão, não chega para ler tudo por isso não adianta correr atrás de mensagens e promoções que têm o objectivo de manter cativo o consumidor.
    Ulisses teve tanto tempo para deambular... Há livros que não se deixam navegar facilmente mas há sempre a possibilidade de desistir.
    Bj.

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    1. Pois é, mas tem um encanto estranho, como que um chamamento, sei lá... hei de lá voltar...

      Bom Ano e boas leituras!

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  4. Pois Graça, entendo... também fico furiosa quando me enganam...

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  5. Pra mim colaborador vai ser o mesmo que funcionário, sempre.

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  6. Não conheço a obra Graça!
    Eu não tenho adquirido livros pois há tantos na minha biblioteca que aguardam uma leitura atenta!!!
    Bj amigo

    https://mgpl1957.blogspot.pt/2016/12/a-fe.html

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    1. Como a compreendo!! "Queixo-me" do mesmo...

      Beijinhos e Bom Ano!

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  7. Não podia deixar de passar por aqui para desejar-lhe um Ótimo Ano Novo!!!

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    1. Obrigada, Rosa. Desejo-lhe o mesmo. Bom Ano/Melhor Ano!!

      Beijinhos

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