quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

«Adeus, até amanhã»


Sei pouco, muito pouco, da literatura norte-americana da actualidade, por isso, quando acontece aparecer-me um romance de autor norte-americano que, por qualquer motivo me atraia, decido-me a lê-lo.

Foi o caso. A Bertrand costuma ter uns títulos escolhidos com desconto de 50% em cima do balcão da caixa e, de vez em quando, trago um ou outro comigo. Já trouxe «Orlando» de Virginia Woolf – que é um espanto de beleza e de magia – e este, «Adeus, até amanhã», de William Maxwell, autor para mim até agora desconhecido. Uma short novel, 140 páginas, que se lêem com agrado.

O narrador relembra e conta um crime que aconteceu era ele criança na cidade de Lincoln, Illinois, há mais de 50 anos, no início dos anos vinte do século passado. Não tem nada a ver com um policial: o crime é-nos contado logo no primeiro capítulo, que quase funciona como prólogo, passando o narrador a falar da sua solitária infância, da casa onde viveu com o pai e com os irmãos, da morte prematura e inesperada de sua mãe que o marca indelevelmente, e de um amigo muito especial, muito íntimo.

E é essa sua narrativa da sua infância e adolescência que entronca no crime passional que acontece no seio de duas famílias vizinhas e amigas devido aos amores e desamores entre os casais. O centro do enredo é exatamente a amizade que existe entre o narrador e o filho do autor do crime, Cletus, que é brutalmente cortada quando este é levado por sua mãe para longe, depois de abandonar o marido e a casa.

A descrição dos sentimentos da cada uma das personagens, seja dos miúdos, seja de cada um dos elementos dos casais desfeitos pelas tristes circunstâncias que sobre eles se abateram, é de uma profundidade, de um calor humano, mas também de uma tal naturalidade que, sem sombra de pieguice, nos deixa, por vezes, um nó na garganta.

Novela psicológica, de amor e de amizade mas também de culpa, muito nos diz acerca da realidade vivida no início do século XX, numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos, da relativa autonomia das mulheres, das relações de trabalho, até do grau cultural.

Escrita em 1980, esta novela tem muito de autobiográfico se atentarmos no facto de Lincoln ter sido a cidade natal de William Maxwell (1908 – 2000) e também no facto de, tal como aconteceu à mãe do narrador, a mãe do autor ter morrido vítima da pneumónica, ou gripe espanhola, tinha ele dez anos.

A tradução para português esteve a cargo de Miguel Castro Caldas, jovem escritor da actualidade, mas nem por isso a escrita flui como fluem os pensamentos e os sentimentos do narrador. E depois, a páginas sessenta e tal, apareceu-me um «defenderia-o» e…

Sabem agora porque é que eu prefiro ler livros de autores portugueses (conceituados!)?

15 comentários:

  1. ORLANDO é um dos livros da minha vida, assim como toda a obra da Virginia Woolf.

    William Maxwell já está há muito tempo na minha lista.

    Boas leituras 😘

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  2. Nunca li nada de William Maxwell.
    Um abraço

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    1. Eu também nunca tinha lido, Elvira, e gostei.

      Beijinhos

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    1. Se o ler em inglês até é capaz de gostar mais, sei lá!

      Beijinhos

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  4. As traduções são o diabo mas acrescentar-lhe calinadas não vale. A conjugação verbal não está, provavelmente, bem resolvida nos programas de revisão de textos e então é como se vê... Nos jornais nem vale a pena falar.
    Quanto à obra, apresentada com esmero pela a Graça, fica na lista.
    BFS.

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    1. Obrigada pelo «esmero»... Lê-se bem e rápido.

      Beijinhos e boas leituras.

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  5. Graça, Acho que senti um "baque" igual ao teu!!!
    Ia eu toda animada deslizando o rato na tua prosa quando leio o "defenderia-o"....pena!
    Além do que tu tão bem expões há outra coisa que eu também não suporto: traduções em "português brasileiro" :((((
    Beijinhos e obrigada pelo post pois de qualquer modo fiquei com vontade de ler o livro.
    bjs

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    1. Também não leio traduções em português do Brasil. Até detesto as legendas que por vezes aparecem de séries ou filmes em Português do Brasil.Até me custa a entender...

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  6. Nunca li nada William Maxwell, mas pelo que referes deve ser interessante.

    Beijinho Graça

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    1. Ias gostar de ler, Flor!! Posso emprestar.

      Beijinho.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Não terá sido erro de género tipográfico?!
    De qualquer modo, o erro não é do autor, pelo que penso que por lapsos
    destes, não devemos abdicar da leitura de bons autores estrangeiros.
    ~~~ Beijinhos ~~~

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  9. Como tem passado?
    Venho desejar-lhe uma excelente Quadra Natalícia!

    Bjjjjsss!

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