sexta-feira, 24 de abril de 2015

O primeiro 24 de Abril

(Do DN 150 anos)
Lembro-me sempre muito do primeiro 24 de Abril depois daquele 25 de Abril que para sempre haveria de mudar as nossas vidas.

A excitação vinha do facto de irmos participar, pela primeira vez, numas eleições livres! Pacoviamente habituados que estávamos a comprar uma roupinha nova para os eventos especiais – exames no liceu, idas a espetáculos de algum nível, visitas ou passeios distintos – lá fui comprar uma camisa nova (adoro comprar camisas para os homens! Influências de meu pai que era o que noutros tempos se chamava «chefe de escritório» e mudava de camisa, especialmente no verão, duas vezes por dia) para o meu jovem marido. Comprei-lhe uma camisa de cambraia azul escura com raminhos castanho-dourado, com aqueles colarinhos de tamanho exagerado dos anos 70, de boa qualidade e melhor preço, na melhor loja de Leiria – nessa época vivíamos melhor que hoje, se bem que ainda não «acima das nossas possibilidades» - e, chegada a casa, avisei com o meu melhor tom de ironia, que tinha sido aquela daquela qualidade porque, se no dia seguinte as eleições fossem ganhas pelo PC, poderíamos ter de usar farda à MAO…

No dia das eleições (para a Constituinte), as pessoas postaram-se nos locais de voto manhã cedo e formaram bicha para votarem. Foi lindo de se ver o entusiasmo, a alegria, a excitação ali na Junta de Freguesia de Marrazes onde votamos.

As filas serpenteavam pelo adro da escola e eu, grávida da minha filha mais velha, de blusa vermelha como convinha debaixo da túnica larga amarelo sol, alegremente negava a quem me convidava a passar à frente na bicha para não ter de esperar de pé. Aos 27 anos, era o meu primeiro voto e tinha de o aproveitar, de o fruir bem. É por isso que quase se me arreganham as unhas dos pés quando me dizem «Votar, eu? Para eles se irem encher para lá?!» e outros impropérios revoltantes.

Sabem lá eles – ou apenas não querem saber – o que custou ganharmos o direito a votar! E outros de igual e até maior importância!!

Por isso – e apesar de tudo – 25 de Abril SEMPRE!!


15 comentários:

  1. Gracinhamiga

    Parece que foi ontem - e já passaram passaram 38 - trinta e oito! - anos... Eu já estava cá, depois de oito anos de Angola, e com que emoção fui pela primeira vez na vida votar em Liberdade e Democracia.

    Muito obrigado pelo relembrar o que aconteceu; mas há muitos adultos a caminhar para velhos que nem querem pensar no 25 barra quatro, como dizem - que insulto!

    Há que lembrar aos jovens o que aconteceu: a passagem da ditadura para a democracia. Muitos nem sabem o que foi o 25 de Abril...

    Qjs

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    1. 38 anos? Terá feito bem as contas?...

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  2. ~~
    ~~~~ O que custou! O que esperámos!

    Amordaçados, prontos para o calabouço ao menor deslize ou delação...
    Só quem vivenciou a ditadura consegue dar o devido valor à Liberdade.
    ~~~~Bj~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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  3. Não me lembro de ter comprado "roupa nova" mas das filas, da alegria, da festa, lembro... E, do texto, só excluiria o "apesar de tudo", a preceder o 25 de ABRIL, SEMPRE. Se alguma coisa há a lamentar é a traição aos princípios humanistas que sustentaram a revolução.


    Bj.

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    1. No nosso peito não há «apesar de tudo», mas tem havido tantos pelo meio! Tantos desencantos, tantas contrariedades, tantas deceções, tantas pedras no caminho....

      Beijinho, Lídia!

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  4. Amiga Graça, não votei nas primeiras eleições pois tinha 17 anos, morava em Camarate na altura e lembro-me da fila imensa de votantes.
    Uma época de sonhos e excitação, oposta completamente à realidade actual.
    25 de Abril sempre !

    beijinho e bom fim de semana

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  5. 25 de Abril SEMPRE !!! Estamos de acordo.

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  6. A Lídia lembrou os traidores, falou por mim
    ia a dizer qualquer coisa assim

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  7. Desejar que a felicidade esteja por aí.

    MANUEL

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  8. OI GRAÇA!
    O DIREITO DO POVO AO VOTO DIRETO E LIVRE, TEM DE SER SAGRADO.
    ADOREI TEU TEXTO.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  9. Só quem o viveu , não é ?
    Talvez por isso a desilusão às vezes é maior.
    M.A.A.

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  10. 25 de Abril, hoje e SEMPRE!
    Excelente texto.

    Beijinho e até amanhãaaaaaaaaaaaaaaaaa

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  11. Também me lembro muito bem das filas e da felicidade que todos tinham por estar ir votar.
    Eu nunca faltei e devo dizer que adoro fazê-lo, sinto-me mesmo feliz por poder votar-
    bjs Graça e bom almoço

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