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Nados e criados a ouvir dizer que na sexta-feira santa não se pode comer carne, grande parte de nós continua a cumprir este preceito como se de lei se tratasse e a passá-lo com toda a firmeza aos nossos mais jovens.
Fazemo-lo mais por tradição do
que propriamente por convicção religiosa e também daí não vem mal nenhum ao
mundo. Se bem que sempre me tenha feito muita confusão o facto de não se poder comer
carne mas de se comer peixe e bacalhau, sabendo-se que de estes animais
marinhos tal como dos mamíferos e das aves lhe comemos a carne… Mas é como
comecei por dizer: faz parte das nossas tradições.
Vale a pena contar aqui, a
propósito, um episódio que por aqui aconteceu há muitos anos e que é bastamente
recordado cá em casa.
A mãe e a avó do meu marido tiveram
aqui na rua principal, perto da estação de caminhos-de-ferro, uma pequena
pensão onde também serviam refeições. Ora uma bela sexta-feira santa nos idos
de 60, chegou no comboio, já depois de os almoços terem sido servidos, um padre
cansado e afogueado de calor e de sede que entrou na «loja» - assim chamavam à entrada
do estabelecimento – e perguntou se ainda podia comer alguma coisa. A avó,
mulher determinada e conhecedora da vida, de pequenos e vivos olhos azuis que,
depois de fixados no interlocutor, logo perscrutavam o que lhe ia dentro, disse
ao padre que, infelizmente já nada restava dos menus do almoço e que apenas
tinha bifes no frigorífico sempre prontos a saírem para uma emergência, mas
como era sexta-feira santa, o senhor padre certamente não iria comer carne …
Aí é que a avó se enganou! O
padre, dentro daquela bonomia que se conhecia nos velhos padres que ainda
caminhavam nas ruas de sotaina, respondeu indulgente que comia sim o bife até porque
vinha muito cansado e cheio de fome e já tinha pago as devidas bulas…
Não assisti ao quadro – nesse tempo
ainda não me movia por estes lados – mas imagino a expressão brilhantemente zombeteira
(que depois tão bem conheci) que avó deve ter feito ao senhor padre antes de se
dirigir para a cozinha para pôr tudo em marcha para servir o bifinho com as
belas batatas fritas rijinhas e estaladiças (descascadas na altura, não das
pré-fritas que agora se usam) e a respetiva saladinha de alface com bastante
vinagre…
Que história bem contada, afinal eu tinha as minhas razões ao escrever o comentário anterior.
ResponderEliminarOntem comi carne assada à antiga portuguesa. Não porque estivesse esfomeada como o velho padre. Fui convidada para almoçar a casa de uns velhos amigos que ligam pouco ou nada às tradições. Comi e calei. E até me soube muito bem.
É como tu dizes, Graça, fazemo-lo mais por tradição do que propriamente por convicção religiosa e também daí não vem mal nenhum ao mundo.
Desejo-te um Tempo de Páscoa muito feliz.
Obrigada uma vez mais, ematejoca, pelas simpáticas palavras! E olha que bom que te soube bem comer a carne assada à antiga portuguesa!
EliminarBeijinhos e boa estadia por cá.
Preosseguindo a tradição, por aqui fomos de peixe... Mas, o padre está mais do que certo... Essa "avozinha" lhe deu do bom e do melhor para saciar a fome, oras pois! Acho que abster-se da carne e comer peixe ou bacalhau é um luxo!
ResponderEliminarAbraço.
Atendendo aos preços, é mesmo um luxo!! Nós por cá também nos aviámos com um belo peixe assado no forno com batatas....
EliminarUm destes dias vão-nos proibir de comer peixe às Sextas como nos restantes dias, é que os preços estão muito altos e os salários baixaram...Comparativamente a carne está mais barata que o peixe e a diferença é muito grande.
ResponderEliminarBoa Páscoa.
Proibir talvez não nos proíbam, mas qualquer dia temos de nos ficar pelas alfaces ou pelas couves cozidas....
EliminarComi carne e soube-me muito bem.
ResponderEliminarBoa Páscoa, Graça.
Seu «pecador»!!! E nem pagou a devida bu(r)la!!!
EliminarEu comi folar e não paguei bula...Deram-me um folar , bem feito , em casa , recheado com tudo que é bom. Se não se come , fica duro e estraga-se. Estragar comida , ainda é maior pecado , Não acha ?
ResponderEliminarM.A.A.
Ui, o folar transmontano recheado com as carnes e os enchidos todos e mais algum, que bom!! Que saudades de quando a minha mãe era viva e o fazia para nós!... Também o comíamos sem pagarmos a bu(r)la....
EliminarBonita historia verídica. Gosto imenso deste tipo de historias, algumas parecidas eram-me contadas pelos meus avós e era um prazer ouvi-las...
ResponderEliminarTinham sempre um fundo de ironia - ou de mistério.
EliminarA minha mãe já não seguiu a tradição e eu e a minha irmã ainda menos. Mas como nesse dia não se comia carne, e estando na época delas, normalmente o almoço (ou o jantar) era de favas ou ervilhas com ovos escalfados. O engraçado é que eram devidamente apaladadas com o chouricinho, que não contava como carne... :)
ResponderEliminarBeijocas
Isto passava-se em casa da minha avó...
EliminarOra bem! Favinhas com o bom do chouriço, ou as ervilhas com toucinho e os ovos para disfarçar.... Que rico «engodo», Teté!.....
EliminarEu então parece que nado contra a corrente: quase não como carne durante todo o ano e fui cinco dias a Trás-os-Montes comer: alheiras, vitela assada, bife e folar!
ResponderEliminarSou parecida com o padre da tua história, que Deus me perdoe!!!!
Soube-me tão bem :)))
Feliz Páscoa.
xx
Que bela história, contada com muito sentido de humor. O senhor padre sabia o que era bom! Quanto à tradição, penso que o importante, nesse dia de reflexão, é prescindir de algo (pode ser a carne, os doces, a televisão ou qualquer outra coisa que gostamos muito de fazer), de modo a relativizarmos o nosso seu. Trata-se de um gesto simbólico que nos ajude a focar o nosso olhar sobre outras coisas, alheias à nossa vontade e necessidades.
ResponderEliminarO meu anjo negro também comeu carne na sexta feira santa!
ResponderEliminarhttp://cronicasontherocks.blogspot.pt/2015/04/um-anjo-beira-mar.html