quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Vítor Crespo (1932 - 2014)

«Quanto à Armada, fechou-se completamente em copas até ao último momento. Pelo menos no que a mim próprio diz respeito, pois nem sequer no posto de comando, em pleno desenrolar da acção, Vítor Crespo acedeu a responder-me à pergunta que lhe fiz nesse sentido. E a minha surpresa (e satisfação) seria grande ao ver, na noite de 25 de Abril, no quartel da Pontinha, um capitão-de-mar-e-guerra de aspecto façanhudo e resoluto e um sorridente e calvo capitão-de-fragata prepararem-se para a assumpção das pesadas responsabilidades que a Junta de Salvação Nacional lhes ia carregar em cima dos ombros. Ao menos, a Armada, sabidona, não se tinha deixado enlear na habitual conversa mole da preservação da hierarquia apesar de tudo, jogando forte na personalidade dos seus dois representantes! (…)

Perante a recusa do comodoro [Ferraz de Carvalho a pretexto da idade e do cansaço] e mantendo o nome de Pinheiro de Azevedo, só a caminho do posto de comando, onde se me foi juntar pelas dez horas e trinta da noite do dia 24, é que Vítor Crespo, com base no consenso anterior, se decide a passar por casa do Rosa Coutinho. Este, de nada sabe. Crespo passa-lhe para as mãos os três documentos que leva na pasta – a proclamação do MFA, o protocolo secreto entre o MFA e a Junta e o programa político – que o comandante lê atentamente. Quando termina, sacode os papéis e diz a Vítor Crespo:

 - Com isto, ponho o meu navio à vossa disposição!
 - Muito obrigado, senhor comandante, mas isso não é preciso porque já está – desconcerta-o Vítor Crespo. – O que eu lhe venho propor é que faça parte da Junta.

Rosa Coutinho abre a boca de espanto. Estava-se a uma hora apenas do primeiro sinal rádio através dos Emissores Associados! Vítor Crespo põe-no ao corrente. O comandante aceita o cargo a que o destinam.»

In memoriam do Almirante Vítor Crespo que faleceu ontem, aos 82 anos de idade.



"É com profundo pesar que vos comunico o falecimento do militar de Abril, ocorrido hoje, almirante Vítor Manuel Trigueiros Crespo. Nascido em Porto de Mós, em 21 de Março de 1932, Vítor Crespo foi um Militar de Abril de todas as horas, um dos principais dirigentes da Marinha no Movimento das Forças Armadas, integrando a equipa do Posto de Comando da Pontinha, nas operações militares do 25 de Abril", pode ler-se no comunicado da Associação 25 de Abril, da qual o Almirante era sócio fundador nº 2.

O texto que acima transcrevi foi retirado do extraordinariamente empolgante livro «Alvorada em Abril» (pp 367-8) da autoria de Otelo Saraiva de Carvalho que, em cerca de 600 páginas, faz, em 1ª pessoa, o relato pormenorizado das causas e de toda a preparação do 25 de Abril, começando pelo início da Guerra Colonial até à noite do dia 25 de Abril de 1974.

Um livro extraordinário, de leitura obrigatória para quem reverencia o 25 de Abril. Comprei a edição limitada a 1974 exemplares que saiu em Abril deste ano e li-o quase de rajada depois de ter terminado os Memoráveis de Lídia Jorge.

18 comentários:

  1. Homens assim são eternos e nunca morrem...

    ResponderEliminar
  2. Lembro dele não só pelo que foi, mas também porque anos atrás meu marido era fisicamente muito parecido com ele. Tão parecido que no quartel, os colegas por brincadeira, lhe chamavam o Vitor Crespo 2.
    Um abraço e boas festas.

    ResponderEliminar
  3. Que giro! Há pessoas muito parecidas...

    Boas Festas!

    ResponderEliminar
  4. E o pior é vermos desaparecer Abril! :(

    Abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Há que lutar contra isso! Há que lutar enquanto pudermos.

      Eliminar
  5. Ouvi a notícia ontem logo pela manhã :(
    Votos de um Santo Natal para si e família
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  6. ~ ~ Partem um a um... Descontentes... Dececionados... Portugal em ruínas...
    ~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Em ruínas e sem perspetiva de melhoras rápidas, Majo! Uma tristeza!

      Eliminar
  7. Tenho pena de ver partir gente decente a quem de uma maneira generosa muito devemos .Tenho a CERTEZA que este nada teve com o caso " submarinos"..
    Pelo contrário , era olhado como um velho inútil , que toda a vida viveu acima das suas posses , que descontou para ter reforma , mas não aquela reforma e que ajudou a pagar a crise com uma CES...que diferença.
    M.A.A.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Como nós, M.A.A.! Olhadas como a dita "peste grisalha" - nojentos!

      Eliminar
  8. Uma homenagem edificante por uma pessoa exemplar! Principalmente em tempos de tanta corrupção...
    Parabéns, Graça.
    Abraços natalinos,
    Célia.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É bem verdade, Célia! São tempos conturbados os nossos pela pouca dignidade de grande parte dos "governantes".

      Beijinhos natalícios

      Eliminar
  9. Os homens vão perecendo,
    é a lei da vida
    Mas não é lei, nem sina
    Que a Abril se vá perdendo

    ResponderEliminar
  10. Excelente homenagem que fizeste minha amiga a um grande Homem de Abril.
    Fica na história, não morre !

    beijinho e bom fim de semana

    ResponderEliminar