sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Tomai lá do O'Neill!



Faria hoje 90 anos se a morte o não tivesse ceifado aos 62 anos. 
Tinha uma imaginação fora de série! 
A sua poesia inscreve-se no surrealismo e a surreal PIDE - do tempo em que se prendiam as pessoas por motivos políticos (que agora já assim não é...) - encarcerou-o bastas vezes, vá-se lá saber porquê...

Em jeito de homenagem aqui fica parte do seu (bem atual) poema «Portugal».

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

        (...)

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós…


(Alexandre O’Neill, 1965)

10 comentários:

  1. ~ Houve um tempo auspicioso, de eufórica e prometedora confiança.
    ~ Ao tempo!
    ~ Um tempo Inesquecível!
    ~ Pensámos que a luta pelo verbo, dos nossos intelectuais e a coragem dos
    nossos militares tinham livrado, para sempre, o nosso país do opróbrio...

    ~ Por que andamos tão divididos?!

    ~ ""Meu remorso de todos nós.""
    ~

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    1. É verdade, Majo! Andamos desavindos com a esperança

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  2. E eu aceito de boa vontade, Graça!

    Alexandre O'Neill é um dos meus Poetas preferidos, tenho publicado vários poemas de sua autoria.
    Faria hoje, 90 anos? Quem diria!

    Merecida e justa homenagem!

    Beijinhos e bom fim de semana.

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  3. haha as tuas sombras sao bem vindas

    adoro alexander oneal

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  4. No início dos anos 70, quando as fotografias eram feitas por entrega do rolo-filme na Tabacaria, conheci pessoalmente o Alexandre O'Neill junto à Faculdade de Ciências, então na rua da Escola Politécnica, em Lisboa, quando ele entregava um filme para o efeito. O empregado pediu-lhe o nome para registar no saco das fotos, mas não entendeu o "O'Neill". Num ápice, o Alexandre pegou no seu livro "As Andorinhas Não Tem Restaurante", que estava à venda ali mesmo sobre o balcão e mostrou-o para ele copiar o nome...Tudo isto com um sorriso que lhe era peculiar.

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    1. Também gostava de ter tido essa sorte - de o conhecer.

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  5. Excelente e merecida homenagem! Gosto muito de Alexandre O'Neill.

    Beijinho Graça e bom fim de semana

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  6. Li este e fiquei com vontade de mais. Agarrei-me por isso a uma antologia que aqui tenho, fiquei uns minutos mais com outros poemas e já me esquecia da caixa de comentários em aberto... :)

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