quarta-feira, 4 de julho de 2018

Telemóveis na escola?

Há dias foi transmitida a notícia de que em França iam proibir os telemóveis nas escolas. Do jornal para onde escrevo uns textos pediram-me, na qualidade de ex-professora e presidente de escola, um comentário sobre o assunto para um fórum que publicam todas as semanas.

O comentário que apresentei foi o seguinte:

«Parece-me uma ótima medida. Oxalá pudéssemos nós, no nosso país, aprender com esse bom exemplo. Durante as aulas, o processo de aprendizagem necessita de atenção, concentração e sossego para que se realize – talvez se poupasse muito dinheiro aos pais em explicações! Por outro lado, os intervalos servem para gastar energias acumuladas, descansar a mente e conversar de viva voz e não estar “enfronhado” nos aparelhos. Outra vantagem será o “desligar” dos pais, tornando as crianças e os adolescentes mais autónomos.»

Pois fiquem a saber, caros amigos, que o meu foi o único texto favorável à medida francesa. Senti-me autêntica «velha do Restelo»!

Os restantes participantes no fórum eram o Professor Daniel Sampaio, dois professores da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais aqui de Leiria, um diretor de agrupamento de escolas e o diretor de um centro de formação de professores. Todos liminarmente contra! com exceção do diretor de agrupamento, que ainda falou em mudança de metodologias na sala de aulas. Todos os restantes comentadores não são professores de adolescentes há anos e estão a ano-luz da realidade das escolas e do ensino que, de um modo geral, ainda se pratica nas salas de aulas.

Diz um: «Quando a escola diaboliza uma tecnologia perde a oportunidade de educar para ela. Ao diabolizar os telemóveis, perde também as múltiplas funcionalidades destes equipamentos para potenciar a renovação dos contextos de aprendizagem.»

Outro acrescenta: «Há mais vantagem no uso do telemóvel nas escolas do que na sua proibição para voltar ao uso do dicionário de milhares de páginas e à pesquisa em atlas ou enciclopédias tantas vezes desatualizadas.»

E ainda outro: «A proibição de levar o smartphone para a escola é, para mim, uma medida exagerada e que poderá revelar algum desconhecimento sobre estas matérias.»

O Professor Daniel Sampaio, por quem nutro a maior consideração, apresenta uma opinião um tanto naïf: «Não concordo porque o telemóvel faz parte da vida dos adolescentes e também dos seus professores. (…) Quer em família, quer na escola, é preciso criar regras de utilização, em que há períodos em que é possível utilizar o telemóvel, nos outros períodos não é.»

Todos eles falaram do uso do smartphone em termos de ferramenta de estudo e de pesquisa no âmbito da sala de aula, quando sabemos muito bem que a grande maioria das aulas – com honrosas exceções, naturalmente! – continuam a ser bastante expositivas, com base nos manuais adotados e pouco mais.

… … Mas como diziam os outros: don’t let me be misunderstood!  *  Nada tenho contrao uso das tecnologias! Eu própria tenho um I Phone e um I Pad e gosto. Os meus netos também têm os seus gadgets eue usam e gostam. Mas tudo tem o seu tempo e o seu espaço. Se os miúdos os tiverem ali à mão na escola, garanto-vos que – a não ser nas aulas de TIC ou nas bem programadas para o seu uso, que são poucas – eles não os usam senão para irem ao facebook ou ao Messenger, ou até com outras finalidades piores...


*



24 comentários:

  1. O politicamente correto também se aplica muito nestas questões. :) Penso que o problema está na palavra "proibir", embora não me pareça que viesse mal ao mundo por não se admitir telemóveis nas salas de aula.

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    1. Boa, Luísa! É isso mesmo que eu penso: as pessoas têm receio de serem considerados antiquados - é, de facto, o dito politicamente correto...

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  2. Já dei a minha opinião sobre essa proibição em França mas não me recordo onde. Talvez tivesse sido aqui.
    Discordo com essa proibição. Totalmente.
    Não estou a ver os estudantes a consultar uma enciclopédia em papel. Ainda existem? Nem sei. Eu não uso enciclopédias ou dicionários em papel desde que a net tem todas as informações de que necessito! Portanto, há décadas.
    Proibir que os pré-adolescentes usem o telemóvel é nadar contra a maré. Mais vale ensiná-los (o que já não será necessário hoje em dia pois têm uma capacidade extraordinária para aprender novas tecnologias) a usá-los como ferramentas de pesquisa.
    Deixá-los usar os telemóveis nas aulas para outros fins? Texting, por exemplo? Claro que não. Nem pensar.
    O professor ou a professora terá que impôr as suas normas e responsabilizar os alunos para as seguir. De contrário haverá consequências. Quais? Ficar com o telemóvel até ao fim da aula se o aluno insistir em desobedecer à professora.
    Resulta... sempre!!
    Os telemóveis evitam o convívio? Nunca vi um recreio que não tivesse 90% da população estudantil a brincar, a correr, a jogar à bola ou a jogar qualquer outro jogo.
    Nas vezes que me esqueci do telemóvel em casa, dei meia volta e vim buscá-lo... : ))

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    1. Catarina, estamos a pensar em modelos de ensino-aprendizagem muito diferentes: o daí e o de cá! Repito: aqui, grande parte dos professores faz aulinhas expositivas e pronto. Diz o que está nos manuais, ou põe- os alunos a fazer os exercícios do manual e pronto. Raros são os que põem os alunos como ser realmente aprendente...

      Enciclopédias? Claro que já não se usam e muitos menos no secundário. Eu, mesmo na Fac raramente as usei. Quanto aos dicionários, lamento muito que se tenha perdido esse hábito. Era uma forma de se aprender muito sobre a língua e ganhar vocabulário para além dos chavões estandardizados que se usam agora, como por ex. dizer "à séria" que é uma enormidade!

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  3. Tens os seus Q's...Como dia a Catarina como é que pesquisam? A não ser que arranjem alternativas. Aí já concordo. Apenas e só por causa disso:))

    Sussuros... à maresia...

    Bjos
    Votos de uma óptima Quinta-Feira

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    1. Nas aulas não se pesquisa. Aprende-se ativamente, fazendo exercícios, discutindo ideias...

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  4. Depois de o telemóvel se ter tornado praticamente uma extensão do corpo, proibi-lo onde quer que seja é uma reviravolta muito complexa. Deveriam ter sido tomadas medidas com a devida antecedência no sentido de ir educando e criando hábitos de utilização que não atingissem os níveis de dependência que se verificam actualmente. Todos os sectores da sociedade foram absorvidos pela evolução tecnológica e consequentemente favorecidos pelas suas eficiências e isso foi bom até ao momento em que se fica refém dessa mesma tecnologia. Eu, como muitos de nós, que atravessamos as duas gerações ainda somos capazes de tanto consultar a internet como consultar um dicionário ou ler um jornal impresso em papel. A nova geração já não o consegue. E isso é que foi/é mau. Muito mau, mesmo.

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    1. Muito mau, mesmo! Um dia destes, eles nem são capazes de escrever um texto à mão, para além do próprio nome... Enfim! Mas há que ser - e parecer - moderno... :)

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  5. São ferramentas século XXI necessárias e muito úteis se bem usadas. Como tudo na vida, se em excesso, trará mal resultado. Aos pais e professores caberá a orientação. Já que "proibir" será em vão.
    Abraço.

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    1. Diz bem: muito úteis se bem usadas. Só que os meninos têm sérias dificuldades em obedecer a regras...

      Beijinho.

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  6. Parece que sou a única, mas concordo contigo, durante o ensino secundário. Os alunos poderão consultá-los em casa.
    Se não aprenderem - por exemplo - com lápis o que é uma escala, um fuso horário, projeção num plano horizontal, como interpretam mapas?!
    Jean Piaget estaria conosco, trata-se de aprendizagem que voa com a aragem...
    Beijinhos
    ~~~

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    1. Isso mesmo, Majo! As consultas fazem-se e sempre se fizeram fora do contexto da sala de aula- Não me venham com desculpa esfarrapadas...

      Beijinhos cibernéticos...

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  7. a questão é saber se estamos a educar crianças ou a "fabricar" cyborgs.

    para mim é óbvio (e, felizmente, também na Escola que o neto frequenta) que há mais vida, na vida de uma criança, para além do telemóvel e toda a panóplia das tecnologias que a indústria e a ideologia do consumismo nos impingem.

    beijo

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    1. Isso mesmo, Manuel Veiga! Sem querer parecer "politicamente correto"...

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  8. Tenho um neto que acabou agora o 5º ano e outro o 11º nenhum deles é permitido telemóveis ligados nas aulas. E eu concordo.

    Beijinho Graça

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  9. Minha querida Gracinhamiga I

    Sou um Cro-Magnon. Antecedo-te. Concordo.

    Tal como havia anunciado atempadamente acabo de publicar na «Nossa Travessa» o texto n.º 7 da saga É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDEcujo título é Um chefe de esquadra à rasca. E podes crer que está mesmo…

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  10. A este respeito, não sei que lhe diga. A minha prof. de literatura, reformou-se há pouco tempo., era professora do Secundário. Um dia, numa aula de poesia barroca eu perguntei à professora o que significava uma palavra que aparecia no poema. E ela disse-me para pesquisar na net. Imagine que há professores que respondem isto aos seus alunos?
    Abraço e bom fim-de-semana

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  11. Não sei de que lado está o problema
    Se do uso que lhe dá a pequenada
    Se da incapacidade em ter
    a tecnologia bem enquadrada

    Dou exemplo de um martelo
    tanto serve para a martelada
    como para pregar um prego

    E quanto às restrições, por acaso
    lembro-me de um António Costa solitário

    https://conversavinagrada.blogspot.com/2016/12/nao-nao-e-minha-passagem-do-ano-este-e.html

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  12. Claro que não. Nem em actividades nas que não seja imprescindível. Nem para ir pela rua como ceguinho. Há dias tive um encontrão com uma que nem deu fe da minha presença... porra!
    Besitos

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  13. Telemóvel na aula, sempre tive, nunca foi problema, e mesmo nos outros também só raramente.
    O problema são os smartphones/ phonetablets/ tablets... porque permitem aceder a conteúdos como redes sociais, vídeos e outros que os telemóveis não permitiam... eram para mandar mensagens escritas curtas e fazer telefonemas... tinham MMS mas aquilo era caro e ninguém usava na prática. A regra era simples: nas aulas não se mexia no telemóvel, depois lá fora cada um fazia o que bem lhes apetece-se.
    Agora anda por aí a moda de querer impor que os rapazes e raparigas tenham de conviver uns com os outros cara-a-cara, então e a liberdade à livre resolução? É só para quando é conveniente a esses arautos da inteligência decidirem o que os outros devem fazer? Que se metam nas suas vidas... ah! Espera, não têm vida própria.

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