quarta-feira, 18 de junho de 2014

Asneiras e Bacoquices

Como já deu para ver, não resisto a uma boa crítica a alguns «utilizadores/trucidadores» da nossa língua, por isso hoje vou transcrever uma crónica do sociólogo Moisés Espírito Santo que saiu no Jornal de Leiria do passado dia 12 e que tem o título de

Asneiras e Bacoquices

«Tenho momentos em que me entretenho a notar as asneiras em português ouvidas nas televisões. Não me refiro às pessoas entrevistadas na rua. Só tenho atenção aos jornalistas, políticos e outras personalidades.

Já se sabe que o Presidente da República (e de todos os portugueses) diz «cidadões» em vez de cidadãos. A presidente do Parlamento inventa palavras: «o inconseguimento... é frustracional» (deve ser para passar por sábia). Não há um assessor que aconselhe o ministro do Emprego e da Solidariedade a deixar de dizer «treuze»? Eu dir-lhe ia que «treuze» é uma saloiice chapada; seria menos criticável dizer «auga» em vez de água porque estávamos a usar uma metátese que é um fenómeno corrente na língua. Ao dizer «treuze» está-se, propositadamente e por vaidade, a tentar usar um processo provinciano de distinção bacoca.

Já se torna raro que alguém nas TV/s utilize correctamente o verbo haver que (aprendam por uma vez!) só se usa na terceira pessoa do singular. Um deputado perguntava ao chefe do governo: «Haverão mais cortes...?». Um jornalista disse: «Vão haver dois pedidos de esclarecimento...». Um anúncio oral na TV diz «Há cem anos não haviam telemóveis nem existia computadores». Duas asneiras. Digam-lhe que, se o verbo haver só se usa na terceira pessoa do singular, o verbo existir conjuga-se em todas as pessoas. Um cartaz da Unilever (entretanto retirado) dizia «Já experimentás-te o chocolate Olá?». Esta maneira de escrever o pretérito também é muito comum. Um rodapé da RTP dizia «Extra-munção» em vez de Extrema-unção. Se dissesse «estra-monção» até tinha lógica...

Um pivô do telejornal entendeu distinguir-se da gente comum dizendo que uma mulher islâmica tinha sido condenada por «apostásia» (duas vezes) em vez de apostasia. O mesmo pensou que seria mais chic nomear a capital da Turquia por Âncara em vez de Ancara. Um político dizia «inclusível» por inclusive. Outros pivôs ou jornalistas pressupõem que, perante uma palavra estrangeira, esta só pode ser do inglês: o termo item (que é do latim e significa «o mesmo») passa a ser dito «aitem»; climax (também do latim, «cúmulo»), ouvi-o a ser pronunciado «claimex». Já para o nome da cidade francesa Chamonix ouvi «Cheimonixe» e Nice, «Naice».

A par deste português cada vez mais mal falado vamos assistindo à invasão dum imenso palavreado inglês quando temos palavras que exprimem as mesmas ideias. Os programas das TV/s passaram a chamar-se Big Brother, Masterchef Portugal, Chef’s academy, Voice Portugal, A tua cara não me estranha - kids, etc. Isto só se justifica por uma palavra: estupidez. Falam mal a sua língua materna e fingem que «falam estrangeiro». (...) Ainda há pouco ouvi, num café, pedir uma «coca-cola leite» (em vez de light, [lait], fugindo-lhe o pé para o chinelo).

E que dizer da praga do inglês nas conversas, teorias ou tretas dos economistas - que fazem lembrar os astrólogos que também usam «língua de pau» para ludibriar - quando há expressões portuguesas exactamente equivalentes? O problema é que, com essa verborreia, os seus autores procuram distinguir-se dos indígenas que por cá vegetam. Isto faz-me crer que quanto mais avança a escolaridade, mais mal se fala a língua portuguesa.»


E, já agora, deixem-me perguntar (de forma retórica e nada mais...) quantas destas pessoas retratadas na crónica se dirão perentoriamente contra o último acordo ortográfico com a desculpa pseudo-purista de que não querem corromper a «bela língua de Camões»

(gargalhadas...)

17 comentários:

  1. Incrível que se diga "handicapado" por "deficiente" e "partenariado" por "parceria" e "mídia" em vez de "media"( pois a palavra é latina) e "aspas" em vez de "comas".

    Decidi acrescentar só mais uns assassínios ...

    Que tudo na tua vida se recomponha , minha linda.

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  2. ~
    ~ Mas que coleção completa reuniu esse sociólogo coliponense
    e que boa e deliciosa crónica nos presenteia!

    ~ Recentemente, ouvi o filho de um primo irmão, licenciado em
    germânicas a preparar o doutoramemto, dizer comprimentos em
    vez de cumprimentos...

    ~ Quandos os erros são proferidos por formados das áreas de
    letras parecem-me deveras crassos.

    ~ Exelente a tua publicação com uma observação, notavelmente
    pertinente.

    ~ ~ ~ ~ Abraço. ~ ~ ~ ~

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  3. Aqui está uma bela crónica que bom proveito faria a muita gente responsável na comunicação social.

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  4. Bom dia Graça
    Erros de palmatória no nosso tempo.
    Será que ninguém lhes diz que muito se enganam e que ter dúvidas não é defeito?

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  5. Há mesmo muita gente a não saber usar as palavras como deve ser. Eu passo a vida a apanhar erros... Mas também quando são chamados à atenção não ligam...
    Um beijo, Graça

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  6. É o pão nosso de cada dia!
    Uma tristeza!
    Quanto ao NAO já sabes que ainda não aderi...espero não descer na tua consideração! :)

    Abraço

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  7. Um resumo bem apresentado.Apesar de ser da área das ciências , passei a minha vida a exigir rigor de linguagem...hoje , fico tão baralhada com o que oiço que muitas vezes tenho de parar para reflectir se sou eu que já estou mesmo " cota "...
    M.A.A.

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  8. ~
    ~ Peço desculpa pelo horrível lapso-- quandos!

    ~ Rosa dos Ventos, todos gostamos muito de ti.

    ~ Pessoalmente, respeito quem decidiu ser prematuro aderir,
    mas implico com os que são contra o AC, afirmando, entre outras
    barbaridades, que estragamos a Língua de Camões e de Pessoa!

    ~ ~ ~ ~ Beijinhos. ~ ~ ~ ~

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  9. Gostei deste texto!
    Penso que além da minha cultura não ser muito alta, não dou erros como muitos que ouço e leio.
    Eu ainda não me habituei a escrever com o novo acordo ortográfico, não sei se alguma vez o vou usar.

    beijinho e uma flor

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  10. Uma pergunta muito pertinente, Graça.
    Quanto a Moisés Espírito Santo, fiquei fã dele desde que o entrevistei há uns anos. É uma pessoa de uma cultura extraordinária.

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  11. A maioria é gente da nossa geração que está atenta a estes atropelos a que a lingua portuguesa está sujeita. Estes senhores doutores jornalistas modernos, salvo raras excepções, não conhecem quase nada das regras da nossa língua. Abençoadas estas pessoas que sabem da poda, e estão atentas.

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  12. Leo, sabes bem que a minha tolerância é infinita no que às escolhas de cada um.

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  13. Grssinhamiga

    Vóltei, çó para diser que não prçebo tanta amirassão por uns herritos de náda. Cá para mim, tá todo beim. E handa a jente a falár curretamête e qoizas açim e veêm uns marme-los a prutestar. Não se fás.

    O Moizés Espirito Çanto é aquê-le gajo do bãnco. Hentão já foustes coumo dis o Farnmdo Memdes.

    Comprimentos

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  14. Tanto pontapé na gramática! Está aí o mundial!...
    Daqui a nada o Português passa a ser uma língua "estrangeira". Digo eu, que já tenho dificuldades em perceber algumas expressões. LOL!..

    :)

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  15. Ó Enrricamigo! De mais!!!

    Ção só mesmo uns erritos, carago!

    O Moizés axo que é primo do gaijo do banco e êçe já foi!

    Beixos

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