sexta-feira, 17 de junho de 2016

Pizarro em Leiria

O estudioso colombiano de Pessoa Jerónimo Pizarro deslocou-se ontem a Leiria, a convite da Livraria Arquivo, (a livraria de fundação puramente leiriense de que já aqui falei por mais de uma vez e que não me canso de elogiar por ser a «loja de livros» que mais faz pela divulgação cultural aqui na terra) a fim de apresentar o último livro que organizou e editou e que tem o título «A Obra Completa de Alberto Caeiro».


Apaixonada que sou pelo poeta modernista, assim que soube da vinda deste pessoano à Arquivo, decidi que tinha de ir assistir.

Uma presença discreta, agradável, deveras apaixonado pela literatura e pela língua portuguesas, por Pessoa e não só, que lamenta não ter traduções suficientes em língua espanhola, no continente sul-americano de onde provém.

A conversa com o estudioso não foi bem dirigida, foi mole, ficou aquém, circunscreveu-se quase à pessoa do investigador em si e pouco a Pessoa. Às tímidas perguntas da breve assistência, respondeu ele com algum desapego, alguma parcimónia, com ar algo provocatório como que a querer desconstruir ou desacreditar, alguma indiferença até. Sorridente, embora.

Caeiro, o Mestre, ficou diminuído, desconcertado, desagregado. Campos fez uma brevíssima aparição forçada. Reis, o latinista estóico, não apareceu. De Bernardo Soares ficou o desassossego do seu livro. Pessoa, que o estudioso considera um dos grandes da literatura europeia, veio com as suas «Cartas Astrológicas», a reboque de Paulo Cardoso – Paulo Cardoso?!!! – não obstante o investigador ter afirmado que os inéditos do poeta futurista podem chegar ainda aos dez mil!

Desilusão para mim – que não sou ninguém no mundo destas estrelas que gravitam ao redor de Pessoa. E exatamente porque não sou ninguém, quando saí – a conversa durou apenas uma hora – dois pensamentos me assaltaram o espírito: ou que realmente “é uma pepineira conversar com estes provincianos” ou então houve uma vontade de desconstruir, de desmitificar o que se construiu e ele próprio, o poeta, construiu acerca de si. Fingimento poético? Marketing? MerchandisingTalvez. Mas quem disse que eu quero ser desmitificada acerca de Pessoa?

«A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.


Basta existir para se ser completo

(Alberto Caeiro)

11 comentários:

  1. Pois, Graça...

    E Alberto Caeiro que tem tantas pontas soltas, até na sua aparente simplicidade...

    abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. ... que de simplicidade pouco ou nada tem...

      Beijinho.

      Eliminar
  2. Que se faça a divulgação pelos apaixonados da matéria que façam bem o seu trabalho de casa ! A internet é uma ferramenta que está ao alcance de milhões de pessoas...

    ResponderEliminar
  3. Pelo que entendi, ele quis promover-se a ele próprio, verdade?
    Eu que também sou uma apaixonada por Pessoa, certamente teria como tu uma enorme desilusão.
    Para desanuviar e como sou brincalhona, acho que o rapazito até tem um bom palminho de cara rsrsrs

    Beijinhos Graça

    ResponderEliminar
  4. ~
    Compreender no carácter e personalidade dos heterónimos a mensagem que FP quis comunicar, não é para todos.
    ~~~ Beijinhos ~~~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas um estudioso, um investigador, um professor universitário... não entendi.

      Beijinhos, Majo!

      Eliminar
  5. Para quê afligir-mo-nos com o desapego e a indiferença do estudioso especialista. A isso talvez Caeiro dissesse:

    "Pouco me importa.
    Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa."

    :)

    ResponderEliminar
  6. E ficou-me o ponto de ? na mão... :)

    ResponderEliminar
  7. Estranho! Uma Pessoa que estuda Pessoa apaixonadamente há tanto tempo!...
    Mas concordo, sim, que estes investigadores têm muito poder e uma consciência plena desse poder. São eles que conferem aos autores o "cânone", o selo de qualidade das suas obras. Se dizem que um é bom, será bom, mesmo que não o seja na realidade. Isto é assim porque não há nenhum instrumento plausível para medir matematicamente a literatura.

    Um beijo

    Lídia

    ResponderEliminar