No rescaldo do Dia do Amor - que espero tenham aproveitado bem! - deixo aqui a noção de amor do nosso grande Fernando Pessoa pela voz do seu mais próximo heterónimo Bernardo Soares. Espero que gostem tanto desta perspetiva quanto eu.
Nunca amamos ninguém. Amamos,
tão-somente, a ideia que
fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma
é a nos mesmos - que amamos.
fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma
é a nos mesmos - que amamos.
Isto é verdade em toda a escala
do amor. No amor sexual
buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa.
O onanista é abjeto, mas, em exata verdade, o onanista é a
perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não
disfarça nem se engana.
buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa.
O onanista é abjeto, mas, em exata verdade, o onanista é a
perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não
disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e
outra, através de coisas tão
incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que
se empreendem, são matéria de estranha complexidade. Na própria
arte em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois
'amo-te' ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer
dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura,
uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões
que constitui a atividade da alma.
incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que
se empreendem, são matéria de estranha complexidade. Na própria
arte em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois
'amo-te' ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer
dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura,
uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões
que constitui a atividade da alma.
(Livro do Desassossego, 1930)
O Fernando Pessoa ortónimo escrevia assim:
Eu gosto tanto de ti que tenho vergonha de
mim. Há todas as
razões boas para eu não
gostar de ti,
menos a de eu não gostar,
porque gosto.
É fantástico a gente sentir o que não
menos a de eu não gostar,
porque gosto.
É fantástico a gente sentir o que não
quer e ter um
coração independente.
(Apontamento escrito por Fernando Pessoa na dobra de um
envelope, em data incerta.)
O Homem era mesmo avançado para a época - para muitas épocas a vir!






