quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Ainda o Amor





No rescaldo do Dia do Amor - que espero tenham aproveitado bem! - deixo aqui a noção de amor do nosso grande Fernando Pessoa pela voz do seu mais próximo heterónimo Bernardo Soares. Espero que gostem tanto desta perspetiva quanto eu.


Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que
fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma
é a nos mesmos - que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual
buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa.
O onanista é abjeto, mas, em exata verdade, o onanista é a
perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não
disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão
incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que
se empreendem, são matéria de estranha complexidade. Na própria
arte em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois
'amo-te' ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer
dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura,
uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões
que constitui a atividade da alma.


(Livro do Desassossego, 1930)






O Fernando Pessoa ortónimo escrevia assim:




Eu gosto tanto de ti que tenho vergonha de
mim. Há todas as razões boas para eu não
gostar de ti,
 menos a de eu não gostar,
porque gosto.
 É fantástico a gente sentir o que não
quer e ter um coração independente.

(Apontamento escrito por Fernando Pessoa na dobra de um envelope, em data incerta.)

O Homem era mesmo avançado para a época - para muitas épocas a vir!


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A rosa que te dei...



Be my Valentine! 
Pronto, eu bem sei que não é tradição nossa! Que foram os parvos dos professores de Inglês que começaram com essas tretas! Que é só mais um pretexto para promover o consumismo! Que ... Que... Que... Porque somos nós tão Velhos do Restelo?! Quem não gosta (ou gostaria...) de namorar?

Para dar uma no cravo e outra na ferradura (quem disse que eu não gosto de provérbios?...) deixo aqui uma canção daquelas bem românticas (bem piegas?!) que dava para namorar mesmo quando ainda não brincávamos aos dias dos namorados - mas já brincávamos com os namorados...

Lembram-se? Foi ao festival da canção, ao nosso, em 74. 
Ah! E namorem bastante hoje - e sempre que puderem...




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O Porto




Acabei há dias de ler um livro de onde retirei esta descrição do Porto. Sei que muitos de vós também o leram já, até porque o autor, apesar de não ser dos mais jovens, está na moda. Quem sabe de quem estou a falar?


«Escuro, pitoresco, desleixado, o Porto já não é a metrópole que foi na minha infância. As pontes e a estação, o palácio do bispo, a Sé, a Torre dos Clérigos, tudo isso se mantém, e vista da margem esquerda a paisagem da cidade continua esplêndida. Mas nos rostos das pessoas há mais sombras que sorrisos, o ar de algumas ruas é de mau agouro.

O rio lá está, quase sem movimento, com pouca vida, só de longe um ou outro naviozito se arrisca a passar por entre as línguas de areia que lhe assoreiam a foz. Os rabelos envernizados que agora o navegam são falsificações da publicidade e na beira-rio lodosa de Gaia, que conheci cheia de bulício, a ferver de agitação, deitaram placas de cimento e fizeram esplanadas onde os turistas se sentam a beber cerveja, de costas para a cidade para melhor tomarem o sol. Passo, olho, vou adiante e minto a mim próprio, dizendo-me que é absurdo carregar o peso morto do passado.

Hospedei-me por uma noite num hotel da Praça da Batalha, contente de ver em redor quase todos os cafés do meu passado, a sua presença a confirmar que nem tudo se estiola, nem tudo morre.

Desço para o rio, atravesso a ponte, refaço o que foi o caminho de casa. Centenas ou milhares de vezes palmilhado, pouco importa a conta. Por um instante, com sede, quase me deixo tentar pelos guarda-sóis coloridos das esplanadas, mas continuo em frente, como se fosse inconveniência ou traição ir-me sentar entre estranhos no mesmo lugar onde antes brinquei, onde sonhei. Onde meu pai ia e voltava na sua ronda, vigiando o rio, assestando o binóculo nos vapores quando um movimento lhe parecia suspeito, ou quando os tripulantes desciam pelo portaló. Frustrado por ter de apreender o pequeno contrabando da meia dúzia de maços de cigarros presos dentro das calças, ou da garrafa de uísque apertada no sovaco, e ao mesmo tempo assistir impotente ao tráfico do vinho, do volfrâmio, das mercadorias, que os seus chefes e alguns colegas acobertavam.

Vira-os ganhar fortunas com o contrabando no começo da guerra, construir casas apalaçadas, subir de posto, receber medalhas por bons serviços, enquanto ele – que por natureza e educação tinha a lei por dogma – se gastava a pedir inquéritos urgentes, a apresentar queixas, a fazer listas, a escrever relatórios. (…)
Meu pai, que até então tinha bebido moderadamente, começou a intoxicar-se.»


domingo, 12 de fevereiro de 2012

Parabéns, Eduardo, meu querido!




O meu neto mais pequenino fez hoje um ano e foi assim:









E a avó - piegas... - escreveu para ele:

Catrapum
e já passou o ano um!
Logo depois há de passar o ano dois.
Num plim
hás de ir para o Jardim
e a brincar atrás da bola
hás de ir a correr para a escola.

Que a tua estrela
seja de todas a mais bela!
Que a tua vida
seja de todas a mais colorida!
E sejas tu todo cabeça e coração
entre a loucura e o juízo,
minha carinha de riso
minha bolinha de sabão!

Boa sorte para o meu pequenino ... e para os outros!

  

Está cá um frio!


Bolas que tem estado cá um frio!
Está-se tão bem assim!


Mas também não é preciso exagerar!
Será mesmo preciso ir para dentro da máquina de secar?




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Lá como cá





Afinal não é só cá. A justiça está ferida de morte e – ainda bem ou ainda mal – não é só cá. O Supremo em Espanha conseguiu aniquilar o juiz Baltasar Garzón expulsando-o da carreira judiciária, da brilhante carreira que ele construiu enquanto o deixaram. É que ele lutou contra o terrorismo, contra o tráfico de droga, contra a corrupção, contra o crime organizado. Ele tentou defender os Direitos Humanos violados pelas ditaduras. Ele derrubou Pinochet e abanou outros ditadores. Incomodou muita gente o que decerto lhe granjeou muitos opositores, muitos inimigos.

Porém, quando se atreveu a mexer com a ditadura de Franco, ai mais devagar! Há muitos interesses em jogo, está muito próximo no tempo, muitas esperanças são acalentadas ainda, especialmente agora com a ascensão deste governo de direita. 

E o pior é que, como muito bem resume o apólogo da cobra e do pirilampo, ele brilha!


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Língua





Língua;
língua da fala;
língua recebida lábio
a lábio; beijo
ou sílaba;
clara, leve, limpa;
língua
da água, da terra, da cal;
materna casa da alegria
e da mágoa;
dança do sol e do sal;
língua em que escrevo;
ou antes: falo.

(Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer)

(Ontem, por acaso, vi o programa Prova dos Nove. Não, não vou referir a discussão entre Pedro Santana Lopes e Fernando Rosas à roda do entendimento de democracia de cada um. O que me surpreendeu completamente e me deixou verdadeiramente espantada comigo própria foi o facto de ter concordado com o que foi dito (e com a forma entusiasta e esclarecida como foi dito) por Santana Lopes, enquanto discordei em absoluto da opinião (que denotou apenas falta de conhecimento) de Francisco de Assis sobre ... o acordo ortográfico.)