(da net como muitas outras imagens aqui expostas)
Terminei ontem a leitura de mais um livro de autoria portuguesa que já sabem que eu leio quase só autores nossos e mesmo assim sobram-me livros em pilhas. Transcrevo aqui algumas (poucas) passagens da excelente narrativa. Mas por muito que vos possa parecer pelo(s) conteúdo(s), não foi escrito no tempo dos Filipes, nem no tempo da monarquia tão pouco! É até nosso contemporâneo e algo actual...
Quem é capaz de adivinhar que livro que andei lendo?
“E pela docilidade, maneira menor, conseguem-nos eles atingir, manejar até, enganar; reconhecemo-lhes o jogo mas nele entramos por inépcia, hábito, também por astúcia. Astúcia, como única maneira que até há bem pouco tempo nos era de única valia, defesa.
E às vezes um pouco como desterradas nos sentimos; se sente a mulher quando não cumpre a figura imposta pelos tempos, não interpreta e assim tenha de procurar caminhos, outros «países» onde viva a diferença do seu, país dado pelo útero da mãe.
A que mãe fugimos? Que mãe nos fugiu? A quem podemos, acabamos sempre por dizer, assim como, aliás, a todo o factor proporcionante de paixão-amor:
«(...) já me vós fostes a vida,
agora me sois o dano;»
“Mãe:
Sabes bem que não quero voltar mais para casa. Estou cansada das tuas ajudas e da prisão em que assim me vais conseguindo ter.
Ao meu filho serei eu que hei-de criar e não tu, nem como tu a mim me criaste, assim o espero fazer sem conselhos teus
Peço-te que me deixes em paz.”
“Definitivamente proscrita só eu, que só a mulher é irredimível na sua desonra, não por ser sua desonra, mulher em si tão pouco conta, mas por escrito na lei que sua desonra é a do machos que deviam tê-la e não souberam guardá-la, consentindo assim numa ameaça à sua propriedade privada, desonra que só é lavável com o sangue da mulher rebelde. (...) É costume nos homens ser seu horizonte de absoluto o jogar com a vida da mulher, mas jogo sem risco aceite, senhor, como jogam as crianças com os sapos, que quando o bicho morre nem é pela mão da criança, é com seu espanto e mesmo com sua ofensa ao bicho que se morre assim.”
“Vazio sempre, o lugar a meu lado. Mulher sem homem, e sem força para transformar o mundo. E se alguém me chamou «mulher»? Como poderei ouvi-lo? Toda a luta se transforma em impotência? Tornei minha regra a fome e a sede? Minha vida foi fome e sede; mas onde poderia saciar-me? Regra é a justiça; por isso me neguei à injustiça. Fará sentido vida que é só recusa? Onde estão meus companheiros de luta? (...) Assim são os homens; amor de mulher para eles é entrega, obediência, serviço, gratidão. Quando o burguês se revolta contra o rei, ou quando o colono se revolta contra o império, é apenas um chefe ou um governo que eles atacam, tudo o resto fica intacto, os seus negócios, as suas propriedades, as sua famílias, os seus lugares entre amigos e conhecidos, os seus prazeres. E a mulher se revolta contra o homem nada fica intacto; para a mulher, o chefe, a política, o negócio, a propriedade, o lugar, o prazer (bem viciado), só existem através do homem. O guerreio tem o seu repouso; por enquanto nada há onde a mulher possa firmar-se e compensar-se das suas lutas. Chegará o dia? Até lá fica sem sentido a vida de mulheres como eu.”
“Teu modelo quero que seja nossa filha, igualmente pela doçura, pela discrição, pelo sorriso reconfortante nas horas mais difíceis na vida de sua casa; ainda aqui ela como tu, laboriosa abelha a cuidar a sua colmeia.
Como me envaideço de ti quando te vejo de avental a lavar a loiça, a passar as minhas camisas, ou a reparar-me os petiscos que sabes eu apreciar!”






