quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Só neste país!


A minha amiga Rosa-dos-Ventos deixou ontem um comentário ao meu texto sobre 1640 em que afirmava que não gosta nada de ouvir dizer (e tanto se diz!) "isto só neste país..." Eu também não gosto. Quem estiver mal, mude-se ou faça mudar o rumo das coisas. Mexa-se! Proteste! Não se abstenha do voto! Mas não fique na bela posição de criticar da bancada como quem não tem nada a ver com o assunto.

A propósito daquele comentário, lembrei-me de uma canção do meu muito querido de sempre Sérgio Godinho que, no seu estilo tão peculiar, se refere a essas pessoas. E a canção chama-se mesmo "Só neste país"





quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

1640

´

Tenho uma amiga que me disse, no outro dia, que 1640 foi o início da nossa desgraça. Ri-me. Na escola foi-me/nos sempre inculcado um nacionalismo arreigado contra os nossos coabitantes de Ibéria logo desde a fundação de Portugal em que o valente Afonso , o primeiro de tantos, se tornou independente do Reino de Leão. Depois nas intermináveis batalhas que, disseram-nos, sempre vencemos contra os castelhanos: Atoleiros, Valverde, Aljubarrota, Toro (esta há quem diga que não vencemos).

Depois, a perda da independência foi uma questão de teimosia por parte de uma Rei adolescente e aéreo que acreditava que estava investido de divindade e que, por certo, lera muitos romances de cavalaria. E, morto sem descendência lá pela Moirama, fez com que passássemos para as mãos dos nossos primos, que com tantos casamentos entre príncipes e princesas castelhanos com portugueses, aconteceu ser Filipe, o segundo de Castela, a ganhar o nosso reino por testamento.

Porém, valentes e empreendedores como somos, lá se conseguiu reunir um punhado de quarenta nobres jurados que repuseram a nossa independência. Este momento da nossa História também foi muito enaltecido nas nossas mentes de estudantes a fim de nos enraizar o nacionalismo que convinha naquela época salazarista.(No coro do Liceu cantávamos o Hino da Restauração! * E, nesse dia, os rapazes da Mocidade Portuguesa desfilavam fardados pelas cidades e vilas do país). Sem pretender denegrir o gesto dos 40 jurados e a força anímica nacional, sabemos que Filipe IV estava cheio de problemas também com a vontade de independência da Catalunha e, talvez por isso, não tivesse forças para se impor a Portugal.

Mas como teria sido se ainda hoje fossemos uma província de Espanha, como pretendia a minha amiga? Poderemos imaginar? Querem os meus (hipotético) leitores dizer algo sobre esta possibilidade?


* Hino da Restauração

Portugueses celebremos
O dia da Redenção
Em que valentes guerreiros
Nos deram livre a Nação.

A Fé dos Campos de Ourique
Coragem deu e valor
Aos famosos de Quarenta
Que lutaram com ardor.


P'rá frente! P'rá frente!
Repetir saberemos
As proezas portuguesas.


Avante! Avante!
É voz que soará triunfal
Vá avante mocidade de Portugal!
Vá avante mocidade de Portugal!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Liceu Maria Amália


Não sou seguidora dos Morangos com Açúcar, mas também não tenho a pretensão de pertencer àquele número de portugueses moralistas e pseudo-bem-comportados que renegam com desprezo terem já visto uma ou outra novela ou uma ou outra série da novela para garotos com receio de que os apelidem de parolos ou incultos. Lembro-me que segui com menos do que com mais atenção a primeira série dos Morangos e que achei engraçado até porque tinha de estar “actualizada” para falar com os meus alunos sabendo do que falava. Nestas últimas séries até tenho assistido a alguns momentos de dança e de canto muito giras, bem treinadas, com boas vozes e miúdos e miúdas que se sabem mexer muito bem em termos de coreografias. Todos nos lembramos da Fame nos anos 80 e de como estávamos a anos-luz de distância daquelas actuações irrepreensíveis em termos de voz e de movimento.

Mas vem tudo isto a propósito do facto de terem sediado a escola dos Morangos – que aliás está muito mal desenhada com aquela directora ignorante e tonta e com aquele corpo docente constituído por apenas três ou quatro professores quase da idade dos alunos e com centenas de alunos – no Liceu Maria Amália.

Desculpem falar em Liceu e não em Escola Secundária como se passaram a designar os liceus depois do 25 de Abril, mas é que quando lá andei, era Liceu Maria Amália que se chamava. Liceu Feminino de Maria Amália Vaz de Carvalho. Porque naquele tempo, nos idos de 60, não havia mistura de sexos nas aula, nem nas escolas das cidades maiores, como era o caso de Lisboa. E naquele “meu” liceu, que era do mais fascizante que havia à época (talvez por causa dos recém-acontecidos casos Ballet-Rose) não entravam homens. Havia o jardineiro, o Sr. Carlos, que, no seu fato-macaco azul eléctrico, era mais velho que as árvores do recreio e, às vezes entrava o rapaz que entregava os bolos e as bananas no bufete. Imaginem que para o baile de finalistas do meu ano, a Senhora Reitora comunicou pelo seu inter-comunicador para as salas de aulas (que ela ligava quando muito bem entendia, para escutar o que lá se passava) que as meninas do 7º ano (ano das finalistas e que corresponde ao actual 12º) poderiam convidar rapazes até aos nove anos de idade. Estão a ver o estilo...

No passeio frente à entrada principal do Liceu não poderia haver ajuntamentos de alunas, nem namorados à sua espera e, na paragem do autocarro, era norma termos de dar a nossa vez na bicha (eu não gosto de dizer “fila” que considero um estrangeirismo) a qualquer professora que chegasse entretanto para apanhar um autocarro.

Imaginem o que a Sr.ª D. Maria Guardiola ou a Sr.ª D. Alice Andrade, (no Liceu nós tratávamos as professoras por Senhoras Donas e não por doutoras como agora) Reitoras daquele Liceu nos anos 50/60, pensariam e sentiriam se pudessem ter conhecimento que o seu Liceu, onde se pretendiam formar as elites femininas do salazarismo, está a emprestar a imagem a uma pseudo escola de dança moderna para uma série de televisão “duvidosa” que nem sequer passa no canal público...


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Convites

Hoje ficam aqui os convites para dois eventos muito especiais.

A inauguração da exposição de fotografia "Sensibilidades 2" no próximo dia 4, às 15.00 horas na Câmara Municipal de Ourém, promovida pelo CEPAE e pela Câmara Municipal de Ourém.




E a conferência subordinada ao tema "As Mulheres na 1ª República; as Senhoras Modernas" pela Professora Doutora Teresa Santos, da Universidade de Évora, promovida pelo Museu Escolar e pela Junta de Freguesia de Marrazes, a realizar no próximo dia 5, às 15.30, no auditório da Filarmónica de Marrazes.





domingo, 28 de novembro de 2010

As Árvores e os Livros


Há quem roube uvas, laranjas, maçãs, pêssegos das árvores dos vizinhos ou mesmo das da borda da estrada. Eu roubei a árvore inteira do blog da minha escola, de um texto da equipa da Biblioteca, primeiro porque a achei lindíssima - deve ser do colega de EVT , C.C. que faz sempre uns desenhos muito criativos e cheios de significado para os alunos. Roubei-a também porque fica tão bem com um poema que encontrei por acaso - nada acontece por acaso, não é?

Aqui ficam ambas as formas artísticas para embelezarem o vosso Domingo.


As Árvores e os Livros

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e copas (isto é, capas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

(Jorge Sousa Braga, 1957, in Herbário)

sábado, 27 de novembro de 2010

Que frio!


As temperaturas desceram muito neste fim-de-semana. Ontem e hoje foram os primeiros dias de muito frio neste Outono. Leiria é das cidades que apresenta das maiores amplitudes térmicas. as mínimas descem aos zero/um graus enquanto as máximas, com o Sol chegam aos quinze, dezasseis, dezassete.


Vejam como os gatos da casa aproveitaram qualquer fonte de calor...


(A Ritinha aproveitando alguns raios de Sol)


(A Branquinha saltou para cima do muro para mais perto do Sol)

(Hummmm! Este solinho dá cá um sono!...)


(O Socas aproveitou mesmo o édredon enquanto eu fazia a cama)

(Mas o Gorki gosta mesmo é de pôr o nariz quase no vidro da lareira)

Que sortudos são estes gatos!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

No dia em que cercaram a Assembleia


Conforme anunciei, ontem, aqui deixo um excerto de um texto de Maria Velho da Costa, com a sua linguagem vivíssima sobre o cerco da Assembleia Constituinte no tempo de PREC.

"(...) E Sophia era deputada à Assembleia da República, o que a maçava de morte. Nenhuma de nós suffered fools gladly, e era o que havia mais, fools, histeria de massas e descontentamento. Ruía a Poesia está na rua do seu cartaz com Maria Helena Vieira da Silva. A terra estava em cena de ódio e de fogo posto. (...)
Pois um dia, nas calendas de Novembro, a Assembleia da República foi cercada por uma horda exasperada. Desci para ver, eram poucos metros. Na rua, no hemiciclo formado cá fora , uma multidão, poucos amigos, poucos camaradas. Um camião cisterna enviado pelo COPCON de Otelo Saraiva de Carvalho distribuía sopa quente a idosos em hipotermia. Nesse tempo eu não tinha a possante cadela que depois tive. Nem me teria servido de nada, a não ser de irrisão e malquerença do povo desunido. Mas tinha o meu cartão de Imprensa das crónicas do jornal. E estavam lá dentro fechados a Sophia e o Manuel Gusmão. Bati à porta, entrei, fiquei na soleira dos Passos Perdidos, o povo ululando de fascistas para baixo. A Sophia e o Manuel apareceram juntos, estranhamente risonhos.
Tinham comido? Tinham sim.

A Sophia partilhara com o Manuel um pão com chouriço da sala dos comunistas. E ria aquele riso de um só travo.

- Não deixe entrar o Francisco, Maria, ainda se põe em cima de qualquer coisa, um daqueles leões de pedra feiíssimos, a fazer mais aranzel.

E lá foram, ridentes, quase de braço dado, a imensa estatura.
Poetas é uma gente muito perigosa. E o Sagitário e o Escorpião não se domam ao medo nem à bruteza facilmente.
A noite caía e fazia muito frio. Felizmente não chovia. Pela calçada acima ouvia os brados esmorecidos, uma maré em refluxo. Há muitas horas que não dormia, mas pela madrugada não pude deixar de voltar. Um a um, em cadeia, os deputados eram deixados sair. Os apupos da multidão reacordada do relento, sem arredar pé, recrudesciam. Só era poupado quem erguia o punho direito, e mesmo assim.
Então vi sair Sophia. Estava de preto, ou assim a lembro. Avançou no seu tiquetear ligeiro, sem olhar, como quem vai atrasada a uma tarefa, a uma costureira, à Baixa. Como sempre. Não se lhe viam gravidade no semblante, nem susto. Apenas os sinais de um contratempo, uma maçada, nem sequer o puf, puf do nervosismo, Nem altivez. Saía dali, de um sequestro de horas, como quem tem mais que fazer.
Eu estava perto, mas não me viu, a compactez dos corpos a injuriar era impossível de atravessar.

 - Fascista, fascista!

E então aconteceu uma coisa que me pareceu miraculosa de tão arcaica, uma coisa do fundo dos tempos, quando os anfiteatros pungiam de dor, horror e pasmo diante das máscaras terríveis que apresentava o rosto mais que o rosto.
A Sophia parou. Os que iam adiante continuaram, os que a seguiam juntaram-se a uns metros. Também devem ter sentido a aura de antiquíssimo pundonor das palavras naquela mente e naquele coração. As palavras naquele corpo frágil ocupado por uma herança comum e inatingível. As palavras viscerais de uma cultura denegada, mas imorredoiras.
Podiam tê-la apedrejado.
Sophia parou e virou-se para a turbamulta. Nem indignação, nem cólera. E disse uma só palavra e teve um só gesto, parado. Cruzou as duas mãos sobre o peito, como quem leva as sagradas espécies a um moribundo, e disse

 - Fascista? Eu?

Os que estavam mais perto recuaram e calaram. Formou-se, ondulante em reverbero, um semicírculo de silêncio e respeito.
Sophia seguiu. O mesmo passo, a mesma ligeireza sem pressa. Parecia um pouco mais alta. (...)”

Maria Velho da Costa, in “Evocação de Sophia”