Para mim, o 10 de Junho foi sempre o dia de Camões. Foi assim que me ensinaram lá em casa, já que fora decretado nos primórdios da jovem República Portuguesa. Luís de Camões representava o génio da pátria na sua dimensão mais esplendorosa, significado que os republicanos atribuíam ao 10 de Junho, apesar de nos primeiros anos da república ser um feriado exclusivamente municipal de Lisboa.
Com Salazar o dia de Camões passou a ser festejado a nível nacional, passando a ser conhecido como o dia de Camões, de Portugal e da Raça. Este último epíteto, da Raça, foi criado por Salazar na inauguração do Estádio Nacional no Jamor em 1944. (Quem não se lembra da gaffe do actual Presidente da República, no ano passado, quando se referiu a este dia como o dia da Raça? ... Confusões lá da cabeça dele!) A partir de 1963, o 10 de Junho tornou-se numa homenagem às Forças Armadas Portuguesas, numa exaltação da guerra e do poder colonial.
Depois da Revolução de Abril, mas apenas em 1978, o 10 de Junho passou a ser chamado dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas. Deixou de se assistir ao folclore das festividades fascistas apresentadas no Estádio Nacional à boa maneira hitleriana, para passarmos a ter outro tipo de folclore distribuído, em cada ano, pelas diversas cidades do país, com discursos de Estado e imposição de insígnias a figuras que os vários Presidentes da República entendem que devem homenagear.
Folclore por folclore, eu prefiro dizer que é apenas do Dia de Camões, o grande poeta da Língua Portuguesa.
Assim, deixo aqui dois ou três poemas da sua vastíssima e riquíssima lírica.
Um dos seus muitos e belíssimos sonetos:
Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais
E, se torna, não tornam as idades.
Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.
Aquilo a que já quis é tão mudado
Que quase é outra cousa; porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.
Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.
Uma cantiga:
Mote
De que me serve fugir
da morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?
Voltas
Tenho-me persuadido,
por razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nacido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo
que eu mesmo sou meu perigo.
E se de mi me livrasse,
nenhum gosto me seria;
que, não sendo eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
Força é logo que assi passe,
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo.
E ainda o mais belo de todos os seus sonetos "Amor é fogo que arde sem se ver" nesta engraçada versão figurativa que encontrei num blog chamado textos-e-reflexoes
(informações sobre o Dia de Camões retiradas da Wikipédia)