segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Manhã de Carnaval

Ao longo dos anos o Carnaval aparece-me sempre envolto numa nuvem de nostalgia. É que, ao contrário do que é o padrão das pessoas em meu redor, especialmente as mulheres, eu sempre gostei do Carnaval. Mesmo no tempo da minha solitária infância quando pelo Carnaval a minha avó me levava à matinée ao cinema Restelo e a criançada atirava serpentinas pelo ar e esfregava montes de papelinhos nas bocas uns dos outros e atirava saquinhos cheios de serradura às cabeças uns dos outros, mesmo assim eu gostava do Carnaval. Depois foi a moderada loucura dos bailes de Carnaval da adolescência, da juventude, do princípio da idade adulta. Depois a vida abafa-nos com responsabilidades, com trabalho e contrariedades e o tempo vai-se esvaindo, os hábitos vão-se anquilosando, a gente vai fingindo que se esquece, que se adapta, mas continuo a recordar e a acalentar os meus gostos antigos pelas festas de Carnaval.


E é essa nostalgia que eu sinto neste belíssimo samba-canção cantado pelo meu mais que preferido Agostinho dos Santos.






Esta canção faz parte da banda sonora do filme Orfeu Negro de 1959. Se tiverem curiosidade em dar uma espreitadela ao filme poderão fazê-lo aqui. A apresentação do filme traz outro belíssimo samba-canção de Jobim e Vinicius – Felicidade – que diz:


«A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do Carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
e tudo se acabar na quarta-feira.»






domingo, 10 de fevereiro de 2013

A Notícias Magazine

Sabem os que por aqui passam que o nosso jornal cá em casa é, desde há muitos, muitos anos, o DN. E também desde sempre gostei das revistas e magazines que este jornal publicava aos fins-de-semana. Ultimamente, porém, e lamentavelmente, essas revistas têm vindo a ser transformadas e, na minha modestíssima opinião, a perder qualidade. 

Podia falar da revista do sábado que, desde a saudosa DNA, tem vindo a perder toda a sua pujança ao desperdiçar articulistas como Rolo Duarte ou Mega Ferreira e ao abandonar as suas excelentes secções culturais. Mas hoje – ando para fazê-lo há muito – quero fixar-me na Notícias Magazine, a revista do domingo. Que saudades dos bons cronistas, das boas temáticas, dos excelentes artigos da psicóloga de serviço, de medicina pediátrica, dos problemas da adolescência, de educação sexual, de educação em geral. Que saudades da fina bruteza daquele provocatório economista Manuel Ribeiro que, com o máximo de ironia destratava as mulheres (e as professoras) em todos os seus aspetos e punha a ridículas as “nossas” proverbiais paroladas. Que saudades das histórias tão bem contadas pelo médico Lima Reis. Quem não se lembra das crónicas pró-eróticas do Sexo e a Cidália? E aquele belíssimo suplemento infanto-juvenil cheio de passatempos e curiosidades encantadoramente ilustrado, que é feito dele? Que saudades até dos editoriais das diretoras que antecederam a atual, uma senhora que se chama Catarina Carvalho, que por exemplo no editorial de hoje escreve assim:

«Correm agrestes e azedos os dias, nestes tempos de crise em Portugal. Para os ricos. E em especial os banqueiros, bancários e todos os que tenham feito toda e qualquer fortuna, pequena ou grande, no setor financeiro. Não totalmente sem fundamento, como às vezes são as reações populares, os portugueses têm neste momento para com os bancos e os banqueiros uma relação psicótica. Culpam-nos de todos os problemas por que estão a passar, mesmo que foram criados por eles próprios e pela sua ingenuidade. A favor deste sentimento popular estão os processos colocados pelo governo dos EUA aos grandes bancos e, mais recentemente, à agência de notação Standard & Poors, pelas suas responsabilidades na crise do subprime que veio desembocar na atual crise das dívidas soberanas. Ulrich é apenas a última vitima das circinstâncias. (…) »

Tadinho do senhor Ulrich! Tadinhos dos bancos e dos banqueiros!

Aqui há um mês a mesma senhora, que dirige a atual revista enchendo-a de crónicas parvas da parva dos Deolinda e de propaganda a chefs e aos seus restaurantes, como agora é moda, pôs a ministra Assunção Cristas nos píncaros da lua ao dizer que «está a fazer exatamente o que Portugal precisa: bebés. Se formos a ver bem [continua a senhora] na gravidez desta ministra está muito mais o futuro do país, como um todo, do que a emancipação das mulheres, como se anda por aí a discutir, nos media tradicionais e redes sociais.» E depois acrescenta: «Qualquer reflexão sobre incentivos à natalidade em Portugal tem de partir da pergunta óbvia: porque é que as mulheres e os homens portugueses não têm filhos? Cristas tem, obviamente a resposta (…) é o epítome de todos os microproblemas que milhares de mulheres enfrentam para conciliar gravidez, trabalho e família.(…)»

Alguém poderia dizer a esta senhora que as mulheres e os homens portugueses não têm bebés como a Cristas APENAS porque não têm, porque não há condições de quase nenhuma ordem no atual país para os terem? E não têm as condições da ministra Cristas!

Que mal dirigida está a Notícias Magazine! (Uma palavra de exceção apenas para os textos de última página do escritor Gonçalo M. Tavares)

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Gatos

Adoro ler páginas de diários. Ora o Jornal de Letras costuma trazer na sua última página excertos de diários de escritores e outros artistas portugueses conhecidos que eu, naquela minha mania de começar a ver os jornais e as revistas de trás para a frente (nem sei se Freud teria explicação para isso!), leio assim que compro aquele jornal bimensal.

O JL de finais de Janeiro trazia umas entradas do diário de escritor e crítico Eugénio Lisboa que não resisto a transcrever para aqui dada a sensibilidade e a ternura que transmitem e que tanto me dizem.

«30.11.2010
A minha gatinha, a Secotine, encontra-se hospitalizada, há três dias, com uma grave afeção renal ainda não identificada. É a gatinha mais viva, mais terna, mais atenta, mais afetuosa que jamais conheci. Tem só seis anos. E já está neste inferno indescritível. A natureza é cega: não tem fair –play. A um ser tão meigo e confiante não se prega uma partida destas. Fomos vê-la e tivemo-la ao colo. Fizemos-lhe festas, longamente. Pareceu reconhecer-nos. (…) O pérfido Oscar Wilde: “Nothing that actually occurs is of the smallest importance.” Em termos galáticos, é verdade. Mas como eu não tenho dimensão galática, a doença da Secotine tem, para mim, uma importância desmedida.

10.1.2011
Ontem, às oito da noite, perdemos a Secotine. Estava no fim, em visível sofrimento – pedimos à veterinária que pusesse termo àquele milagre de vida, de afeto e de graça  que se chamava Secotine. No ano e meio que viveu connosco encheu-nos a vida de alegria e prazer, com o seu afeto brusco e atrevido: entrava na sala, saltava-nos sem cerimónia para o colo, enchia-nos de marradinhas e anichava-se em nós, com ar de proprietária. Ela era a elegância, a beleza, a velocidade, a surpresa. Enchia-nos a vida. Agora, fica só um grande buraco de saudade inútil. (…) 

11.1.2011
Não me conformo com a perda da Secotine. Estava sempre connosco: seguia-nos por todo o lado, quando chegávamos a casa, ouvia a chave e corria a vir esperar-nos. Quando eu escrevia, saltava para cima da mesa e vinha deitar-se em cima de livros e papeis, com ar impositivo. Queria atenção e dava-nos atenção. Queria carinhos e dava-nos carinhos. Era uma presença tão grande, é agora uma ausência tão grande! Merecia ficar na memória das pessoas para sempre e só vai ficar, por muito pouco tempo, na daquelas pessoas que a amaram. Tudo acaba, até a memória daquilo que foi bom.»
 
Não consegui ler este trecho, nem transcrevê-los sem os olhos se me rasarem de lágrimas. Até porque já foram três os gatos – para além dos que me desapareceram e me morreram de morte natural – que tive de pedir à veterinária que pusesse «a dormir» por estarem a ser vítimas de doenças graves.

Foi a «minha» Julinha que viveu connosco durante quinze anos e morreu há uns cinco anos com cancro nas maminhas. Era a gatinha mais fofa que se pode imaginar: acompanhou-me numa enorme depressão; aguentou as loucuras das festas de amigas da minha filha mais nova; adotou tudo quanto foi animal que por esta casa passou, incluindo uma coelha anã…




Foi a Ritinha que, há dois anos, acabou também com uma insuficiência renal. 




E, em Setembro último, o Gorki, gato de companhia da minha filha Marta de quando viveu sozinha no Barreiro, mas que passava grandes temporadas connosco e até chegou a ir connosco de férias para o Algarve.



É sempre um enorme drama para mim. E há quem não entenda isso.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Pecado


Ontem cheguei a casa já ao fim da manhã, descongelei dois bifes do rosbife (os meus preferidos, diga-se) e fritei-os para o nosso almoço. Trata-se de um almoço duplamente guloso já que sabe muito bem e prepara-se rapidamente. Apesar de que comer bife atualmente e pela bitola Jonet é sinal de quem vive bem acima das suas possibilidades…

Ontem também foi dia de jantar-xanax. Sabem, aqueles jantares que frequentemente fazemos seis colegas de profissão e amigas do peito que, há mais de vinte anos, no tempo do bom ministro Roberto Carneiro, trabalhámos afincada e alegremente num organismo de coordenação de escolas. Todas diferentes, todas iguais, todas cúmplices de uma proximidade, de uma intimidade que não se explica. São jantares em que falamos, rimos, contamos anedotas, maldizemos, confidenciamos, carpimos mágoas, e tudo fica por ali, entre nós. Por isso lhes chamamos jantares-xanax. 

Ora estava eu a dizer que ontem foi dia de jantar-xanax. E onde vamos, onde não vamos, resolvemos ir ao Bife Club. E não é que voltei a comer bife outra vez?! Bem sei que não foi outra vez rosbife, mas sempre foi um belo bife da alcatra com molho de mostarda e natas…



Dois bifes no mesmo dia – que diria a Jonet se soubesse? Acho que foi mais do que «viver acima das minhas possibilidades»! Penso que foi mesmo pecado!

E não é que, não contente com os dois bifes no mesmo dia, ainda comi uma panacota com molho de frutos silvestres?! Mais que pecado, um verdadeiro delito!


(imagem retirada da net)