sexta-feira, 29 de junho de 2012

29. Uma paisagem de Verão

(Imagem retirada da net)

«A casa está construída na duna e separada das outras casas do sítio. Esse isolamento cria nela uma unidade, um mundo. O rumor das ondas, o perfume do sal, o vidrado da luz marinha, o ar varrido de brisas e vento, a cal do muro, os nevoeiros imóveis, o arfar ressoante do mar estabelecem em seu redor grandes espaços vazios, tumultuosos e limpos onde tudo se abre e vibra.

A casa é construída de pedra e cal e a sua frente está virada para o mar.

No andar de cima da fachada há três janelas e uma varanda com grades de madeira. No andar de baixo há três janelas e uma porta. Essa porta, as janelas e as grades da varanda estão pintadas de verde. No chão, ao longo da parede, corre um passeio de pedra que separa a casa das areias da duna.

Para além das dunas a praia estende-se a todo o comprimento da costa e só o limite do olhar a limita. E, de norte a sul, ao longo das areias, correm três linhas escuras e grossas de algas, búzios e concas, misturados com ouriços, pedaços de cortiça e pedaços de madeira que são restos de bóias e de barcos. Sobre a areia molhada que a maré cheia alisou o poisar das gaivotas deixa finas pegadas triangulares, semelhantes à escrita de um tempo antiquíssimo. (…)

Há na casa algo de rude e elementar que nenhuma riqueza mundana pode corromper, e, apesar do seu halo de solidão e do seu isolamento na duna, a casa não é margem mas antes convergência, encontro, centro. (…)

Quem do quarto central avança para a varanda e vê, de frente, a praia, o céu, a areia, a luz e o ar, reconhece que nada ali é acaso mas sim fundamento, que este lugar é um luar de exaltação e espanto onde o real emerge e mostra seu rosto e sua evidência.»

“A Casa do Mar”, Sophia de Mello Breyner Andresen, 1970

9 comentários:

  1. Sophia!... Só ela poderia descrever assim um lugar, um momento, porque para Sophia os espaços amplos e abertos significam a liberdade - «...só o limite do olhar a limita» - O sujeito é encarado como parte integrante da Natureza sugerindo o bem-estar, a Unidade.
    A esta luz na descrição de espaços abertos opõe-se a sombra na descrição dos espaços citadinos, espaços de dispersão que corrobora na divisão do sujeito e consequentemente no seu desassossego.


    Gosto da claridade da obra de Sophia.

    Um beijo

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  2. É sempre delicioso ler Sophia! E paisagem mais veraneante que essa, não há... :)

    Bom fim de semana, Graça!

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  3. E o que eu gostava de ter uma assim.:)

    Sophia...é Sophia (nem parece ser mãe daquele bruto!)

    beijinhos, querida Gracinha

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  4. Devíamos, todos, ter memórias de uma casa assim onde cada espaço não fosse "acaso mas sim fundamento"...

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  5. Paradisíaco lugar para viver a magia de grandes amores. Belíssimo!
    Bj. Célia.

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  6. Este mar que agora ouço não e o de Sofia mas também tem a sua poesia...
    :)

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  7. Li a "casa do mar" e outras coisas de Sophia.
    Linda esta imagem.

    Beijinhoe uma flor

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  8. Lê-se a primeira frase e v~e-se logo que é de Sophia! :-))

    Abraço

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