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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Da felicidade

Por vezes penso que verdadeiramente a felicidade não existe. Mesmo quando todos aspiram ao estado de felicidade e quando tudo se escreve sobre os preceitos para o alcançar, a felicidade não existe. (Já a infelicidade - mesmo correndo o risco de que considerem um contrassenso – existe, perdura, derrama-se, pode levar-nos ao desespero.)

Acontecem(-me), por vezes e sem que se esperem, momentos breves de felicidade quando o nosso espírito quase flutua para fora do invólucro que somos nós deixando-nos de tudo esquecidos e entregues apenas à sensação que provocou o momento, a sós com a nossa imanência (se fosse crente diria a sós com Deus).

Como quando nadamos para longe e nos deixamos boiar livremente sobre a água verde, transparente e plana e deixamos que o sol nos envolve numa carícia. Nada de pensamentos – apenas a sensação.

O mesmo perante o inesperado aparecimento do arco-íris ou da compassiva revelação de um simples botão de rosa.

São os verdadeiros momentos de espanto (de que nos fala Raul Brandão) que nos fazem sentir que vale a pena viver.




sábado, 18 de abril de 2020

Da inexorabilidade do tempo


Para refletirmos agora que a passagem do tempo se tornou um quase tormento...

                                           
«Diz-se que o tempo não para, que nada lhe detém a incessante caminhada, é por estas mesmas e sempre repetidas palavras que se vai dizendo, e contudo não falta por aí quem se impaciente com a lentidão, vinte e quatro horas para fazer um dia, imagine-se, e chegando ao fim dele descobre-se que não valeu a pena, no dia seguinte torna a ser assim, mais valia que saltássemos por cima das semanas inúteis para vivermos uma só hora plena, um fulgurante minuto, se pode o fulgor durar tanto.»

José Saramago, «O Ano da Morte de Ricardo Reis»

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Da justiça emocional

Não sei se existe uma justiça emocional, mas se não existe, inventei-a eu agora ...  O que também não é difícil já que somos meio racional, meio emocional - Damásio dixit. Tenho para mim que por muito que as leis e os procedimentos sejam límpidos e bem definidos, a decisão final tem sempre muito, ou bastante, ou um mínimo de emocional.

Todo este introito para chegar à reflexão que quero deixar hoje aqui: 

Tantas vezes dizemos (e não sou só eu) que os filhos são injustos connosco. Especialmente agora que a vida foi passando e nos fomos tornando emocionalmente mais frágeis, racionalmente mais indecisos.  Sentimo-nos magoados por determinadas circunstâncias ou seja lá por que for e acusamo-los de serem injustos connosco o que nos faz ficar ainda mais magoados. E, fechados no nosso eu, que é único, pensamos «eu não fui assim para os meus pais.» Não teremos mesmo sido?

Quid pro quo - e quantas vezes teremos nós sido injustos para eles sem de tal nos termos dado conta?

Tantas vezes achámos que os nossos pais foram injustos connosco, sem pensarmos quão injusto teremos sido com eles?

E se aquilo que nós - enquanto filhos, ou enquanto pais - tantas vezes achámos injusto afinal - dada a conjuntura da vida - de injusto nada tinha? 

É deste intrincado de julgamentos que nascem tantos conflitos em família (como fora dela...)

A vida não é justa! (Ou será?!)




quinta-feira, 26 de julho de 2018

Os Avós

Ai os dias de... E então este que parece ter sido "inventado" pelo Goucha ou alguém naquele programa das manhãs.

Só que de nada nos vale «remar contra a maré» especialmente quando ela é forte..

Assim, e porque eu adorava os meus avós maternos que tanto ajudaram na minha criação, deixo aqui um aforismo que encontrei na Casa Museu Roque Gameiro em Minde e que, posso dizer, me encheu as medidas - até porque os meus queridos avós, ou o que deles restará - foi em Minde que ficaram.




Honremos os nossos avós!

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Sejamos agradáveis


Sabe quem me conhece e quem já me vai conhecendo por aqui que não sou frequentadora de missas. Não interessa estar aqui e agora a esgrimir as razões que me levam a ter este comportamento.

Hoje, por força das circunstâncias, assisti à missa de corpo presente de uma velha senhora professora do “liceu” de Leiria que fazia o favor de ser minha amiga, figura grada da cidade e de quem, também por força de não sei que circunstâncias, vou ser a seguidora na direção de uma Academia Sénior.

A missa foi celebrada por um padre franciscano, coadjuvado por um jovem frei, o que, já por si, a tornou diferente das institucionais missas – entenda-se por isso o que se entender. Mais dinâmica, mais natural, mais alegre (apesar da circunstância) mais coloquial, enfim. (paradoxalmente, nem queiram saber as saudades que eu tenho de uma missa em latim…)

Mas, no meio dos habituais rituais das missas, das orações estereotipadas e do continuado senta-e-levanta a que os frequentadores tão bem obedecem – e que eu ordeira e educadamente imito – hoje gostei e aprendi mais uma lição: quando o celebrante disse que Deus gosta que sejamos agradáveis para Ele e uns para os outros.

Tocou-me fundo esta ideia de que devemos esforçar-nos por sermos agradáveis uns para os outros. A noção de agradar aos outros entra bem na minha ideia dos grandes pilares da nossa dádiva, da nossa abertura ao outro: a compaixão e a generosidade. Compaixão que não é sinónimo de «pena»; generosidade que não é sinónimo de «ser bonzinho».

Sejamos, pois, agradáveis uns para os outros – o que não é sinónimo de mostrar «boas maneiras».





terça-feira, 8 de maio de 2018

Não bata em quem está em baixo

Em inícios dos anos 60, o meu pai foi a Nova York - não sei bem porquê, mas foi; nunca parava quieto e foi o que fez de melhor porque partiu cedo, muito cedo. 

Nessa altura eu era uma daquelas «teenagers inconsssientes», no meu 4º ou 5º ano do liceu, já encantada com a língua inglesa (de que era feita a música dos Beatles e do Elvis e do Cliff e do Little Richard e do Paul Anka e sei lá de quem mais) e meu pai - que me trazia sempre de onde ia os singles mais atuais - dessa vez trouxe-me um pesa-papéis em forma de poliedro com inscrições de frases populares. Em inglês, claro! 

Foi daquelas lembranças de que nunca me separei (até porque ele viria a morrer pouco tempo depois). 

Hoje lembrei-me (sabe-se lá por que motivo...) de o trazer aqui por causa de um dos ditos lá inscritos que diz assim:

Never hit a man when he is down he may get up

que o mesmo é dizer: Nunca batas num homem que esteja em baixo; ele pode levantar-se.


(Para de falar enquanto eu estou a interromper)

Entretanto aqui ficam outros ditos que possam achar divertidos e... certeiros.


Silêncio! O génio está a trabalhar
Se és tão esperto porque é que não és rico?
Há uma coisa que o dinheiro não pode comprar - a pobreza


(Não sejas escravo do ordenado; arranja um emprego para a tua mulher)


(Para matar o tempo tenta trabalhar para a morte dele)


Eu gosto da minha profissão: odeio é o trabalho!
Trabalho: o flagelo da classe bebedora.
PEMSA!!


sexta-feira, 6 de abril de 2018

Sete rosas vermelhas

Recebi hoje estas sete lindas rosas vermelhas.

Uma por cada década de vida...




Vamos ver se dá para receber ainda mais uma por outra década... Ou estarei a pedir de mais? 

«É acreditando nas rosas que as fazemos desabrochar.»

Anatole France

quinta-feira, 1 de março de 2018

Para a Luísa

Li não sei onde. Ou tê-lo-ei copiado sei lá de onde. Pode ser que a Luísa até já o conheça, mas hoje a publicação é-lhe dedicada com este pinta-amor...

Espero que goste(m). 



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Em modo de metáfora


Não se pergunta a quem não conseguiu aprender a ler «vês como falta faz saber ler?»

Já lhe chega sabê-lo, senti-lo. Não precisa da humilhação.




terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Provérbio Chinês

É difícil apanhar um gato negro num compartimento escuro, sobretudo quando ele não está lá.



Bom restinho de 2017!


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Al Khawarizmi




Al Khawarizmi  é considerado o fundador da Álgebra, mas talvez seja mais interessante conhecê-lo  pela forma como definiu o ser humano em poucas palavras.

Perguntaram-lhe sobre o ser humano e ele respondeu:

- Se tiver Ética, ele é  1

- Se também for Inteligente, acrescente 0 e será 10

- Se também for Rico, acrescente mais um 0 e será 100

- Se também for Belo, acrescente mais um 0 e será 1000

Mas... se perder o 1, que corresponde à Ética, então perderá todo o seu valor e restarão apenas os zeros.



terça-feira, 3 de outubro de 2017

Dualidades...

Eu cá não tenho dúvidas que, com o feitiozinho que tenho, quando morrer, vou diretinha para o inferno.

Mas nem queiram saber a quantidades de pessoas boazinhas lá vou encontrar...

É mais ou menos o que o chinezinho nos quer dizer... :))




domingo, 20 de agosto de 2017

Ciúmes? Não, obrigada.

«O ciúme é muitas vezes uma inquieta necessidade de tirania aplicada às coisas do amor.»

Marcel Proust


«O ciúme tem as suas raízes mais no egoísmo do que no amor.»

Henry Longfellow


Das coisas que mais podem atormentar uma mãe é sentir desentendimentos entre os filhos por causa de ciúmes infundados! (digo eu) É uma aperto no peito, um desconsolo, uma enorme contrariedade. (digo eu)


«A culpa é dos ciúmes, das brigas, das desconfianças, das mentiras e da falta. O amor não tem culpa.»

Pequena Sereia




domingo, 18 de junho de 2017

Profundo pesar

“É triste pensar que a natureza fala e que o género humano não a ouve.” (Victor Hugo)




"Não é a Terra que é frágil. Nós é que somos frágeis. A natureza tem resistido a catástrofes muito piores do que as que produzimos. Nada do que fazemos destruirá a natureza. Mas podemos facilmente destruir-nos. (James Lovelock, ambientalista)




“Se por amor às florestas um homem caminha por elas metade do dia, corre o risco de ser considerado um vagabundo. Mas se usa seu tempo para especular, ceifando a mata e tornando a terra careca antes do que deveria, ele é visto como um cidadão industrioso e empreendedor.”  (Henry David Thoreau)





“A natureza tem uma estrutura feminina: não sabe se defender mas sabe se vingar como ninguém.” (Marina da Silva)




“Nesses tempos de céus de cinzas e chumbos, nós precisamos de árvores desesperadamente verdes.” (Mário Quintana)




“Só quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o último rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro.” (Provérbio indígena)




Simplesmente trágico. A minha solidariedade, a minha compaixão, todo o meu pensamento e carinho estão com aquelas pessoas que estão a passar por este enorme provação e naqueles lugares que tantas vezes visitei no cumprimento da minha atividade. 



sábado, 6 de maio de 2017

Romance em doze linhas


"quanto falta pra gente se ver hoje
quanto falta pra gente se ver logo
quanto falta pra gente se ver todo dia
quanto falta pra gente se ver pra sempre
quanto falta pra gente se ver dia sim dia não
quanto falta pra gente se ver às vezes
quanto falta pra gente se ver cada vez menos
quanto falta pra gente não querer se ver
quanto falta pra gente não querer se ver nunca mais
quanto falta pra gente se ver e fingir que não se viu
quanto falta pra gente se ver e não se reconhecer
quanto falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu."


 (do livro Rua da Padaria, da Bruna Beber)


Será o amor ou a vida que cabe no espaço de doze linhas apenas?




terça-feira, 11 de abril de 2017

Ai esta juventude!!

“A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais, são simplesmente maus”.

Sócrates (470-399 a.C.),

“Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível”.

Hesíodo (720 a.C.)

“O nosso mundo atingiu o seu ponto crítico. Os filhos não ouvem os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe”.

Frase atribuída a um sacerdote do ano 2000 a.C.,

“Esta juventude está estragada até ao fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Eles nunca serão como a juventude de antigamente…A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura”.


 Frase encontrada escrita num vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia tendo mais de 4000 anos. 


E mais...

"De todos os animais selvagens, o homem jovem é o mais difícil de domar."

Platão

"A velhice é uma tirania que proíbe, sob pena de morte, todos os prazeres da juventude."

La Rochefoucauld

"A juventude é a embriaguez sem vinho."

Goethe

"Os velhos desconfiam da juventude porque foram jovens."

William Shakespeare

"Tudo o que os jovens podem fazer pelos velhos é escandalizá-los e mantê-los atualizados.”

George Bernard Shaw


“Ninguém é sério aos 17 anos.”


Rimbaud





segunda-feira, 27 de março de 2017

No Dia Mundial do Teatro

«Vocês, artistas que fazem teatro
Em grandes casas, sob sóis artificiais
Diante da multidão calada, procurem de vez em quando
O teatro que é encenado na rua.
Quotidiano, vário e anónimo, mas
Tão vívido, terreno, nutrido da convivência
Dos homens, o teatro que se passa na rua.»

Bertolt Brecht


«A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.»

De autor desconhecido

«Então sonhei um sonho tão bom: sonhei assim: na vida nós somos artistas de uma peça de teatro absurdo escrita por um Deus absurdo. Nós somos todos os participantes desse teatro: na verdade nunca morreremos quando acontece a morte. Só morremos como artistas. Isso seria a eternidade?»

Clarice Lispector


Esta é que é a minha noção de teatro. Do outro, do que passa nos palcos gosto pouco... Que se há de fazer?




sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Recado

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas.
Quando se vê, já é sexta-feira.
Quando se vê, já terminou o ano.
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos.
Agora é tarde demais para ser reprovado.

Se me fosse dada, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo:

Não deixe de fazer algo que gosta, devido à falta de tempo, 
pois a única falta que terá,
será deste tempo que infelizmente não voltará mais.



(Mário Quintana)

(Foto de F. Mendes)

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

I Know not what tomorrow will bring...

(daqui)


Fernando Pessoa - Lisboa, 13 de Junho de 1888 - 30 de Novembro de 1935

80 anos depois da sua morte, Fernando Pessoa tão atual!

«Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade e a hiperexcitação.»

Livro do Desassossego

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

«Os bons vi sempre passar...»

(Luís de Camões)

Foi do que imediatamente me lembrei quando abri um dos jornais aqui da cidade. De facto, neste paísinho de gente pequenina (para não dizer pior, que não quero mostrar-me ofensiva) afastam-se as pessoas de visão e cantam-se loas às pessoas com pouco préstimo.

E mais não digo. Porque não posso. Porque não devo.