É sabido que não resisto a um bom
pedaço de boa prosa. Se for um bom texto literário, então é o delírio, mas um
texto argumentativo de qualidade (e que vá de encontro ao que eu penso) também
me é muito grato.
A quem me dissesse há uns bons
dez anos atrás que me seria tão agradável ouvir e ler José Pacheco Pereira, teria
de responder que estava a sonhar. O facto é que, desde que a pessoa em causa
deixou de se apresentar em modo de político partidário e passou a representar o
sociólogo, o historiador, o grande estudioso da arte política, mostrou o seu
real valor que admiro.
O texto que escreveu no Público
subordinado ao tema «Uma imagem que vale por mil palavras» e que hoje refiro e trago aqui é bem prova do que atrás
ficou dito. Uma crítica mordaz e profunda ao “neo-PSD” e ao seu recente
documento «222 Propostas
Social-Democratas, um guião para um “verdadeiro programa nacional de reformas”,
de autoria do Grupo Parlamentar do PSD», mais especificamente à imagem da capa
do dito documento.
O texto é por de mais longo pelo
que não o transcrevo na íntegra, mas quem se interessar pode aceder-lhe pelo link. De notar a crítica profunda, bem
como a subtil ironia que a traduz.
(…) «Trata-se de uma imagem
desprovida de conteúdo político explícito e especialmente de conteúdo político
social-democrata, mas densa de ideologia e espiritualidade. A ideologia é má e
a espiritualidade é banal e “new age”, mas é o que é. A imagem é um tratado
sobre a mentalidade, sobre um certo autodidactismo que se sobrepõe à formação
académica ou à falta dela e, principalmente, fala-nos sobre os mecanismos de
representação do mundo, e do desejo de o atravessar com sucesso, da actual
direcção do PSD. É também uma imagem que revela a “cultura” do consumidor da
Internet, via Facebook e “redes sociais”. (…)
Que imagem é esta de que de
certeza o leitor nunca ouviu falar? Da capa da edição em papel de 222 Propostas
Social-Democratas, um guião para um “verdadeiro programa nacional de reformas”,
de autoria do Grupo Parlamentar do PSD. Uma espécie de programa do governo,
apresentado sobre as cinzas do célebre guião de copy-paste de Portas e que se
pretende contrapor ao Plano Nacional de Reformas do PS, o “falso programa de
reformas”, a que alude o “verdadeiro”. O documento merece discussão em si, mas
a capa merece-o muito mais.
A capa tem no centro, como motivo
principal, uma imagem de carácter religioso: a célebre Escada da Divina Ascensão, subida por João Clímaco a caminho do Paraíso. João Clímaco era também
conhecido como “João da Escada”. Há vários ícones orientais representando-a,
exactamente da mesma forma que aqui o PSD a representa. Só que, aqui, é o Homem
da Regisconta que a sobe com o seu fato de executivo e segurando a mesma pasta
que é a sua marca inconfundível. A versão é a do Homem da Regisconta visto por
trás, afastando-se de nós a caminho do Paraíso e, para saber o caminho, tem uma
espécie de folha de rascunho, de apontamentos de uma reunião, um workshop
empresarial, ou motivacional, que funciona como um blueprint para a salvação.
Melhor: tem um “business plan”. Esse mapa para o divino lugar, implica o uso da
informática, da “social media”, do marketing, do “business”, da estratégia e de
uma panóplia de gráficos de barras e “pie charts” habituais em documentos
empresariais e, de novo, nos cursos de gestão de baixa qualidade. Numa
demonstração de grande originalidade, uma ideia nova é representada pela lâmpada
da banda desenhada e está lá ao lado de um cifrão. Peço desculpa por usar
muitas palavras em inglês, mas é em inglês que está escrita a folha negra com
instruções para o caminho para o “sucesso” com ponto de exclamação:
“success!!”. (…)
Resumindo e concluindo: o homem
dos dias de hoje, um jovem executivo, ou um profissional de marketing, ou um
diligente “jota”, tem nesta imagem sagrada a sua forma de aceder ao divino, ou
seja, ao sucesso.
O que é que isto tem a ver com o
Estado? Nada. Com reformas políticas? Nada. Com o povo e a melhoria das suas
condições de vida? Nada de nada. Com uma mensagem política subliminar? Sim. É
uma mensagem para o indivíduo, porque é do sucesso individual que se trata no
mundo do “empreendedorismo”, não para um país, ou uma comunidade, uma classe ou
uma nação. É uma mensagem esforçada e antiquada, com décadas de atraso, para o
“homem da Regisconta” do início da informática e da entrada das máquinas de
calcular e da moderna gestão no mundo empresarial. Nem sequer é para o yuppie
da bolsa, nem o criativo das dot.com, nem para as start-up. Na verdade há muita
incompetência e muita ignorância nestas incongruências, mas pouco importa.
É pelo “negócio” que se chega à
salvação. É pela vulgata da linguagem dos “business plan” que se encontra o
caminho para a “luz” ou seja, para o “sucesso”. O neo-PSD dos nossos dias pensa
assim, ou seja, não pensa, tem uma fé. (…)
Mas este caminho hoje seguido
pelos neo-PSDs faz imensos estragos naquele que é o maior partido político
português e, por essa via, a Portugal. Quem deve estar a rabiar naquele título
e por baixo dos pés do Homem da Regisconta é a palavra “social-democrata”, (…)










