Mostrar mensagens com a etiqueta Portugal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Portugal. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Este país é um ESPANTO!!!

Quem não se lembra daquele excelente programa de televisão do Jô Soares «O Planeta dos Homens» aí pelos anos 70/80! E de tantas expressões que ficaram no nosso ouvido e que ainda hoje repetimos - «perguntar não ofende, oh triqui- triqui», o «tem pai que é cego!», ou o «casa, descasa, casa, descasa», ou ainda o «cale essa boca, sua múmia paralítica!»




Hoje e aqui, lembro a expressividade e o pasmo com que o Jô Soares dizia «Isto é um ESPANTO! Um ESPANTO!

Assim estou eu, PASMADA com este nosso país que é um ESPANTO!

Eu passo a explicar e espero que não pensem mal de mim… Nos quase 48 anos que estivemos casados, eu e o meu marido tivemos contas bancárias separadas. Aliás, apesar da enorme cumplicidade que sempre existiu entre nós e com as filhas – tudo sempre foi falado e discutido à frente delas à mesa do jantar – havia uma enorme liberdade de vida, d vida social, profissional, até cultural – tudo enfim! – e foi assim que nos demos bem. Muito bem!

Ora com a sua morte algo inesperada – por tão breve ter acontecido – desconhecia por completo que deveria fazer um determinado pagamento nesse mês. Assim, deixei passar a data limite e só depois o banco me avisou da minha falta. Não chegou a uma semana a falha do pagamento que fiz assim que me informaram. Aconteceu isto no mês de abril.

Para grande espanto meu e até algum constrangimento, há umas duas ou três semanas fui para pagar, como habitualmente, as minhas compras semanais no Continente, do qual possuo o chamado e muito anunciado Cartão Universo que é um cartão de registo de descontos das compras e, ao mesmo tempo, funciona como cartão de crédito – faço as compras semanais e pago no fim de cada mês. Há anos que assim é – fui para pagar com o dito cartão, dizia eu, e a máquina diz, sem apelo nem agravo: «o seu crédito está temporariamente bloqueado. Contacte o número tal e tal…»

Assim fiz. Falei com uma senhora de um qualquer call centre a quem disse que nunca tinha falhado qualquer pagamento nem sequer alguma vez tinha alcançado o plafond do cartão. Depois de consultar o meu registo, disse-me amavelmente que não tinha nenhuma dívida com eles, mas tinha falhado um pagamento num outro organismo e até me disse o montante exato do dito.

Fiquei sobre brasas, como devem calcular e dirigi-me ao “simpático” banco onde o chamado “gestor da conta” me esclareceu que assim que há uma falha de qualquer pagamento, eles (uns queridos!)  avisam não sei que entidade nacional que, de imediato, passa a notícia a todos os bancos. Mas que não me preocupasse porque isso rapidamente se trataria. Seria uma questão de dias.

Só que, em finais de junho, o meu cartão Universo continua bloqueado. De novo me dirigi ao “simpático” banco e queixei-me alto e bom som que estava a ser tratada por eles como a maior das caloteiras do país. E perguntei se fazem o mesmo a um Berardo, ou a um Dias Loureiro, ou a um Duarte Lima! A funcionária “amavelmente” respondeu que esses senhores não eram clientes deles e, receosa de que eu me comportasse mal, passou-me ao dito “gestor de conta”. Este consultou o computador, fez uns tantos telefonemas e voltou a dizer-me que a situação se resolveria em alguns dias.  Só que me anda a falar em “alguns dias” desde abril…

Dá para entenderem a minha fúria?! Porque é que o Berardo – que esse sim, é um caloteiro de papel passado – e outros, enfim, não têm os seus cartões bloqueados?!

E eu que sempre fui cumpridora e certinha em tudo, sinto-me ... sei lá... enxovalhada - ou pior!

 Não me digam que este país não é um ESPANTO!!!!     




segunda-feira, 10 de junho de 2019

No Dia de Portugal



Não, não vou comentar o discurso por de mais populista daquele rapazito do triste programa «governo sombra» que foi o escolhido pelo Presidente  (a minha avó espanhola costumava dizer com muito humor "Deus os cria e ele se juntam»...para presidir ao 10 de Junho de este ano. Para isso, convido-vos a ler o comentário do Jornal Tornado...

Para celebrar o dia, que também é de Camões, deixo-vos um dos seus sonetos e outros dois poemas que, tal como o dele, bem definem o perfil do bom português...


Que vençais no Oriente tantos Reis

Que vençais no Oriente tantos Reis,
Que de novo nos deis da Índia o Estado,
Que escureçais a fama que hão ganhado
Aqueles que a ganharam de infiéis;

Que vencidas tenhais da morte as leis,
E que vencêsseis tudo, enfim, armado,
Mais é vencer na Pátria, desarmado,
Os monstros e as Quimeras que venceis.

Sobre vencerdes, pois, tanto inimigo,
E por armas fazer que sem segundo
No mundo o vosso nome ouvido seja;

O que vos dá mais fama inda no mundo,
É vencerdes, Senhor, no Reino amigo,
Tantas ingratidões, tão grande inveja.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"




Português Vulgar

O meu gato deixa-se ficar
em casa, farejando o prato
e o caixote das areias. Já não vai
de cauda erguida contestar o domínio
dos pedantes de raça, pelos
quintais que restam. O meu gato
é um português vulgar, um tigre
doméstico dos que sabem caçar ratos e
arreganhar dentes a ordens despóticas. Mas
desistiu de tudo, desde os comícios nocturnos
das traseiras até ao soberano desprezo
pela ração enlatada, pelo mercantilismo
veterinário ou pela subserviência dos cães
vizinhos. Já falei deste gato
noutro poema e da sua genealogia
marinheira, embarcada nas antigas
naus. Se o quiserem descobrir, leiam
esse poema, num livro certamente difícil
de encontrar. E quem procura hoje
livros de poemas? Eu ainda procuro,
nos olhos do meu gato, os
dias maiores de Abril.

Inês Lourenço, in 'Logros Consentidos'
Anti-Soneto

    (Ao Mário Saa )

O nosso drama de portugueses,
O nosso maior drama entre os maiores
Dos dramas portugueses,
É este apego hereditário à Forma:
Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,
Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,
À estilística, à estética, à bombástica,
À chave de ouro do soneto vazio
- Que põe molezas de escravatura
Por dentro do que pensamos
Do que sentimos
Do que escrevemos
Do que fazemos
Do que mentimos.

Carlos Queirós, in 'Cadernos de Poesia'

terça-feira, 16 de outubro de 2018

terça-feira, 31 de julho de 2018

As Amoras



As amoras

O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade

sábado, 10 de junho de 2017

Pobre grande Camões...

D. Sebastião concedeu-lhe uma tença...
O grande, o imenso, o incrível Camões, como todos os homens - e mulheres - de enorme valor neste país são desprezados, afastados, postos de parte (quando não mortos como o grande Damião de Góis). 

E foi-lhe atribuída uma tença - uma esmola - de que Sophia tão bem falou.

Camões e a tença

«Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente.»

Sophia, in Dual, 1972
....

Só que, como grande homem que era, ele conhecia bem os vícios das lusas gentes bem como o seu próprio valor. 

(...)
«O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
De hua austera, apagada e vil tristeza.»

(..) 
«Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
De vós não conhecido nem sonhado?
Da boca dos pequenos sei, contudo, 
Que o louvor sai às vezes acabado.
Nem me falta na vida honesto estudo,
Com larga experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.»

in Os Lusíadas, Canto X.


Pobre grande Camões!

quarta-feira, 15 de março de 2017

Que povo este!

«Há, na parte mais ocidental da Ibéria, um povo muito estranho: não se governa nem se deixa governar!»

Esta frase é atribuída ao General Galba, que teria sido um dos primeiros governadores romanos na península, no Séc. A C e que a terá escrito numa carta enviada ao imperador romano. Referia-se o general romano aos Lusitanos, uma tribo guerreia que habitava também uma parte do atual território nacional.

Todos nós conhecemos esta frase e, de alguma forma, regozijamo-nos ao ouvi-la aplicada a nós. Só que, parece-me, esse regozijo deveria limitar-se a esses tempos de antes de Cristo já que se trata de um dos mitos da nossa cultura. Na atualidade, país que somos pertencente à Europa dita civilizada, já não me parece que nos fique tão bem. Já não temos idade (histórica, nem geográfica, nem cultural, social ou outras) para sermos considerados “enfants terribles”…

Isto a propósito de uma notícia que me veio ter aqui ao computador, via Jornal Económico: «Parlamento Europeu vem a Portugal para perceber o caso dos offshores. Estrasburgo quer ouvir Vítor Gaspar, Maria Luís Albuquerque e Paulo Núncio mas também o Banco de Portugal, Polícia Judiciária e secretários de Estado.»

Que vergonha! Temos uma “Justiça” altamente parcial e tendenciosa que se deixou embrulhar pelas figuras político-partidárias de determinada tendência e, assim sendo, nem se atreve a questionar os “altos vultos” desse casulo. Os meus amigos dar-me-ão o benefício de entender que não estou a inventar nada: de facto, a nossa “Justiça” tem mandado arquivar todos os processos que tocam os ditos “vultos”, sem grandes (ou mesmo nem pequenas) investigações. Veja-se, entre outros mais, o chamado caso dos submarinos que fez prisões de vulto na Alemanha e na Grécia, enquanto por cá, tudo foi arquivado.

E agora, mesmo que nada dê em nada, passamos pela vergonha de virem de fora tratar de “entender”, analisar, julgar um caso de polícia que a nossa “Justiça”, tão determinada e pertinaz em casos do outro lado da nossa vida partidária, não consegue, não pode, não quer investigar…


Mau de mais!!




segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Génio lusitano

Tenho dito aqui por mais de uma vez que, menina lisboeta, vivi cerca de ano e meio na vila da Vieira de Leiria onde fiz parte da 1ª classe, a 2ª e o início da 3ª. Foi das experiências mais ricas da minha infância por ser um ambiente tão diferente e distante daquele que conhecia. De recordar que isto se passou em 1957/58. Foi lá que, pela primeira vez, vi uma picota (que encanto!) uma lagartixa, um ancinho para ir à caruma (bem como a própria caruma), cântaros de barro com que as mulheres iam buscar água à fonte e as respetivas cantareiras, mulheres descalças com os canos de lã nas pernas, as camarinhas, aquele mar violento a levantar-se em ondas altas e furiosas, aqueles barcos lindos de proa altíssima a lembrar os Vikings, os bois e as mulheres – tão fortes quanto eles – a puxarem as redes cheiinhas de peixe a saltar, etc. etc.

Foi lá que, pela primeira vez, fui a um baile numa sociedade recreativa, fui empalhar garrafões, fui à caruma, fui a um funeral enquanto menina da escola de batinha branca em fila atrás do féretro.
Foi lá que também pela primeira vez assisti a uma espetáculo estilo revista à portuguesa realizada e interpretada por pessoas da vila e talvez de Leiria, não sei bem. Lembro-me de alguns quadros muito engraçados e houve um que me marcou bastante: era um diálogo em que um dos artistas ia criticando várias circunstâncias e contingências do povo e do país enquanto o outro, vestido de jardineiro – lembro-me bem! – respondia sistematicamente: «Ah! Isso é lá com eles!»

Vem isto a propósito de um artigo que li hoje no DN cujo título é exatamente Génio Lusitano. O autor, que é português mas que tem uma avó checa e outra catalã, um avô austríaco e um pai alemão, faz uma crítica muito bem feita e bem divertida (?) à nossa capacidade (ou será uma incapacidade?) de olhar para o lado…

Diz ele: (…) «Os problemas impossíveis de se resolver em terras lusas são regra geral minúsculos: a luz dum poste de iluminação pública que não funciona há anos, o funcionário sem meios ou vontade para atender pessoas, os fios de telecomunicações que alastram nas fachadas dos prédios como a peste negra, a sala de aulas sem aquecimento, o devedor que não paga, o senhorio que não faz obras, o tempo de espera pela consulta, o autocarro que não passa, o vizinho que estaciona o carro no passeio sem deixar espaço para passar um chico fininho.

Esta prodigiosa faceta do carácter nacional permite deixarmos de ver as pequenas monstruosidades que nos rodeiam e é única na Europa. Num país, que por semana fica à frente em dezenas de rankings, é estranho não ter ainda aparecido uma revista internacional a colocar-nos em primeiro lugar na modalidade "olhar para o lado". (…) Tentar fazer alguma coisa não serve de nada, é a desculpa que se ouve sempre, por isso não se tenta fazer nada. "Eles", seres distantes algures nos centros de decisão, "também não fazem a ponta de um corno", "aquilo é só tachos", "anda tudo na mama" ou "só mudam as moscas". Em vez de tomarmos a iniciativa e limparmos nós a porcaria à pazada, é uma enxurrada de desculpas para não mexer uma palha e tudo ficar igual.


Em Portugal a cidadania não é vivida como um direito. É um fardo que se carrega às costas. E por cima do fardo ainda estão "eles" empoleirados, os "lá em cima". Se, por sua vez, pergunto a um de "eles lá em cima", também olham para o lado e dizem-me que são "eles", os "ali ao lado", que lhes empatam o serviço. (…)»

Connosco é mesmo assim: «Isso é lá com eles» e assobiamos para o lado.




quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Vergonha na CPLP

Não gosto muito de trazer para aqui questões meramente políticas, mas há alguns assuntos que me deixam muito abespinhada. E como um blog é, por definição um «diário de bordo», ou seja, um web log e dias há em que dificilmente consigo calar o que aqui me vai dentro , cá vai!

A questão é sempre a mesma de há uns meses para cá: a forma abstrusa como os nossos jornais (e telejornais) passaram a transmitir as notícias, ou seja, pela negativa. Por exemplo, há um ano atrás a taxa do desemprego descia e o pisca-o-olho da RTP1 estampava um sorrisinho naquela cara de sonso e dizia com entoação de grande surpresa: «a taxa do desemprego caiu mais x pontos percentuais!»; esta noite disse com ar sisudo: «a taxa do desemprego caiu para os 10,6%» mas sublinhou e repisou que há quinhentos e sessenta mil desempregados em Portugal. Importa denegrir, quero eu dizer.

O DN – que ultimamente se tem desdobrado em chamar à primeira página notícias, opiniões, entrevistas e outras coisas o anterior primeiro-ministro e a ex-ministra Cristas – ontem encheu a sai capa com um enorme perfil de Teodoro Obiang (o ditador que manda e desmanda na Guiné Equatorial há 37 anos com direito a pena de morte e tudo) com o seguinte título em maiúsculas: OBIANG O PRESIDENTE QUE EMBARAÇA MARCELO E COSTA. E em letras mais pequenas: Presidente da Guiné Equatorial é um dos líderes presentes em Brasília para a XI Cimeira dos países lusófonos. Antiga colónia espanhola em África é o membro mais recente.

Esqueceram-se de referir que foi com a anuência do anterior PM e do anterior presidente da República que aquele país, onde nem se fala nem se ensina a Língua Portuguesa e onde se desrespeitam os mais básicos direitos humanos, passou a fazer parte da CPLP. Foi há dois anos na Cimeira de Dili. Uma enorme vergonha e a troco de quê? Para que aquela organização se «torne um dos blocos mais importantes ao nível petrolífero» - disseram. E eu que pensava que o grande objetivo daquela comunidade era a aproximação de Portugal e das suas ex colónias em volta de uma língua e cultura comuns!


Ai se esta desastrosa inclusão tivesse sido autorizada por um PM e por um PR da área da dita «geringonça» (passe o ignominioso termo) - o que os jornais não teriam de dizer!




quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A Sagres no Rio



Quarenta e três dias depois de ter partido de Lisboa, o navio escola Sagres  (apreciem-lhe a elegância!chegou ontem ao Rio de Janeiro. A embarcação vai ficar na "cidade maravilhosa" até ao final dos Jogos Olímpicos e ser a "Casa de Portugal", apoiando o Comité Olímpico Português e os atletas que vão participar no torneio.




Durante a tarde de ontem, o Presidente da República entregou a bandeira de Portugal ao velejador João Rodrigues que será o porta-estandarte na abertura oficial dos Jogos no próximo dia 6.

Marcelo Rebelo de Sousa recebeu a bandeira nacional do comandante do navio escola Sagres, levou-a ao peito e entregou-a ao atleta João Rodrigues.




terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Canção de Natal

Tinha intenções de falar do reconhecimento pela UNESCO de Óbidos e de Idanha-a-Nova como cidades criativas, cidade literária e cidade musical respetivamente;

Tinha intenção de comentar (uma vez mais) a imbecilidade que são os rankings da escolas (bem como qualquer tipo de ranking, diga-se de passagem) e de como a Inspeção-Geral de Educação, preocupada apenas com coligir montanhas de papeis quando vai às escolas, ignorando completamente o funcionamento diário das mesmas nomeadamente no que concerne ao que se passa dentro das salas de aula e de como o processo de aprendizagem continua a ser marginalizado continuando a favorecer-se o ensino que é bem mais fácil para os professores (alguns, claro; nem todos.);

Mas nesta época do ano, não me apetece. Tenho a cabeça cheia de canções de Natal, de poemas sobre o Natal, de histórias de Natal, de luzinhas de Natal... Uma espécie de silly season, sei lá!

Por isso, daqui até final do ano, dificilmente conseguirei apresentar outros temas. Hoje deixo aqui uma velha canção de Natal - americana como são as melhores e mais conhecidas - numa interpretação antiga na maravilhosa voz de Brenda Lee.





Podem talvez preferir a versão Michael Bublé, bem mais moderna e igualmente bonita.




segunda-feira, 18 de maio de 2015

Onde estão os cajados portugueses?

(daqui)


“Onde estão os cajados portugueses
que algum dia se ergueram
Em defesa da honra e da justiça?
Marmeleiros lustrosos
e castanhos robustos,
onde estais ,onde jaz adormentada
vossa força elegante
em justiceiros giros,
que não saís de novo
contra quem vem - o verso é de Os Lusíadas -
a despir e roubar o pobre povo ?
O doce chão da Pátria
vê-lo-ás empenhado em mãos de usura;
já todo o Portugal,
do extremo norte ao sul
(menos a parte inchada da fartura),
pendurado se vê do Prego imenso
e do Prego pendendo se balança
do Minho verde até o Algarve azul !"....


Éclogas de Agora - Afonso Lopes Vieira, 1935


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Pátria

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas. (...)»

Retrato feito há mais de cem anos por Guerra Junqueiro e, no entanto, tão atual ainda...
Que sufoco!!

domingo, 4 de janeiro de 2015

Receita para a Alma de Portugal



O DN fez 150 anos em finais de Dezembro. É uma bela idade que foi sendo celebrada com várias iniciativas ao longo de algumas semanas que antecederam a data – 28 de Dezembro.

Fizeram um vídeo inspirado no poema de Fernando Pessoa «Ó Mar Salgado», a que deram o nome de “Alma da Portugal” – com um objectivo optimista e inspirador. Pensaram criar uma tinta imaginária que pintasse essa “Alma” rejuvenescida, mas como a produzir?

Foram fazendo experiências e acabaram por misturar os seguintes ingredientes:

  • 2 gotas de orvalho da Serra de Sintra
  • 1 dose de canela dos pastéis de Belém
  • 15 gotas do mar da Madeira
  • 1 frasco de fumo de sardinhas assadas
  • 14 gotas de água do Tejo
  • 4 gotas de café da Brasileira
  • 23 ml de um vinho do Douro
  • 9 raspas de sobreiros do Alentejo
  • 1 raspa de ardósia da Universidade de Coimbra
  • 15 gotas de água do Douro
  • 1 bocado de tinta da caneta de um escritor
  • 1 gota de suor de um pastor alentejano
  • 4 gotas de licor de medronho
  • 11 grãos de areia de uma das praias de Sagres
  • 1 raspa de giz do Liceu Camões
  • 1 frasco de vento da praia do Guincho
  • 25 pétalas de cravos vermelhos
  • 1 fio de azeite
  • 12 gotas do mar dos Açores
  • 1 raspa do palco do Teatro São João
  • 1 punhado de pôr do Sol do cabo da Roca
  • 1 gota de café do Majestic
  • 5 gotas de ginjinha de Óbidos 

Poderão ver o vídeo no seguinte link:



sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Tomai lá do O'Neill!



Faria hoje 90 anos se a morte o não tivesse ceifado aos 62 anos. 
Tinha uma imaginação fora de série! 
A sua poesia inscreve-se no surrealismo e a surreal PIDE - do tempo em que se prendiam as pessoas por motivos políticos (que agora já assim não é...) - encarcerou-o bastas vezes, vá-se lá saber porquê...

Em jeito de homenagem aqui fica parte do seu (bem atual) poema «Portugal».

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

        (...)

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós…


(Alexandre O’Neill, 1965)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Esta gente/Essa gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

(Ana Hatherly)


domingo, 28 de setembro de 2014

Yes, Yes, PS!



Ideias soltas sobre um grande dia:

Contra tudo e contra todos, o PS continua a ser um, senão mesmo O grande partido.  

Ao acorrerem às 600 e tantas mesas eleitorais do PS, os portugueses mostraram que estão fartos deste "governo" e desta maioria de trapaceiros mentirosos que tem vilipendiado o país. 

Por muito que a oposição queira tentar convencer o povo que o partido está e vai continuar partido ao meio, viu-se que afinal a forma como se organizaram e como correram estas eleições primárias (as primeiras realizadas no país) mostra bem que  o partido está fresco e determinado.

Para além disso, tanto vencedor como vencido comportaram-se da forma mais lisa e digna nas suas intervenções e comportamentos. 

À imagem de outras "fraturas" que aconteceram dentro do partido no passado e de que já poucos se lembram, veremos que a eventual ferida agora aberta sarará com a rapidez de quem tem uma boa carnadura.

Ficou mal a pretensa indiferença do professor da TVI e sua partenaire face ao discurso de demissão do derrotado.

Ficou francamente mal ao Jerónimo - que, por acaso, também de Sousa como a supra citada partenaire - berrar a plenos pulmões que «as eleições no PS são uma farsa». Das duas, uma: ou se trata da proverbial falta de maleabilidade mental do PC ou de estrita dor de cotovelo.

Força, PS!!


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

domingo, 25 de maio de 2014

Que país é este?

(daqui)

Que país é este que em fins de Maio enche as praias num fim de semana e abre as pistas de neve do fim de semana seguinte?

Que população é esta que aumenta desmedidamente os preços nos hotéis, nos restaurantes, nos arrendamentos em dia de enchente?

Que povo é este que após três anos de saque aos seus benefícios, aos seus direitos, aos seus empregos, oferece 30% dos seus votos aos saqueadores?

Que povo é este que, em dia de eleições, deixa sessenta e tal por cento de votos por cumprir, tão grande é a indiferença e a displicência, esquecendo-se que ainda há 40 anos não podia exprimir a sua vontade pelo voto? Não, não se trata de desesperança nem de desencanto, nem tão pouco de descrença nos políticos. Trata-se mesmo de atraso.

Que gente é esta que sai da câmara de voto dizendo «nem sei o que é eu cá vim fazer!» «O quê? Não sabias qual era o desenho em que havias de votar?»

E ainda me vêm dizer que somos um povo maioritariamente de esquerda e cheio de sentido do dever e de cidadania?

Não! Não somos, não! Continuamos a ser um povo incauto, abúlico e indiferente que quer é férias no Algarve e automóveis do ColaCau como oferecia o inqualificável Carlos Cruz. Continuamos à espera de um qualquer D. Sebastião que até pode ser um fascista, um facínora, um cretino qualquer mas que nos obrigue a fazermos o que a ele muito bem lhe apetecer para depois andarmos a queixar-nos pelos cantos, a fazer manifestações com cantigas e a pôr piadas no facebook!

Estou mesmo zangada!

E mesmo que por de mais conhecido e um pouco até estafado, deixo aqui "O analfabeto político"  de Brecht que me parece tão acertado e tão actual. Infelizmente.

«O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha
Do aluguer, do sapato e do remédio
Depende das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que
Se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil
Que da sua ignorância nasce a prostituta,
O menor abandonado,
O assaltante e o pior de todos os bandidos
Que é o político vigarista,
O desonesto, o corrupto e o espoliador
Das empresas nacionais e multinacionais.»


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Não te rendas

(in esquerda.net)

Não te rendas, meu povo. Não te rendas
às mãos de quem te quer voltar a ver
cativo e desgraçado. Não te vendas.
Aqui nada mais temos a vender.

Não te cales, meu povo. Que a saudade
já não pode doer dentro de nós.
Se o teu punho constrói a liberdade
levanta ainda mais a tua voz.

Não te rendas, meu povo. Não te rendas.
Que já nos querem sós. E divididos.
Que já nos querem fracos. E calados.

Não te cales, meu povo. Não te vendas.
Que quando nos quiserem já vencidos
hão-de ter-nos de pé. E perfilados.




(Joaquim Pessoa, in AMOR COMBATE, 1976)

sábado, 28 de dezembro de 2013

Acorda, povo!

Para um povo que aguentou, de cabeça baixa, 48 longos anos de ditadura abençoada pela Igreja e que ainda hoje suspira por esse tempo, não chegam as manifestações que se têm feito um pouco por todo o lado, nem as críticas à destruição do país nas redes sociais e nos fóruns - que a comunicação social está, de um modo geral, submetida ao poder - nem os dilacerantes testemunhos de quem tudo perde diariamente e passa fome, nem os suicídios (de igual modo calados pela comunicação social), nem o desesperado movimento hemorrágico («Diáspora» chama-lhe aquele senhor metido a presidente, sem saber muito bem o que diz) da juventude qualificada para outros países que lhes abrem as portas e os braços, para abrir os olhos e perceber que é preciso agir!

Mesmo assim - ou talvez por isso - é preciso continuar a mostrar por palavras simples e por números, o buraco, a lama em que este "governo", esta "maioria" e este "presidente" nos estão a atolar. E porque há quem o faça muito melhor que eu, transcrevo a crónica da Câncio no DN de ontem. 

Vale a pena ler. Há que acordar Portugal!



Passos natais passados

Em 2010, na oposição, Passos garante que, devido à crise, lá em casa só haverá presente para "a mais nova". "Foi um ano muito duro", diz no vídeo de Natal. "Pelo desemprego, pelo aumento dos impostos, na redução dos salários, na quebra do investimento. Enfim, é um período de grande tensão e de incertezas tanto para os mais jovens como para os menos jovens." Com o IVA a aumentar um ponto percentual nos três escalões e o IRS a subir para todos com um novo escalão de 45% acima dos 150 mil euros, o ano fecha com desemprego de 10,8%, dívida pública de 92,4%, e PIB a crescer 1,9%.

2011: mensagem natalícia é já de PM. O que cortou meio subsídio a toda a gente e anuncia que em 2012 funcionários públicos e pensionistas ficarão sem os dois (Natal e férias). Medidas que não estavam nem no memorando nem no seu programa eleitoral, mas não o impedem de falar de confiança: "É um ativo público, um capital invisível, um bem comum determinante para o desenvolvimento social, para a coesão e para a equidade. São os laços de confiança que formam a rede que nos segura a todos na mesma sociedade. Um dos objetivos prioritários do programa de reforma estrutural do governo consiste precisamente na recuperação e no fortalecimento da confiança." Ano fecha com défice de 4,2% (abaixo do previsto), dívida pública 107,2%, desemprego 12,7%. PIB contrai 1,6%.

2012 é o ano do anúncio do aumento da TSU para trabalhadores, que cairá pela contestação, e do "enorme aumento de impostos" para 2013, depois do IVA no máximo para a restauração, eletricidade e gás. Se desemprego alcança 15,7%, respetivo subsídio é reduzido em duração e valor, como indemnizações por despedimento. RSI e Complemento Solidário para idosos sofrem cortes. Tudo ao contrário da mensagem natalícia do PM, que exorta "todos [a] fazer um pouco mais para ajudar quem mais sofre, quem perdeu o emprego" e a celebrar os 120 mil lugares vazios dos emigrantes: "Esta quadra natalícia será um momento especial para recordarmos aqueles que estão mais longe, ou aqueles que se afastaram de nós no último ano." Tanto sacrifício para défice subir aos 6,4%, muito acima do acordado, dívida pública atingir 124,1% e PIB contrair 3,2%.

2013, e eis Passos redentor: "Começámos a vergar a dívida externa e pública que tanto tem assombrado a nossa vida coletiva. Fizemos nestes anos progressos muito importantes na redução do défice orçamental, e não fomos mais longe porque precisámos dos recursos para garantir os apoios sociais e a ajuda aos desempregados." De facto: num ano cortou-se CSI a 4818 idosos pobres e no OE 2014 vêm mais cortes, também no RSI e ação social. Prevê-se 17,4% de desemprego, com o de longa duração e jovem a aumentar (por mais que o PM jure que se criaram 120 mil empregos). Dívida vai a 127,8%, PIB contrai 1,5% e défice deverá ficar em 5,9%, 1,4 pontos acima do acordado em 2012. Mas o Pedro vê cenas. Este ano, às tantas, até houve presentes para todos lá em casa.

(Fernanda Câncio, DN/ 27/Dez/2013)