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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Mundo é Comédia

Lendo por aí, encontrei este belo soneto de D. Francisco Manuel de Melo, século XVII, que, parece-me, em nada está desatualizado.

Que dizem?


Dez figas para vós, pois com furtado
Consular nome vos chamais Prudência,
Se fazendo co’o Mundo conferência,
Discursais, revolveis, e eis tudo errado!

Quem vos vir, Apetite, disfarçado,
Digno vos julgará de reverência;
E a vós, Ódio, por homem de consciência,
Vendo-vos tão sesudo e tão pesado.

Dois a dois, três a três e quatro a quatro,
Entram, de flamas tácitas ardendo,
Astutos Paladiões (1) em simples Tróias.

Quem enganas, ó Mundo, em teu teatro?
A mi não, pelo menos, que estou vendo
Dentro do vestuário estas tramoias.

(1) Heróis valentes

(D. Francisco Manuel de Melo (1608 – 1666)
“Obras Métricas”)



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

De quando os animais falavam...

Dizem que já noutra idade
falaram os animais,
e eu creio que por sinais
inda hoje falam verdade.

Ouvi contar como então
se fez valente e temido
um vil jumento, escondido
nos despojos de um leão.

Enquanto de longe o viam
os outros fugiam dele:
eram milagres da pele
do rei, a que eles temiam.

Quis falar, buscou seus danos,
que os outros, com raiva crua,
fazem pagar pela sua
da outra pele os enganos.

Quantos há, na nossa aldeia,
leões e lobos fingidos,
que houveram de andar despidos,
se não fora a pele alheia!


Francisco Rodrigues Lobo, Éclogas, I

Francisco Rodrigues Lobo (Leiria, 1580 – 4/11/1620)

Poeta e prosador, considerado discípulo de Camões e o iniciador do Barroco em Portugal, 


Sempre atual...

sábado, 16 de janeiro de 2016

Marcelo e as Tágides

Natália Correia sobre Marcelo Rebelo de Sousa

«o tal que um dia concorreu a presidente da autarquia de Lisboa».

MARCELO E AS TÁGIDES

Marcelo, em cupidez municipal
de coroar-se com louros alfacinhas,
atira-se valoroso - ó bacanal! -
ao leito húmido das Tágides daninhas.

Para conquistar as Musas de Camões
lança a este, Marcelo, um desafio:
Jogou-se ao verso o épico? Ilusões!...
Bate-o Marcelo que se joga ao rio.

E em eleitorais estrofes destemidas,
do autárquico sonho, o nadador
diz que curara as ninfas poluídas
com o milagre do seu corpo em flor.

Outros prodígios - dizem - congemina:
ir aos bairros da lata e ali, sem medo,
dormir para os limpar da vil vérmina
e triunfal ficar cheio de pulguedo.

Por fim, rumo ao céu, novo Gusmão
de asa delta a fazer de passarola,
sobrevoa Lisboa o passarão
e perde a pena que é de galinhola.

in INÉDITOS 1979/91




O que escreveria agora a Poeta se ainda se encontrasse entre nós?! 

Será que ainda veremos o candidato Marcelo a surfar a onda na Praia do Norte na Nazaré?