sábado, 12 de setembro de 2020
Uma enorme lição de humildade
domingo, 30 de agosto de 2020
As Cigarras - um texto de J. Tolentino de Mendonça
Deixamo-nos / deixo-me encantar
pelos textos do poeta-cardeal. Alguns mais filosóficos, outros mais poéticos,
mas sempre belos e justos.
A este não resisti: tive de o
trazer para aqui de tão belo, de tão culto, de simples, de tão franciscano…
Chama-se As Cigarras
«Em Portugal, que eu saiba, o melhor lugar para ouvir as
cigarras é a poesia de Eugénio de Andrade. Ao menos para mim representou o
sítio onde verdadeiramente as escutei pela primeira vez. Mas nesta época em
qualquer recanto, por onde quer que se vá, elas tornam audível o verão. Basta
um jardim, um matagal humilde, um esconso ao aberto, um atalho mesmo que
urbano, umas traseiras, um metro quadrado de calor e silêncio. Ou basta
simplesmente um ouvido disponível. Coisa que depois, percebemos, não é afinal
tão simples. Já Alberto Caeiro recordava:
“Não basta abrir a janela/
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada...”
Ideias, caves e janelas fechadas são um arsenal mais comum
do que pensamos. E é fácil deslocarmo-nos para um sítio distante do nosso mundo
habitual, chegarmos a uma estação diferente e continuar aprisionados às mesmas
visões ou dentro do mesmo campo acústico. Para ouvir temos, de facto, de
arriscar abrir a janela, praticando uma hospitalidade para com a vida que nos
surpreende com novos vozeios, nos obriga a contactar com múltiplas linguagens e
a acolher outras formas de conhecimento. O verão, por exemplo, como se conhece?
Num dos seus poemas, Eugénio escreve:
“Conhecias o verão pelo cheiro,
o silêncio antiquíssimo
do muro, o furor das cigarras”.
O verão tem cheiros, tem cores, come-se à mesa, espera que o escutemos. Na verdade, o mundo torna-se para nós cada vez mais desconhecido se apenas giramos com a nossa portátil filosofia e deixamos de aplicar à realidade os nossos sentidos, indispensáveis para construir aquilo que significa uma experiência.
O fascínio pelas cigarras tem raízes antigas. Em “Fedro”, de Platão, cabe a Sócrates recuperar o seu mito de origem, explicando que elas, antes de terem sido cigarras, eram homens, com uma existência em tudo igual à nossa. E que isso vigorou até ao nascimento das musas. Depois aconteceu que o obsidiante canto das musas provocou neles tal transtorno que aqueles homens não voltaram a comer ou a beber, acabando por se transformar naquilo que escutavam. Nem o estômago vazio nem a secura da garganta interromperam mais neles a dedicação à arte de cantar.
É verdade que a fábula da cigarra e da formiga arrasa com o prestígio das cigarras. Enquanto a primeira canta despreocupada, a incansável formiga acumula provisões. Quando avança o inverno, a cigarra desprovida bate à porta da formiga a mendigar um pouco de grão, mas nada obtém. Pobre cigarra que tem então de compreender, através da penúria, o preço de viver só a cantar. A fábula narra obviamente o triunfo de uma visão utilitarista do mundo, que rapidamente se disseminou por todas as dimensões da vida. O século XVII de La Fontaine afastou-se (e afastou-nos) daquela sabedoria que o medieval Francisco de Assis recomendava aos seus frades. Francisco pedia que reservassem na horta um espaço livre, não cultivado, para que pudessem brotar flores, e, desse modo, o zelo pelo útil não excluísse o perfume que lhe acrescenta o inútil. São Francisco de Assis não podia, por isso, criticar as cigarras. Pelo contrário dizia-lhes: “Vem cá, minha irmã cigarra... canta minha irmã cigarra o Deus que te criou.” A tradição monástica vai pegar nesta imagem e os monges serão chamados cigarras, pois a sua vida contemplativa não procura outra função que o louvor. Ensinam-nos tanto as cigarras. Boa escuta.
[In Expresso - 4/7/20]
quarta-feira, 12 de agosto de 2020
No aniversário de Miguel Torga
Para recordá-lo, deixo aqui este belo poema. Triste, mas belo.
quarta-feira, 5 de agosto de 2020
Da felicidade
Por vezes penso que verdadeiramente a felicidade não existe.
Mesmo quando todos aspiram ao estado de felicidade e quando tudo se escreve
sobre os preceitos para o alcançar, a felicidade não existe. (Já a infelicidade
- mesmo correndo o risco de que considerem um contrassenso – existe, perdura,
derrama-se, pode levar-nos ao desespero.)
Acontecem(-me), por vezes e sem que se esperem, momentos breves
de felicidade quando o nosso espírito quase flutua para fora do invólucro que
somos nós deixando-nos de tudo esquecidos e entregues apenas à sensação que
provocou o momento, a sós com a nossa imanência (se fosse crente diria a sós
com Deus).
Como quando nadamos para longe e nos deixamos boiar livremente
sobre a água verde, transparente e plana e deixamos que o sol nos envolve numa
carícia. Nada de pensamentos – apenas a sensação.
O mesmo perante o inesperado aparecimento do arco-íris ou da
compassiva revelação de um simples botão de rosa.
São os verdadeiros momentos de espanto (de que nos fala Raul Brandão) que nos fazem sentir que vale a pena viver.
sexta-feira, 31 de julho de 2020
E agora o oposto: «o que importa é não ter medo»
Afinal o que importa não é a literatura nem a crítica de
arte nem a câmara escura
Afinal o que
importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que
importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que
importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não
é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal
o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal
o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal
o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora!
– rir de tudo
No riso admirável
de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Mário Cesariny
quinta-feira, 23 de julho de 2020
segunda-feira, 1 de junho de 2020
Obituário
(Surripiado do facebook do meu amigo Alfredo Barroso)
terça-feira, 26 de maio de 2020
Faz cem anos que nasceu Rúben A.
![]() |
| (daqui) |
sábado, 23 de maio de 2020
Faz hoje 97 anos!
sexta-feira, 22 de maio de 2020
Dia do Autor Português
| (daqui) |
(segunda metade do século XIX)
quinta-feira, 14 de maio de 2020
Meados de Maio
Chuvoso maio!
![]() |
| (daqui) |
quarta-feira, 6 de maio de 2020
Palavras de esperança
terça-feira, 5 de maio de 2020
Dia Mundial da Língua Portuguesa
segunda-feira, 27 de abril de 2020
Fingir que está tudo bem
quarta-feira, 22 de abril de 2020
No Dia da Terra
sábado, 4 de abril de 2020
Da purificação
sexta-feira, 3 de abril de 2020
Dia da Literatura Infantil
Ora como para mim, todos os dias são dias da literatura - mesmo que seja infantil - aqui fica hoje o meu tributo aos escritores e aos poetas que escrevem para as crianças - sem esquecer a nossa amiga blogger Lídia Borges.
«Chuva de cordas brancas,
chuva de cordas frias,
E eu tenho uma guitarra
cigarra
de som molhado
que agarra
a alegria
para tocar.
E minhas mãos
para enxugar
teu rosto amado,
minha Mãe.»
(1983)
(Prenda de aniversário (em 1987) da Madrinha para a minha filha mais nova que, por acaso, faz anos hoje - 3 de Abril.)
quarta-feira, 1 de abril de 2020
E faz frio!
Da Guarda chegam-me imagens como estas:
Bom para se estar confinado em casa como é de lei... O pior é a melancolia que daí vem. E faz um ano que para sempre partiu o companheiro de uma vida inteira.
Da Balada de todos conhecida, retenho a última estrofe que me trai, que me conforta.
(...)
domingo, 29 de março de 2020
Morreu Mécia de Sena (1920-2020)
Organizadora incansável (e rigorosa) da obra do marido, Mécia de Sena era irmã do crítico literário e historiador da literatura Óscar Lopes.
O Diário de Notícias desenvolve a notícia, dando relevo à sua extraordinária obra, que passou essencialmente por organizar, tratar e fazer publicar a imensa obra de seu marido, o escritor Jorge de Sena.
(Para ler mais: https://www.dn.pt/cultura/morreu-mecia-de-sena-escritora-e-guardia-do-para-sempre-que-a-ligou-a-jorge-de-sena-12001038.html )
![]() |
| Jorge de Sena e Mécia de Sena em Londres |
https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/15504.pdf




















