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sábado, 12 de setembro de 2020

Uma enorme lição de humildade



Não é dos meus autores preferidos - até só li um ou dois dos seus romances - mas não podia deixar de trazer aqui esta lição de humildade, atitude, qualidade que nós, portugueses, muito pouco cultivamos...

domingo, 30 de agosto de 2020

As Cigarras - um texto de J. Tolentino de Mendonça

Deixamo-nos / deixo-me encantar pelos textos do poeta-cardeal. Alguns mais filosóficos, outros mais poéticos, mas sempre belos e justos.

A este não resisti: tive de o trazer para aqui de tão belo, de tão culto, de simples, de tão franciscano…

Chama-se As Cigarras

«Em Portugal, que eu saiba, o melhor lugar para ouvir as cigarras é a poesia de Eugénio de Andrade. Ao menos para mim representou o sítio onde verdadeiramente as escutei pela primeira vez. Mas nesta época em qualquer recanto, por onde quer que se vá, elas tornam audível o verão. Basta um jardim, um matagal humilde, um esconso ao aberto, um atalho mesmo que urbano, umas traseiras, um metro quadrado de calor e silêncio. Ou basta simplesmente um ouvido disponível. Coisa que depois, percebemos, não é afinal tão simples. Já Alberto Caeiro recordava:

“Não basta abrir a janela/

Para ver os campos e o rio.

Não é bastante não ser cego

Para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma.

Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.

Há só cada um de nós, como uma cave.

Há só uma janela fechada...”

Ideias, caves e janelas fechadas são um arsenal mais comum do que pensamos. E é fácil deslocarmo-nos para um sítio distante do nosso mundo habitual, chegarmos a uma estação diferente e continuar aprisionados às mesmas visões ou dentro do mesmo campo acústico. Para ouvir temos, de facto, de arriscar abrir a janela, praticando uma hospitalidade para com a vida que nos surpreende com novos vozeios, nos obriga a contactar com múltiplas linguagens e a acolher outras formas de conhecimento. O verão, por exemplo, como se conhece? Num dos seus poemas, Eugénio escreve:

“Conhecias o verão pelo cheiro,

o silêncio antiquíssimo

do muro, o furor das cigarras”.

O verão tem cheiros, tem cores, come-se à mesa, espera que o escutemos. Na verdade, o mundo torna-se para nós cada vez mais desconhecido se apenas giramos com a nossa portátil filosofia e deixamos de aplicar à realidade os nossos sentidos, indispensáveis para construir aquilo que significa uma experiência.

O fascínio pelas cigarras tem raízes antigas. Em “Fedro”, de Platão, cabe a Sócrates recuperar o seu mito de origem, explicando que elas, antes de terem sido cigarras, eram homens, com uma existência em tudo igual à nossa. E que isso vigorou até ao nascimento das musas. Depois aconteceu que o obsidiante canto das musas provocou neles tal transtorno que aqueles homens não voltaram a comer ou a beber, acabando por se transformar naquilo que escutavam. Nem o estômago vazio nem a secura da garganta interromperam mais neles a dedicação à arte de cantar.

É verdade que a fábula da cigarra e da formiga arrasa com o prestígio das cigarras. Enquanto a primeira canta despreocupada, a incansável formiga acumula provisões. Quando avança o inverno, a cigarra desprovida bate à porta da formiga a mendigar um pouco de grão, mas nada obtém. Pobre cigarra que tem então de compreender, através da penúria, o preço de viver só a cantar. A fábula narra obviamente o triunfo de uma visão utilitarista do mundo, que rapidamente se disseminou por todas as dimensões da vida. O século XVII de La Fontaine afastou-se (e afastou-nos) daquela sabedoria que o medieval Francisco de Assis recomendava aos seus frades. Francisco pedia que reservassem na horta um espaço livre, não cultivado, para que pudessem brotar flores, e, desse modo, o zelo pelo útil não excluísse o perfume que lhe acrescenta o inútil. São Francisco de Assis não podia, por isso, criticar as cigarras. Pelo contrário dizia-lhes: “Vem cá, minha irmã cigarra... canta minha irmã cigarra o Deus que te criou.” A tradição monástica vai pegar nesta imagem e os monges serão chamados cigarras, pois a sua vida contemplativa não procura outra função que o louvor. Ensinam-nos tanto as cigarras. Boa escuta. 

[In Expresso - 4/7/20]



quarta-feira, 12 de agosto de 2020

No aniversário de Miguel Torga

Miguel Torga, poeta da força, da fúria, da rebeldia transmontana, da natureza, da vida, do Homem e do seu poder criador, o Orfeu Rebelde, nasceu em 12 de Agosto de 1907 em São Martinho da Anta, Trás-os-Montes. 

Para recordá-lo, deixo aqui este belo poema. Triste, mas belo.



quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Da felicidade

Por vezes penso que verdadeiramente a felicidade não existe. Mesmo quando todos aspiram ao estado de felicidade e quando tudo se escreve sobre os preceitos para o alcançar, a felicidade não existe. (Já a infelicidade - mesmo correndo o risco de que considerem um contrassenso – existe, perdura, derrama-se, pode levar-nos ao desespero.)

Acontecem(-me), por vezes e sem que se esperem, momentos breves de felicidade quando o nosso espírito quase flutua para fora do invólucro que somos nós deixando-nos de tudo esquecidos e entregues apenas à sensação que provocou o momento, a sós com a nossa imanência (se fosse crente diria a sós com Deus).

Como quando nadamos para longe e nos deixamos boiar livremente sobre a água verde, transparente e plana e deixamos que o sol nos envolve numa carícia. Nada de pensamentos – apenas a sensação.

O mesmo perante o inesperado aparecimento do arco-íris ou da compassiva revelação de um simples botão de rosa.

São os verdadeiros momentos de espanto (de que nos fala Raul Brandão) que nos fazem sentir que vale a pena viver.




sexta-feira, 31 de julho de 2020

E agora o oposto: «o que importa é não ter medo»


Afinal o que importa não é a literatura nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que

importa não é bem o negócio

nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que

importa não é ser novo e galante

- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que

importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

e cair verticalmente no vício

Não

é verdade rapaz? E amanhã há bola

antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal

o que importa não é haver gente com fome

porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal

o que importa é não ter medo

de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:

Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal

o que importa é pôr ao alto a gola do peludo

à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora!

– rir de tudo

No riso admirável

de quem sabe e gosta

ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Mário Cesariny


(De uma tremenda ironia!!! Mas muito bom!)


                                                                 (daqui)
 

quinta-feira, 23 de julho de 2020

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Obituário


Há 130 anos, em 1 de junho de 1890, Camilo suicida-se com um tiro na cabeça, ao perceber que está cego e sem cura.





(Surripiado do facebook do meu amigo Alfredo Barroso)

terça-feira, 26 de maio de 2020

Faz cem anos que nasceu Rúben A.

(daqui)


Faz hoje 100 anos que nasceu Ruben A., o mais “secreto” dos grandes autores portugueses. Ruben Alfredo Andresen Leitão nasceu em Lisboa (1920) e morreu em Londres (1975), cidade onde viveu entre 1947 e 1952. (Era primo direito de Sophia de Mello Breyner.)

Aos 7 anos mudou-se de Lisboa para o Porto, ali tendo ficado até aos 19 anos. Quem leu «Os Meninos de Ouro» de Agustina Bessa-Luís reconhece-o numa das personagens da quinta do Campo Alegre. Esse intervalo fora de Lisboa coincide com a licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas, na Universidade de Coimbra.

Em Novembro de 1950, já com obra publicada — contos, monografias históricas, uma bibliografia sobre os Arquivos de Windsor, dois volumes do diário, uma peça de teatro e a biografia de D. Pedro V, rei de quem disse ter sido «o primeiro homem moderno que existiu em Portugal» —, e sendo leitor de português do King’s College de Londres, Salazar foi peremptório: «O Autor não pode representar Portugal nem ensinar português.» Não obstante, «o maluco...» (assim lhe chamava o ditador) manteve-se no lugar, que dependia do Instituto de Alta Cultura. Durante esses anos, Ruben A. divulgou na Universidade de Londres autores como Gil Vicente, os modernistas portugueses e Miguel Torga, ao mesmo tempo que fazia conferências em Oxford e Cambridge. Data dessa época a sua relação com T.S. Eliot, de quem viria a traduzir «The Cocktail Party» (1949, teatro).

De regresso a Lisboa, casou com Rosemary Bach (mãe dos seus quatro filhos) e fez uma passagem fugaz pelo ensino secundário. Entretanto, torna-se funcionário da embaixada do Brasil, onde permanecerá entre 1954 e 1972, ano em que foi para a administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Antes de morrer ainda ocupará o cargo de director-geral dos Assuntos Culturais do ministério da Educação e Cultura.

Embora publicasse desde 1949, ano em que deu à estampa o primeiro dos seis volumes do seu diário — «Páginas» —, o essencial da obra literária arranca com a edição de «Garanguejo» (1954), atingindo o cume com «A Torre de Barbela» (1964) e «Silêncio para 4» (1973). Os três volumes da autobiografia — «O Mundo à Minha Procura» — serão publicados entre 1964 e 1968. Depois da sua morte chegou às livrarias o romance «Kaos» (1981), posfaciado por José Palla e Carmo. A obra de historiador é muito extensa, terminando em 1975: «A Acção Diplomática do Conde de Lavradio em Londres 1851-1855». Além dos títulos aqui citados, Ruben A. publicou outros romances, livros de contos, narrativas de viagem, peças de teatro, volumes de correspondência de D. Pedro V e ensaios de investigação histórica.

A 26 de Setembro de 1975, um ataque de coração fulminante impede-o de ocupar o cargo de Senior Fellow no St Antony’s College, de Oxford. Tinha 55 anos e vivia então com Maria Luísa Távora. Está sepultado em campa rasa no cemitério de Carreço, perto de Viana do Castelo.


(Texto de Eduardo Pitta)

Deixo aqui  um texto deste (des)conhecido autor.

O Amor é Inevitável


(O Amor) É inevitável, faz parte da combustão da natureza, é força, mar, elemento, água, fogo, destruição, é atmosfera, respira-se, quando se morre abandona-se, o amor deixa, fica isolado, é um elemento, come-se, bebe-se, sustenta pão, pão diário para rico e pobre, pão que ilumina o forno do amassador, aparece nas condições mais estranhas, bicho que nasce, copula dentro de si mesmo, paira, espermatozóide e óvulo, as duas coisas ao mesmo tempo, amor é assim outro elemento fundamental da natureza, as pessoas vivem tanto com o amor, ou tão alheias do amor, que nem notam, raro percebem que o amor existe, raro percebem que respiram, que a água está, é indispensável, ninguém pode viver alheio aos elementos, ao amor.

Ruben A., in 'Silêncio para 4'


sábado, 23 de maio de 2020

Faz hoje 97 anos!

Filósofo, crítico e ensaísta literário associado ao existencialismo, tomou a poesia como fonte preferencial da sua obra. Fernando Pessoa, o Modernismo e Portugal são temas recorrentes nos seus ensaios.

Eduardo Lourenço (de Faria) nasceu em São Pedro de Rio Seco, concelho de Almeida,distrito da Guarda em 23 de maio de 1923.  

Frequentou a Escola Primária na sua terra natal. Depois ingressou no Liceu da Guarda e terminou os seus estudos secundários no Colégio Militar em Lisboa. Frequentou o Curso de Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra que terminou em 1946.

Assume as funções de Professor Assistente nessa Universidade, cargo que desempenha até 1953. Desde então e até 1958 exerce as funções de Leitor de Língua e Cultura Portuguesa nas Universidades de Hamburgo, Heidelberg e Montpellier. 

Nos anos de 1958 e 1959, rege, na qualidade de Professor Convidado, a disciplina de Filosofia na Universidade Federal da Baía (Brasil). Ocupa depois o lugar de Leitor a cargo do Governo francês nas Universidades de Grenoble e de Nice. Nesta última Universidade irá desempenhar posteriormente as funções de Maître-Assistant, cargo que manterá até à sua jubilação no ano letivo de 1988-1989.

Eduardo Lourenço é ainda Doutor Honoris Causa pelas Universidades do Rio de Janeiro (1995), Universidade de Coimbra (1996), Universidade Nova de Lisboa (1998) e Universidade de Bolonha (2006). Desde 2002 exerce as funções de administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

Para além dos numerosos prémios com que foi agraciado ao longo da sua vida mercê das obras que escreveu sobre literatura, filosofia e sobre a cultura em geral,  em dezembro de 2011, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa. 



Fica ainda aqui um pequeno vídeo com mais informação sobre este brilhante autor que, para além de palavras do próprio, conta com as opiniões e testemunhos de outros estudiosos de nome sobre o nosso homenageado de hoje.





sexta-feira, 22 de maio de 2020

Dia do Autor Português

(daqui)


O Dia do Autor Português, instituído em 1982, é comemorado no dia 22 de maio (este dia assinala igualmente o aniversário da Sociedade Portuguesa de Autores) e pretende homenagear os autores portugueses nas mais diversas áreas artísticas como a pintura, a literatura, a poesia, a música ou o cinema que têm contribuído para o enriquecimento da cultura portuguesa com as suas criações e distinguir aqueles que se destacaram na defesa e promoção dos direitos de autor.



E porque eu leio essencialmente autores portugueses e porque gosto muito de poesia e porque ontem foi Dia da Espiga, dia de ir apanhar a espiga e papoilas, as rubras papoilas, das quais eu também muito gosto, aqui fica, em homenagem aos autores portugueses, este belo poema de Cesário Verde - autor que em muito influenciou a poesia dos modernistas Fernando Pessoa e outros.


DE TARDE

Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.

(segunda metade do século XIX)

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Meados de Maio

Este Maio «deu em chuvoso». Chuva que traz um halo de tristeza, de indignação. A madorra, a apatia em que esta «nova normalidade» nos faz cair...

Há que ir à Poesia buscar as palavras que nos reponham a beleza da chuva. Desta chuva de meados de Maio)

Meados de Maio

Chuvoso maio!

Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade ...
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda

que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa...
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa...
e sempre assim!

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água...   

Irene Lisboa, in 'Antologia Poética'



(daqui)

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Palavras de esperança

Em tempos de pandemia, de angústia e de grandes incertezas sobre o que virá amanhã, vamos buscar forças e esperança às palavras do Poeta.


O Futuro   

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.
  
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.
                                                

José Carlos Ary dos Santos





terça-feira, 5 de maio de 2020

Dia Mundial da Língua Portuguesa

espanto é o tema do livro de Raul Brandão que ando a ler, Húmus. Foi publicado em 1917, em inícios da fase Modernista e - na minha modesta opinião - nada fica a dever às obras modernistas, até mesmo em relação ao Livro do Desassossego de Pessoa/Bernardo Soares. 

Neste campeia o desassossego; em Húmus, campeia o espanto.


«E ainda o que nos vale são as palavras, para termos a que nos agarrar.»

«Na aparência é a insignificância a lei da vida; é a insignificância que governa a vila.»

«Só a insignificância nos permite viver:»

«A vila é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro

«Em certas ocasiões, se as palavras e a insignificância desaparecessem a via, só ficava de pé o espanto.»

(fragmentos de «Húmus» de Raul Brandão, 1917)

....

Espanto foi o que eu, já nesse tempo amante da bela Língua Portuguesa, senti quando, aí pelos meus 17 anos li, pela primeira vez, aquele que ainda hoje considero um dos mais belos textos escritos em português e que hoje deixo aqui como homenagem à nossa bela Língua Portuguesa.

«Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!»

 (Almada Negreiros)



segunda-feira, 27 de abril de 2020

Fingir que está tudo bem






fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

(José Luís Peixoto, in ‘A Criança em Ruínas’)

quarta-feira, 22 de abril de 2020

No Dia da Terra

No Dia da Terra trago aqui alguns fragmentos de um ótimo texto que o ambientalista Viriato Soromenho-Marques escreveu para o Jornal de Letras de 8 a 21 de abril que considero muito atual e certeiro. O título é «Ambiente, pandemia e o retorno do trágico».

«Esta pandemia tem raiz na crise global do ambiente. O impacto da crise ambiental está presente nas origens desta pandemia. (…)

No que diz respeito à depleção da biodiversidade pela intrusão humana, a relação direta entre crise ambiental e a eclosão da Covid-19 é evidente. Desde 2003 tivemos várias epidemias com origem em vírus que são transmitidos de animais para o homem (zoonose): a SARS (2003), com origem também na China, e a MERS (2012), com epicentro no Médio Oriente. Ambas transmitidas também por diferentes tipos de coronavírus. Não sendo desta família, o vírus da gripe suína H1N1 (2009-2010), também é zoonótico. Foi transmitido do porco e de aves, tendo por fulcro o México. A pressão sobre as espécies e a crueldade sobre os animais, como é o caso dos hediondos mercados de animais selvagens vivos na China, ou de muitas indústrias de produção de carne são inseparáveis da terrível constatação de que 75% das novas doenças têm origem nesse perigosíssimo salto entre espécies. (…)

A principal diferença entre esta pandemia e os acontecimentos catastróficos associados à crise ambiental e climática reside na sua simetria e universalidade de distribuição do contágio e, potencialmente, dos impactos que lhe estão associados, assim como na sua quase sincronia expansiva. Pelo contrário, as consequências da maioria dos eventos extremos que já estão a ser sentidos em virtude das alterações climáticas têm características localizadas e assimétricas. O Katrina foi terrível para New Orleans. Os grandes incêndios foram terríveis para Portugal (2017) para a Califórnia (2018) e para a Austrália (2019). As ondas de calor podem atingir vastas zonas (Europa, 2003), mas nunca são globais. (…)

Esta pandemia revela com inequívoca evidência – pela sua brutalidade, rapidez, elevada mortalidade e impacto incalculável na destruição do tecido económico – a natureza coletiva das ameaças e perigos existenciais que estamos e iremos enfrentar. Estamos todos, de facto, no mesmo barco. E este já entrou num oceano cheio de tempestades. (…)

O neoliberalismo deixou a política em estado comatoso. Quase 40 anos de pandemia neoliberal, atacando as mentes, os corpos e as instituições deixaram-nos, aos povos do mundo, sem sistema imunitário político e estadual para enfrentar esta pandemia em sentido estrito. (…)

Uma década de austeridade severa deixou os sistemas de saúde enfraquecidos. Não só em Portugal, mas também em quase toda a Europa. (…) No final de Março, o jornal britânico Telegrah revelava um explosivo exclusivo: em Outubro de 2016 realizou-se na Grã-Bretanha um teste de três dias ao Serviço Nacional de Saúde britânico (o NHS), coordenado pelo Imperial College. Essa espécie de “jogo de guerra” simulava uma epidemia gripal intensa. O resultado foi catastrófico. O NHS tinha falta de tudo, a começar por equipamento básico como máscaras e fatos de proteção. Que fazer? Nem uma libra para suprir às faltas. O Governo da senhora May meteu o relatório na gaveta com a classificação de confidencial.

Ninguém sabe quando a primeira vaga desta pandemia irá sofrer uma acalmia. (...) O que é certo e seguro é que, depois de décadas vivendo na atmosfera quase narcótica de inconsciência e irresponsabilidade dos “roaring years” de um crescimento exponencial movido pela máquina trituradora do neoliberalismo, chegámos a uma situação em que a humanidade se encontra em vertiginosa rota de colisão com o Sistema-Terra. Esta pandemia veio acordar-nos para os duros factos de uma vida onde os atos têm consequências e os erros pagam-se caro.»


(sublinhados meus)



sábado, 4 de abril de 2020

Da purificação




O sociólogo Boaventura de Sousa Santos escreveu um excelente texto no Jornal de Letras de 11 a 24 de março intitulado «Ensaio contra a purificação».

E diz ele: «A distinção entre o puro e o impuro parece ser uma constante de todas as culturas e de todos os tempos. (…) O puro é, em geral, concebido como o estado ideal, superior, tanto no domínio do profano como no domínio do sagrado, enquanto o impuro é concebido como o estado inferior ou a inclinação normal ou vulgar. (…)

O que designamos por cultura ocidental, cuja origem se atribui convencionalmente, sobretudo desde meados do século XIX, à Grécia antiga, segue dominantemente a ideia da separação absoluta entre o puro e o impuro. (…) todas as versões [filosóficas] convergem na ideia de que a purificação é essencial para o estabelecimento da ordem. A purificação permite diferenciar e hierarquizar entre o superior e o inferior, entre o normal e o excessivo, entre o governante e o governado, entre o que pertence e o que não pertence. (…)

O colonialismo histórico foi o campo privilegiado para a consolidação deste senso comum. Os conquistadores e os colonizadores depararam-se com um mundo novo (para eles), tão vasto e tão diferente que a magnitude das diferenças exigia um exercício contínuo de purificação. Os povos originários eram definitivamente inferiores, primitivos, selvagens, em suma, impuros. A sua purificação exigia uma separação particularmente violenta que podia ser exercida por extermínio ou desidentificação via evangelização e, mais tarde, educação. (…) Este senso comum foi um instrumento tão eficaz na violenta dominação colonial, do extermínio à evangelização e à escravatura, da ocupação territorial à expropriação e saque das riquezas naturais dos povos colonizados.

Esse senso comum prevalece até hoje, permanece vivo e está entre nós em múltiplas formas: racismo, extrema concentração de terra, expulsão violenta de camponeses e povos indígenas dos seus territórios, exploração sem precedentes dos recursos naturais, extermínio migratório do Mediterrâneo à fronteira sul dos EUA, persistência e mesmo incremento de trabalho escravo, zonas de sacrifício onde populações descartáveis são envenenadas pela poluição causada pelos complexos industriais, colonialismo tóxico quando as periferias pobres do sul global são convertidas em depósitos do lixo, muitas vezes tóxico, produzido no Norte global (afinal, a impureza é normal entre os impuros, lixo com lixo). (…)

A purificação é sempre a imposição da ordem contra um caos perigoso a ponto e a destruir ou desacreditar; a purificação por separação foi a mãe de todos os despotismos modernos.

Se em vez da conceção da natureza como uma entidade desprovida de dignidade vivente e inteiramente ao dispor dos humanos fosse adotada a conceção espinosista da natureza como principio vital, centro da vida da qual dependemos, certamente a respeitaríamos como a respeitaram sempre os povos originários. E se isso sucedesse, talvez não estivéssemos hoje mergulhados numa situação de catástrofe ecológica. (…)»

……..

E a mim, ninguém me tira da cabeça que – mesmo que tenha sido maldosamente encomendado a um qualquer laboratório chinês ou norte-americano – este Vírus que ora se abateu sobre o mundo (como se estivéssemos a viver dentro de um asfixiante filme de ficção científica) mais não é que um processo de purificação da Natureza contra nós, humanos, que estávamos/estamos a destruí-la.


sexta-feira, 3 de abril de 2020

Dia da Literatura Infantil

Ontem foi o Dia da Literatura Infantil, mas não pude celebrá-lo porque estava a celebrar o aniversário do meu blog...

Ora como para mim, todos os dias são dias da literatura - mesmo que seja infantil - aqui fica hoje o meu tributo aos escritores e aos poetas que escrevem para as crianças - sem esquecer a nossa amiga blogger Lídia Borges.

Ainda guardo cá em casa alguns livrinhos de quando as minhas filhas eram pequeninas e, do livrinho «A Guitarra da Boneca» de Matilde Rosa Araújo (grande senhora das belas e poéticas histórias para crianças, que tive o prazer de conhecer), retirei exatamente o poeminha «Minha Guitarra»:

«Chuva de cordas brancas,
chuva de cordas frias,
E eu tenho uma guitarra
cigarra
de som molhado
que agarra
a alegria 
para tocar.
E minhas mãos 
para enxugar
teu rosto amado,
minha Mãe.»

(1983)









(Prenda de aniversário (em 1987) da Madrinha para a minha filha mais nova que, por acaso, faz anos hoje - 3 de Abril.)

quarta-feira, 1 de abril de 2020

E faz frio!

Primeiro de Abril, mas não é mentira...Chove e está muito frio. Neva na Serra. É uma massa de ar da Escandinávia - dizem. 

Da Guarda chegam-me imagens como estas:
















Bom para se estar confinado em casa como é de lei... O pior é a melancolia que daí vem. E faz um ano que para sempre partiu o companheiro de uma vida inteira. 

Da Balada de todos conhecida, retenho a última estrofe que me trai, que me conforta.


(...)


E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil


domingo, 29 de março de 2020

Morreu Mécia de Sena (1920-2020)

Foto de Mécia, por Fernando Lemos (1949).
Na Califórnia, onde vivia, morreu,ontem, dia 28, Mécia de Sena (1920-2020), viúva de Jorge de Sena e mãe dos seus nove filhos.


Organizadora incansável (e rigorosa) da obra do marido, Mécia de Sena era irmã do crítico literário e historiador da literatura Óscar Lopes.

Mécia tinha feito cem anos no passado dia 16.

(do blog do escritor Eduardo Pitta)


O Diário de Notícias desenvolve a notícia, dando relevo à sua extraordinária obra, que passou essencialmente por organizar, tratar e fazer publicar a imensa obra de seu marido, o escritor Jorge de Sena.

(Para ler mais: https://www.dn.pt/cultura/morreu-mecia-de-sena-escritora-e-guardia-do-para-sempre-que-a-ligou-a-jorge-de-sena-12001038.html    )


Jorge de Sena e Mécia de Sena em Londres

https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/15504.pdf

sexta-feira, 27 de março de 2020

Lisboa ainda resiste




Corre por aí um belo poema que Manuel Alegre dedicou à Lisboa que agora sofre com o Corona Vírus e que diz assim:

Lisboa Ainda

Lisboa não tem beijos nem abraços
não tem risos nem esplanadas
não tem passos
nem raparigas e rapazes de mãos dadas
tem praças cheias de ninguém
ainda tem sol mas não tem
nem gaivota de Amália nem canoa
sem restaurantes, sem bares, nem cinemas
ainda é fado ainda é poemas
fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa
cidade aberta
ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste
e em cada rua deserta
ainda resiste

20 de março de 2020, Manuel Alegre

E lembrei-me deste outro, igualmente de Manuel Alegre, sobre uma Lisboa acorrentada em tempos de ditadura. Lisboa resistiu!


Lisboa perto e longe


Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem palácios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa -- branca e rota
a blusa de seu povo -- essa gaivota.

Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as águas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.

Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa estão voltadas
contra as mãos desarmadas -- povo armado
de vento revoltado violas astros
-- meu povo que ninguém verá de rastos.

Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das prisões tem velas rios
dentro das mãos navios prisioneiros
ai olhos marinheiros -- mar aberto
-- com Lisboa tão longe em Lisboa tão perto.

Lisboa é uma palavra dolorosa
Lisboa são seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.

Lisboa tem um cravo em cada mão
tem camisas que abril desabotoa
mas em maio Lisboa é uma canção
onde há versos que são cravos vermelhos
Lisboa que ninguém verá de joelhos.

Lisboa a desditosa a violada
a exilada dentro de Lisboa.
E há um braço que voa há uma espada.
E há uma madrugada azul e triste
Lisboa que não morre e que resiste.

E resistirá sempre!