[O artigo é todo muito bom, mas
um pouco longo. Por isso trago aqui os parágrafos que me pareceram mais fortes.
– É que gosto mesmo muito do sociólogo Boaventura Sousa Santos!]
(…)
A sociedade global não está em guerra defensiva ante o
vírus. (…) não penso que a metáfora da
guerra nos ajude a compreender a condição do nosso tempo. Mas se há guerra,
então faz mais sentido imaginar que quem se está a defender é a natureza. O
novo coronavírus é um emissário que só insidiosa e violentamente impõe a sua
missão de ser recebido pelos poderes do mundo. E a sua mensagem é clara: um
“Basta!” dito na única linguagem em que aprendemos a temer a natureza, a
linguagem dos perigos que não podem transformar-se em riscos seguráveis.
É hoje consensual que a recorrência das pandemias está
ligada aos modelos de economia que dominaram nos últimos séculos. Estes modelos
provocaram a desestabilização fatal dos ciclos vitais de regeneração da natureza,
e, portanto, de toda a vida que compõe o planeta e de que a vida humana é uma
ínfima fração.
A poluição atmosférica, o aquecimento global, os
acontecimentos meteorológicos extremos e a iminente catástrofe ecológica são as
manifestações mais evidentes dessa desestabilização. O Basta! é um grito cujos
decibéis se medem pelo número de mortos. (…)
A natureza e a humanidade são contemporâneas e
complementares. A natureza somos nós vistos do outro lado da dicotomia. E,
dessa perspetiva, considerar a natureza como totalmente disponível e consumível
e empenhar-se na exploração sem limite dos recursos naturais foi um processo
histórico de autodestruição. (…)
(Palavras do sociólogo
Boaventura Sousa Santos, in Jornal de Letras, 3 de junho de 2020)













