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segunda-feira, 15 de junho de 2020

Sobre a pandemia

[O artigo é todo muito bom, mas um pouco longo. Por isso trago aqui os parágrafos que me pareceram mais fortes. – É que gosto mesmo muito do sociólogo Boaventura Sousa Santos!]

 (…)

A sociedade global não está em guerra defensiva ante o vírus. (…)  não penso que a metáfora da guerra nos ajude a compreender a condição do nosso tempo. Mas se há guerra, então faz mais sentido imaginar que quem se está a defender é a natureza. O novo coronavírus é um emissário que só insidiosa e violentamente impõe a sua missão de ser recebido pelos poderes do mundo. E a sua mensagem é clara: um “Basta!” dito na única linguagem em que aprendemos a temer a natureza, a linguagem dos perigos que não podem transformar-se em riscos seguráveis.

É hoje consensual que a recorrência das pandemias está ligada aos modelos de economia que dominaram nos últimos séculos. Estes modelos provocaram a desestabilização fatal dos ciclos vitais de regeneração da natureza, e, portanto, de toda a vida que compõe o planeta e de que a vida humana é uma ínfima fração.

A poluição atmosférica, o aquecimento global, os acontecimentos meteorológicos extremos e a iminente catástrofe ecológica são as manifestações mais evidentes dessa desestabilização. O Basta! é um grito cujos decibéis se medem pelo número de mortos. (…)

A natureza e a humanidade são contemporâneas e complementares. A natureza somos nós vistos do outro lado da dicotomia. E, dessa perspetiva, considerar a natureza como totalmente disponível e consumível e empenhar-se na exploração sem limite dos recursos naturais foi um processo histórico de autodestruição. (…)

(Palavras do sociólogo Boaventura Sousa Santos, in Jornal de Letras, 3 de junho de 2020)




quinta-feira, 28 de maio de 2020

Histórias da minha rua (16)


Que nem sempre é fácil viver em família já todos sabemos há muito até por experiência(s) própria(s), mas que esta pandemia louca que nos caiu em cima de forma inesperada e de um dia para o outro veio adensar muitos dos problemas que já se viviam em família, disso não há a menor dúvida.

A vizinha mora aqui quase ao lado, muito alegre, sempre bem-disposta e sempre acelerada…. Conheço-a há muitos anos, desde muito nova, antiga empregada do meu marido. Não obstante, o nosso relacionamento há muito que não passa do “bom dia, boa tarde”.

Um dia desta semana cruzámo-nos no supermercado ali em cima. Para além do bom dia, saíram-lhe não sei quantas queixas, não sei quantas angústias e quase algumas lágrimas.

A mãe morreu-lhe há cinco anos debaixo do comboio – também ela andava sempre acelerada… O pai, já velho, esteve doentíssimo – pneumonia e mais não sei o quê que o manteve algum tempo no hospital. Depois, ainda mal refeito da doença que quase o levara, veio para casa, sozinho, e aí os filhos, ora um, ora outra, foram tomando conta dele. Mas fazia dó ver aquele homem, que tinha sido um forte e entroncado chefe de serração, sempre pronto para toda a espécie de trabalho lá na fábrica, por ali, sentado à porta de casa, muito magro, muito só, muito triste.

Acabaram por inscrevê-lo num bom centro de dia de onde o vinham buscar, onde o alimentavam, o entretinham e o passeavam, vindo trazê-lo a casa ao fim do dia. Muito bem. Muito bom.

Quando em meados de março o país fechou, o centro de dia também fechou, como fecharam todos os outros. E a vida do pai da vizinha voltou a ser o que já fora: confinamento, solidão, apoiado pelos filhos, ora um, ora outro. Ela acabou por levá-lo para sua casa. Só que o ancião já baralha tudo; se sai, perde-se, em casa pergunta sem parar pela mulher e porque não está ela ali para tratar dele. Completamente alienado.

Tentaram o lar do tal centro de dia, que não, que não têm vagas – agora também não lhes convém estar a levar gente “nova” lá para dentro.

E o pior é que a vizinha vai voltar ao trabalho na próxima segunda-feira e não sabe como há de deixar o pai, nem com quem. Está desesperada.

Raço(1) de vida! Raço de pandemia!

(1)    Expressão tipicamente leiriense – digo eu…)


(daqui)


domingo, 17 de maio de 2020

Confinamento - o Musical

Porque é fim de semana, véspera de mais um bocadinho de desconfinamento, porque o Sol nos sorri e porque há que rir, aqui fica este Musical - que não é do La Féria.....


Divirtam-se!




sexta-feira, 15 de maio de 2020

Sabemos nós lá para o que estamos guardados!

A cena é antiga: quando tenho (ou tínhamos, que agora já não dá para usar o plural...) de ir fazer análises, vou sempre ao mesmo laboratório que fica aqui a cerca de um quilómetro de casa e, logo de seguida, porque detesto estar em jejum, já que a primeira coisa que faço todas as manhãs é ir tomar o pequeno almoço, vou beber o meu cafèzinho com leite e o meu pãozinho com manteiga, bem refastelada ali na pastelaria próxima, onde me divirto a observar os engraçados comportamentos dos miúdos e das miúdas da escola secundária ali vizinha.

Ora hoje lá tive de ir fazer análises. Em jejum, e de máscara, claro!, espera o autocarro, apanha o autocarro, sai do autocarro, põe-te na bicha, bem distanciada, para seres atendida sem contágios e pronto. Até nem demorou muito!

E depois? Cheia de fome, acho que até me tremiam as pernas... Toca de ir comer ali à pastelaria! Só que...nem miúdos da escola secundária para espiar, nem cadeiras e mesas onde me refastelar - apenas uma bicha - outra, depois da do laboratório de análises - bem distanciada de pessoas para irem comprar pão e beber café.

Pensamento que, de momento, me assaltou: será que só servem café?! Ainda desmaio para aqui com fraqueza (cena que acontecia amiúde nos meus tampos de adolescente) ...

Ponho-me na bicha e vou pesando: o que é que eu peço? Bebo um café e pronto?...

Next! - Não, a senhora disse: «pode entrar outro!» E eu entrei e, a medo, perguntei se também faziam meias-de-leite (que são deliciosas! Quentinhas e fortes, como eu gosto!) Para meu consolo, a senhora, com grande espanto, disse que sim!

De modo que, eu vi-me de máscara, carteira ao ombro, depois de pagar e de desinfetar as mãos por causa do dinheiro.... (credo! que nojo!) - vi-me sair da pastelaria, com um copo grande de papel a ferver com a meia-de-leite lá dentro e um pão-de-deus enfiado num cartucho e  vi-me (oh, meu Deus!) acercar-me de uma caixa metálica daquelas de eletricidade ou sei lá de quê, que me serviu de apoio, a tomar o belo do meu pequeno almoço...

Sabemos nós lá para o que estamos guardados!!





quarta-feira, 6 de maio de 2020

Palavras de esperança

Em tempos de pandemia, de angústia e de grandes incertezas sobre o que virá amanhã, vamos buscar forças e esperança às palavras do Poeta.


O Futuro   

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.
  
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.
                                                

José Carlos Ary dos Santos





quarta-feira, 29 de abril de 2020

Passeio virtual a Sintra

Havia nos idos de 60 uma melodia muito alegre interpretada por Shegundo Galarza e o seu conjunto que se chamava «Passeio a Sintra». Passava muitas vezes na rádio e até na televisão e tinha a toada dos passeios de charrete típicos daquela vila mágica, com o trote dos cavalos. Infelizmente não tem gravação no You Tube para vo-la fazer ouvir e talvez lembrar.

Mas a publicação de hoje não tem a ver com música. Hoje vou levar-vos a dar um passeio virtual (como convém à época de afastamento que vivemos) pela Vila Velha de Sintra, a minha terra do coração, com fotografias belíssimas do meu amigo MJM, grande amante de Sintra e lá nado e criado e tudo!

O espanto que nos pode causar esta visita não são propriamente as belezas da Vila, mas mais a ausência de pessoas. Visita feita em tempo de confinamento, de lojas fechadas, sem gente, sem filas de trânsito, sem  as chusmas de turistas...

A Serra - Monte da Lua - deve sentir-se rejuvenescer...


Vista do Palácio da Vila


Largo da Vila e rampa de acesso à Piriquita

Largo da Vila, a caminho do antigo Hotel Costa e dos Pisões 


Antigo Hospital 


Hotel Central, a caminho do antigo Hotel Nunes (o dos Maias)
e atual Hotel Tivoli


Volta do Duche

Escadinhas e recantos da Vila Velha











Fonte da Pipa






E, por último, mas nunca em último, assinalo a casa onde vivi tantos anos e bons!



Espero que tenham gostado!


Link para a canção. Gentileza do amigo blogger Ricardo Santos:




domingo, 26 de abril de 2020

Corona Rhapsody

Quem como eu adora a música dos Queen e assistiu com as filhas a muitos episódios dos Marretas, não pode ficar indiferente a esta animação tão bem adaptada à atual pandemia!

Quem ainda não conhecia - como eu - bem pode deliciar-se!





terça-feira, 21 de abril de 2020

Histórias da minha rua (15)


O vizinho mora numa outra rua além e vinha algo incomodado com o que uma amiga, professora e diretora de turma do 2º ciclo, desabafara com ele:

Vinha ela de ter uma conversa com um encarregado de educação que muito a preocupara por não saber o que lhe responder. O senhor, quase à beira de um ataque de nervos, e face às comunicações que recebera das escolas, contou-lhe que tem dois filhos em idade escolar, cada um em seu ciclo diferente. Ele e a mulher encontram-se em casa em situação de teletrabalho e têm apenas um computador. Então o seu dia-a-dia era passado a ajudar os dois filhos com as tarefas da escola para eles conseguirem responder ao que lhes era solicitado pelos professores, orientando-os na gestão do plano de trabalho e na utilização das diferentes plataformas escolhidas pelos professores para receberem e devolverem as fichas de trabalho devidamente realizadas. E estavam nisto, ele e a mulher, desde as nove da manhã até ao fim da tarde! 

Só depois desta barafunda toda e depois de tratarem das refeições e das restantes lidas domésticas – reforçadas pelo facto de todos os elementos da família se encontrarem em casa 24 sobre 24 horas – só então, dizia, muitas vezes apenas depois do jantar, os pais se dedicavam às suas tarefas profissionais, muitas vezes até às duas e três da manhã.

Isto é de loucos, não vos parece?

O senhor estava exausto e sob uma enorme pressão.

O que se pretende provar com isto tudo?

A mim parece-me que, no fim disto tudo (ou mesmo antes) vai aumentar em muito o número de divórcios e separações e de consultas nos psiquiatras…




quinta-feira, 16 de abril de 2020

O novo naufrágio de Sepúlveda, com gato e gaivota

Morreu, vítima desta maldita peste, o escritor chileno Luís Sepúlveda, (1949-2020) autor de vários livros, mais conhecido por cá como o autor de «História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar» que é de leitura obrigatória para os alunos do 7º ou do 8º ano.

Poderia dizer aqui muitas coisas sobre o infeliz escritor, mas vou transcrever parte de um lindo e ternurento texto que o meu amigo Amadeu Homem, também escritor e professor universitário deixou no facebook(informei-o do roubo...)

Numa espécie de inter-texto que faz com o naufrágio do Sepúlveda da nossa «História Trágico-Marítima» de Bernardo Gomes de Brito, do século XVIII, tem por título «O novo naufrágio de Sepúlveda, com gato e gaivota» e insere-se num conjunto de textos que ele vai escrevendo quase diariamente subordinados ao tema «Crónicas da Peste Mansa».

E diz assim:


«A peste mansa requisitou o Sepúlveda e levou-o. Não lhe consentiu, sequer, mais uma pequena narrativa sobre bichos, beirais, voos rasantes e de médio porte, madrugadas vermelhas, planuras, cheiros de mar alto. Limitou-se a colocá-lo no rol dos finados e talvez lhe tenha dito, com voz de sargento-ajudante: - Embora, já à minha frente. Ala, que se faz tarde.

A minha apresentação ao Sepúlveda fez-se no dia em que me foi dado conhecer o gatarrão compassivo, no momento em que fui apresentado a uma gaivota menina e desajeitada que nascera sem saber voar. O resto da história é conhecida, pelo que seria uma tautologia voltar a resumi-la aqui. (…)

Mas esse tal Sepúlveda tinha descoberto uma gaivota-bébé, uma implume ave desvalida, que ainda não tinha feito a aprendizagem de voar. Seguidamente, Sepúlveda tinha topado dentro de si com um gatarrão opinioso, que iria ensinar a pequena gaivota a voar. Ficava entre uma coisa e outra a chama da cumplicidade. Depois viria o tempo de uma gaivota de curiosa asa dizer um "até breve" ao tal gato, agora comovido, e convicto de que não estava a escutar um "até breve" mas antes um definitivo "adeus".

Bem vistas as coisas, são sempre estas as balizas de todas as aprendizagens, mesmo as afetivas. Ficamos no tempo curto do "até breve" e despedimos a alma e o coração desenganado quando nos vemos forçados a dizer "adeus".

A verdade é que este Sepúlveda, escritor de bom quilate e andarilho de melhor músculo, calcorreou o vasto mundo que o foi aplaudindo no tempo em que eu fui assentando as sapatilhas por areias de desvairadas praias interiores. Numa dessas últimas praias aprendi eu a gostar de gatos, a ronronar por pitanças enlatadas e a roçar a pelagem por permissivas notas de crédito alimentar.

Quando chegou a peste mansa, foi noticiado que Sepúlveda andara pelas "Correntes de Escrita" , na Póvoa do Varzim. Nessa altura já eu lera a história do gato pomposo e da gaivota frágil. (…)

"Olha" , pensei para comigo " o Sepúlveda está por terras do Eça, o tal que dissera ter sido 'um pobre homem da Póvoa de Varzim" . (…)

A informação televisiva  veio tornar-me ciente de que Sepúlveda talvez já estivesse infetado quando andarilhou por terras de Eça. Pensei : "O tipo não é propriamente um Matusalém. Irá safar-se " e deixei de pensar nele.

Um dia, inesperadamente, vieram dizer-me que Sepúlveda falecera num hospital de Oviedo. A peste mansa liquidara-o mansamente, como quem não quer a coisa. Relembrei ter pensado, para me pacificar, que tal tipo iria escapar, por não ter exatamente a idade de Matusalém. (…)

"Lá se foi, lá se foi" e debrucei-me no meu pequeno varandim, onde, suponho, declarei uma vez mais "olha, lá se foi o Sepúlveda". 

Julguei ter avistado uma gaivota tresmalhada, vinda do "mar da palha", que fica ali mesmo à mão. Mas não o poderei dizer ajuramentadamente. Digo, isso sim, que não vislumbrei na calçada nem um só gato, nem um.»





Adeus, Luís Sepúlveda, até um dia!

terça-feira, 14 de abril de 2020

Página do Diário de uma Quarentena


O despertador toca como que por hábito porque agora não preciso de me despachar para nada. Mas eu deixo-me ficar - «o que é que vou fazer hoje?» penso ainda pouco desperta. E depois levanto-me quando as minhas gatas começam a saltar para cima da cama e para cima de mim. Uma delas senta-se confortavelmente sobre as minhas costas ou sobre a minha barriga e faz uns miadinhos fofos até me pôr da cama para fora.

Depois a rotina: casa de banho, ir para baixo, desligar o alarme, subir as persianas, abrir a porta do quintal para as gatas saírem – e entrar o amarelo, o comensal – tratar do pequeno almoço ouvindo as notícias «sempre a mesma coisa, que raiva!» Das duas, uma: ou barafusto com a televisão, ou converso com as gatas sobre o que gostam ou não gostam de comer.

Banho e tal… Escolher a roupa porque, tal como quando ia para a escola ou para a Associação Sénior, visto diariamente roupa diferente e «ton sur ton» para me sentir bem.

As manhãs são sombrias porque, se sair, é apenas até ali à pastelaria buscar pão e não é sempre. (Afugento, como posso, as lembranças de há um ano para trás de quando saíamos os dois no carro para irmos ao café e comprar o jornal e dar uma volta – agora não há mesmo volta a dar…)

Há a internet … ver as piadas da Cristina e do Luís Lobo e fazer as minhas próprias para animar as minhas facefriends…

«Ena pá!!! Já é uma hora! O que que vou almoçar?» Se houver alguma coisa feita, (umas vezes por outras, dá-me para fazer um guisado ou um assado e sobre sempre para o dia seguinte, o que é muito bom!) é só aquecer; mas se não há nada feito, grelha-se um bife ou uma costeleta e serve-se com uma laranja às rodelas e uma verdura cozida, ou assim…

E depois, vem a tarde! Longa, silenciosa, displicente… Uma voltinha pelo quintal, se não chove, uns telefonemas de circunstância e de cortesia … E agora? «Vou ler ou vou trabalhar para o computador – tenho tantas coisas para escrever!!!» O pior é que, se me ponho a ler, dá-me o sono e fico com dor de cabeça… Então talvez ir para o computador. Mas antes de me pôr a escrever – que implica consultas e leituras – vou (re)ver o que se passa no facebook… (Admirável e abençoado mundo novo!!!) Entretenho-me, demoro-me e, entretanto, há que ir lanchar (Comer é quase um vício… Hummmm, mas sabe bem… Mas depois do lanche e até à noite ainda tenho muito tempo para trabalhar!)

Se escrevo meia página ou se termino uma tarefa das que fazem parte da lista de coisas para fazer, fico contente comigo própria. Mas também são muitas as vezes que, aí pelas cinco da tarde, já me apetecia acabar o dia e oralizo, por vezes, vocifero: «Que dia tão grande!...»

O jantar é frugal e rápido, mas ainda dá para responder (quase sempre torto…) aos «noticiadeiros» que, com mais ou menos entoação, com mais ou menos piscar de olho e posição corporal de ataque, repetem as entrevistas canhestras e cinzentas feitas pelos estagiários e tecem comentários quase sempre de demérito ao que os governantes têm feito ou dito.

Por fim, vem a parte menos angustiante do dia: o momento de sentar frente à televisão, com a mantinha elétrica sobre as pernas e as gatas enroscadas, uma de cada lado, e partir para as séries da 2 ou da netflix… (Admirável mundo novo!)

Mesmo no fim de tudo, cama ! E ler, ler, ler até que o livro me caia em cima da cara…




segunda-feira, 13 de abril de 2020

Histórias da minha rua (14)


Alguns dias depois da suspensão das aulas por causa do Corona Vírus, a minha neta começou a ter febre e mais febre o que muito nos preocupou. Nem constipação, nem tosse, apenas febre e cansaço. Lá em casa, havia quem tivesse estado em contacto com um colega de trabalho infetado e então hospitalizado.

Contactada a Linha Saúde 24 e depois de várias perguntas para caracterização da situação que, de alguma forma, desdramatizaram e apaziguaram as nossas mentes, houve que marcar um teste. Difícil a marcação. Demorada. Passou uma semana até a realização do mesmo e mais quatro dias passaram para a chegada do resultado – que, felizmente, e como de alguma forma se esperava, deu negativo.

Mas o surpreendente e que em muito nos serenou – apesar de a febre ter continuado por uns dias – foi o facto de todos os dias até se saber o resultado se receber lá em casa o telefonema de um médico a saber como a menina estava a evoluir e se havia mais sintomas.

E depois venham-me dizer que o nosso Sistema Nacional de Saúde funciona mal!





quinta-feira, 9 de abril de 2020

Carta de Shaan Sahota

Faz já quatro semanas que não saio de casa senão para ir, muito espaçadamente, comprar pão e fazer algumas compras necessárias. 

Não me lembro de alguma vez ter estado tanto tempo fechada em casa e sem ocupação obrigatória.

Nos primeiros dias de solitário confinamento, pensei que não ia aguentar, que iria voltar a ter ataques de pânico e sei lá o que mais… Só que, face a tantos milhares de pessoas que estão a sofrer em termos de saúde, de falta de dinheiro e de aceitáveis condições de vida, não tenho, não temos de que nos queixar e que fazê-lo é mesmo uma arrogância enorme e uma enorme falta de compaixão por quem sofre.

A propósito, passo a transcrever a carta de Shaan Sahota, médico interno a trabalhar em Londres, publicada hoje no jornal The Guardian, (trad. Ana Brett) testemunho em 1ª pessoa do horror que muitos estão a passar que possa servir-nos de exemplo, de consolo pela vida que, apesar de tudo, conseguimos manter.

Que importa estarmos sozinhos e confinados? Que importa não nos juntarmos na Páscoa? Que importa não irmos de férias? Que importa se os miúdos não têm mais aulas ou se lhes dão passagem administrativa?  Estamos de saúde e, de certa forma, sossegados nas nossas vidas...

(Apesar de ser longa, vale a pena lerem!)

«Como médico de cuidados intensivos, consigo ver a crise a desenrolar-se, mas apenas uma pessoa de cada vez. Aqui segue o que vejo. 


A “zona Covid” improvisada do meu hospital é um mundo irreal onde os doentes estão deitados em silêncio e a equipa subdimensionada completa tarefas hercúleas.

Durante o último mês, a primeira onda de admissões relacionadas com a Covid-19 chegou a Londres e ao hospital onde trabalho como médico interno. Há vinte e um dias fui transferido da Cirurgia para os Cuidados Intensivos e treinado para tratar os doentes na nossa Unidade de Cuidados Intensivos em expansão.

Falamos a toda a hora acerca do coronavírus, mas é habitualmente em termos da sua imagem global. Tenho dificuldade em compreender essa imagem a partir da linha da frente. Numa crise desta escala, quero contar-vos a história que tenho visto - a história de uma pandemia que se desenrola uma pessoa de cada vez.

A Unidade de Cuidados Intensivos expandida é um mundo surreal. Coloco camadas de EPI sufocantes para entrar nas “zonas Covid” - tendas de plástico com entradas de fecho-éclair dentro das áreas hospitalares convertidas. Entro numa enfermaria cheia de doentes inconscientes. Não há conversas, apenas monitores a apitar sob o assobio rítmico do ar pressurizado. Passo cada turno de 12 horas a cuidar de dois ou três doentes. É um trabalho humilde, muitas vezes manual. Ajusto os seus agentes anestésicos e verifico o seu débito urinário a cada hora para equilibrar os seus fluídos. Coloco almofadas por baixo de pontos de pressão para que não sofram danos duradouros durante a sua paralisia. Aspiro secreções das suas vias aéreas.

Estou a trabalhar o máximo que consigo, adiando as pausas para casa-de-banho, por um doente que nunca vi abrir os olhos, muito menos respirar por si próprio. É um ambiente difícil para trabalhar.
Vasculho os diários médicos para encontrar os meus doentes antes de terem ficado paralisados, sedados e colocados num ventilador, para vislumbrar um pouco da pessoa que são. Tento conhecê-los através das jóias que costumavam usar, agora guardadas numa bandeja ao seu lado. Idealizo-os a partir dos detalhes dos seus diários clínicos passados.

História social: vive com a esposa e três crianças. Caminhadas regulares, gosta de correr. Nunca fumou.

Observações: frequência respiratória 42 – 48 – 55 – 61 – 61 …

Estes números crescentes, escritos num gráfico do diário clínico, significam que o doente estava com dificuldade em respirar. É uma história que termina com eles inconscientes e paralisados, com máquinas a substituir os seus órgãos em falência, sob os meus cuidados.

Estou a considerar como um desafio lidar com doentes que estão tão mal, porque gostaria que isto não lhes tivesse acontecido. Quando se está a prestar cuidados individuais, é difícil pensar que existem centenas de pessoas nesta mesma posição. Falamos de curvas e picos, mas nada tem a ver com a experiência vivida. Políticos e jornalistas falam agora com a perspectiva dos deuses. Têm uma visão geral da situação que eu simplesmente não consigo ter. Como médico, sinto-me como uma formiga ao lado de um elefante: mal consigo entender o que vejo e é difícil atirar o meu pequeno peso contra ele.

E onde estou, o recurso mais limitado não são os ventiladores, é a força de trabalho básica. Até 50% da nossa equipa habitual não está a trabalhar por doença, auto-isolamento ou medo. Olho em volta e vejo os esforços hercúleos dos meus colegas e isso comove-me.

É como se alguém tivesse dado criptonite aos meus super-heróis, mas eles ainda estão a tentar levantar o carro, porque o que mais podem fazer? Vejo o especialista em doenças infevciosas que lidera a nossa equipa, que silenciosamente retirou o seu turbante e, pela primeira vez na sua vida, cortou a sua barba que mantinha pela sua fé, removidos em nome do controlo de infecção. A sua estatura pode ser inferior, mas não está de forma alguma diminuído. Vejo uma médica interna encharcada em urina laranja brilhante pela rifampicina. Tinha tentado trocar pela primeira vez um cateter urinário, porque não havia mais ninguém para o fazer. Oito anos de educação não a tinham ensinado que é fácil abrir a bolsa, mas muito mais difícil fechá-la. Todos no hospital estão a fazer todo o possível para melhorar estes doentes. Vejo cirurgiões a trabalhar como internos nos Cuidados Intensivos, enquanto dentistas e fisioterapeutas ajudam a rolar os doentes, mudando-os de posição para não sofrerem lesões por pressão. Os meus doentes desconhecem tudo o que estamos a fazer por eles, e as suas famílias não os podem visitar – logo ninguém o vê, mas não estamos a refrear nada.

O nosso tratamento de resgate para os doentes criticamente mais graves é a pronação: colocar um doente entubado de barriga para baixo. Aumentar os cuidados nos casos mais graves é um acto tão humilde e poderoso quanto o simplesmente colocá-los de barriga para baixo.

Cuidar de um doente Covid+ gravemente doente não é o que se pode pensar. Estou tão próximo deles – a colocar colírio nas pálpebras à noite, porque seus olhos que não piscam não sequem. Talvez nunca os vá conhecer, mas vigio os traços de sua respiração à procura de sinais de que precisam da minha ajuda. Troco os lençóis por baixo deles.

Todos nós estamos longe das nossas casas. Somos tão poucos e a tentar tanto e sempre aqui. O meu país passou da fase em que aguardava pela imunidade de grupo - e aceitar a mortalidade que isso poderia causar - a aplicar tudo o que pode para minimizar a perda de vida, incluindo-me a mim. E é esse um pouco do sentido que posso extrair desta situação. Não cheguei a conhecer os meus doentes, mas o que lhes quero dizer, com toda a força dos meus cuidados, é: isto é tudo para vocês, tudo o que temos. A vossa vida importa.»




 Fiquem bem Fiquem em casa!

domingo, 5 de abril de 2020

Histórias da minha rua (13)

A rapariga já ultrapassou os 20 anos e mora ali mais abaixo. Conheço-a desde garotinha, superprotegida sempre, de família endinheirada, mas com pouco capital cultural.

Com bastantes dificuldades de aprendizagem, lá foi percorrendo o seu percurso escolar até ao 12º ano, tendo eu sido chamada muitas vezes a fazer com ela algum «estudo acompanhado».

No decurso de um qualquer ensino superior, entrou num estágio curricular numa instituição que acolhe idosos, o qual, mercê desta incrível pandemia que estamos a viver, foi interrompido, sabe-se lá até quando. Esta demora e esta incerteza de quando as coisas retomarão o seu rumo normal incomoda-a sobremaneira, aliás como a todos nós.

Um dia destes, telefonou-me e, a propósito das notícias que vão passando nas televisões – mas que ela pouco vê – dizia-me ela: «Só falam da doença e da economia, da economia e da doença e nada de dizerem quando os estágios recomeçam!»

Apesar de a conhecer bem, eu não queria acreditar no que estava a ouvir! Como pude lá lhe dei uma reprimenda, mas duvido que ela tivesse entendido o que eu queria dizer.

É gente desta que temos muita e… votam!




quinta-feira, 2 de abril de 2020

10 anos

Faz hoje dez anos que abri este blog  - para ajudar a ocupar o tempo que me sobrava, apenas dois dias depois da notificação da minha reforma. 

Como diz a canção:

«10 Anos é muito tempo
Muitos dias, muitas horas a cantar
10 Anos é muito tempo
Deste tempo inteiro que eu vos quero dar.»

Ironicamente aqui me encontro ainda - e curiosamente a tentar ocupar o tempo que me/nos sobra nestes abomináveis tempos de clausura instituída por inimigo invisível e comum que nos quer tolher a vida.

De qualquer forma, aqui estou a celebrar estes dez anos do meu blog, com as suas/minhas mais de 2900 publicações e a agradecer os milhares de comentários e de visitas de quem por aqui tem passado.





sábado, 28 de março de 2020

Bolo Covid-19

Confinado em casa, o pessoal inventa de tudo! Até já foi inventado o Bolo Covid-19...

Copiei de um facefriend e até é fácil de fazer.

Aqui fica a receita:


(Muito útil para afogar as mágoas da quarentena e animar as crianças que até podem ajudar a misturar os ingredientes.)

1 laranja sumarenta (Raspa grossa, sumo e polpa)
1 iogurte natural
1 medida de coco ralado
3 medidas de farinha
3 medidas de açúcar
1/2 medida de óleo
4 ovos
1 colher de sopa de fermento
1 golo de vinho do Porto
1 colher se sobremesa de canela
1 dúzia de nozes picadas grosseiramente

1. Quando começar a preparação ligue o formo a 180°;
2. Misture os ingredientes todos com uma colher de pau ou equivalente. Não convém usar batedeira.
3. Leve ao forno em forma untada com margarina e polvilhada com farinha. 30/40 minutos, dependendo do forno.
4. Convém cobrir com papel vegetal. Se necessário deixar cozer um pouco mais. Faça o teste do palito...





(Se o fizerem, podem enviar uma ou duas fatiazinhas por mail...)

terça-feira, 24 de março de 2020

Para aliviar a tensão


PORTUGAL ACAGRAÇADO

O tuga parece que já está a entender o que se passa. Olha à sua volta e vê cada vez menos semelhantes. Olha para a TV e até a cmtv dá mais desgraças, como se fosse possível. E, desgraça das desgraças, não há futebol!!!

O que vai ser da gente? Quando nem a Católica tem resposta ... E mesmo Fátima vai fechar ...

Que não falte vinho ... meu Deus, pelo menos.


(daqui)


ORAÇÃO

SENHOR PROTEGEI-NOS
SENHOR SOMOS PORTUGAL
SENHOR SOMOS FÁTIMA
SENHOR, TERRA DE VOSSA MÃE
.......................................................
PAI NOSSO
AVÉ MARIA
.......................................................
Senhor livrai-nos deste terrível vírus
........................................................
Senhor perdoai-nos os nossos pecados
......................................................................
PAI NOSSO
AVÉ MARIA
ATO DE CONTRIÇÃO
....................................................................
Senhor protegei o futebol
Senhor protegei as telenovelas
Senhor protegei a Fátima Lopes
Senhor protegei as Cristinas e as Cristas
Senhor ponha a mão por baixo ao Goucha
Senhor não esqueça o Castelo Branco
Senhor protegei a Lili Caneças
....................................................................
PAI NOSSO
AVÉ MARIA
ATO DE CONTRIÇÃO
...................................................................
SENHOR, peço-vos pelos banqueiros
Senhor, peço-vos pelos offshores
Senhor, peço-vos por todos os ladrões
Senhor, peço-vos pela justiça que não há
Senhor, peço-vos por todos os corruptos
Senhor, peço-vos pelos seus homens de mão
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PAI NOSSO
AVÉ MARIA
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SENHOR,
Que será de nós sem o Benfica
Ou o Porto ou mesmo o Sporting
SENHOR,
Sem o Correio da Manhã ou a CMTV
Os comentadores de futebol
Os flash interview ou as conferências
Um Ventura ou um Serrão.
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SENHOR,
Por último protegei-nos do Nuno Melo,
de um tal de Ventura ... já chega ...
e, acima de tudo, do Marques Mendes, porque há quem o leve a sério.

SENHOR, QUE NÃO NOS FALTE O VINHO DAS BODAS DE CÁNAN ....
SENHOR, TENDE PIEDADE DE NÓS
QUE ESTE VÍRUS SIRVA PARA NOS LIVRAR DO MAL ...ÁMEN

(Autor anónimo; surripiado do facebook)