E lá fui eu, sem falta, à
Bertrand porque recebi uma mensagem que anunciava livros a cinco euros e com
descontos até 50% para os dias 26 e 27. Cheguei lá, ontem de manhã, e o maior
desconto que vi foram os habituais 10% de desconto em cartão em todos os
livros. Eu li bem! Era nos dias a seguir ao dia de Natal e não era só online…
Zanguei-me. Detesto que me/nos
enganem. Por isso nem perguntei a nenhuma das pouco simpáticas “colaboradoras” (agora
diz-se “colaboradoras”, nada de empregadas e menos ainda funcionárias… politicamente
incorrecto, discriminatório, vexante e assim… Tretas!) que por lá se movem.
Ora ainda bem! Até porque tenho
montes de livros que ainda não li – e nem sei se chego a ler. Enfim.
Se já terminei o Ulisses? Claro
que não! Mas não me preocupo nada. O autor demorou sete anos a escrevê-lo por
isso eu tenho ainda muito tempo pela frente para o terminar…
Não há o problema de
perder a sequência da ação porque se trata de um longuíssimo texto em forma fragmentária.
Não é o tempo que marca a evolução da narrativa, mas o espaço: cada rua, cada
beco, cada novo bar ou taverna visitados por Bloom e Dedalus têm a sua própria
pequena narrativa com as suas próprias personagens, por isso não se perde o fio
à meada, até porque não há meada. Os elementos estruturantes são as personagens
principais: Leopold Bloom e Stephan Dedalus que fazem o seu périplo pela cidade
de Dublin durante um dia apenas – dezoito horas para ser exata – o dia 16 de
junho de 1904. Uma imagem irónica da Odisseia de Homero na qual Ulisses deixa a
sua mulher Penélope (aqui redesenhada por Molly, a mulher de Bloom) durante
dezoito anos para fazer o seu périplo pelo Mar Mediterrâneo.
Há, no Ulisses de Joyce,
fragmentos verdadeiramente poéticos como é o caso por exemplo, da longuíssima e
quase enciclopédica referência a Shakespeare - «ele era um lorde da língua…» - e
à sua obra, em que o autor nos dá toda a sua visão do que é a arte, a sabedoria
eterna, o conhecimento grego. E, embora alcandore Shakespeare ao expoente
máximo da literatura, não deixa de fazer passar um ténue ciúme. «Os nossos jovens bardos irlandeses têm de
criar ainda uma figura que o mundo coloque ao lado do Hamlet do saxão
Shakespeare…»
Esta rivalidade entre a Irlanda e
a Inglaterra aliás está patente ao longo da obra «… referente aos recursos naturais da Irlanda (…) que ele descreveu na
sua prolixa dissertação como o país mais rico sem qualquer excepção à face da
terra de Deus, muitíssimo superior a Inglaterra, com carvão em vastas
quantidades…»
Grandes reflexões sobre a mulher
e a maternidade, as inúmeras maternidades que as mulheres têm de sofrer, bem
como as grandes evoluções da medicina no campo da maternidade. Se pensarmos que
estas reflexões foram escritas no início dos inícios do século XX, veja-se o
avanço da mente do narrador (ou terei de dizer “autor”), um judeu e maçon e dos
países do Norte da Europa.
Há outros fragmentos, porém, que
são quase incompreensíveis de longos e chatos, com uma linguagem muito peculiar
e referências culturais que, pelo a mim, me passam muito ao lado.
Tanto a dizer acerca do Ulisses
de Joyce! Hei de voltar…
De enaltecer a qualidade do texto
reescrito em português pelo excelente tradutor Jorge Vaz de Carvalho. Não lhe
deve ter sido nada fácil, mas está muito bem conseguido.
…
(A propósito e na esteira do Ulisses
de Joyce, não posso deixar de referir «Uma Viagem à Índia» de Gonçalo M.
Tavares, uma narrativa igualmente estonteante e estilhaçante ancorada em Os
Lusíadas, também em X Cantos.
Hei-de “trazê-la” aqui.)