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domingo, 19 de novembro de 2017

Porque será que os maiores países de regime comunista não celebram a Revolução Russa?

Pode ser que vá chocar alguns dos meus queridos leitores com este meu texto, mas ando aqui às voltas há tempo com esta ideia na cabeça, que se há de fazer? O facto é que quis saber mais sobre a Revolução Russa de há cem anos e, por isso, tenho lido isto e mais aquilo sobre esse enorme tsunami que se abateu sobre a «Mãe Rússia».  

Ontem mesmo assisti a uma palestra subordinada ao tema “A Revolução Russa cem anos depois” muito bem presentada pelo Doutor Ricardo Noronha, investigador da Universidade Nova de Lisboa, que nos fez uma breve evolução histórica desde meados do século XIX na Europa até a sublevação de 1905 na Rússia, à queda do Czar e às revoluções de fevereiro e de outubro, com causas e consequências. Falou de mencheviques e de bolcheviques, do surgimento, ascensão e esvaziamento dos sovietes, da força revolucionária de Lenine e de Trotsky, da Guerra Civil que adveio à Revolução e que apenas terminou em 1922, do apagamento do Testamento Político que Lenine redigiu à beira da morte e do vergonhoso afastamento e posterior assassinato de Trotsky. Depois falou do aparecimento estudado de Estaline e da implantação de uma ditadura imposta pela repressão, pelo medo e pela morte aos milhões. (Como fizeram Hitler e seus sequazes pela Europa, Salazar incluído.)

E lá veio também o jovem e conhecedor palestrante com a questão de, quer a Rússia, quer a China, os maiores países com sistemas políticos de inspiração comunista e de partido único, não celebrarem o centenário da Revolução Russa.

A minha tal ideia é que fazê-lo seria tão indecoroso, tão indecente, tão obsceno, como seria se os alemães celebrarem a ascensão de Hitler – que também constituiu uma “revolução” no seio da Europa e, por muito que nos custe, muito bem aceite por quase todos os países ocidentais.


De forma bem mais suave e mais conseguida, disse-o Viriato Soromenho-Marques no DN do passado dia 7: «Os bolcheviques, depois de dissolverem a Assembleia Constituinte, começaram por eliminar os seus aliados táticos, transformaram os sovietes num cadáver útil e, por fim, depois de vencida a Rússia Branca, começaram a devorar-se a si próprios na monstruosa fábrica de Terror gerida por Estaline. Um número obsceno de vítimas sacrificou-se na pira da Revolução Russa, que chegou a ter dimensão universal, antes de cair na órbita do nacionalismo grão-russo, disfarçado em “socialismo num só país”. Um século depois, esse colossal sofrimento continua sem encontrar um sentido que o possa redimir.»



domingo, 5 de novembro de 2017

A Revolução Russa - uma opinião e uma história

Gosto de ler os textos que o José Jorge Letria vai escrevendo no jornal. Hoje escreveu sobre a Revolução Russa que faz cem anos que se deu. Achei interessante mais pela história do pobre embaixador português que a viveu. Como sempre, os nossos governantes sempre esquecem os seus representantes que se encontram em dificuldades.

Escreve Letria: «No princípio de abril estive em Moscovo por motivos profissionais e institucionais, na minha quarta deslocação à capital russa depois do 25 de Abril, e confesso que nada vi nas ruas, no hotel, no metro e até em espaços museológicos que me fizesse lembrar a comemoração do centenário da Revolução Russa. O sentido do marketing político e a relação pragmática com a sociedade de consumo recomendaria uma presença visual mais forte desse imaginário que reflete mudanças profundas na história da Rússia e do mundo. Mas fiquei com a sensação, talvez próxima de uma complexa realidade política e psicológica, de que o país de Putin não se revê na Rússia revolucionária de Lenine e bolcheviques, embora o presidente seja resultado desse contexto e do quadro político que ele implantou. (…)

A Revolução Russa ocorreu há um século e contribuiu para mudar o mundo. Houve um português, o diplomata Jaime Batalha Reis (1847-1935), que a viu de perto, por ser embaixador em Petrogrado. Estava ali acompanhado por duas filhas adultas e, sendo republicano, não nutria particular simpatia pela transformação política operada no país. Não gostou do que viu e viveu. Viu lojas e casas assaltadas, teve fome e frio e viu assassinatos. Teve medo e disse-o em português nos relatórios enviados a Lisboa. "Vivo com a família há pelo menos seis meses em perigo de vida permanente agravada por falta de dinheiro. Tenho tido fome e frio. Terei de partir inopinadamente com dificuldade. Suplico a V. Exa. que leia meu último telegrama sobre assunto não respondido e mande pôr urgentemente à minha ordem no Provincial National Bank Londres pelo menos mil libras esterlinas extraordinárias."

O seu senhorio octogenário, que fizera parte da corte do imperador, foi enforcado ao fim da tarde na sala de jantar. Batalha Reis estava exausto e aterrorizado. Queria fugir e chegar a Lisboa. Tinha 66 anos, em fim de carreira e chegou a conhecer Lenine, na presença de outros embaixadores, em clima de grande tensão. Só o jornalista comunista norte-americano John Reed se movimentava em Moscovo com liberdade e conhecimento profundo, o que lhe permitiu escrever a obra-prima Dez Dias Que Abalaram o Mundo, que ainda se lê com emoção e prazer. De Lisboa chega ao diplomata Batalha Reis pouco amparo e consolo. (…)

Lenine e os bolcheviques triunfaram e o resto é o que a história registou e que mudou em aspetos tão profundos a relação dos povos em vários continentes. Estava lá um português, mas de partida, no meio de grande sofrimento.»

Para ler o artigo completo:


Jaime Batalha Reis





domingo, 29 de outubro de 2017

A Revolução Russa e os seus Escritores

«A Revolução Russa de outubro 1917, cujo centenário se comemora em novembro no nosso calendário, foi iniciada por um pequeno grupo de revolucionários profissionais que queriam transformar o mundo e criar a primeira sociedade comunista. A tomada do poder em Sampetersburgo, no entanto, desencadeou uma violenta guerra civil na Rússia e deu origem a um regime totalitário que para os artistas da época implicou um retrocesso criativo, levando ao triunfo de ideias conservadoras capazes de envergonhar a pior censura do tempo dos czares.

Quando estalou a revolução, a Rússia era ainda um país essencialmente rural, cujas riquezas estavam nas mãos de uma classe aristocrática separada do povo e habituada aos tempos da servidão dos camponeses. (…)

O descontentamento popular crescera na Rússia nos anos anteriores à revolução, pelo menos desde 1905, quando o regime czarista preferiu estupidamente reprimir uma manifestação contra o deficiente abastecimento alimentar. A queda do czar Nicolau II, em fevereiro de 1917, foi a consequência de uma contestação popular espontânea semelhante à de 1905, mas desta vez o protesto foi acompanhado do colapso do exército e, sobretudo, do desprestígio do monarca, uma personalidade fraca, incapaz de impedir a acumulação de rancores exacerbados pela guerra [de 1914], que já levava três anos.

O czar abdicou devido à pressão popular, ao elevado número de baixas militares, mas também por causa da fome, da incompetência e estupidez das elites, da repressão e da doença, da raiva acumulada pelo atraso crónico do país. Ao contrário do que acontecera no resto da Europa às revoluções liberais de meados do século XIX, a república burguesa foi uma mera transição que durou escassos meses, suplantada pela radicalização bolchevique de outubro (novembro no nosso calendário) cujo poder se baseou em assembleias populares, os sovietes, que rapidamente eliminaram o embrião de democracia parlamentar russa.

Sem massivo apoio popular, pelo menos do povo urbano, a revolução soviética jamais teria triunfado, sobretudo na guerra civil, que foi um extenso e cruel episódio de combates sem quartel e de intervenções militares externas. E esse apoio das massas foi acompanhado pelo idealismo de muitos artistas, nomeadamente escritores e poetas que aderiram depressa às promessas revolucionárias de uma literatura inovadora capaz de elevar os leitores e de transmitir ao mundo as novas ideias. Essa esperança de liberdade duraria pouco. Na realidade, os intelectuais e escritores da revolução foram rapidamente devorados pela violência e pelo instinto totalitário do novo regime. Pode até argumentar-se que uma das literaturas mais vibrantes do mundo foi assassinada, nos anos 30, pela obsessão estalinista de controlar todos os aspetos da vida dos cidadãos, usando os métodos do medo e da violência para silenciar qualquer atrevimento de individualismo.

Para sobreviver na literatura soviética, não era suficiente ser bom revolucionário, era preciso evitar erros políticos. Muitos escritores foram vítimas da sua inabilidade, por terem escolhido mal os protetores ou por terem escrito coisas comprometedoras em períodos em que se julgavam seguros. (…) após a abertura dos arquivos da polícia política (NKVD), os historiadores russos apuraram que dois mil intelectuais, académicos e artistas soviéticos foram presos durante as purgas do final dos anos 30 e que terão morrido nas prisões e nos campos de concentração mais de 1500, entre eles muitos escritores.»

(Parte do artigo “A Revolução que também devorou os seus escritores”, Luís Naves, in Ler, Verão 2017)

(Ilustração de Pedro Vieira)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Nathalie - uma lembrança romântica da Revolução Russa

No centenário da Revolução Russa, de recordar esta bela canção, uma  homenagem romântica à dita Revolução de 1917, que, como todas as revoluções "de peso", mudou o mundo.





terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O centenário da Revolução Russa

(in esquerda.net)

Não foi em Outubro. Em Fevereiro de 1917, um movimento revolucionário derrubava o czar Nicolau II e instituía um governo provisório, maioritariamente menchevique (movimento de oposição ao czar de orientação mais burguesa, ao contrário do movimento bolchevique liderado por Lenine, que considerava que o governo devia ser entregue às classes trabalhadoras).

Foi a primeira fase da revolução russa que, não conseguindo dar resposta aos graves problemas do país, provocou várias insurreições e culminou com a chegada dos bolcheviques ao poder em Outubro.

Um historiador contemporâneo – Orlando Figes – diz que a Revolução de Fevereiro de 1917 começou pelo pão, ou pela falta dele e pela consequente revolta. As derrotas nos campos de batalha da I Guerra Mundial engrossaram as queixas do povo. Faltava pão, faltava açúcar, faltava tudo e anunciavam-se mais catástrofes. Tudo isto no frio extremo do inverno russo. No dia 23 de Fevereiro, dezenas de milhares de operários e de mulheres vieram para as ruas para pedir pão e a gritar “abaixo o Czar”. A insurreição não foi dominada pelas forças dominadoras e as manifestações e as greves continuaram até que, no dia 26 a polícia e os militares abriram fogo sobre os manifestantes. Aos poucos os soldados começaram a juntar-se ao povo e atacaram o Arsenal apoderando-se das armas, assaltaram as prisões e libertaram os presos.

O Czar abdicou em Março e o Governo Provisório foi constituído por liberais e socialistas em volta da figura de Alexander Kerensky. Mantiveram-se na Guerra ao lado dos Aliados; não foram capazes de constituir um governo forte e coeso com uma linha governação determinada; as grandes desigualdades sociais mantinham-se; os sovietes, os conselhos operários, tornavam-se cada vez mais reivindicativos. Os democratas não conseguiram responder aos dois grandes problemas da Rússia: a guerra e a profundas desigualdades económico-sociais, acabando por dar o poder aos bolcheviques que tinham os seus chefes em Lenine, Trotsky e Estaline.

A Revolução de Fevereiro teve, porém, os seus aspetos positivos e determinantes: primeiro pôs fim ao czarismo e a um sistema de governação fortemente centralizada, autoritária e repressiva que dominara a Rússia durante séculos; foi uma revolução de caráter reformista; e criou as condições para uma segunda revolução mais profunda socialmente.


(texto baseado nos textos apresentados sobre o assunto pelo Jornal de Letras de 1 a 14 de Fevereiro)